Escola ou presídio em dia de motim?

Uma das escolas em que trabalho – mas acho que pode-se extrapolar para todas – às vezes, muito poucas vezes, se parece escola.

Muito bonitinho o poeminha do Paulo Freire, mas, na prática, a teoria é diferente… Desculpem o desabafo, mas é que eu também sou gente (eu acho…).

Tem dias que a escola se parece “presídio em dia de motim” (entre aspas porque foi uma tirada fantástica de uma professora de lá). Outros dias se parece com algo similar à febem. Outros com uma festa cheia de adolescentes barulhentos embriagados.

Um ringue de luta livre. Uma incursão policial no morro. Um hospício – dos piores. Uma praia lotada de farofeiros dos mais barulhentos e deseducados. Um arrastão. A boca do inferno. Um clube.

Parece de tudo, menos uma escola – considerando esta como um local onde as pessoas vão para estudar, aprender, conviver civilizadamente, conversar, trocar idéias e experiências.

Barulho, gritaria, palavrões, xingamentos, tapas, berros, livros voando, bolas de papel nas cabeças, futebol nos corredores, portas batendo, etc. etc. etc.

“É preciso melhorar as condições de trabalho dos professores, a organização pedagógica e o currículo”

Mas no inferno, dá pra fazer isso?

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Na mesma linha:

a) http://cafetao.org/2006/10/19/aos-menores-de-18-que-estiverem-lendo/

Desperdício

Impressionante (utilizarei muito esta palavra, pois há muitas coisas que ainda me impressionam), impressionante como existe burrice e desperdício de dinheiro público, mesmo nas secretarias de educação (o “mesmo” foi irônico…).

A Secretaria de (des)Educação do município do Rio de Janeiro inventou um diário pro professorado. Sim, inventou. Uma ma-ra-vi-lha! Perguntem a qualquer docente decente. É um calhamaço de umas 350 folhas encadernadas (sem exagero: trezentas e cinquenta folhas encadernadas!!) xerocopiadas – que, dali, são utilizadas no máximo umas 50 – para cada turma. Repito: para cada turma! Periga de ter professor com problema nas costas de carregar peso!

Cada folha desta maravilhosa invenção é utilizada apenas em um de seus lados. Vire o calhamaço de cabeça pra baixo, folheie-o de trás pra frente e você terá um belo caderno de 350 folhas em branco. Sim, pepel branco, aquele que polui e é responsável pelos desertos verdes que estão assolando determinadas áreas de nosso país.

Pra não dizerem por aí que exagero na argumentação, veja o Adital e a UFSC.

Todo o mundo falando em reduzir o consumo, racionar o uso dos recursos naturais e dos materiais e alguém da Cecretaria de Educassão vem com essa.

Façam as contas colegas: são mais de 1.000 escolas no município do Rio (sim, mais de mil!). Impressionante.

Se tiverem em média 20 turmas… não, podem achar que estou exagerando, digamos umas 15 turmas em média, teremos 15 mil turmas, ou 15 mil calhamaços de papel branco subutilizado espalhados por aí.

Impressionante.

Quero só ver onde vão guardar estes calhamaços ano após ano – ou será que vão jogar fora os diários? Afinal, é um documento da vida de milhares de alunos, não?

Continuando: se temos 15 mil calhamaços a 350 folhas cada, são 5.250.000 folhas!!! Fora o plástico e o espiral da encadernação! Considerando que o papel é feito de árvores, como já dissemos, considerando toda a química que é utilizada em seu branqueamento e considerando o espaço absurdo que isto ocupa… Ah, quem dera inventassem uma máquina onde pudéssemos colocar as informações sem precisar de tanto papel!

Veja as fotos e comprove:

Pequeno diário do Rio 

 diario-do-rio-02.jpg

 

Impressionante…

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Na mesma linha:

a) Entenda aqui como o papel é fabricado.

Monografia: “História ambiental do Morro do Céu, Niterói – RJ”

A região do Morro do Céu, Caramujo, Niterói, era, até cerca de 20 anos atrás, uma região de colinas e vales, dominados por sítios, de bom clima, poucos habitantes, muitos recursos naturais, como matas, nascentes, animais silvestres. Após o fechamento do lixão de Viçoso Jardim, em bairro adjacente, a prefeitura de Niterói passou a levar o lixo para o aterro controlado de Gramacho, em Duque de Caxias. Como o custo de tal operação era demasiado alto, a nova prefeitura da cidade se viu na incumbência de providenciar um local para servir de vazadouro de lixo.

Desta forma, em 1983, todo o lixo a cidade de Niterói passou a ser jogado, sem nenhum tratamento, na região do Morro do céu.

Este trabalho visa a contribuição para o resgate da História Ambiental desta região, construída a partir das lembranças e depoimentos dos moradores e das diversas pessoas e instituições que participaram da instalação da lixeira, buscando uma discussão entre as diferentes contribuições de cada ator social envolvido.

Download: MONOGRAFIA: História ambiental do morro do céu. (zip, 260K)

Perguntas…

> O que fazer com o aluno que, após várias aulas, te mostra o caderno em branco?

> A sala de aula melhor é a que tem mesas em grupo ou individuais viradas para frente?

> Prova prova o quê? Que os alunos são incompetentes pra aprender ou que a escola é incompetente para ensinar?

> O que é o “tempo do aluno”? Existe dentro da escola atual?

> Qual a real importância de o aluno saber / decorar o que “queremos” que ele saiba /decore?

> O quê ensinar? Por quê ensinar?

> Nas escolas em que os alunos conseguem aprender a ler (parece paradoxal, mas é difícil), qual a qualidade deste “ler”?

> Qual a perspectiva política e crescimentista desta leitura?

> O que é “currículo” nas nossas escolas? Conteúdos sem início meio fim, sem pé nem cabeça?

> Por quê cargas d’água estas coisas me preocupam?!?!?

Tempo, tempo, tempo, tempo…

Cheguei às 23h em casa… como cansa dar aulas!

Hoje foi só agora de noite, das 18h às 22h. Educação de jovens e adultos. Pessoas com idades de 14 a quase 70!

Impressionante como alguns deixam a vida passar né?

Os jovens – com exceções – conversam, falam, brincam, riem, pedem pra sair toda hora, brincam nos celulares, fazem piadas…

Segundos depois de você dizer algo, invariavelmente perguntam exatamente sobre aquilo que você acabou de explicar!

Enquanto isso os adultos – com exceções – perguntam, escrevem, querem saber, reclamam da bagunça… não têm tempo a perder! Já o perderam. Seja por culpa ou por desculpa, já o perderam.

Por isso que eu digo aos jovens: “cresçam!!!”.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Como fazê-los fazer?

Estou no computador da secretaria da escola. Esta escola agora é a do Rio, onde também tenho uma matrícula, há uns 4 anos. Vim parar numa escola ao lado do cemitério… acho que meu destino é esse: lixo!

Uma ao lado do aterro de lixo (já saí de lá, indo pra secretaria de educação – mas isto é pra outro post), outra ao lado do aterro de gente!!!

Como eu ia dizendo, estou na secretaria da escola, utilizando o computador daqui, após dar minha aula. Hoje só tenho a primeira, das 7:10h às 8h. Escolhi este horário propositalmente, para poder trabalhar o dia todo em outro lugar.

Mas, voltando, como é difícil fazê-los fazer! Esta turma da qual saí é a 6a série, com alunos dos seus 12 ou 13 anos. Impressionante… alguns não tiram nem a mochila das costas. É sério! Não tiram nem a mochila das costas! Ficam conversando o tempo todo, andando pela sala ou mesmo sentados, sem abrir caderno, livro ou pegar num lápis.

E olha que não sou do tipo que enche o quadro com baboseiras tiradas de um livro. Aliás, este deve ser o meu erro, porque se faço isso, imediatamente eles sentam e copiam. Gostam disso, porque é a única coisa que conseguem fazer.

Como eu dou aulas em uma sala de ciências , de forma que busco a criatividade e pesquisa deles, muitos nem tentam fazer algo. Eu me nego a fazê-los copistas, eles se negam a ser pensistas.

Hoje, continuando a aula anterior, pedi para, em grupo, bolarem um jogo de ciências, pelo qual as pessoas podem aprender ciências brincando. Alguns grupos tentam, outros fazem, outros reclamam, reclamam, mas tentam, coitados… outros alunos simplesmente têm a atitude que descrevi: nada.

Impressionante.

Como nasce um lixão…

Aterro mostrando a escola, no círculo

Continuando minha apresentação e dos meus trabalhos, ao passar para o concurso para professor (do município de Niterói, RJ), fui parar numa escola ao lado do aterro de lixo da cidade. Nesta mesma época, ao assumir a pecha de professor – afinal, era o que iria me salvar do infortúnio financeiro em que me encontrava – busquei um mestrado, mas não consegui passar. Entrei finalmente numa especialização, em Gestão para a Educação Ambiental, na UERJ, e teria que realizar uma pesquisa-ação. Claro que aproveitei o fato da escola e do lixão e fiz disso meu estudo. Pesquisei como o lixo foi parar naquele lugar tão bonito – pelo menos antes era. Fiz isso através de entrevistas, buscando a memória da população que morava lá ou que tenha tido alguma relação na época da instalação da lixeira. Entrevistei professores, diretores da escola, moradores, políticos, etc. Modéstia à parte – que eu não tenho mesmo! – ficou bom. Você pode encontrar o texto completo aqui mesmo. Divirta-se. Não esqueça dos créditos, ao citar ou usar alguma parte.

Download: MONOGRAFIA: História ambiental do morro do céu. (zip, 260K)

Bem-vindo à Selva

Nunca pensei em dar aulas! Eca!! aquele bando de crianças ou adolescentes me enchendo o saco como eu fazia com os meus professores!!! Neca! Mas é isso aí… a Terra é redonda (meio achatada, mas redonda) e a vida dá voltas. Fiz Biologia querendo ser pesquisador e trabalhar com macacos no meio da Amazônia – meu sonho, que foi realizado! Assim que me formei fui pra Amazônia trabalhar com macacos! É mole? Fiquei uns três meses trabalhando, mas por conta do meu chefe, tive que sair. Era um holandês filho da puta que sacaneou a gente. Mas, lembra da Terra redonda e da vida dando voltas? Pois é… este mesmo holandês fidapu que me sacaneou é agora manchetes por falcatruas cometidas.

Não tenho a menor dúvida de que é culpado, ao contrário do meio científico que o defende. Então, saí de lá. Fiquei uns anos meio perdido, tentando ganhar dinheiro. Não dá certo. Acabei fazendo um concurso pra professor (vê só o que é o desespero!). Passei… Virei professor… Daí para fazer especialização, mestrado e doutorado, sempre trabalhando na área de educação e meio ambiente, foi um salto. Tô nessa!

Quer saber mais sobre o holandês safado? Visite esta matéria da Fauna Brasil ou esta matéria do Repórter.

Por Declev Reynier Dib-Ferreira e colaboradores