Arquivo da categoria: Histórias reais da educação brasileira

Professor? Pois não?

Sobre as perguntas “padrão” dos alunos, eu já escrevi por aqui.

Sempre foram as mesmas. Sempre são as mesmas.

As mesmas. As mesmas. As mesmas.

Mas a cada dia parece que eles se superam, pois a mesmice se aprofunda…

Mao

Você fica 10-20 minutos explicando o trabalho proposto. Fala tim-tim por tim-tim o que é pra fazer. No meio da explicação (sim, te interrompem), uma pergunta:

– Professor?
– Oi
– Posso ir no banheiro?

Você ignora o fato. Chama a atenção para que eles prestem atenção. Termina a explicação, bem explicada, abordando todos os pontos do trabalho. Senta em sua cadeira, esperando que eles comecem o que é pra fazer.

– Professor?
– Oi
– Olha aqui, tá me batendo!!

Ignora o fato. Afinal, eles sentam juntos, em grupo (é sempre o mesmo grupo, por afinidade, escolhido por eles mesmos). VocÊ fica atento pra ver se estão começando a fazer o trabalho, se eles estão com dificuldades, etc.

– Professor?
– Oi
– Ele pegou minha borracha!
– Que que você quer queu faça?
– Manda ele me entregar
– Entrega a borracha – falo, com ironia e com cara de saco cheio.

Você se vira para o outro lado e continua o que está fazendo, esperando uma dúvida sobre o trabalho que teoricamente deveriam estar fazendo.

– Professor?
– Oi – É agora!, você pensa…
– Tem lápis?
– Cadê seu material?
– Eu não tenho.
– Pede do colega ao lado.
– Roubaram.

Você manda ele pedir um à direção (um aviso: NÃO EMPRESTE os seus, porque senão você vira refém e vira fornecedor!) e vai andar pela sala, vendo o que estão fazendo [ou não].

– Professor? – chama uma aluna lá no outro canto.
– Oi? – você chega perto para saber a dúvida.
– Tá em que página?

Considerando que o que você passou é uma pesquisa, para que eles procurem as informações, consigam estudar e aprender algo… eu desisto e espero o sinal tocar.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Oi?

A escola tá um caos! – Por que será?

Chego à escola meia hora atrasado, atipicamente, depois de uma hora e quarenta minutos de trânsito, em pé em ônibus lotados e quentes – quando demoro, em dia normal, em média 40-50 minutos pra chegar.

No portão da escola, uma mãe irritada vem saindo e me pergunta: “Você é professor?”

– Sou.

– É novo?

– Ãhn?

– É novo na escola?

– Não. – Respondo, já sem paciência… (tenho 11 anos nesta escola).

– Você veio pra ajudar?

– Ãhn?

– Você veio pra ajudar a escola?

– Ãhn?

– A escola tá quase sem professor, um monte de turmas em horário vago, sem ter aula!

E ela veio falar isso PRA MIM, como a reclamar DE MIM, que sofro as mazelas da escola junto com os alunos, lá dentro e fora dela???

Mexeu com a pessoa e na hora erradas.

Respondo, ao final, já irritado de

  • 1:40h de engarrafamento;
  • salário achatado;
  • terem retirado o difícil acesso porque aqui “tem mais de duas linhas de ônibus” (menos R$ 222,00 no já baixo salário);
  • terem retirando e modificando as regras do plano de saúde;
  • receber apenas 12,00 de alimentação por dia de trabalho;
  • não ter ar condicionado na sala dos professores;
  • não ter nem bebedouro para os professores;
  • a escola estar sem cadeiras nem mesas para os alunos;
  • ter sala sem portas;
  • ter salas sem ar condicionado NEM ventilador…

– Tá sem professor porque as pessoas não aguentam, muitos estão doentes, de licença! Elas faltam porque não são respeitados, tiram tudo da gente e daqui a pouco estaremos pagando pra trabalhar. E tudo cai na cabeça do professor!! Assim é melhor ficar em casa!!!!

Entrei e fui trabalhar.

Está em curso um processo muito bem engendrado de falência intencional da educação pública na cidade do Rio de Janeiro.

Mas a secretária que começou isso saiu com láureas e o prefeito que impõe a falência é reeleito.

E um bando de ignóbeis ainda vocifera “chega de Paulo Freire”.

Pais lindo, povo gentil.

Abraços,

Declev Reynier Dib Ferreira
Cansado

O que não aprendemos na faculdade sobre o Conselho de Classe?

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse momento final do ano letivo. Aliás, ultimamente não tenho escrito quase nada, a não ser quando estou tão estressado que apenas o desabafo nos teclados aliviam a tensão.

Primeira coisa que me irrita: o professor passou o ano inteiro com o aluno e avaliou todo este tempo se ele está apto a progredir em sua disciplina. Quando o discente não atinge a nota, fazemos uma reflexão levando em conta vários aspectos. Se achamos que ele tem condições de seguir adiante, damos uma ajuda e fim de papo. Caso contrário, fim de papo também. Só que não! No Conselho de Classe irritante (como o que acabei de ter) o professor tem que justificar o que levou o aluno a ser reprovado, quase como se ele tivesse no banco dos réus se defendendo. Sei que existem professores e professores, mas quando você tem consciência do trabalho que faz (e a equipe diretiva/direção conhece bem) é profundamente humilhante esta posição. E mais, se a preocupação é com o aprendizado do aluno, por que passar o ano inteiro e deixar pra discutir nota no final? É parecido com aquele pai que aparece na escola só em dezembro querendo saber do professor por que seu filho está com nota vermelha.

Segunda coisa que me irrita: quando a equipe diretiva/direção (pelos motivos que todos sabem) insiste em algum aluno, o caso é aberto para o Conselho decidir. Mas, como assim, então um professor de Português tem o direito de aprovar um aluno que reprovou em Matemática? Então o trabalho que um professor fez ao longo do ano é jogado fora? Não serviu de nada? Mais uma vez eu faço um parênteses por saber que existem casos e casos. Não estou falando daquele aluno brilhante que um professor não foi com a cara dele e por isso o reprovou. A regra do aluno aprovado pelo Conselho é para casos como esse. Estou falando de situações normais, ou seja, professores sérios e alunos com dificuldade ou que simplesmente não cumpriram suas tarefas ao longo do ano (isso sem considerar o número de chances que os alunos de hoje em dia têm com inúmeras recuperações. Na rede citada aqui, para cada avaliação há uma recuperação). Enfim, acho profundamente antiético um professor se intrometer no trabalho do colega e dizer que um determinado aluno deve passar. Fico explodindo por dentro quando eu vejo isso acontecer. E o pior é que sempre acontece. Caro colega, tenha algo em mente: alguns alunos não são os mesmos com todos os professores. E, mais grave do que isso, alguns apresentam dificuldades apenas em certas matérias. Um aluno pode ter discalculia, por exemplo. Lembro de um destes Conselhos em que um professor conclamou que eu entrasse no clima natalino e fosse bondoso. É lamentável ver colegas com tamanha alienação. Nada dói mais na Educação quando vemos colegas que te conhecem como profissional não ficarem ao seu lado em momentos como este. Pressão da equipe diretiva/direção eu já estou acostumado, mas fogo amigo é coisa que não suporto.

Terceira coisa que me irrita: o jeitinho brasileiro presente em cada um de nós. Adoramos criticar os descaminhos de servidores públicos, sobretudo políticos. Para nós, isso é uma prática deles, não nossa. Nós somos honestos, seguimos todas as regras… será? Na Educação, o que não falta é exemplo de práticas nebulosas. Quem nunca deu um jeitinho para burlar o aulas previstas e dadas? E faltas? No meu caso, me recusei a dar zero para uma aluna que faltou todas as aulas do bimestre. Aliás, o sistema (on line) nem aceita neste caso. Pra mim, zero é nota. Como vou dar uma nota para uma aluna totalmente ausente? Solução da direção: Tira uma falta da aluna (para mentir que ela veio um dia) que o sistema vai aceitar o zero. Quando insisti que não faria isso, o diretor me ameaçou dizendo que minhas notas ficariam pendentes, que eu seria chamado no recesso e tomaria falta se mantivesse minha posição. Tá né, dinheiro não é tudo na vida! Tô esperando o desconto…

Enfim, tô cansado de tudo isso. Foram só duas turmas e amanhã ainda tem mais duas. Isso só numa escola. Na outra tem oito ainda esta semana. Todo ano é a mesma coisa, uma sensação de ir para um campo de batalha. Você sai exausto e profundamente frustrado, seja qual for o desfecho. Tudo isso por quê? Porque o maldito sistema cobra números, ou seja, aprovações. Todo o resto é apenas isso: resto. Seja um professor que não reprova e você não será aborrecido. Deviam ensinar isso nas faculdades de Licenciatura.

Crônica de minha volta

Estive em Licença Paternidade, em Niterói, após o presente recebido com o nascimento de minha filha.

Depois de uns 35 dias sem escutar funk, eis que ele surge novamente em minha vida.

Depois de uns 35 dias sem ouvir palavrões em cada frase que entra em meus ouvidos, eis que eles estão de volta dentro de mim.

São dois ônibus. O primeiro não demora a chegar e, 20 minutos depois, estou no outro ponto. Mais uns 30 minutos esperando, chega o segundo ônibus de minha jornada. Ele vem vazio e segue seu destino. Depois de passar por montes de ônibus parados atrapalhando o andamento da rua num “ponto final” improvisado, segue serpenteando pela rua estreita, desviando de lixo, entulho, porcos, carros abandonados, montes de areia, carros na contra mão e gente. Por enquanto, não desvia de muitos buracos, pois a via foi recapeada há pouco tempo. De reurbanização, só isso.

Ao começar entrar na comunidade, começa a entrar gente. Porta única, se tem gente pra sair e gente para entrar, há impasses momentâneos e o ônibus perde tempo na espera.

Mas o tempo não se perde só nisso. Alguns novos passageiros passam pela roleta. Os que têm gratuidade – a maioria: alunos, idosos, deficientes – precisam passar o dedo numa máquina de leitura de digitais. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo.

Se é irritante ler repetidas vezes, imagine em um ônibus com cerca de 12 pessoas para entrar quando várias delas precisam passar por este processo. Ficamos parados em determinado ponto uns 10 ou 15 minutos. Em outros por 5 ou 10 minutos.

Mas pode ser pior. Muitos passageiros não passam pela roleta, dentre homens e mulheres, adolescentes e crianças, apesar de terem cartão de passagem, a maioria gratuitamente, com o dinheiro de nossos impostos.

E dizem – prefeitura e seus amigos empresários – que isso é “cidadania”.

Aglomeram-se na parte da frente, no espaço delimitado pelas roletas, o motorista, o vidro dianteiro e a porta da frente.

A porta da frente não fecha, pois há montes pendurados, às vezes por apenas uma mão.

Crianças pulam pela janela para dentro do ônibus, em uma destreza olímpica.

O motorista levanta, grita algo, não sai com o ônibus com a porta aberta. Novidade, pois sempre saíram com crianças penduradas na porta, segurando-se por fios de dedos enquanto o coletivo serpenteava alucinadamente por ruas caramujentas, cheias de meandros.

Um dia cheguei a argumentar sobre o perigo com um motorista, profissional responsável dos que esta formidável empresa costuma contratar. “Imagina se um garoto destes cai!”, disse eu, apelando para o bom senso que achava que havia no fundo do poço.

Mas o poço era ainda maior.

– “Se morrer eu respondo em liberdade”, disse-me o motorista, argumentando que não fechava a porta porque eles brigavam com ele, se tentasse, e ele não queria aborrecimentos.

Mas um dia caiu.

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Depois de pés pisados, gritos, apertos e diversos guris e gurias pulando a roleta, a porta se fecha e o ônibus sai. Antes da roleta, lotado. Atrás (ou seja, na maior parte do ônibus), vazio.

Ao fundo, um funk no celular, alto, como se todos gostassem. Não gosta? Dane-se.

Nas próximas paradas, não para. Passa direto deixando diversos alunos e outras pessoas a ver navios – ou a ver ônibus. Se quiserem, que vão a pé!

Furando todos os outros pontos, chega ao destino e começa a esvaziar. Hora de descermos quase todos, indo em direção à escola.

Chego nela um pouco mais de uma hora depois de ter saído de casa, apesar de estar na mesma pequena cidade que figura entre as 5 melhores de qualidade de vida no Brasil. Então tá.

Entro em sala e sou agraciado com a frase quase gritada “quem me come quieto come sempre… galinha!… cachorra!…”. As pérolas continuam com um “meti o piru nela” e seguem com “seu babaca!!” e outras.

Perco um tempo fazendo a chamada e arrumando o diário – o que é mais importante que a aula em si, e isso não é um exagero – e esperando os alunos se acalmarem e entrarem em sala, um após o outro, mais atrasados do que eu.

Outros gritos, outros palavrões, outros tapas nos pescoços e xingamentos depois, a aula que praticamente não teve acaba, mas não sem antes de minha própria bateria ter acabado, quase antes mesmo de começar o dia.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Zumbi

Ok, eu desisto!

Faz tempo que não escrevo sobre Educação. Aliás, sobre assunto algum. Primeiro por motivos pessoais, mas sobretudo porque deixei de ver utilidade no que eu fazia.

Contudo, não pense que mudei de ideia. Talvez esse breve texto seja mais um dos meus desabafos e não tem a intenção de ser um artigo acadêmico. Estou cansado!

Lembro como se fosse hoje de um encontro que tive com a secretária de educação do município onde leciono. Alguns dias antes ela havia lido um texto que eu escrevi e foi publicado no jornal do sindicato local. Eu criticava o sistema educacional neurótico por números, realidade não só em Volta Redonda (RJ), mas no Brasil inteiro. Aliás, sistema este copiado de modelos de outros países e que já se mostraram um fracasso. Eu fechava aquele texto de modo extremamente pessimista, contrastando com o sentimento de poder mudar, com o qual eu havia saído da faculdade um pouco mais de um ano antes. A secretária, em algum momento da conversa/inquisição, me disse em claro tom de deboche que era uma pena um professor tão novo e que desistiu tão rápido. Naquele ano, sofri assédio moral na escola, fui transferido algumas vezes, fui parar na sala de informática e resisti. Afinal, queria provar pra mim mesmo que não desistia tão rápido.

Passados 7 anos, não tão novo assim, posso afirmar sem temer julgamentos: eu desisti. Não tenho mais a menor expectativa de mudar o mundo, nem meu país, meu estado, minha cidade ou até mesmo minha escola. Simplesmente reconheço que não sou forte o bastante pra remar contra a maré.

Na escola dos meus sonhos, o aluno é formado para ser feliz e não pra ganhar dinheiro. Ele desenvolve o respeito e a solidariedade, não a competição. Aprende a viver em comunidade e percebe que um país rico não se mede com um PIB. Não há disciplinas mais importantes do que outras. Essa escola tem grupos de teatro, de música, de vários esportes. Ela se abre para o mundo, recebendo pessoas de todos os tipos e formações e que possam compartilhar seu conhecimento e experiência em oficinas, fóruns e seminários. Na minha escola os alunos aprendem Química na cozinha, Biologia na horta, Geografia e História andando na cidade, Matemática na feira, Português em rodas de poesia, Artes nos museus, Educação Física na quadra de skate da praça mais próxima. Sala de aula? Pode ser embaixo da mangueira, como nos ensina Tião Rocha. A instituição é apenas um meio. O fim é a Educação.

No ano passado, desci com uma turma para o pátio por uma aula, após um bimestre estressante, depois das avaliações, revisões, solução das dúvidas e apenas aguardando a recuperação, que seria na aula seguinte. Eu iria fazer uma atividade lúdica com eles, não só pra relaxar, mas para melhorar o relacionamento meu com a turma e entre eles também. Iria! Fui impedido de fazer a atividade e tive que retornar para a sala de aula. Eu havia esquecido, ou queria esquecer, que estava numa escola que cultua aquele ambiente sufocante entre quatro paredes como o único locus educacional do colégio. Que advoga a ideia de que mais tempo de aula é igual a maiores resultados, como se os professores e alunos fossem fabricantes de parafusos.

Poderia aqui relatar mais inúmeros casos (alguns deles inclusive já viraram artigos e estão por aí no site) que, juntos, me fizeram declarar derrota. E não coloco a culpa apenas nos governos e nos diretores. Essa escola massificada, preparatório para avaliações e formadora de mão de obra para o mercado é o que a maioria dos professores e pais de alunos também querem. Talvez, de todos os atores envolvidos na educação, aquele que mais deseja uma nova escola seja o aluno, que não aguenta mais ficar 5 horas por dia numa instituição que parou no tempo.

Por fim, vendo a escola de hoje eu não consigo deixar de lembrar de uma vez que fui ao médico com muita dor no braço e fui atendido por um profissional que em momento algum olhou pra mim. Preenchia formulários e fazia perguntas. Saí de lá com uma tala no braço e sem entender como chegamos ao ponto de ter veterinários mais atenciosos com seus pacientes. Aquele médico uma vez foi aluno e aprendeu na escola o que exercia em sua profissão. Afinal de contas, para ser um bom aluno basta ser bom no conteúdo. Por que para ser um bom médico seria diferente? Também me lembro do Sérgio Naya, aquele engenheiro que construiu um prédio com areia da praia. Era um bom aluno em Matemática, certamente, e quem sabe até ganhou uma medalha em uma destas Olimpíadas. E os políticos? Como bom oradores, talvez fossem bons alunos também. Mas de que vale estes conhecimentos se não são acrescidos de valores? Respeitar, ser solidário, entre outras coisas se aprende com o exemplo. E se a escola não estiver preparada pra isso, continuaremos a ver mensalões, Palace II e consultas médicas relâmpagos.

Lei da Ação e Reação na Educação

Newton estava certíssimo, não só no domínio da Física, mas, sem ele saber, até nas relações humanas.

Trabalho em duas escolas. Hoje, sou dois professores.

Em uma escola tenho três turmas médias, com cerca de 25-30 alunos; em outra, três turmas pequenas, com 20 alunos em média.

As características dos alunos de uma e de outra me fazem ser um e outro professor.

Na primeira, sou recebido pelos alunos com sorrisos e bons dias. Faço trabalho em grupos, de forma lúdica, independente, com liberdade, sou engraçado, mas às vezes durão.

Porém, mantenho com quase todos os alunos e alunas uma relação de camaradagem, cumplicidade, respeito, conversa… Sou às vezes uma espécie de confessor, quando me contam sobre suas vidas, as relações com os pais, coias sobre as descobertas amorosas, etc.

Não é raro, no intervalo do almoço, ter eu um grupo de estudantes que ficam comigo em sala, sem fazer nada. conversando, batendo papo.

Todos os dias alguns me ajudam a arrumar a sala e os materiais, limpar, varrer, tirar pó, molhar as plantas.

Todos os dias, sem exceção, diversos alunos vêm de outras turmas – que nem são minhas – falar comigo, me dar bom dia, apertar a minha mão. Não raro pedem para ficar em minha sala, pedem permissão ao outro professor, fazem rápido o trabalho que têm que fazer com ele e ficam depois comigo o resto do tempo.

Tenho um rádio e um aparelho de som ligado ao computador em que deixo tocando na aula músicas de relaxamento, músicas clássicas ou, por vezes, músicas solicitadas por eles mesmos.

No corredor, ao lado da porta da sala, coloquei duas mesas e um armário com livros. Algumas aulas um ou dois grupos ficam ali, do lado de fora, fazendo o trabalho.

Por vezes fico cercado de alunas me contando de suas experiências, fazendo perguntas.

Não, não é o céu, nem a melhor maravilha do mundo e, sim, tenho muitos problemas e aborrecimentos com alunos. Alguns em especial. Mas a relação entre mim e eles é, em sua grande maioria, agradável, simpática e respeitosa. Posso falar, perguntar, fazer brincadeiras.

Os trabalhos em grupo rendem, os alunos – com as exceções de sempre – produzem, perguntam, me chamam fazendo questionamentos.

Enfim, o tempo passar rápido e, de certa forma, agradável.

Na outra escola sou recebido com um “ah, professor, por que que você veio?”. Continua em sala logo de início com um “hiii, professor, passa nada hoje não!”.

Assim que coloco o título do assunto no quadro eles já começam com um “chega, professor!”.

Já tentei fazer os mesmos trabalhos, os mesmos projetos, as mesmas atividades que as outras escolas. Mas, depois de diversos aborrecimentos, brigas, insistências, desisti. Parei.

Já fui xingado; já levei bola de papel; já fui acusado de ser pedófilo (sério!); já fui acusado de chamar os alunos de putas e de bandidos. Não, nada disso é verdade. Eu costumava conversar com eles como converso com os alunos da outra escola, tentando demostrar a importância do estudo, da falta de oportunidade das pessoas que não estudam e não conseguem seguir estudando, da dificuldade de conseguir bons empregos daqueles que passam pela escola sem aprender o mínimo que deveria e, quando têm que entrar no mercado de trabalho, não lhes restam muitas opções. Dentro deste contexto, já dei exemplos de vários ex-alunos dali que se tornaram bandidos, traficantes e que morreram ou estão presos. Não são poucos. Nisso, num dia virei o professor que os chama de bandidos e putas.

Não há conversa. Não temos a mesma linguagem, nem consigo chegar a que me entendam.

Os papos dentro de sala são repletos de palavrões, xingamentos e agressões.

Hoje, só consigo entrar calado, sair mudo, nem consigo conversar ou manter um diálogo seja lá sobre o que for.

Coloco a “matéria” no quadro, eles copiam. Termina a aula, eles saem. Só.

E não me julguem. Quem quiser julgar ou me dar conselhos, antes de tudo, venha pra escola. Aqui vive com falta de professor.

Aliás, uma das turmas está desde o início do ano sem professor de História, por exemplo.

Saia de seu gabinete e venha nos fazer companhia.

Eu só estou esperando as férias chegarem pra poder descansar um pouco e, quem sabe, no recomeço do ano que vem tentar ao menos uns meses de bons trabalhos e boas relações.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professores.

Escola ou posto de saúde?

A mãe liga pra escola de manhã, meia hora antes de começar a aula:

– Escola Ypsilon, bom dia!

– Oi, aqui é a mãe do aluno Fulano de Tal. Eu tô ligando pra dizer que tivemos um problema aqui, um vaso de cerâmica caiu na testa do meu filho, que estava dormindo, e abriu a testa dele. Era um vasinho de cerâmica que ganhei de presente, tava ainda no plástico, mas tava numa janela acima da cama aí caiu e machucou ele. Eu estou ligando pra dizer que já coloquei um band-aid no ferimento e mandei ele pra escola pra fazer o curativo aí, com o enfermeiro.

– Mas, mãe, aqui não é um posto de saúde, o enfermeiro não é pra fazer curativos. Se ele machucou, tem que levar ao hospital ou ao posto de saúde. Tem um aqui perto, leva ele pra lá!

– Ah, não. Ele já saiu daqui. Deve estar chegando aí. [e o telefone: pu pu pu pu pu pu….]

– ….

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

A gangorra da Educação em 24 horas

                Não é de hoje que eu digo que a vida de professor é cheia de altos e baixos. São momentos inspiradores que enchem nosso tanque de combustível e outros que parecem nos levar a beira de uma pane. Esta semana não foi diferente.

                Na quarta-feira fui surpreendido ao entrar numa turma de sexto ano: “Não foi eu que te dedei, professor!”. Tentei rapidamente entender o que estava acontecendo e logo fui lembrado da aula do dia anterior. Matéria: a República romana. Além de caracterizar tal regime político e compará-lo com a Monarquia, fiz um paralelo com o nosso modelo republicano, tentando sempre desenvolver a discussão (que começa na matéria da Grécia Antiga) em torno da cidadania. Em meio a tudo isso, eis que surge a questão do ventilador quebrado na sala de aula. E não era qualquer dia, tratava-se do dia mais quente do ano. Sensação térmica superior a 40 graus, número idêntico ao de alunos na sala e… 1 ventilador… desde o início do ano letivo. Sol entrando na sala e suor escorrendo pelo corpo. Cenário perfeito para uma reflexão sobre direitos e deveres. Tentei debater a ideia de que ter os ventiladores funcionando era um direito deles e um dever da escola. Era importante que eles reivindicassem isso. Que tal conversar com os pais e pensar numa forma de manifestação? Esta foi a pergunta final da aula.

Claro que eu não sabia de nada. Era o dia que eu chegava apenas para a 4ª aula e todo o desespero dos alunos não fazia sentido pra mim. No horário da entrada, parte da turma se recusou a subir para a sala de aula enquanto o ventilador não estivesse funcionando. Consequência óbvia:  direção. Lá, se travou o seguinte diálogo relatado pelos alunos:

– Quero saber por que vocês não querem subir.

– Estamos aqui para pedir nossos direitos. O ventilador da nossa sala está quebrado desde o início do ano…

– E vocês acham que têm direitos? Olha, agradece porque não vou dar uma suspensão pra vocês… Quem teve essa ideia?

Agora fazia sentido o pavor dos alunos quando entrei na sala. Mas tratei de acalmá-los e disse que não havia problema algum. Na verdade, por dentro estava cheio de orgulho dos meus pequenos “revolucionários”. Não sei se eles se lembrarão um dia quem eram os etruscos ou os italiotas, mas se recordarão, certamente, do dia em que foram corajosos e ousaram lutar por seus direitos. Fui pra casa em paz!

Dia seguinte, outra escola. Espero na sala dos professores a hora de subir. Chega uma colega e começa a reclamar do feriado do dia 20 de novembro (pra quem não é do Rio de Janeiro – Dia da Consciência Negra, homenagem ao Zumbi dos Palmares). “Por que não cria o Dia da Consciência Branca?”. Nesse momento, um outro colega coloca lenha na fogueira e lembra da questão das cotas raciais. Me posiciono e justifico a inclinação em apoiar tais medidas. Daí em diante foi uma série de argumentos conservadores e racistas do tipo: “Se os negros (na verdade, ela dizia ‘escuros’) não conseguem é porque não querem. O mundo é cheio de possibilidades.” Sorte minha que na sala havia uma professora de Sociologia, que se somou a mim na tentativa fracassada de argumentar com quem não está disposto a ouvir. Não aguento por mais de 2 minutos. Subo antes do sinal bater. Sento na minha mesa e espero os alunos chegarem. Em meio às cadeiras vazias ainda podia ouvir o eco daquela discussão sem sentido. Uma professora?

Depois de um dia de orgulho dos meus alunos, senti asco de alguns colegas. Em 24 horas, senti esperança no ser humano e perdi um pouquinho também. Definitivamente, gangorra nunca foi meu brinquedo preferido.

Direito de resposta que imponho a mim

Não é a primeira vez que algumas pessoas não gostam do que escrevo. Estou acostumado, pois como sou muito crítico certas vezes, é normal não gostarem.

Mas, desta vez, é diferente. Diferente pois algumas pessoas que não tive a menor intenção de ofender, se magoaram.

Por isso, escrevo um pedido de desculpas.

O artigo que gerou a polêmica foi o que contesto uma gravação da rede globo na escola.

Conversando com algumas amigos, percebi que, sim, pessoas têm razão em se sentirem ofendidas, mesmo que não tenha sido minha intenção.

Então, venho esclarecer.

Não retiro o que disse dos programas da globo, nem do fato de que os programas de educação da globo invariavelmente trazem especialistas que não são a favor do professor. Então, quanto a isso, estou tranquilo em minhas posições e opiniões.

Quando disse que é “fake”, disse que “armaram um circo”, mas não poderia deixar de dizer que a reunião de professore que foi filmada foi, realmente, uma reunião de professores.

Nem sempre as reuniões são como aquela, é verdade, pois nesta, em especial, uma colega iria repassar algo sobre um projeto que está participando. Então, a reunião era verdadeira e foi coincidência que fosse aquela.

Somente chamo a atenção para o fato de a filmagem ser editada do jeito que eles querem e nem sempre filmam algo real. Peço desculpas aos colegas.

Quando “convido” à emissora a realmente conhecer o dia a dia da escola, listo uma série de problemas – que NÃO, não são exclusivas de uma determinada escola, mas que fazem parte do dia a dia real de todas as escolas do Brasil – e fica parecendo que a escola em questão só tem coisas ruins e que nada se faz para combater os problemas.

Ambas as afirmativas são erradas. Então:

1 – Se eu dei a entender que a escola é um mero caos, somente com problemas e nada de bom, NÃO É VERDADE.

Eu poderia fazer também uma lista de boas coisas. Somente àquele momento eu estava extravasando CONTRA A EMISSORA e, por conta disso, convidei-a a acompanhar a escola e conhecer os problemas que enfrentamos.

Mas, se acompanhasse realmente o dia a dia da escola, veria também a maravilhosa comida que lá é feita; o maravilhoso trabalho de sala de recursos com alunos com necessidades especiais; veria o quanto a direção se empenha em manter a escola limpa e agradável; a luta diária das inspetoras de turno para manter os alunos e a escola em ordem; o trabalho árduo e profícuo dos professores em sala de aula; a dedicação do pessoal de limpeza; e muitas outras coisas boas, a despeito dos problemas que existem.

Não estou falando isso para puxar saco de ninguém, somente para ser justo, pois é tudo verdade. Falo agora, pois antes somente falei as ruins.

2 – Em segundo lugar, se eu dei a entender que a direção e demais profissionais da escola não atuam para resolver os problemas apontados, também NÃO É VERDADE.

Se eu deixei esta impressão, peço desculpas novamente e me redimo.

Há um trabalho intenso da direção para a resolução de todos os problemas e eu estaria sendo injustíssimo se falasse ao contrário.

Mesmo quando eu disse que “nada foi feito”, soube depois que foi. Neste caso, eu mesmo me perdôo, pois fui parte integrante e interessada, mas eu mesmo não soube de nada, então, para mim, nada era. Mas foi.

Então, mais uma vez, desculpando pelo mal entendido. Os problemas existem, como em todas as escolas, mas sim, há um trabalho para a resolução de todos eles e isso não foi citado.

Independente de qualquer crítica que eu possa ter – que costumo fazer e costumo discutir com os envolvidos – este artigo é somente para um “direito de resposta” que eu mesmo imponho a mim, pois detesto ser injusto e magoar quem não merece.

Não nego minha opinião quanto aos programas sobre educação da globo (e ainda acho que eles vão chamar o ioschpe); não nego que as escolas têm problemas como os que citei (mas não estava falando DAQUELA escola, mas de ESCOLAS em geral, pois todas têm estes problemas muito parecidos); porém, meu artigo foi demasiado injusto ao não dar ênfase também às coisas boas que as escolas têm e não dar ênfase à atuação dos profissionais da escola (direção, professores, pedagogos, apoio, etc.) na resolução dos problemas.

Não tenho problema em criticar ninguém, como sabem meus parcos leitores, mas ser injusto e magoar quem não merece, não é do meu feitio.

Escrevo este pedido de desculpas porque a minha intenção com o artigo anterior era criticar a REDE GLOBO e seus programas de educação que sempre batem nos profissionais de educação, e não aos colegas da escola, a direção, os professores de lá, etc.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
humildemente

ps. Este artigo nasceu de minha própria vontade e é de todo sincero. Não fui “enquadrado”, não se preocupem.

Filmagem do dia a dia da escola… fake!

Esta semana esteve na escola uma equipe da rede enganação globo de televisão.

Estavam filmando o “dia a dia” da escola, para mais uma maravilhosa série da emissora sobre educação.

A ideia, segundo eles, seria acompanhar o cotidiano da escola, um trabalho em sala de aula, a reunião de professores, etc.

No dia, estavam filmando uma reunião de professores.

Solicitaram para assinar uma declaração de direitos de imagens e quem não quisesse participar, que saísse.

Saí.

Não vou ficar como fundo de pano para a encenação de uma palhaçada.

Palhaçada porque se querem mesmo captar o dia a dia da escola, que venham ficar aqui dentro no dia a dia, diariamente, cotidianamente. Ao menos por um tempo.

E não por algumas horas encenadas. E não armando um circo para filmar uma cena pré-produzida.

Pois foi isso o que se fez.

Pega-se sempre os “melhores” alunos, arma-se uma turma de mentira, filma-se uma aula que não existe.

Depois, chama um “especialista” para dar seus pitacos sobre como o professor deve se portar, como o professor desperdiça tempo em sala, como o professor deve aproveitar melhor o tempo de reunião e planejamento, como o professor deve se importar com o aprendizado do aluno, blá blá blá!

E, como sempre a globo faz, provavelmente deverá ser o “especialista” que nunca ficou dois dias dando aula numa escola pública de periferia gustavo ioschpe.

Então, eu que não vou ficar de palhaço pro dono do circo jogar ovos podres em mim!

Quer ver o dia a dia da escola?

Venha aqui ver um aluno chamar o professor de filho da puta; venha ver uma aluna acusar falsamente o professor de tê-la molestado só porque ele a retirou de sala; venha ver um responsável gritar na porta da escola “cadê aquele professor Declev que chama alunos de maconheiros e fica alisando as meninas!” [sim, passei por isso e NADA foi feito]; venha ver as turmas saírem todas no corredor gritando quando das mudanças de professor entre uma sala e outra; venha ver os alunos quebrando deliberada e propositadamente os bebedouros, cadeiras e demais utensílios; venha vê-los fazendo guerra de comida; venha vê-los quebrando, rasgando e jogando fora os materiais didáticos, uniformes, mochilas e outros materiais que recebem gratuitamente; venha ver as bolinhas de papel sujas de liquidpaper, canetas ou borrachas voando pela sala, muitas acabando no corpo dos professores; venha ver uma aluna metendo as unhas no pescoço de outro aluno, deixando uma marca como um arranhado de leão; venha ver as brigas cotidianas; venha ver os bandidos, traficantes ou simples curiosos vagabundos na porta das escolas aliciando as meninas e meninos; venha conhecer os alunos que nem material trazem, não têm cadernos – apesar de ganharem – e, quando trazem mochilas, nem tirar das costas as tiram; venha ver os alunos saindo de sala sem nem mesmo solicitar ao professor, como se estivessem em casa, não para fazerem necessidades, mas para ficar gritando, bagunçando ou brigando pelos corredores; venha ver um professor tentando ensinar alguma matéria, mas com dez alunos falando, conversando ou gritando ao mesmo tempo; venha ver um professor – eu – tentando fazer um trabalho de pesquisa, de projeto, um trabalho em grupo com uma turma em que mais da metade da turma nem mesmo pega um papel para escrever, que devolve as folhas em branco, nem abrem o caderno e fica, desafiadoramente, conversando, ouvindo músicas e brincando com celulares; venha ver um professor sair de sala passando mal pelas agressões de um aluno; venha ver quantos professores estão de licença médica por estresse ou alterações da saúde por aborrecimentos no trabalho – converse com eles; venha ver uma aluna de perna quebrada com a mãe se recusando a levá-la ao médico porque “é frescura dela”; venha ver um aluno que vive nas ruas pedindo esmolas andando pelos corredores sem termos possibilidades de fazê-lo entrar em sala; venha ver outra que é molestada; venha conhecer a escola de verdade.

Venha ver, de verdade, o cotidiano de uma escola.

Tudo o que falei acima ocorre real e cotidianamente nesta escola em que a globo veio filmar o “dia a dia” da escola.

Isso vai aparecer lá?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professor desgastado com o dia a dia da escola