Arquivo da categoria: Reflexões e Desabafos

O que não aprendemos na faculdade sobre o Conselho de Classe?

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse momento final do ano letivo. Aliás, ultimamente não tenho escrito quase nada, a não ser quando estou tão estressado que apenas o desabafo nos teclados aliviam a tensão.

Primeira coisa que me irrita: o professor passou o ano inteiro com o aluno e avaliou todo este tempo se ele está apto a progredir em sua disciplina. Quando o discente não atinge a nota, fazemos uma reflexão levando em conta vários aspectos. Se achamos que ele tem condições de seguir adiante, damos uma ajuda e fim de papo. Caso contrário, fim de papo também. Só que não! No Conselho de Classe irritante (como o que acabei de ter) o professor tem que justificar o que levou o aluno a ser reprovado, quase como se ele tivesse no banco dos réus se defendendo. Sei que existem professores e professores, mas quando você tem consciência do trabalho que faz (e a equipe diretiva/direção conhece bem) é profundamente humilhante esta posição. E mais, se a preocupação é com o aprendizado do aluno, por que passar o ano inteiro e deixar pra discutir nota no final? É parecido com aquele pai que aparece na escola só em dezembro querendo saber do professor por que seu filho está com nota vermelha.

Segunda coisa que me irrita: quando a equipe diretiva/direção (pelos motivos que todos sabem) insiste em algum aluno, o caso é aberto para o Conselho decidir. Mas, como assim, então um professor de Português tem o direito de aprovar um aluno que reprovou em Matemática? Então o trabalho que um professor fez ao longo do ano é jogado fora? Não serviu de nada? Mais uma vez eu faço um parênteses por saber que existem casos e casos. Não estou falando daquele aluno brilhante que um professor não foi com a cara dele e por isso o reprovou. A regra do aluno aprovado pelo Conselho é para casos como esse. Estou falando de situações normais, ou seja, professores sérios e alunos com dificuldade ou que simplesmente não cumpriram suas tarefas ao longo do ano (isso sem considerar o número de chances que os alunos de hoje em dia têm com inúmeras recuperações. Na rede citada aqui, para cada avaliação há uma recuperação). Enfim, acho profundamente antiético um professor se intrometer no trabalho do colega e dizer que um determinado aluno deve passar. Fico explodindo por dentro quando eu vejo isso acontecer. E o pior é que sempre acontece. Caro colega, tenha algo em mente: alguns alunos não são os mesmos com todos os professores. E, mais grave do que isso, alguns apresentam dificuldades apenas em certas matérias. Um aluno pode ter discalculia, por exemplo. Lembro de um destes Conselhos em que um professor conclamou que eu entrasse no clima natalino e fosse bondoso. É lamentável ver colegas com tamanha alienação. Nada dói mais na Educação quando vemos colegas que te conhecem como profissional não ficarem ao seu lado em momentos como este. Pressão da equipe diretiva/direção eu já estou acostumado, mas fogo amigo é coisa que não suporto.

Terceira coisa que me irrita: o jeitinho brasileiro presente em cada um de nós. Adoramos criticar os descaminhos de servidores públicos, sobretudo políticos. Para nós, isso é uma prática deles, não nossa. Nós somos honestos, seguimos todas as regras… será? Na Educação, o que não falta é exemplo de práticas nebulosas. Quem nunca deu um jeitinho para burlar o aulas previstas e dadas? E faltas? No meu caso, me recusei a dar zero para uma aluna que faltou todas as aulas do bimestre. Aliás, o sistema (on line) nem aceita neste caso. Pra mim, zero é nota. Como vou dar uma nota para uma aluna totalmente ausente? Solução da direção: Tira uma falta da aluna (para mentir que ela veio um dia) que o sistema vai aceitar o zero. Quando insisti que não faria isso, o diretor me ameaçou dizendo que minhas notas ficariam pendentes, que eu seria chamado no recesso e tomaria falta se mantivesse minha posição. Tá né, dinheiro não é tudo na vida! Tô esperando o desconto…

Enfim, tô cansado de tudo isso. Foram só duas turmas e amanhã ainda tem mais duas. Isso só numa escola. Na outra tem oito ainda esta semana. Todo ano é a mesma coisa, uma sensação de ir para um campo de batalha. Você sai exausto e profundamente frustrado, seja qual for o desfecho. Tudo isso por quê? Porque o maldito sistema cobra números, ou seja, aprovações. Todo o resto é apenas isso: resto. Seja um professor que não reprova e você não será aborrecido. Deviam ensinar isso nas faculdades de Licenciatura.

A Educação na Caverna

Quando iniciei como professor eu tinha esperanças.

Eu achava que poderia fazer algo pela educação e, consequentemente, pela população mais pobre e desassistida, considerando que eu seria professor de escola pública de periferia.

Ledo engano.

Posso dizer hoje, com segurança, que há forças vindas de todos os lados contra a implantação de um sistema de educação pública de qualidade.

Essas forças se parecem com a pressão atmosférica: agem de todos os lados, de todas as direções. São como a gravidade: te seguram ao chão e às vezes te derrubam. Você tenta voar, mas não consegue. Tentar correr, mas cansa. Tenta andar mas te seguram.

Tente algo diferente, pense diferente que você será separado, execrado, massacrado, afastado, deselogiado, ofuscado, impedido.

E continuamos todos na Caverna da Educação: os professores e professoras fingem que ensinam; os alunos e alunas fingem que estudam; as mães e pais fingem que fazem sua parte apenas enviando pra escola; os diretores e diretoras fingem que a escola é uma maravilha; as secretárias e secretários fingem que investem em educação e se preocupam com ela.

Na verdade, investem em projetos privados a serem aplicados dentro das escolas, com muitas, mas muitas vantagens financeiras para quem diz que vai revolucionar a educação. Mas tem que ser de uma empresa, um instituto, uma fundação externa à escola, não pode ser da escola.

Se você, professor, tem uma ideia, não serve. Mas se esta mesma ideia tiver uma nova roupagem e for de uma empresa, instituto ou fundação, são milhões investidos. Para nada.

Por este caminho, pretendem nos confinar na Caverna eternamente. E, enquanto isso, pra quem está dentro da Caverna, qualquer coisa que se faça dentro da escola é vista como “resultado”, como “nosso trabalho rendendo frutos”, como “vitória”, como algo que é bom para os alunos.

Mas o que vemos são Sombras. São apenas Sombras do que deveria ser a Educação.

Quando entrei no município do Rio eu tive que trabalhar nas férias. Fui parar em uma escola que tinha algo como uma “colônia de férias” para as crianças, na mesma ‘comunidade’ em que ainda trabalho. Lembro que uma das ‘atividades’ foi levar os alunos à praia. Fomos parar na Praia Vermelha, na Urca. Chegando lá, soltaram as crianças e elas ficaram por ali. Aí questionei à diretora: “então, vamos reuni-los, falar alguma coisa, contar uma história, falar do lugar, explicar algo, ensinar algo?”. “Não precisa, eles não têm nada, o que der tá bom. Tá mais do que bom eles virem para cá, pois nunca vêm”. Foi essa a resposta dela, demonstrando como é o pensamento na educação para pobres.

Mas enquanto acharmos que as Sombras são o que deveriam ser, perpetua-se o statu quo. Deveríamos aplicar, investir e trabalhar por uma Educação de verdade e seus resultados, mas achamos que as Sombras os são.

E, então, os alunos saem da escola uma sombra do que deveriam ou poderiam. Perdemos por entre os dedos todos os talentos e possibilidades que poderíamos ter, para além das sombras.

Eu já saí da Caverna, mas não consigo trazer meus iguais para fora.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Liberto, mas nem tanto

Crônica de minha volta

Estive em Licença Paternidade, em Niterói, após o presente recebido com o nascimento de minha filha.

Depois de uns 35 dias sem escutar funk, eis que ele surge novamente em minha vida.

Depois de uns 35 dias sem ouvir palavrões em cada frase que entra em meus ouvidos, eis que eles estão de volta dentro de mim.

São dois ônibus. O primeiro não demora a chegar e, 20 minutos depois, estou no outro ponto. Mais uns 30 minutos esperando, chega o segundo ônibus de minha jornada. Ele vem vazio e segue seu destino. Depois de passar por montes de ônibus parados atrapalhando o andamento da rua num “ponto final” improvisado, segue serpenteando pela rua estreita, desviando de lixo, entulho, porcos, carros abandonados, montes de areia, carros na contra mão e gente. Por enquanto, não desvia de muitos buracos, pois a via foi recapeada há pouco tempo. De reurbanização, só isso.

Ao começar entrar na comunidade, começa a entrar gente. Porta única, se tem gente pra sair e gente para entrar, há impasses momentâneos e o ônibus perde tempo na espera.

Mas o tempo não se perde só nisso. Alguns novos passageiros passam pela roleta. Os que têm gratuidade – a maioria: alunos, idosos, deficientes – precisam passar o dedo numa máquina de leitura de digitais. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo.

Se é irritante ler repetidas vezes, imagine em um ônibus com cerca de 12 pessoas para entrar quando várias delas precisam passar por este processo. Ficamos parados em determinado ponto uns 10 ou 15 minutos. Em outros por 5 ou 10 minutos.

Mas pode ser pior. Muitos passageiros não passam pela roleta, dentre homens e mulheres, adolescentes e crianças, apesar de terem cartão de passagem, a maioria gratuitamente, com o dinheiro de nossos impostos.

E dizem – prefeitura e seus amigos empresários – que isso é “cidadania”.

Aglomeram-se na parte da frente, no espaço delimitado pelas roletas, o motorista, o vidro dianteiro e a porta da frente.

A porta da frente não fecha, pois há montes pendurados, às vezes por apenas uma mão.

Crianças pulam pela janela para dentro do ônibus, em uma destreza olímpica.

O motorista levanta, grita algo, não sai com o ônibus com a porta aberta. Novidade, pois sempre saíram com crianças penduradas na porta, segurando-se por fios de dedos enquanto o coletivo serpenteava alucinadamente por ruas caramujentas, cheias de meandros.

Um dia cheguei a argumentar sobre o perigo com um motorista, profissional responsável dos que esta formidável empresa costuma contratar. “Imagina se um garoto destes cai!”, disse eu, apelando para o bom senso que achava que havia no fundo do poço.

Mas o poço era ainda maior.

– “Se morrer eu respondo em liberdade”, disse-me o motorista, argumentando que não fechava a porta porque eles brigavam com ele, se tentasse, e ele não queria aborrecimentos.

Mas um dia caiu.

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Depois de pés pisados, gritos, apertos e diversos guris e gurias pulando a roleta, a porta se fecha e o ônibus sai. Antes da roleta, lotado. Atrás (ou seja, na maior parte do ônibus), vazio.

Ao fundo, um funk no celular, alto, como se todos gostassem. Não gosta? Dane-se.

Nas próximas paradas, não para. Passa direto deixando diversos alunos e outras pessoas a ver navios – ou a ver ônibus. Se quiserem, que vão a pé!

Furando todos os outros pontos, chega ao destino e começa a esvaziar. Hora de descermos quase todos, indo em direção à escola.

Chego nela um pouco mais de uma hora depois de ter saído de casa, apesar de estar na mesma pequena cidade que figura entre as 5 melhores de qualidade de vida no Brasil. Então tá.

Entro em sala e sou agraciado com a frase quase gritada “quem me come quieto come sempre… galinha!… cachorra!…”. As pérolas continuam com um “meti o piru nela” e seguem com “seu babaca!!” e outras.

Perco um tempo fazendo a chamada e arrumando o diário – o que é mais importante que a aula em si, e isso não é um exagero – e esperando os alunos se acalmarem e entrarem em sala, um após o outro, mais atrasados do que eu.

Outros gritos, outros palavrões, outros tapas nos pescoços e xingamentos depois, a aula que praticamente não teve acaba, mas não sem antes de minha própria bateria ter acabado, quase antes mesmo de começar o dia.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Zumbi

Ok, eu desisto!

Faz tempo que não escrevo sobre Educação. Aliás, sobre assunto algum. Primeiro por motivos pessoais, mas sobretudo porque deixei de ver utilidade no que eu fazia.

Contudo, não pense que mudei de ideia. Talvez esse breve texto seja mais um dos meus desabafos e não tem a intenção de ser um artigo acadêmico. Estou cansado!

Lembro como se fosse hoje de um encontro que tive com a secretária de educação do município onde leciono. Alguns dias antes ela havia lido um texto que eu escrevi e foi publicado no jornal do sindicato local. Eu criticava o sistema educacional neurótico por números, realidade não só em Volta Redonda (RJ), mas no Brasil inteiro. Aliás, sistema este copiado de modelos de outros países e que já se mostraram um fracasso. Eu fechava aquele texto de modo extremamente pessimista, contrastando com o sentimento de poder mudar, com o qual eu havia saído da faculdade um pouco mais de um ano antes. A secretária, em algum momento da conversa/inquisição, me disse em claro tom de deboche que era uma pena um professor tão novo e que desistiu tão rápido. Naquele ano, sofri assédio moral na escola, fui transferido algumas vezes, fui parar na sala de informática e resisti. Afinal, queria provar pra mim mesmo que não desistia tão rápido.

Passados 7 anos, não tão novo assim, posso afirmar sem temer julgamentos: eu desisti. Não tenho mais a menor expectativa de mudar o mundo, nem meu país, meu estado, minha cidade ou até mesmo minha escola. Simplesmente reconheço que não sou forte o bastante pra remar contra a maré.

Na escola dos meus sonhos, o aluno é formado para ser feliz e não pra ganhar dinheiro. Ele desenvolve o respeito e a solidariedade, não a competição. Aprende a viver em comunidade e percebe que um país rico não se mede com um PIB. Não há disciplinas mais importantes do que outras. Essa escola tem grupos de teatro, de música, de vários esportes. Ela se abre para o mundo, recebendo pessoas de todos os tipos e formações e que possam compartilhar seu conhecimento e experiência em oficinas, fóruns e seminários. Na minha escola os alunos aprendem Química na cozinha, Biologia na horta, Geografia e História andando na cidade, Matemática na feira, Português em rodas de poesia, Artes nos museus, Educação Física na quadra de skate da praça mais próxima. Sala de aula? Pode ser embaixo da mangueira, como nos ensina Tião Rocha. A instituição é apenas um meio. O fim é a Educação.

No ano passado, desci com uma turma para o pátio por uma aula, após um bimestre estressante, depois das avaliações, revisões, solução das dúvidas e apenas aguardando a recuperação, que seria na aula seguinte. Eu iria fazer uma atividade lúdica com eles, não só pra relaxar, mas para melhorar o relacionamento meu com a turma e entre eles também. Iria! Fui impedido de fazer a atividade e tive que retornar para a sala de aula. Eu havia esquecido, ou queria esquecer, que estava numa escola que cultua aquele ambiente sufocante entre quatro paredes como o único locus educacional do colégio. Que advoga a ideia de que mais tempo de aula é igual a maiores resultados, como se os professores e alunos fossem fabricantes de parafusos.

Poderia aqui relatar mais inúmeros casos (alguns deles inclusive já viraram artigos e estão por aí no site) que, juntos, me fizeram declarar derrota. E não coloco a culpa apenas nos governos e nos diretores. Essa escola massificada, preparatório para avaliações e formadora de mão de obra para o mercado é o que a maioria dos professores e pais de alunos também querem. Talvez, de todos os atores envolvidos na educação, aquele que mais deseja uma nova escola seja o aluno, que não aguenta mais ficar 5 horas por dia numa instituição que parou no tempo.

Por fim, vendo a escola de hoje eu não consigo deixar de lembrar de uma vez que fui ao médico com muita dor no braço e fui atendido por um profissional que em momento algum olhou pra mim. Preenchia formulários e fazia perguntas. Saí de lá com uma tala no braço e sem entender como chegamos ao ponto de ter veterinários mais atenciosos com seus pacientes. Aquele médico uma vez foi aluno e aprendeu na escola o que exercia em sua profissão. Afinal de contas, para ser um bom aluno basta ser bom no conteúdo. Por que para ser um bom médico seria diferente? Também me lembro do Sérgio Naya, aquele engenheiro que construiu um prédio com areia da praia. Era um bom aluno em Matemática, certamente, e quem sabe até ganhou uma medalha em uma destas Olimpíadas. E os políticos? Como bom oradores, talvez fossem bons alunos também. Mas de que vale estes conhecimentos se não são acrescidos de valores? Respeitar, ser solidário, entre outras coisas se aprende com o exemplo. E se a escola não estiver preparada pra isso, continuaremos a ver mensalões, Palace II e consultas médicas relâmpagos.

Lei da Ação e Reação na Educação

Newton estava certíssimo, não só no domínio da Física, mas, sem ele saber, até nas relações humanas.

Trabalho em duas escolas. Hoje, sou dois professores.

Em uma escola tenho três turmas médias, com cerca de 25-30 alunos; em outra, três turmas pequenas, com 20 alunos em média.

As características dos alunos de uma e de outra me fazem ser um e outro professor.

Na primeira, sou recebido pelos alunos com sorrisos e bons dias. Faço trabalho em grupos, de forma lúdica, independente, com liberdade, sou engraçado, mas às vezes durão.

Porém, mantenho com quase todos os alunos e alunas uma relação de camaradagem, cumplicidade, respeito, conversa… Sou às vezes uma espécie de confessor, quando me contam sobre suas vidas, as relações com os pais, coias sobre as descobertas amorosas, etc.

Não é raro, no intervalo do almoço, ter eu um grupo de estudantes que ficam comigo em sala, sem fazer nada. conversando, batendo papo.

Todos os dias alguns me ajudam a arrumar a sala e os materiais, limpar, varrer, tirar pó, molhar as plantas.

Todos os dias, sem exceção, diversos alunos vêm de outras turmas – que nem são minhas – falar comigo, me dar bom dia, apertar a minha mão. Não raro pedem para ficar em minha sala, pedem permissão ao outro professor, fazem rápido o trabalho que têm que fazer com ele e ficam depois comigo o resto do tempo.

Tenho um rádio e um aparelho de som ligado ao computador em que deixo tocando na aula músicas de relaxamento, músicas clássicas ou, por vezes, músicas solicitadas por eles mesmos.

No corredor, ao lado da porta da sala, coloquei duas mesas e um armário com livros. Algumas aulas um ou dois grupos ficam ali, do lado de fora, fazendo o trabalho.

Por vezes fico cercado de alunas me contando de suas experiências, fazendo perguntas.

Não, não é o céu, nem a melhor maravilha do mundo e, sim, tenho muitos problemas e aborrecimentos com alunos. Alguns em especial. Mas a relação entre mim e eles é, em sua grande maioria, agradável, simpática e respeitosa. Posso falar, perguntar, fazer brincadeiras.

Os trabalhos em grupo rendem, os alunos – com as exceções de sempre – produzem, perguntam, me chamam fazendo questionamentos.

Enfim, o tempo passar rápido e, de certa forma, agradável.

Na outra escola sou recebido com um “ah, professor, por que que você veio?”. Continua em sala logo de início com um “hiii, professor, passa nada hoje não!”.

Assim que coloco o título do assunto no quadro eles já começam com um “chega, professor!”.

Já tentei fazer os mesmos trabalhos, os mesmos projetos, as mesmas atividades que as outras escolas. Mas, depois de diversos aborrecimentos, brigas, insistências, desisti. Parei.

Já fui xingado; já levei bola de papel; já fui acusado de ser pedófilo (sério!); já fui acusado de chamar os alunos de putas e de bandidos. Não, nada disso é verdade. Eu costumava conversar com eles como converso com os alunos da outra escola, tentando demostrar a importância do estudo, da falta de oportunidade das pessoas que não estudam e não conseguem seguir estudando, da dificuldade de conseguir bons empregos daqueles que passam pela escola sem aprender o mínimo que deveria e, quando têm que entrar no mercado de trabalho, não lhes restam muitas opções. Dentro deste contexto, já dei exemplos de vários ex-alunos dali que se tornaram bandidos, traficantes e que morreram ou estão presos. Não são poucos. Nisso, num dia virei o professor que os chama de bandidos e putas.

Não há conversa. Não temos a mesma linguagem, nem consigo chegar a que me entendam.

Os papos dentro de sala são repletos de palavrões, xingamentos e agressões.

Hoje, só consigo entrar calado, sair mudo, nem consigo conversar ou manter um diálogo seja lá sobre o que for.

Coloco a “matéria” no quadro, eles copiam. Termina a aula, eles saem. Só.

E não me julguem. Quem quiser julgar ou me dar conselhos, antes de tudo, venha pra escola. Aqui vive com falta de professor.

Aliás, uma das turmas está desde o início do ano sem professor de História, por exemplo.

Saia de seu gabinete e venha nos fazer companhia.

Eu só estou esperando as férias chegarem pra poder descansar um pouco e, quem sabe, no recomeço do ano que vem tentar ao menos uns meses de bons trabalhos e boas relações.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professores.

“Não haverá reforma eficiente na educação sem melhorar o salário do professor”

“Não haverá reforma eficiente na educação sem melhorar o salário do professor”.

Que lindo!

Quem disse isso? Claudia Costin, ex-secretária municipal de educação do Rio de Janeiro – agora alçada ao Banco Mundial pelos seus “relevantes serviços” à educação.

É sério! Ela disse isso mesmo! Veja aqui.

Que queu posso dizer em relação a esta afirmativa que não seja ofensivo? É uma ironia? Sarcasmo? Brincadeirinha?

“Por que, Declev?”, poderia me perguntar algum desavisado que acredita em tudo o que lê.

Ora – respondo eu – porque eu tenho experiência própria. Sou professor do município do Rio de Janeiro há 11 anos e professor do município de Niterói ha 16 anos.

Quando entrei no Rio, eu tinha 5 anos de Niterói. Quando entrei no Rio, ganhava 20% a mais – no salário bruto – do que em Niterói.

E, hoje, depois de alguns anos de administração eduardo paes e claudia costin, eu recebo no Rio em meu salário bruto nada mais nada menos do que dois mil reais A MENOS do que Niterói.

Passou, em alguns anos, de 20% A MAIS pra 2 mil A MENOS, em comparação com minha outra matrícula.

Ela promoveu o maior achatamento salarial que eu já vi. E agora solta uma frase dessas?!? Só pode ser escárnio!

Mas a coisa ainda pode ser pior, acreditem. Há outras pérolas na reportagem linkada acima.

Segundo a matéria, a ex-secretária acha que os professores não devem ser tratados como vítimas. Segundo suas palavras:

“É preciso haver mais respeito da sociedade pela função do mestre […]  ele deve se ver como uma vítima. Ele tem que se tratado como um profissional com dignidade. Isso não quer dizer não só um salário contente [sic], como quer dizer também respeito social pelas suas práticas.”

Pois então, retornando às suas ações durante sua gestão na secretaria de educação municipal do Rio de Janeiro, eu posso dizer, sem ter medo de ser injusto, que foi uma das mais desrespeitosas às práticas dos professores que eu já tenha tomado conhecimento.

Os saberes e práticas dos professores foram absolutamente desqualificados e esquecidos, marcando-se a gestão pela compra – sempre SEM LICITAÇÃO, diga-se de passagem – de diversos programas, projetos, materiais advindos de fundações, instituições e gráficas particulares, em detrimento do conhecimento do professor.

Eu já falei diversas vezes por aqui (veja aqui alguns exemplos). O professor passou a ser um mero reprodutor de conteúdos produzidos pelas empresas, como da sangari, fundação roberto marinho, instituto airton senna ou de uma apostila mal feita impressa em uma gráfica que, quem sabe?, pode ter apoiado a eleição do prefeito.

E, agora, ela acha que o professor tem que ser respeitado e ter um bom salário.

Ao menos fez-me rir, porque eu choro de raiva toda vez que vejo o contracheque que herdei de sua gestão.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Recebendo dois mil reais A MAIS em Niterói

Aluno leva tiro na cabeça dentro de sala de aula – Escolas Roletas-Russas

Esta semana fomos surpreendidos pela notícia de um aluno que foi baleado na cabeça dentro de uma escola no Rio de Janeiro. Aconteceu na Cidade de Deus, bairro imortalizado em um filme e com famoso histórico de violência.

O aluno estava SENTADO em sala de aula do TERCEIRO andar, quando caiu da cadeira. Os amigos pensaram que ele tinha levado uma pedrada e chamaram o professor, quando este percebeu que se tratava de uma bala “perdida”. Mais uma bala perdida que se acha.

Soube que NINGUÉM do SEPE ligou pra escola nem foi lá.

Soube que NINGUÉM da CRE [Coordenadoria Regional, órgão da Secretaria de Educação] ligou ou foi lá prestar algum auxílio. Somente depois de tudo é que eles “telefonam pra dizer o que fazer”. Segundo a secretaria, ela “mantém um programa em que envia pedagogos, psicólogos e assistentes sociais às escolas em casos de situações difíceis” (fonte).

Como sei disso? Uma amiga minha dá aulas naquela escola e estava lá no dia. Ela ajudou a socorrer e acalmar o caos que a escola ficou.

Nós estamos sujeitos a isso todos os dias. É uma roleta-russa diária. Podem querer argumentar que qualquer pessoa está sujeita a estes acontecimentos em qualquer lugar. Mas não é a mesma coisa.

Praticamente os únicos profissionais que entram nos locais de conflito por estas bandas – que matam mais que qualquer guerra no mundo – são os policiais e os professores.

Com a diferença que os policiais entram armados e para matar. Os professores entram “na mão”.

Mais ninguém.

A fatalidade que atingiu este aluno poderia ter ocorrido com qualquer outra pessoa que estivesse ali dentro daquela sala de aula. E, adivinhem: quem mais estava lá dentro, além dos alunos e professores?

Alguém da secretaria de educação? Não.

Algum policial? Não.

Algum político? Não.

Algum especialista em educação dos que ficam verborragiando suas verdades e nos dizendo como devemos proceder na escola? NÃO mesmo!

Por acaso o empresário economista que se diz “especialista em educação” gustavo ioschpe que adora dizer que os professores são incompetentes estaria lá? NUNCA!

Algum deles, por acaso, algum dia poderia ter a mínima chance de lhes ocorrer alguma fatalidade dentro de uma sala de aula?

NUNCA! Sabem por quê? Porque a sala de aula NÃO É nem NUNCA FOI o local de trabalho deles! É somente o local do qual adoram falar sobre, sem NUNCA terem tido nem mesmo uma semaninha de experiência de tratar com uma turma de crianças e adolescentes de uma escola de periferia ou de comunidade violenta.

E, quem já entrou e saiu, esqueceu.

Mas, claro, adoram defecar asneiras pela boca, afirmando que as escolas devem ser classificadas em “Melhores” ou “piores” conforme as “notas” do alunos. Ou que os professores não devem ganhar bem porque não sabem trabalhar. Ou que somente devem receber “bônus” salariais aqueles que tiverem “bons resultados”.

Vejam alguns posts nos quais já falei sobre isso:

Agora gostaria que estas ANTAS (já pedindo perdão aos amigos perissodáctilos) me digam que justiça se tem em comparar os resultados obtidos nestas escolas localizadas em áreas de verdadeiras guerras urbanas com outras localizadas em áreas mais nobres da cidade.

Gostaria que as BESTAS defensoras da meritocracia me digam: como se estuda decentemente nestes lugares?

Se a violência não entra na escola janela adentro, entra no imaginário, no psicológico, na estrutura emocional, na fala, nas atitudes dos alunos.

Mas entra.

E enquanto a violência entra nas escolas de todas as maneiras, dissimulações, imbecilidades, falcatruas, roubos, desvios e propostas idiotas saem “pelo ladrão” de dentro dos podres poderes.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Sobrevivente

Ainda o fantasma da meritocracia na educação

Qualquer ser com mais de dois neurônios e que pare para utilizá-los, vai perceber que a meritocracia baseada em “resultados” não funciona com a educação. Me desculpe a grosseria misturada com franqueza, mas este tema me irrita.

Eu já falei por aqui diversas vezes sobre este assunto, veja algumas:

Isso é coisa de quem trabalha com coisas, e não com gente.

Ora, por mais que uma determinada estrutura física pudesse ser a mesma em todas as escolas, o seu público não é. Então, a escola estar situada em uma zona de conflito, onde tudo falta, será bem diferente do que uma situada em bairro tranquilo e seguro de classe média.

Como medir meritocraticamente os profissionais das duas? Pelos resultados de seus alunos? Pelas faltas?

Supõe-se, entretanto, que um professor que está em uma sala de aula com 40 alunos provenientes de um bairro violento vai se desgastar – física e mentalmente – muito mais do que um que está em uma sala com 25 de um bairro que tem todos os direitos sociais assegurados.

Como exigir que ambos tenham o mesmo rendimento ou as mesmas faltas?

Uma escola situada em bairro dominado pelo tráfico – sim, isso existe, gente! – fecha suas portas diversas vezes ao ano por conta da violência. Isso fora quando não fecha, mas tem aulas no meio de uma guerra, com os alunos estressados, amedrontados ou excitados demais para ouvir o professor.

Como querer que eles tenham os mesmos resultados que outros?

Como eu disse, isso é coisa de quem trabalha com coisas, não com pessoas.

É muito fácil fazer isso em uma fábrica: o trabalhador que fizer mais “coisas”, com as mesmas condições de trabalho, é melhor que outro (e ainda assim, há variáveis, como a própria vida de cada trabalhador).

Se você dá mais condições, aumenta o salário, compra novos equipamentos, oferece novas oportunidades, você há de esperar que o operário consiga fazer mais “coisas”.

Mas “coisas” não têm vontade própria, não sofrem com a violência, não te respondem, não dizem “eu não quero fazer isso”, não são traumatizadas por violências sexuais ou físicas, não passam mal, não têm medo.

Coisas são coisas.

Pessoas são pessoas. Têm livre-arbítrio, têm medo, sofrem, têm dor de barriga, ficam doentes, escolhem se vão realmente ler o livro e estudar – como o professor propõe – ou vão ficar somente olhando para o livro fingindo ler alguma coisa.

Mas, eis que, então, o setor industrial – este mesmo que doa (empresta) milhões para a campanha de políticos corruptos, que muitas vezes explora a mão-de-obra de seus funcionários de forma injusta, que produz os bens de consumo que só aquela classe média que tem toda  a estrutura pra estudar pode comprar, enquanto os outros são compelidos a ter vontade de ter, sem poder, eis que este setor que trabalha com coisas, resolve interceder na educação – que trabalha com pessoas – porque acha que a educação está ruim.

Diga-se de passagem, esta mesma educação levada a cabo pelos políticos corruptos que eles mesmos ajudam a se eleger por meio de doações milionárias.

Eles querem “influenciar a política educacional”. Então,

Preocupada com a perda de produtividade do trabalho na economia brasileira e ciente de que a qualidade do ensino tem impacto em várias atividades, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) está determinada a influenciar mais os rumos das políticas educacionais no país e lança estudo com 11 recomendações que possam contribuir com um avanço da educação nacional.

Segundo a cni, a  educação pública tem que estar mais “alinhada” com o mundo do trabalho.

Para isso, dentre outras propostas, sugerem uma gestão da educação e a alocação de recursos baseada em avaliação e resultados e, para isso – lá vem ela de novo – deve-se tratar da meritocracia para os professores.

Vejam: eles querem “a alocação de recursos orçamentários ‘com base em resultados e meritocracia'”!! Isso quer dizer o quê? Que as “piores” escolas – provavelmente aquelas que mais precisam – devem receber menos recursos???

Para os jênios que fizeram o documento, a meritocracia “cria condições adequadas de trabalho para atrair e reter os melhores e mais talentosos profissionais da área de educação.”

Para eles,

“É uma forma de a educação evoluir evitando desperdícios. Quem critica segue uma lógica corporativista e expõe uma visão atrasada no debate educacional. Não existe atividade humana que avance sem gestão nem meritocracia. Ao mesmo tempo é preciso investir mais nas escolas e alunos com os piores desempenhos, isso é um approach de cidadão, de inclusão”, avalia Lucchesi.

Eu sublinhei a passagem acima, pois os jênios entendidos de educação acham que ser contra a meritocracia na educação “expõe uma visão atrasada no debate educacional”.

Mas, vejam, os EUA já fizeram isso há mais de 20 anos e, hoje, percebem que não dá certo e estão tentando voltar atrás. Quem diz isso? Nada menos do que Diane Ravitch, a pessoa que implantou este sistema por lá. Ela ja fez o mea culpa e explicou os motivos para que não dê certo. Já falei sobre isso por aqui, no post a vanguada do atraso.

E eu que sou contra que tenho uma visão atrasada?

Como eu disse, quem trabalha com coisas, não deveria dar pitacos como entendidos em educação, que trabalha com pessoas.

Mas uma das últimas frases resume todo o pensamento político-filosófico-pragmático-ideológico por trás da inocente iniciativa:

“As empresas precisam se engajar mais na formação das pessoas. É preciso atrair e reter talentos e treinar recursos humanos para as condições específicas da empresa e da sua cadeia de valor.” Fonte

Sem mais.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Escola ou posto de saúde?

A mãe liga pra escola de manhã, meia hora antes de começar a aula:

– Escola Ypsilon, bom dia!

– Oi, aqui é a mãe do aluno Fulano de Tal. Eu tô ligando pra dizer que tivemos um problema aqui, um vaso de cerâmica caiu na testa do meu filho, que estava dormindo, e abriu a testa dele. Era um vasinho de cerâmica que ganhei de presente, tava ainda no plástico, mas tava numa janela acima da cama aí caiu e machucou ele. Eu estou ligando pra dizer que já coloquei um band-aid no ferimento e mandei ele pra escola pra fazer o curativo aí, com o enfermeiro.

– Mas, mãe, aqui não é um posto de saúde, o enfermeiro não é pra fazer curativos. Se ele machucou, tem que levar ao hospital ou ao posto de saúde. Tem um aqui perto, leva ele pra lá!

– Ah, não. Ele já saiu daqui. Deve estar chegando aí. [e o telefone: pu pu pu pu pu pu….]

– ….

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Copa do Mundo 2014 e os investimentos em educação

Os protestos contra a copa do mundo sempre vêm acompanhados de motes como “quero educação padrão fifa” ou “da copa eu abro mão, quero dinheiro para saúde e educação”.

Ao contrário do que pensam, estas reivindicações fazem sentido. Quem está dentro da escola é que sabe que o dinheiro “da educação” não é somente “para a educação”.

Para fazer qualquer coisa na escola é um sufoco. Obra, climatização, compra de materiais, aluguel de ônibus para passeios, dentre outros,  são sempre acompanhados de um “não tem dinheiro” ou de uma burocracia sem fim que, ora inviabiliza a concretização, ora faz demorar meses e meses para fazê-lo. As pequenas verbas que as escolas recebem são sempre “carimbadas” e com 1001 exigências.

Então, se tem dinheiro, não se usa; se se usa, é pouco; se é suficiente, é mal empregado. Poderia dar inúmeros exemplos, mas não é caso deste artigo.

E, enquanto isso, 99% das escolas, para ser bondoso, não têm as condições ideais de funcionamento.

Para os professores, nunca se tem dinheiro para melhoria salarial ou do plano de carreira. A regra do 1/3 do horário do professor que deve ser dedicado ao planejamento de suas aulas não é cumprida e vem sendo de toda forma burlada pelos gestores, com a desculpa de que “não tem dinheiro”. Em breve vou escrever, assim que tiver estômago para isso, sobre as tentativas de burlar a lei que estão ocorrendo nos municípios do Rio e Niterói, dois dos mais ricos do Brasil.

Ora, quando pedimos aumento, não tem dinheiro. Quando queremos 1/3 do tempo para planejamento, não tem dinheiro [pois teriam que contratar mais professores].

Mas, para dizer que os 30 BILHÕES gastos para a copa do mundo equivale a “apenas” 1 mês do que é “gasto” com a educação, enchem a boca!!!

Copa equivale a um mês de gastos com educação http://brasil247.com/+luwd8 – Alvo central das manifestações de rua e greves que perturbam o país, investimento público no Mundial, destinado a estádios, projetos de transporte urbano e aeroportos, soma R$ 25,8 bilhões – o equivalente, por exemplo, a 9% das despesas públicas anuais em educação, de R$ 280 bilhões; valor do evento foi o mesmo gasto em Belo Monte, maior obra financiada pelo governo.

A matéria da Folha de São Paulo sobre os gastos com a Copa e a educação: http://goo.gl/WpDUmF

E ainda fazem “figurinhas” pra tentar desqualificar a luta dos professores:

Copa do Mundo

Então, deixe-me fazer algumas ponderações sobre isso para as Polianas…

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Dinheiro pra saúde e educação é obrigação, inclusive previsto na Constituição: os três níveis de governo devem destinar um percentual mínimo da arrecadação para a educação (18% no caso da União, e 25% no caso dos Estados e municípios).

E não é um simples “gasto” nem é o mesmo tipo de investimento que em estádios. É o investimento primordial que um país deve realizar, pois dele advém todos os outros: saúde, comportamento, civilidade, segurança, etc.

Agora, vamos comparar também. Consideremos os 30 bilhões gastos com a copa. Só com meia dúzia de estádios foram 8 bilhões.

Só um adendo: veja a figura da direita acima em que a assessoria da dilma coloca INCIATIVA PRIVADA na construção dos estádios (como se BNDES não fosse dinheiro do governo) e leia este artigo: Governo admite que não conseguiu mobilizar iniciativa privada para a Copa.

Mas vejamos agora o que é gasto com a educação – uns 280 bilhões, certo?

Neste valor ANUAL (cerca de 23 bilhões por mês) estão TODAS as universidades federais (quase 70!), escolas técnicas, institutos de educação, colégios de aplicação, além de todo o dinheiro dos fundos (FUNDEB, FNDE, etc.) que vão para estados e municípios; o dinheiro do PDE (Dinheiro Direto na Escola); o dinheiro de 30 milhões de livros do PNLD… o que mais?

Que comparação esdrúxula é essa???

Uma coisa é manter-se toda esta estrutura da educação, outra coisa é gastar-se bilhões em obras faraônicas que, possivelmente, em breve muitas nem estarão mais em condições nem de ser usadas, pois provavelmente poderão nem ter como se manter, nem terão público para tanto.

Vide, por exemplo, algumas obras que foram feitas para o Pan, aqui mesmo no Rio, que estão ou ficarão inoperantes, desabando e que nem servem mais para uso, por exemplo, nas olimpíadas. Observe a “previsão de custo” e o custo final.

Mas você acha que não acontecerá o mesmo com estas de agora??

Então, não é só uma simples questão de “quantidade” de dinheiro, mas também da qualidade de seus gastos. Não é possível achar-se “normal” ou “necessário” o gasto que se teve para colocar abaixo o maracanã e “reformá-lo”, agora, praticamente, para uso da elite (pois pobre está socio-cultural-financeiramente excluído dali). Só ali foram enterrados, literalmente, mais de 1,3 BILHÃO de reais!

E, mais um detalhe: quem vai LUCRAR com o maracanã? Uma empresa privada!

Governo gasta com estádios, mas não vai controlar nenhum depois da copa

Se você acha isso normal, eu não acho.

Não gastasse todas estas elucubrações, ainda podemos dizer que estes eventos tem sido mote para uma série de desocupações e outras barbáries, por exemplo, com o povo aqui do Rio:

E, enquanto isso, sim, É VERDADE que temos escolas e hospitais públicos caindo aos pedaços, mesmo com tantos “bilhões” “investidos” nestes setores.

Tem algo errado.

Para quem acha que ter este tipo de pensamento e protestar contra a copa é ter um “complexo de vira-latas” e tem o discurso de “viva a Copa povo brasileiro, aproveite este momento, valorize o papel que o Brasil tem no mundo”, chegando a cúmulo de achar que “o que tinha que ser roubado já foi” [!!!], eu tenho um recado: leia novamente os dois itens lá em cima e repare na expressão utilizada duas vezes “por pressão popular”, deixe de ser Poliana e comece a raciocinar.

Você pode se surpreender.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
f* a copa, quero aumento de salário e condições de trabalho