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Professor? Pois não?

Sobre as perguntas “padrão” dos alunos, eu já escrevi por aqui.

Sempre foram as mesmas. Sempre são as mesmas.

As mesmas. As mesmas. As mesmas.

Mas a cada dia parece que eles se superam, pois a mesmice se aprofunda…

Mao

Você fica 10-20 minutos explicando o trabalho proposto. Fala tim-tim por tim-tim o que é pra fazer. No meio da explicação (sim, te interrompem), uma pergunta:

– Professor?
– Oi
– Posso ir no banheiro?

Você ignora o fato. Chama a atenção para que eles prestem atenção. Termina a explicação, bem explicada, abordando todos os pontos do trabalho. Senta em sua cadeira, esperando que eles comecem o que é pra fazer.

– Professor?
– Oi
– Olha aqui, tá me batendo!!

Ignora o fato. Afinal, eles sentam juntos, em grupo (é sempre o mesmo grupo, por afinidade, escolhido por eles mesmos). VocÊ fica atento pra ver se estão começando a fazer o trabalho, se eles estão com dificuldades, etc.

– Professor?
– Oi
– Ele pegou minha borracha!
– Que que você quer queu faça?
– Manda ele me entregar
– Entrega a borracha – falo, com ironia e com cara de saco cheio.

Você se vira para o outro lado e continua o que está fazendo, esperando uma dúvida sobre o trabalho que teoricamente deveriam estar fazendo.

– Professor?
– Oi – É agora!, você pensa…
– Tem lápis?
– Cadê seu material?
– Eu não tenho.
– Pede do colega ao lado.
– Roubaram.

Você manda ele pedir um à direção (um aviso: NÃO EMPRESTE os seus, porque senão você vira refém e vira fornecedor!) e vai andar pela sala, vendo o que estão fazendo [ou não].

– Professor? – chama uma aluna lá no outro canto.
– Oi? – você chega perto para saber a dúvida.
– Tá em que página?

Considerando que o que você passou é uma pesquisa, para que eles procurem as informações, consigam estudar e aprender algo… eu desisto e espero o sinal tocar.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Oi?

Sobre saber ler e entender

Sobre Leitura e escrita, saber ler e entender.

Meio de maio de 2015. Lá se vão uns 3 meses de aula no 7º ano.

Alunos de 12-13 anos que estão, no mínimo, em seu sétimo ano dentro de uma escola.

Situação 1

Indico o exercício a ser feito.

No quadro: “ler e fazer a apostila até a página 12”.

Todos vão direto para a página 12, afinal, o professor mandou fazer a página 12…

Mudo a frase para “ler e fazer a apostila DA PRIMEIRA PÁGINA ATÉ a página 12”.

Reclamam que é muita coisa.

Situação 2

Na página 12, ao explicar uma experiencia a ser feita, dentre os materiais necessários tem-se a frase: “alimento já pronto como arroz cozido, canjica ou mingau de bebê”.

Uma aluna me pergunta: “professor, pode ser outra coisa ao invés da canjica?”.

Leio pacientemente com ela a frase, explicando-lhe a diferença entre o “ou” e o “e”.

– Aaaah tá…

Situação 3

Tenho um crachá para sair da sala. Quem precisar sair para beber água, ir ao banheiro, falar com alguém ou qualquer outra coisa não precisa nem me pedir, basta pegar o crachá, que fica sempre em um canto na minha mesa, e sair. Quando volta, deixa-se o crachá no mesmo lugar e outro aluno pode sair. Sempre um por vez.

Invariavelmente alguém vem à minha mesa e pergunta: “professor, cadê o crachá?”.

– Pense – respondo eu.

– Eu não sei!

– Onde está o crachá?, pergunto.

– Eu não sei, eu te fiz esta pergunta!

– Vamos pensar: onde o crachá fica?

– Aqui.

– Para que ele serve?

– Para sair de sala.

– Ele está aí?

– Não.

– Então onde ele pode estar?

– Com alguém lá fora.

– Então… onde está o crachá?

– Lá fora com alguém.

– O que você tem que fazer?

– Esperar ele voltar.

– Ok.

[…]

Vem outro e…

– Professor, onde esta o crachá?

[…]

Abraços,

Declev Reynier Dib Ferreira

Que esta mensagem te dê esperanças

Escrevo isso no primeiro dia de 2015. Ontem, ano passado, uma mensagem me emocionou.

Nas últimas horas de 2014 recebi um chamado no Facebook por mensagem in box. Era uma ex-aluna, que já saiu da escola fazem mais de dois anos.

O diálogo com ela me emocionou. Eu já falei algumas vezes por aqui de minha desmotivação, descrença na profissão e falta de relacionamento com os/as alunos/as:

Mas também já falei de alguns bons acontecimentos:

Agora, este tipo de conversas que travo me dão uma nova esperança, mostrando que, na verdade, os professores têm muito mais força do que supomos. Mostram que, na verdade, podemos, sim, fazer a diferença, mesmo que dentro de alguns indivíduos.

Não me venham dizer que isso SEMPRE acontece, ou que é normal, ou que os professores/as sempre têm que ter um bom relacionamento com os alunos. Não, nem sempre temos um bom relacionamento com os alunos. Nem sempre gostamos de todos os alunos. Nem sempre temos diálogo com os alunos.

Mas, quando temos, é maravilhoso.

E, portanto, acho que é isso o que eu (e você também, professor/a) temos que fazer em nossa lida diária: olhar o/a aluno/a, e não o sistema. Quer dizer, lutar contra o sistema, sempre, até que ele seja bom o suficiente (e talvez isso nunca chegue), mas agir mais com o/a aluno/a.

É algo como aquela frase do meio ambiental: “Pensar globalmente, agir localmente”.

Nem sempre consigo enxergar desta forma. Mas a conversa talvez me ajude a abrir (novamente) os olhos.

Vamos, então ao nosso diálogo (suprimindo o nome e com autorização):

– Boa tarde professor

– Oi Aluna! [eu disse o nome dela, mas suprimi aqui]

– Lembra de mim ainda?

– Claro!

– Vim dar ótimas notícias ao senhor

– O que tem feito?

– Consegui bolsa no curso de moda no Senac de Copacabana. Vou fazer pré-vestibular na UFF

– Oba, muito bom! Eu sabia que você conseguiria muita coisa. Não tinha dúvidas.

– E por causa das suas palavras eu decidi fazer a faculdade de Cinema

– Sério?

– Sim

– Que lindo! Você vai ser grande, vai fazer o que quiser! Como eu disse, nunca tive dúvidas!

– Sempre me apoiou em relação ao teatro. Muito obrigado professor.

– De nada. Este foi um ótimo presente que recebo neste fim de ano.

– Você me inspira bastante, nunca esquecerei do que falou. Muito obrigada por tudo.

– Eu que agradeço, estou emocionado.

– Ainda da aulas na Escola?

– Ainda…

– Mas sem nenhuma aluna como você e seu irmão…

– Obrigada. Pretendo visitá-lo. Pra colocar a conversa em dia

– Vá sim.

– Vou sempre esta mandando noticias e lhe agradecendo. Bjs e de novo, muito obrigada.

– Muito obrigado. Feliz 2015 pra você e sua família. Mande um beijo a todos.

– Mandarei. Feliz 2015 ao senhor e Ana Catarina.

É isso.

Não é o máximo?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Crônica de minha volta

Estive em Licença Paternidade, em Niterói, após o presente recebido com o nascimento de minha filha.

Depois de uns 35 dias sem escutar funk, eis que ele surge novamente em minha vida.

Depois de uns 35 dias sem ouvir palavrões em cada frase que entra em meus ouvidos, eis que eles estão de volta dentro de mim.

São dois ônibus. O primeiro não demora a chegar e, 20 minutos depois, estou no outro ponto. Mais uns 30 minutos esperando, chega o segundo ônibus de minha jornada. Ele vem vazio e segue seu destino. Depois de passar por montes de ônibus parados atrapalhando o andamento da rua num “ponto final” improvisado, segue serpenteando pela rua estreita, desviando de lixo, entulho, porcos, carros abandonados, montes de areia, carros na contra mão e gente. Por enquanto, não desvia de muitos buracos, pois a via foi recapeada há pouco tempo. De reurbanização, só isso.

Ao começar entrar na comunidade, começa a entrar gente. Porta única, se tem gente pra sair e gente para entrar, há impasses momentâneos e o ônibus perde tempo na espera.

Mas o tempo não se perde só nisso. Alguns novos passageiros passam pela roleta. Os que têm gratuidade – a maioria: alunos, idosos, deficientes – precisam passar o dedo numa máquina de leitura de digitais. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo.

Se é irritante ler repetidas vezes, imagine em um ônibus com cerca de 12 pessoas para entrar quando várias delas precisam passar por este processo. Ficamos parados em determinado ponto uns 10 ou 15 minutos. Em outros por 5 ou 10 minutos.

Mas pode ser pior. Muitos passageiros não passam pela roleta, dentre homens e mulheres, adolescentes e crianças, apesar de terem cartão de passagem, a maioria gratuitamente, com o dinheiro de nossos impostos.

E dizem – prefeitura e seus amigos empresários – que isso é “cidadania”.

Aglomeram-se na parte da frente, no espaço delimitado pelas roletas, o motorista, o vidro dianteiro e a porta da frente.

A porta da frente não fecha, pois há montes pendurados, às vezes por apenas uma mão.

Crianças pulam pela janela para dentro do ônibus, em uma destreza olímpica.

O motorista levanta, grita algo, não sai com o ônibus com a porta aberta. Novidade, pois sempre saíram com crianças penduradas na porta, segurando-se por fios de dedos enquanto o coletivo serpenteava alucinadamente por ruas caramujentas, cheias de meandros.

Um dia cheguei a argumentar sobre o perigo com um motorista, profissional responsável dos que esta formidável empresa costuma contratar. “Imagina se um garoto destes cai!”, disse eu, apelando para o bom senso que achava que havia no fundo do poço.

Mas o poço era ainda maior.

– “Se morrer eu respondo em liberdade”, disse-me o motorista, argumentando que não fechava a porta porque eles brigavam com ele, se tentasse, e ele não queria aborrecimentos.

Mas um dia caiu.

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Depois de pés pisados, gritos, apertos e diversos guris e gurias pulando a roleta, a porta se fecha e o ônibus sai. Antes da roleta, lotado. Atrás (ou seja, na maior parte do ônibus), vazio.

Ao fundo, um funk no celular, alto, como se todos gostassem. Não gosta? Dane-se.

Nas próximas paradas, não para. Passa direto deixando diversos alunos e outras pessoas a ver navios – ou a ver ônibus. Se quiserem, que vão a pé!

Furando todos os outros pontos, chega ao destino e começa a esvaziar. Hora de descermos quase todos, indo em direção à escola.

Chego nela um pouco mais de uma hora depois de ter saído de casa, apesar de estar na mesma pequena cidade que figura entre as 5 melhores de qualidade de vida no Brasil. Então tá.

Entro em sala e sou agraciado com a frase quase gritada “quem me come quieto come sempre… galinha!… cachorra!…”. As pérolas continuam com um “meti o piru nela” e seguem com “seu babaca!!” e outras.

Perco um tempo fazendo a chamada e arrumando o diário – o que é mais importante que a aula em si, e isso não é um exagero – e esperando os alunos se acalmarem e entrarem em sala, um após o outro, mais atrasados do que eu.

Outros gritos, outros palavrões, outros tapas nos pescoços e xingamentos depois, a aula que praticamente não teve acaba, mas não sem antes de minha própria bateria ter acabado, quase antes mesmo de começar o dia.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Zumbi

Aluno leva tiro na cabeça dentro de sala de aula – Escolas Roletas-Russas

Esta semana fomos surpreendidos pela notícia de um aluno que foi baleado na cabeça dentro de uma escola no Rio de Janeiro. Aconteceu na Cidade de Deus, bairro imortalizado em um filme e com famoso histórico de violência.

O aluno estava SENTADO em sala de aula do TERCEIRO andar, quando caiu da cadeira. Os amigos pensaram que ele tinha levado uma pedrada e chamaram o professor, quando este percebeu que se tratava de uma bala “perdida”. Mais uma bala perdida que se acha.

Soube que NINGUÉM do SEPE ligou pra escola nem foi lá.

Soube que NINGUÉM da CRE [Coordenadoria Regional, órgão da Secretaria de Educação] ligou ou foi lá prestar algum auxílio. Somente depois de tudo é que eles “telefonam pra dizer o que fazer”. Segundo a secretaria, ela “mantém um programa em que envia pedagogos, psicólogos e assistentes sociais às escolas em casos de situações difíceis” (fonte).

Como sei disso? Uma amiga minha dá aulas naquela escola e estava lá no dia. Ela ajudou a socorrer e acalmar o caos que a escola ficou.

Nós estamos sujeitos a isso todos os dias. É uma roleta-russa diária. Podem querer argumentar que qualquer pessoa está sujeita a estes acontecimentos em qualquer lugar. Mas não é a mesma coisa.

Praticamente os únicos profissionais que entram nos locais de conflito por estas bandas – que matam mais que qualquer guerra no mundo – são os policiais e os professores.

Com a diferença que os policiais entram armados e para matar. Os professores entram “na mão”.

Mais ninguém.

A fatalidade que atingiu este aluno poderia ter ocorrido com qualquer outra pessoa que estivesse ali dentro daquela sala de aula. E, adivinhem: quem mais estava lá dentro, além dos alunos e professores?

Alguém da secretaria de educação? Não.

Algum policial? Não.

Algum político? Não.

Algum especialista em educação dos que ficam verborragiando suas verdades e nos dizendo como devemos proceder na escola? NÃO mesmo!

Por acaso o empresário economista que se diz “especialista em educação” gustavo ioschpe que adora dizer que os professores são incompetentes estaria lá? NUNCA!

Algum deles, por acaso, algum dia poderia ter a mínima chance de lhes ocorrer alguma fatalidade dentro de uma sala de aula?

NUNCA! Sabem por quê? Porque a sala de aula NÃO É nem NUNCA FOI o local de trabalho deles! É somente o local do qual adoram falar sobre, sem NUNCA terem tido nem mesmo uma semaninha de experiência de tratar com uma turma de crianças e adolescentes de uma escola de periferia ou de comunidade violenta.

E, quem já entrou e saiu, esqueceu.

Mas, claro, adoram defecar asneiras pela boca, afirmando que as escolas devem ser classificadas em “Melhores” ou “piores” conforme as “notas” do alunos. Ou que os professores não devem ganhar bem porque não sabem trabalhar. Ou que somente devem receber “bônus” salariais aqueles que tiverem “bons resultados”.

Vejam alguns posts nos quais já falei sobre isso:

Agora gostaria que estas ANTAS (já pedindo perdão aos amigos perissodáctilos) me digam que justiça se tem em comparar os resultados obtidos nestas escolas localizadas em áreas de verdadeiras guerras urbanas com outras localizadas em áreas mais nobres da cidade.

Gostaria que as BESTAS defensoras da meritocracia me digam: como se estuda decentemente nestes lugares?

Se a violência não entra na escola janela adentro, entra no imaginário, no psicológico, na estrutura emocional, na fala, nas atitudes dos alunos.

Mas entra.

E enquanto a violência entra nas escolas de todas as maneiras, dissimulações, imbecilidades, falcatruas, roubos, desvios e propostas idiotas saem “pelo ladrão” de dentro dos podres poderes.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Sobrevivente

Livro de entrevistas sobre Educação Ambiental

Foi lançado um livro com a compilação das entrevistas sobre Educação Ambiental da Revista Eletrônica Educação Ambiental em Ação.

O livro é digital e está disponível para download gratuito.

O livro foi organizado por Berenice Adams, idealizadora do GEAI, pesquisadora, autora de diverso livros sobre educação ambiental.

Livro: “Coletânea de Entrevistas da Revista Eletrônica EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO”.

Entrevistas

São mais mais de cinquenta experiências, de diferentes atores sociais que, direta ou indiretamente, possuem vínculo com a Educação Ambiental.

Todos foram entrevistadas ao longo dos 12 anos da revista virtual Educação Ambiental em Ação (entre 2002 e 2014).

Para download do livro, clique neste link.

Eu participo com uma entrevista.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

 

Escola ou posto de saúde?

A mãe liga pra escola de manhã, meia hora antes de começar a aula:

– Escola Ypsilon, bom dia!

– Oi, aqui é a mãe do aluno Fulano de Tal. Eu tô ligando pra dizer que tivemos um problema aqui, um vaso de cerâmica caiu na testa do meu filho, que estava dormindo, e abriu a testa dele. Era um vasinho de cerâmica que ganhei de presente, tava ainda no plástico, mas tava numa janela acima da cama aí caiu e machucou ele. Eu estou ligando pra dizer que já coloquei um band-aid no ferimento e mandei ele pra escola pra fazer o curativo aí, com o enfermeiro.

– Mas, mãe, aqui não é um posto de saúde, o enfermeiro não é pra fazer curativos. Se ele machucou, tem que levar ao hospital ou ao posto de saúde. Tem um aqui perto, leva ele pra lá!

– Ah, não. Ele já saiu daqui. Deve estar chegando aí. [e o telefone: pu pu pu pu pu pu….]

– ….

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Revista Eletrônica Educação Ambiental em Ação

A dica de hoje é a Revista Educação Ambiental em Ação. Ela é eletrônica e nasceu a partir do Grupo de Educação Ambiental da Internet – GEAI, em 2002. Este grupo mantém uma lista de discussão, onde a ideia surgiu e foi posta em prática por Berenice Adams, idealizadora do GEAI, pesquisadora, autora de livros sobre educação ambiental e uma das editoras da Revista EA, junto com Sandra Barbosa e Júlio Trevisan.

educação ambiental

A revista eletrônica Educação Ambiental em Ação publica trabalhos que estejam relacionados com os seguintes eixos temáticos:

  • Relatos de Práticas de Educação Ambiental;
  • Diversidade da Educação Ambiental;
  • Educação Ambiental e Seus Contextos;
  • Educação Ambiental e Cidadania;
  • Sensibilização e Educação Ambiental;
  • Reflexões para Conscientização.

Além dos artigos, a revista traz outras seções interessantes, como Dicas e Curiosidades, Reflexões, Textos de sensibilização, Dinâmicas, Entrevistas, Culinária, Arte e ambiente, Divulgação de Eventos e muitos outras.

Você pode enviar artigos ou outras colaborações. Vejam as normas de publicação. É interessante para o currículo porque a revista tem ISSN, sob o número 1678-0701.

Eu já participei duas vezes, uma com uma entrevista e outra com um artigo publicado.

Você pode também se cadastrar para receber as novidades em seu email.

E neste endereço você pode ver todas os artigos e textos de todas as edições.

Dê uma passada por lá e veja se não vale a pena!

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Reciclar é a solução? Não.

Reciclar é a solução para o problema do lixo? A resposta é não.

Reciclar é bom? A respostra é talvez, pode ser.

Talvez, porque dependendo do uso ideológico, mercadológico, capitalista e propagandista que se faça, a reciclagem pode ser nada mais do que uma grande desculpa para continuarem-se a consumir, consumir, consumir…

Então, melhor do que a reciclagem é “consertagem“, o trabalho e o cuidado para que as coisas não se tornem lixo.

Venho afirmando isso nas oportunidades que tenho. É só ver meus trabalhos por aí, como minha dissertação de mestrado (especialmente os dois últimos parágrafos) e o post Por que sempre precisaremos de um aterro sanitário?.

Claro que minha visão vem sendo construída através de minhas leituras e absorções de outros pensamentos:

  • ética do cuidado que já vem sendo falada por Leonardo Boff e outros autores.
  • Meu orientador no mestrado, Emílio Eigenheer, que falava de Pedagogia da Degenerescência.

Digo tudo isso para lhes apresentar o mote do site Plataform 21 [em inglês]. É um site holandês de design.

Eles apostam na ideia “pare de reciclar, comece a consertar!”, o que eu, particularmente, acho o máximo.

Sempre fui meio “catador” de lixo, juntando minhas quinquilharias, meu “museu”, guardando e consertando coisas que qualquer pessoa jogaria fora. Gosto, portanto, de ver esses movimentos nascerem.

Copio e colo aqui o manifesto traduzido. Mas vale a pena uma passada pelo Plataform 21 e fuçar outras pérolas.

1. Faça seus produtos durarem mais!
Consertar significa a oportunidade de dar a um produto uma segunda vida. Consertar não é anticonsumo: é antidesperdício.

2. As coisas têm que ser projetadas para poderem ser consertadas
Designer de produtos: faça coisas consertáveis. Forneça informações claras sobre como consertar. Consumidor: compre coisas que você sabe que podem ser consertadas, ou descubra por que elas não existem. Seja crítico, faça perguntas.

3. Consertar não é substituir uma peça
Não estamos falando em jogar fora a parte que está quebrada, mas de realmente remendar criativamente.

4. O que não mata engorda
Toda vez que você conserta algo você acrescenta ao seu potencial, à sua história, à sua alma e à sua beleza inerente.

5. Consertar é um desafio criativo
Fazer reparos é bom para a imaginação e ensina a usar novas técnicas, ferramentas e materiais.

6. Conserto não sai de moda
Não se conserta para deixar os produtos na moda. Não há datas de validade para produtos que podem ser reparados.

7. Consertar é descobrir
Ao consertar você descobre coisas incríveis sobre como os objetos funcionam. Ou não funcionam.

8. Conserte – mesmo quando a crise acabar
Se você acha que este manifesto tem a ver com a recessão, esqueça. Não estamos falando de dinheiro, mas de mentalidade.

9. Coisas consertadas são únicas
Mesmo falsificações se tornam originais quando você as conserta.

10. Consertar é ser independente
Não seja um escravo da tecnologia – seja seu mestre.

11. Você pode consertar tudo, mesmo um saco plástico
Mas nós recomendamos arrumar uma sacola que dure mais. E, quando ela estragar, consertá-la.

Pare de reciclar! Comece a consertar!

Fantástico, não?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Dica de Filme: Estamira

Estamira é um filme sobre uma pessoa de nome Estamira.

Uma catadora de lixo com sua filosofia própria.

Estamira é uma mulher do povo, catadora em um dos lixões da Baixada fluminense. Dizem que é doida de pedra, mas é de uma lucidez delirante, tem um discurso apocalíptico, o que teria um Nietzsche antes de mergulhar na escuridão, ou de um Glauber Rocha, na fase em que anunciou ao universo ser o General Golbery do Couto e Silva um gênio da raça, ou um Geraldo Vandré, ao propor uma santa como padroeira do Exército. 

Ela sofria de distúrbio mental, mas suas palavras fazem nossa cabeça pensar.

Ela catava lixo no aterro de Jardim Gramacho.

Estamira morreu em 2011, mas sua vida ficou registrada em um premiado documentário.

Vale a pena conferir:

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira