É a escola a normatizadora social?

É a escola a normatizadora social?

Essa foto acima eu copiei da página do Facebook Educação como prática da liberdade.

A legenda da foto é essa:

“O que vocês pensam sobre essa imagem? Alguns acham que é para evitar cópia e filas. Eu discordo. Acho que é de pensamento quadrado, iguais para todos, provas decorebas, onde as ideias não são livres. E você o que tem a dizer?”

E a descrição da página  diz:

“Segundo Paulo Freire, a educação tem a função de libertar, de abrir a mente, de conscientizar e fazer com que as pessoas reflitam sobre suas ações e tomem seu lugar de protagonistas de suas próprias histórias…”

Algumas considerações:

1 – Como ser “libertadora” uma educação em que os próprios professores são subjugados, acachapados, explorados em seus salários, postos em 2, 3 ou mais empregos, com 3, 4 ou mesmo 6 turmas em cada um e com 25, 30 ou mais de 40 alunos em cada turma?

2 – Diz o senso comum que o “pensamento quadrado, iguais (sic) para todos, (…) onde as ideias não são livres” é próprio da escola. Diz o senso comum que as crianças assim são por causa da escola.

Ora, os alunos passam 4 horas por dia na escola. Passam 20 horas por dia “no mundo”.

No mundo, eles assistem televisão: faustão, ratinho, luciano hulk, xuxa, zorra total, big brother…

No mundo, eles ficam em casa: sub-moradias umas em cima das outras, sem ventilação adequada, com poucos cômodos e muitas pessoas em cada casa…

No mundo, eles ficam na rua: sem saneamento, sem praças, sem áreas de lazer decentes, sem árvores…

No mundo, eles não têm acesso a cinema de qualidade, teatro, música decente… mas eles vão a bailes funk…

No mundo, eles se relacionam com traficantes e são, muitas vezes, subjugados pela violência, seja do próprio tráfico, seja de milícias, seja da própria polícia, feita para o topo da pirâmide…

No mundo, eles não têm acesso a livros nem leitura de qualquer espécie… sim, talvez jornais de manchetes com cabeças cortadas e mulheres de biquíni na capa…

No mundo, os “heróis” deles e as pessoas às quais o “mundo” demonstra que eles têm que ter como espelho são os traficantes, os jogadores de futebol, os cantores de pagode, os heróis do big brother…

Mas tudo isso que eles não têm e, para além disso, algo diferente do que eles têm no mundo, no entanto, é tentado oferecer dentro daquelas 4 horinhas que eles ficam dentro da escola.

Mas, pela pressão “do mundo”, nada disso os interessa e ficamos nós, na escola, tentando oferecer a eles algo que eles não querem e o mundo diz que não é importante.

Mas o senso comum é que a escola é que é uniformizadora!

Enquanto este pensamento persistir – presente, inclusive, em quase todos os “especialistas” em educação – , a escola, sozinha, não conseguirá mudar o quadro.

A educação “é dever de toda sociedade” apenas na letra morta da Lei.

No mundo real, é ela contra o mundo.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Do time da escola

= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

No Diário do Professor você encontra artigos e links sobre o dia-a-dia da Educação:

Planos de aula, Atividades, Práticas, Projetos, Livros, Cursos, Maquetes, Meio Ambiente… e muito mais!

Compartilhe!

12 comentários sobre “É a escola a normatizadora social?

  1. Querido Declev,
    Mais um excelente artigo, como sempre!
    Vou compartilhar no facebook, ok?
    Mas permita-me discordar de algumas coisas. A escola tem sido uniformizadora sim, desde a sua criação. Isso já fazia parte dos seus próprios princípios e valores, uma das razões até da sua própria existência.
    O exemplo atual, de escolas onde tudo falta e onde só acontecem 4 horas diárias de aulas, realmente não tem força para mostrar que há algo diferente e melhor do que o que o mundo mostra, lá fora, pra esses alunos. Nisso concordo com vc.
    Mas quantos estão realmente comprometidos com uma Educação libertadora, seja no ensino público, privado, superior, fundamental…?
    Ouço muitos discursos, mas vi práticas horrorosas e que apenas mantém a escola como normatizadora sim, infelizmente, tanto no ensino público quanto no privado. Tanto que uma das maiores queixas é a de não se poder mais, hoje em dia, punir os alunos (embora continue acontecendo na prática) como se punia antigamente! Já ouvi, de muitos professores inclusive, que o tempo dos militares devia voltar, que puxar orelha ou humilhar aluno, ridicularizando-o e colocando-o de castigo na frente da turma é que era bom e “funcionava”, entre outras pérolas do gênero.
    Sei o quanto vc é comprometido com uma educação de qualidade e libertadora, mas muuuuuuuitos não são (embora, no discurso, pareçam ser, muitas vezes…) e esses continuam mantendo a função antiga da escola, por todos os lados, infelizmente…
    Um abraço.

  2. Adorei o texto!
    Quando a sociedade e mesmo educadores condenam a escola, às vezes falta percebemos que os alunos são o produto da própria sociedade.
    A escola, como instituição, tem seus problemas, obviamente, mas não pode ser considerada nem como única razão dos problemas de qualidade de ensino que enfrentamos no nosso país.
    Parabéns pelo texto.

    • Obrigado, Giovani.

      Quem está dentro da escola sabe a luta que é mudar um pouco a cabeça dos alunos, tentando fazê-los ver a cultura letrada e outras coisas importantes.

      Abraços,

  3. Uma historinha que minha filha me contou semana passada. Na aula de português, ela discordou da correção da professora. Issoaê. Argumentou e ouviu da professora “então deixa a sua resposta, mas na prova você vai errar”. Eu li a questão e acho que minha filha está certa. Não sou ruim em Português, não, mas o danado é às vezes traiçoeiro… Enfim, não sei, porque a cabeçuda não copiou a resposta da professora. Dias depois, no recreio, as amiguinhas disseram que a professora era muito chata. Minha filha discordou e as amiguinhas se assustaram: “mas você é a que mais arranja confusão com ela!” E tirar dúvidas de gramática com a professora de português é “arranjar confusão?” Todas as vezes que minha filha tem dúvidas, ela pergunta e a turma só falta jogá-la pela janela. Quando se diz que a escola é normatizadora, tem que se contar em sala de aula 1 professor e também 40 alunos que se agarram ao roteiro de sempre…

  4. Ah, sim, pensar fora da caixa é problemático na escola, no trabalho, na igreja, nas ruas, nas praças, “no mundo”, como bem diz o post.

    • Concordo, Aline. Eu frequentemente escrevo por aqui sobre as grandes dificuldades que enfrentamos – os professores – para fazer algo diferente com os alunos.

  5. Pior são os professores (e outros profissionais da Educação) que não querem nada diferente e sim um retrocesso ao tempo da ditadura e da educação rígida que inibia toda e qualquer possibilidade de se desenvolver senso crítico diante do mundo…

  6. Só mais uma coisa: quando nos formamos em Pedagogia, depois de 4 anos de faculdade, estágios e regência de turma de pelo menos um ano como professores, saímos como “especialistas” em Educação sim e isso merece respeito!!! Batalhamos por isso! Estudamos muito e trabalhamos bastante para isso!
    Estou sinceramente cansada por ver tanta incompreensão, piadinhas e deboche, principalmente de professores (a maioria só cursou péssimas licenciaturas e/ou cursos normais), sobre o saber e o papel do pedagogo na escola.
    Existem os pedagogos puramente burocratas, os acomodados, os apolíticos, os maus profissionais? Claro que sim! Assim como existem mil professores e demais profissionais assim também!!!
    Os professores NÃO SÃO os coitadinhos! Eles são parte de um quadro também criado por eles e que, nos final, também os vitimiza, junto com os alunos (os que mais são prejudicados, no final das contas) e com os demais bons profissionais da área.
    Acho que está mais do que na hora desse discurso repetitivo ser questionado, pois essa guerrinha só interessa aos políticos que querem se manter no poder, pois enquanto professores X alunos, professores X pedagogos, família X escola… continuarem se digladiando, nunca terão força e união suficiente para mudar alguma coisa na Educação, que continuará nas mãos de uns poucos e poderosos F.D.P.s!.
    A escola é chata, é uniformizadora sim, não conseguiu ainda vencer o desafio de educar para o mundo de forma crítica e, me desculpe Declev, mas a grande maioria dos professores que convivi (e estou nessa área desde 1982!) nem estavam interessados nisso, pois eles mesmos não tinham senso crítico e não questionavam seu próprio “saber” que é em geral conteudista e nem um pouco libertador. O que queriam era apenas turmas mais silenciosas e salários melhores e ponto final. Nada mais.
    Não é escola contra o mundo. É escola junto com o mundo alienando e aprisionando ( e como!!! Foucault fala muito bem sobre isso), enquanto os que tem consciência esperneiam e tentam fazer o que podem, como você (acredito que eu e muitos outros profissionais também; ainda bem!), mas são (somos) minoria, infelizmente…
    Turmas menores, mais focadas, com verdadeiro interesse nas aulas seriam melhor? Claro!!! Mas conseguir isso é muito mais complexo e vai muito além de achar que o professor é sempre o que está querendo o melhor para o aluno (simplesmente não é verdade! alguns querem e outros não) e o aluno é que não quer nada (também não é verdade! uns querem, outros não, mas todos ainda estão em idade de mudar isso!). É muita ingenuidade e maniqueísmo, na minha opinião, ver as coisas dessa maneira e manter esse tipo de fala sobre o “pobre professor” e o “ingrato e agressivo aluno”, como se essa fosse “a” realidade e, me desculpe, mas não é mesmo!
    Desculpe o meu jeito “italianado” de ser, mas não dá pra falar desse assunto sem que o sangue ferva um pouco nas veias!
    Um abraço…

    • Regina,

      Sim, conheço vários professores assim, mas posso dizer que não são a maioria.

      A maioria, em minha experiência, quer e faz algo diferente, ao menos nas escolas em que trabalho e com os quais convivo.

      E tem aqueles que, de tanto tentar e não conseguir, se cansam.

      Posso dar vários exemplos destes que estão na labuta.

      Aliás, seria uma ótima categoria para o blog.

      E, mais uma vez, sem esquecer que existem os que nada querem.

  7. Caro Declev,

    Que bom que na sua experiência a maioria quer e faz algo diferente, pois na minha não, o que sempre foi bastante desanimador pra mim… Fico feliz que a sua experiência seja diferente da minha em relação a isso, pois dá mais esperança e confiança em algum tipo de mudança, algum dia. Mas conheci e trabalhei com excelentes professores também, inclusive com os que começaram idealistas e se cansaram, passando a não tentar mais nada, o que entendo de coração, pois acaba todo mundo adoecendo nessa área, quando se envolve de verdade, como aconteceu comigo! Mas não estou me referindo a esses professores quando questiono e faço minhas críticas e sim aos que nunca quiseram algo mais do que turmas silenciosas e pronto. Muita gente acabou sendo professor porque, de certa forma, parecia mais fácil, podia já ter uma formação ao final do Ensino Médio (no caso dos cursos normais) ou em apenas dois anos, no caso das licenciaturas, já que o Brasil não incentiva as pesquisas e, muitas vezes, só sobra a alternativa de dar aulas para muitos profissionais que, no entanto, não queriam isso e nem tem o talento e a consciência necessária para isso. E o mesmo acontece com os pedagogos! Muitos dos que conheci também eram péssimos, infelizmente, embora existissem vários bem intencionados. Mas conheci pedagogos excelentes também e esses acabam sendo ironizados junto com os que são ruins, da mesma forma que os bons professores pagam o pato pelos ruins! Isso não é diferente.
    Mas me diga uma coisa: vc convive mesmo, no dia a dia, com professores do 6º ao 9º ano de escolaridade, certo? Ou convive com os do 1º segmento do Ensino Fundamental de perto também?
    Pergunto porque isso faz tanta diferença que vc nem imagina!
    Nas escolas onde trabalhei sempre houve uma espécie de guerrinha velada também entre os professores de 1º e 2º segmento, os de 1º dizendo que os de 2º mal conheciam seus alunos, nem sabiam os nomes deles, enquanto eles, professores que estavam todos os dias com a mesma turma por 4 horas, conheciam muito melhor os seus alunos. A crítica dos de 2º segmento sempre foi a do despreparo dos professores de 1º pois os alunos chegavam mal sabendo (ou não sabendo mesmo) ler e escrever, além de serem muito mal educados, no sentido corriqueiro da palavra, e, por isso, acabava “sobrando” pros professores de 2º segmento consertar o que não foi feito pelos professores anteriores, embora não fosse essa sua função.
    E esses são só alguns exemplos de críticas que sempre ouvi e que, como pedagoga, procurei esclarecer, unir forças – com os dois lados -, contra os verdadeiros inimigos da educação que NÃO SÃO os professores, claro! Procurei desenvolver projetos, conversei sempre muito com todos, busquei várias alternativas, mas me senti impotente mil vezes, da mesma forma que os bons professores se sentem.
    E, infelizmente, a maioria dos professores que conheci no trabalho me decepcionou demais e prefiro ser sempre sincera quanto a isso.
    Respeito muito a profissão de professor, sou professora também, uma das coisas que me fez estudar Pedagogia foi justamente ter tanta admiração por tantos professores maravilhosos que tive na vida, enfim… Pra mim essa guerrinha “professores X pedagogos” nunca fez o menor sentido! E repito que quase todos os alunos de pedagogia são professores, em geral de 1º segmento.
    Existem os que não querem nada tanto entre profissionais quanto entre alunos. A diferença, nesse caso, é que os alunos ainda são crianças e adolescentes e esse querer pode ser despertado com a AJUDA da escola e não sendo responsabilidade só da escola, claro. Mas despertar o interesse é SIM parte fundamental de educar! Ter só alunos interessados nunca existiu em tempo algum, pelo menos desde que a instituição escola existe. Então isso faz parte e acho que a maioria dos professores sai de suas licenciaturas e cursos normais sem preparo para lidar com isso, o que é outra falha da educação, no caso a universitária e a dos Cursos Normais, que se fecham em salas de aula também e dão muito menos espaço prático para os alunos conhecerem de perto a realidade com a qual vão lidar, o que os deixa, com razão, assustados e perdidos quando estão diante dela todos os dias.
    Acho ótimo podermos conversar sobre tudo isso aqui, Declev, pois acaba sendo também uma forma de mantermos ao menos as nossas consciências alertas. Te agradeço muitíssimo por isso!

    Um grande abraço,
    Regina.

Os comentários estão encerrados