Arquivo da categoria: Reflexões e Desabafos

Não gosto mais de ser professor

Não gosto mais de ser professor. Na verdade, nunca quis ser professor. Fiz Biologia porque gostava de bicho, mas de outros tipos (sim, seres humanos também são “animais”, tá?).

Mas estava desempregado e apareceu um concurso. Fi-lo e passei.

Foi assim.

Mas acabei gostando durante um bom tempo. Porém, nunca me encaixei com a escola tradicional, com mesas de alunos virados pra frente, onde tem um quadro – agora branco – e o professor verborragiando os conhecimentos que os alunos deveriam “aprender”.

Sempre tentei fazer coisas diferentes, transformar a escola, ao menos minha sala de aula. Assim, sempre busquei projetos, aulas diferentes, misturar artes com as ciências, fazer trabalhos em grupos, etc.

Por que não gosto mais de ser professor?

Mas professor parece que nasceu pra levar na cabeça. Professor é o eterno prego com a cabeça de fora da madeira: sempre o que leva a martelada.

Levamos martelada dos alunos, dos responsáveis dos alunos, da coordenação, da supervisão, da direção, da secretaria de educação, dos vereadores, dos prefeitos. Só nós que levamos as marteladas, como se o problema de toda a construção fossem os pregos com cabeça de fora, mas não a qualidade dos materiais ou o projeto do engenheiro.

Aí, depois de quase duas décadas – aliás, antes disso – eu já levei tanto na cabeça que fui desaprendendo de gostar, ou aprendendo a desgostar de dar aulas, a ponto de, hoje, ser para mim um suplício.

É bom frisar que é um suplício que passo como que um carma, fazendo sim o meu trabalho. Entro em sala, faço meu melhor, tento ainda coisas diferentes, trabalho em salas diferenciadas, etc.

Mas sem as esperanças do passado, as vontades de fazer algo diferente, a gana de enfrentar o sistema. Perdi pro sistema.

E não pensem vocês que o “sistema” é composto somente por políticos, secretários, ou pessoas “de fora” da educação. Não. Do sistema fazem parte também professores. Talvez em sua maior parte. Afinal, as(os) diretoras(es) são “professores”. Sofrem da Síndrome do Alzheimer Docente, é verdade, mas um dia foram professores. Mas quando chegam ao “poder”, transformam-se em parte do sistema. Afinal, ‘o sonho do oprimido é virar opressor’.

Então, nestas menos de duas décadas como prego de cabeça de fora professor, eu já:

  • perdi abono por difícil acesso, tendo meu salário diminuído;
  • vi meu poder de compra no município do Rio de Janeiro despencar;
  • enfrento locais de risco que NINGUÉM mais entra, só professor e polícia;
  • deixei de ganhar 14º salário (sou contra, mas teria direito) por algumas faltas, como se os outros dias que eu fui trabalhar não tivesse contado para o sucesso relativo que a escola teve;
  • deixei de ganhar as férias por questões obscuras, devido a cálculos de Período Aquisitivo (PA) que saem das cabeças dos burocratas;
  • tive inúmeros materiais MEUS, de minha posse, que eu tinha levado para a escola para melhorar as minhas aulas, jogados NO LIXO por diretoras malucas;
  • fui chamado a conversar com diretora, diretora adjunta, secretárias, coordenadoras, etc., porque “reprovava muito”;
  • fui chamado a conversar porque não reprovava ninguém;
  • tive minha contribuição previdenciária aumentada em Niterói, mesmo a cidade não estando em crise nenhuma;
  • pedi ajuda à direção/coordenação para com alguns alunos e me foi negado;
  • fui convidado a mudar de escola algumas vezes (mas não fui);
  • tive que ouvir “mas você tem que ver o tipo de aula que você está dando”, ao pedir ajuda em uma turma que estava me tirando do sério – apesar de tudo diferente que fiz em minhas aulas;
  • tive um projeto de educação ambiental sumariamente negado pela direção, apesar dos bons e comprovados resultados;
  • fui xingado e ameaçado por alunos;
  • fui xingado e ameaçado por responsáveis;
  • levei diversas faltas em meu ponto que não tive;
  • tive negado aumento salarial, no município do Rio de Janeiro, pelo meu doutorado;
  • passei mal por conta de discussão com diretor;
  • por diversas vezes diretoras(es) – ou seja, “professoras(es)” – tentam aumentar minha carga horária na escola, utilizando artifícios como confundir “hora/aula” (base do trabalho docente) com hora corrida, como se trabalhássemos dentro de um escritório com ar condicionado como elas(es);
  • fui sumariamente censurado em minhas aulas, por querer conversar abertamente com os alunos sobre sexualidade;
  • fui chamado a conversar com diretoras grossas, que se acham a dona da escola, por trabalhos diferenciados com sala, como um filme que trata de questões sociais dos alunos;
  • sofro com o calor desumano dentro de algumas salas.

Tem muito mais coisas, acredite. Mas agora, nestes poucos minutos que escrevo, foi o que lembrei.

Então, tudo isso só faz com que, hoje, eu SOFRA o fato de ser professor.

Pra quem diz “ora, se não gosta, faz outra coisa”, só tenho a dizer: não é fácil abandonar duas matrículas públicas e todas as vantagens que isso me traz.

ser professorIrônico, não?

Não, não vou abandonar e deixar para o governo duas décadas de 11% de meu salário (agora, para o honestíssimo e probo prefeito de Niterói, 12,5%) e começar tudo do zero.

Não gosto mais, conseguiram me tirar o prazer de ser professor – como sei que muitos colegas também – mas vou pagar meu carma até o fim.

E é por isso que escrevo tão pouco por aqui. Mas fazê-lo-ei mais vezes, como desabafo.

E um detalhe: este espaço está aberto a TODOS que quiserem. Quer aparecer por aqui? Envie seu texto pra gente.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Bye bye Suzana Herculano-Houzel, neurocientista brasileira

Bye bye Suzana Herculano-Houzel. Saiu na Revista Piauí que a neurocientista está indo embora do país.

Eu entendo perfeitamente, antes mesmo de ter chegado à universidade. Parei antes. Desisti de tentar. Abandonei minha carreira de educador ambiental e biólogo, talvez no meio, talvez um pouco mais.

Por que Suzana Herculano-Houzel está indo embora?

Já falei por aí as razões, mas repito.

Eu não tenho mais nenhuma pretensão acadêmica. Diversos e pontuais acontecimentos me fizeram tomar um certo nojo pela academia.

Certa vez fiz um concurso para a UERJ. Eram três candidatos(as). Uma faltou à prova, ficamos só dois. A outra candidata foi mal na prova escrita e foi desclassificada. Eu passei com uma nota 8,5 e fui à prova de aula sozinho. 

Caiu no sorteio um tema que não era exatamente o meu de preferência, mas lá fui eu.

Fui desclassificado e reprovado – professor e palestrante há mais de 20 anos na área ambiental – na “prova de aula”; mesmo havendo somente eu de candidato para uma vaga; mesmo sabendo que estes concursos são difíceis de serem liberados pelo poder público; mesmo sabendo que a UERJ vive em crise e com falta de professores.

Como eu entendi? Ora, como o de sempre: não era “eu” que queriam naquela vaga. 

Na época eu fiquei chateado. 

Mas hoje, com o pezão como governador e vendo todas as notícias que vejo em relação ao governo estadual – falta de pagamentos, falta de repasses às instituições, etc. – , eu agradeço às professoras que me reprovaram numa prova de aula para a vaga de professor da UERJ, mesmo tendo somente eu como candidato.

Hoje, de salário, ganho mais como professor de ensino fundamental do município de Niterói indo trabalhar 3 manhãs do que ganharia se tivesse passado no concurso pra trabalhar 40 horas.

Muito obrigado, professoras!

Com a estrutura que as universidades têm, com as brigas internas, com as falcatruas que vemos acontecer todos os dias diantes de nossos olhos sem poder falar nada, é um difícil.

Grana, não tem, só pra quem sabe trabalhar por baixo dos panos e serpentear pela política.

Outro exemplo de minha vida: eu organizei, junto com outras pessoas, um fórum de educação ambiental a nível nacional, aqui no Rio de Janeiro, em 2009.

Vocês não imaginam a dificuldade de conseguir e ter acesso a um financiamento para desenvolver o evento. Tive que passar por momentos tão desagradáveis que caí em depressão. À época quase perdi meu doutorado.

Saí do fórum com dívidas – acreditem, com dívidas!

E as mesmas instituições que vemos gastando milhões – quiçá bilhões – em obras superfaturadas, obras que desabam, compras milionárias SEM LICITAÇÃO, ou não deram nem um centavo ou deram muito pouco ou, até mesmo, prometeram dinheiro e depois retiraram. Isso aconteceu: disseram que iam dar e depois tiraram o dinheiro. Inclusive o próprio ministério do meio ambiente, à época com o minc como ministro. Não esqueço desta rasteira.

Saí em depressão, endividado e quase perdendo o doutorado por conta de um desafio que aceitei fazer. Dentro da própria universidade onde ocorreu o evento há um dos mais conceituados grupos de pesquisas em educação ambiental; sabe o que fizeram? NADA. Sabe o que ajudaram? NADA.

Brigas políticas, dirão alguns. Mas é briga mesmo pelo EGO e por grana.

Enfim, meu ego não chega a tanto e meu interesse por dinheiro não me faz passar por cima de ninguém.

Suzana Herculano-Houzel

Então, bye bye, Suzana Herculano-Houzel

Desisti. E ela, a Suzana Herculano-Houzel, de certa forma, desiste também aqui do Brasil.

Ela tem os motivos dela, eu os meus… e os seus?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Rio de Janeiro: A agonia de uma Escola Municipal

Por: Professora Jacqueline Guerreiro Aguiar

Sou professora da Escola Municipal Mal. Canrobert P. da Costa desde 1992.

A Escola é do Segundo Segmento (6º ao 9º ano) e se localiza no bairro do Anil, na Área de Planejamento 4 da Cidade do Rio de Janeiro. Dentre alguns indicadores da excelência de sua proposta podemos citar:

Educação Física

  • Participação relevante e vários prêmios em campeonatos: CRE, SME, Jogos Rotary, Jogos Militares…

Educação Física – Escola Inclusiva

  • Na 7ª CRE uma das 2 Escolas convidadas a participar do Programa de Capacitação de Professores, UNICEF

Ciências

  • Escola pioneira na discussão acerca do conceito de Segurança Alimentar e Soberania Alimentar, com as Feiras de Ciências na temática da Alimentação Saudável.

Ciências – Matemática – Artes

  • Por conta do trabalho desenvolvido pelos professores destas disciplinas, a Escola participou de Concurso com várias Escolas do Estado do RJ e foi a única a ganhar stand (gratuito) no I Encontro de Desenvolvimento Sustentável do RJ.

Informática Educativa

  • Escola da 7a CRE a ter no Banco de Capacitadores em Informática Educativa 3 professores;
  • Trabalho realizado pela Sala de Leitura exitoso foi convidado a fazer parte de programas da Multirio;
  • Projeto de Informática Educativa e História visto como exitoso e elogiado pela equipe do RioEduca;
  • Pela excelência do trabalho desenvolvido por alguns professores na Sala de Informática, foi a única escola do Município a ser convidada diretamente pelo MEC a participar do Encontro EDUTEC.

Geografia – História

  • Com projeto sobre o Canal do Anil visto como de excelência pela 7ª CRE, a escola foi convidada por esta a representar a CRE no Fórum 21 da AP4.

História

  • Com projeto na temática Ambiental nossa Escola foi a escolhida para fazer parte do Projeto Gigantes de Pedra durante a RIO+20.

Coordenação Pedagógica – História – Geografia – Ciências

Projeto de elaboração da Agenda 21 da Escola foi considerado exitoso e a única experiência efetiva de Agenda 21 Escolar nas escolas municipais do Rio de Janeiro , o que ocasionou a participação da Escola em programa do Globo Educação, na época da RIO+20.

História – Geografia – Ciências

Projeto na temática Ambiental e construção da Agenda 21 Escolar foi considerado exitoso pela Organização Internacional do Trabalho.

História

Projeto relativo à temática da Democracia e Meio Ambiente foi considerado exitoso pela UNESCO.

Sala de Leitura – Inglês

Ações que vêm possibilitando, mesmo sem a existência de professores de música, participação exitosa nos Festivais de Música da SME.

Historia – Geografia – Português

Ações contínuas, há anos, relacionadas ao resgate da memória histórica dos territórios da Escola e de seu entorno.

Matemática

Projeto de Jogos Educativos e Matemática foi referência em TCC e debatido em Universidades.

Educação Física

Projeto de Jogos Educativos considerado exitoso pela 7ª CRE , o que resultou em Projeto extracurricular.

Geografia

Projeto relacionado ao território de Jacarepaguá considerado exitoso pela 7ª CRE , o que resultou em Projeto extracurricular.

História

Projeto relacionado ao território foi considerado exitoso pela 7ª CRE, o que resultou em Projeto extracurricular.

Mas, mesmo com esta História, que compartilhamos um pouco, a 7ª CRE está levando à cabo um projeto que “finaliza” o Segundo Segmento até o início do ano que vem, transformando a Escola em Escola do Primeiro Segmento, sem que esta decisão tenha sido discutida com professores, responsáveis e comunidade.

Na região onde a Escola se localiza existe grande demanda de vagas e só existem duas escolas de Segundo Segmento e uma nova que está iniciando suas atividades (Ginásio Experimental), escola nova esta para onde estão sendo encaminhados vários dos alunos de 7º e 8º anos, fechando turmas e desorganizando a vida profissional de vários professores.

Os professores não temos clareza do que será de nossa vida funcional, para qual Escola seremos designados, numa atitude completamente desrespeitosa. O Ministério Público já sinalizou pelo fim da “Reestruturação” elaborada pela SME e, apesar da SME e 7ª CRE afirmarem o contrário, o que está ocorrendo com nossa Escola pode sim ser definido como uma “reestruturação”, o que fere a decisão do Ministério Público.

O SEPE já está ciente e invidando esforços no sentido de esclarecer esta situação.

[Este texto foi enviado ao Diário do Professor pela professora de História Jacqueline Guerreiro. Se você tem alguma história, denúncia, reclamação, projetos ou outros que queira divulgar, este espaço está aberto a você: nos envie!]

Corrupção do pt, Justiça e Inocentes úteis

Eu não sou petista, não mesmo. Gosto de alguns políticos aqui, outros dali, de partidos diversos, inclusive do pt, mas também de outros.

Mas sou crítico a todos também.

Por exemplo, aqui mesmo no mio virtual, no facebook, tenho vários amigos do pt e critico sempre o prefeito de Niterói, que é deste partido, mas, para mim, parece ser do pmdb – e isso não é um elogio, considerando-se o pmdb do Rio de Janeiro e a “amizade” que o prefeito mantém com os bandidos políticos deste partido.

Então, certa vez, criticando veementemente uma ação desta prefeitura, acho que na página do vice prefeito ou de um vereador da posição – como disse, tenho vários amigos petistas… – recebi uma resposta “padrão”, daquelas que a cegueira ideológica e governista faz as pessoas  fazerem. E esta cegueira governista acomete a todos os lados, não se enganem.

Voltando. Eu estava falando a reforma milionária feita na rua mais urbanizada e cara de Niterói, a Moreira César. Nesta rua, a mais cara e elitizada de Icaraí, no bairro mais caro e elitizado da cidade, só moram as pessoas com mais grana da cidade. E a rua JÁ É, como eu disse e repito pela terceira vez, a mais urbanizada e elitizada da cidade.

Mas a prefeitura – do pt, vejam que “ironia” – está fazendo uma “reurbanização” milionária nesta rua!

E, quando eu critiquei (no Facebook), dizendo que há bairros na cidade que mereciam uma urbanização – e não uma “reurbanização”, pois nunca tiveram nada – não têm asfalto, nem calçadas, nem nada – disseram o asseclas e o povo com cegueira governista: “um de cada vez”, “tem que começar com algum lugar”, “eles vão fazer ali, depois vão para os outros bairros”, blábláblá.

BULSHIT!

É sempre o mesmo discurso!

São mais de 500 anos trabalhando só a favor das elites e contra o povo! NUNCA vão chegar naqueles bairros. Se não forem AGORA, efetivamente, para aqueles bairros, nunca vão chegar lá!

NÃO EXISTE “um de cada vez” ou “aqui primeiro, depois lá”, se não se começar de baixo!

Primeiro, é para quem precisa, para as urgências, para quem não tem nada, para quem nunca recebeu nada.

Outro caso: combate à corrupção ou combate ao pt?

Então, neste caso do “combate à corrupção” envolvendo o pt (agora minha crítica se volta aos outros partidos), a justiça, a polícia brasileira e uma boa parte da população que podemos denominar pejorativamente de “coxinhas” parecem que só vêem corrupção no pt e nos petistas.

Os outros, de outros partidos (especialmente os de direita e oposição, como psdb, pmdb, pp, dem) dançam em cima da constituição, cagam em quaisquer princípios, roubam a olhos vistos e NADA acontece.

Eu poderia dar aqui dezenas de exemplos, mas acho que vocês já os conhecem.

Então, da mesma forma que o exemplo lá de cima, é muita inocência achar que vão “chegar em todo mundo” só porque estão correndo atrás dos petistas.

NÃO VÃO chegar aos outros SÓ porque estão indo contra um determinado partido. Estão indo contra os petistas porque é um jogo político SUJO. Há muitos interesses sujos neste meio.

Não fazem isso porque estão indo “contra a corrupção”, mas estão indo a favor de interesses deles. Se assim não o fosse, já teriam ido atrás de “todos”. Não precisariam “começar” pelo pt, pois não foi o pt que “começou”.

Ficar feliz porque “pelo menos estão processando e prendendo alguns, mesmo que de um só partido” é uma imensa idiotice, uma imensa burrice, uma imensa falta de honestidade.

E por quê? Ora, basta pensar um pouco: se, na verdade, é um jogo e perseguição políticas contra o partido que hoje está no poder, o que vai acontecer quando (e se) este partido, o único perseguido, sair do poder?

Isso, isso: a corrupção vai continuar correndo solta!

E não é isso o que queremos, certo? O que queremos é que a corrupção seja perseguida em TODOS os níveis, TODOS os partidos, em TODAS as datas, em TODAS as instituições.

E isso NÃO VAI acontecer só por conta da perseguição a um único partido.

Ou não é o que você quer? O que você quer é só ver políticos “do pt” presos?

Se é este o seu caso, você merece o país que temos, você é igual a ele.

Se não é este o seu caso, não seja um inocente útil, batendo panelinha e palminha nas janelas SÓ quando algo acontece a UM único partido.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
contra a corrupção per si

Professor? Pois não?

Sobre as perguntas “padrão” dos alunos, eu já escrevi por aqui.

Sempre foram as mesmas. Sempre são as mesmas.

As mesmas. As mesmas. As mesmas.

Mas a cada dia parece que eles se superam, pois a mesmice se aprofunda…

Mao

Você fica 10-20 minutos explicando o trabalho proposto. Fala tim-tim por tim-tim o que é pra fazer. No meio da explicação (sim, te interrompem), uma pergunta:

– Professor?
– Oi
– Posso ir no banheiro?

Você ignora o fato. Chama a atenção para que eles prestem atenção. Termina a explicação, bem explicada, abordando todos os pontos do trabalho. Senta em sua cadeira, esperando que eles comecem o que é pra fazer.

– Professor?
– Oi
– Olha aqui, tá me batendo!!

Ignora o fato. Afinal, eles sentam juntos, em grupo (é sempre o mesmo grupo, por afinidade, escolhido por eles mesmos). VocÊ fica atento pra ver se estão começando a fazer o trabalho, se eles estão com dificuldades, etc.

– Professor?
– Oi
– Ele pegou minha borracha!
– Que que você quer queu faça?
– Manda ele me entregar
– Entrega a borracha – falo, com ironia e com cara de saco cheio.

Você se vira para o outro lado e continua o que está fazendo, esperando uma dúvida sobre o trabalho que teoricamente deveriam estar fazendo.

– Professor?
– Oi – É agora!, você pensa…
– Tem lápis?
– Cadê seu material?
– Eu não tenho.
– Pede do colega ao lado.
– Roubaram.

Você manda ele pedir um à direção (um aviso: NÃO EMPRESTE os seus, porque senão você vira refém e vira fornecedor!) e vai andar pela sala, vendo o que estão fazendo [ou não].

– Professor? – chama uma aluna lá no outro canto.
– Oi? – você chega perto para saber a dúvida.
– Tá em que página?

Considerando que o que você passou é uma pesquisa, para que eles procurem as informações, consigam estudar e aprender algo… eu desisto e espero o sinal tocar.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Oi?

A Síndrome da uniformização do pior de tudo

Fico pensando que nós estamos celebrando uma época de bestialização, que o pior de tudo é o que as pessoas querem pra suas vidas. Ou, ao menos, que acham que querem, pois não sabem o que fazem.

Parece que quanto pior for alguma coisa, maior a tendência das pessoas aceitarem-na e reproduzirem-na, gerando uma uniformização do pior de tudo.

Hoje, mesmo com as infinitas opções que temos para quaisquer coisas as pessoas tendem a repetir à exaustão aquilo que tem de pior.

Por exemplo, nós temos, praticamente, o mundo em nossas mãos 100% do tempo, através da internet. Mas o que é visto e buscado na internet? O pior dela.

Seja em qualquer campo: música, leitura, política, etc., as pessoas vão como rios para um mar de coisas ruins.

Na música, quanto menos letra, mais repetições de sílabas aleatórias, menos acordes e mais superficial a melodia, mais vende. Não preciso dar exemplos, pois acho que todo mundo já sabe do que falo.

É sempre uma nova “música” que estoura, fica uns poucos meses (ou mesmo semanas), depois vem outra retirada do lodo da mediocridade para tocar à exaustão.

Mas as melodias mais elaboradas, com letras que dizem algo, ficam restritas a um pequeno e mesmo grupo de pessoas.

Outro exemplo: existem centenas de revistas e publicações de tudo quanto é tipo, sobre tudo quanto é assunto.

Mas, quando vamos a um consultório de médico, dentista, um departamento burocrático qualquer, um escritório, seja lá onde for no qual teremos que esperar sentados em um banquinho com uma mesinha ao lado na qual dispõem-se revistas… encontraremos a “caras” e a “veja”.

Só nestes locais temos milhares de assinaturas das piores revistas que existem no mercado, só com fofocas da pior baixeza sobre a vida dos outros ou sobre política. Lixo.

Na política, então, os mais bostas, com as piores receitas, os que mais agridem os outros com atrocidades verbais, são os mais votados. São endeusados. Reflexo da uniformização do pior de tudo.

Mais um exemplo do cotidiano: tenho uma filha de 1 ano e 4 meses. Quando a levo ao pediatra ou a qualquer outro lugar e as pessoas querem agradá-la e distraí-la, pensam em colocar algo na tv ou no computador ou no tablet para ela assistir. Aí colocam SEMPRE… a “galinha pintadinha”.

Um SACO, chato pra cassete, músicas com arranjos péssimos, estridentes, acho horrível. Mas só colocam – automaticamente, como se só existisse isso – a bosta da galinha pintadinha.

E me diziam, assim que ficamos grávidos, que “não tem como escapar”, “ela VAI assistir, com certeza”, “ela VAI adorar a galinha pintadinha e não tem nada que você possa fazer quanto a isso”, blá blá blá.

Agora, acreditem, sabe quando ela vê galinha pintadinha? NUNCA! Quer dizer, só quando estamos em um dos locais que falei acima e não temos opção (e mesmo assim, tenho dito para não colocar). Em casa ou conosco? Nunca.

Mas, então, ela vê o quê? Ora, ignaros, há centenas de (boas) opções na internet. Pode-se no computador, no tablet, na televisão (conectando o computador na tv, por exemplo) centenas de outros bons desenhos, educativos, com boas músicas, não estridentes ou esquizofrênicos como esta galinha.

Entretanto, as pessoas, sem pensar (claro, SEM pensar) automaticamente fazem a ligação: criança = assiste galinha pintadinha idiotizante.

As pessoas se prendem às piores coisas, como a um cavalo amarrado numa cadeira de plástico.

cavalo amarrado na cadeira de plastico

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

A escola tá um caos! – Por que será?

Chego à escola meia hora atrasado, atipicamente, depois de uma hora e quarenta minutos de trânsito, em pé em ônibus lotados e quentes – quando demoro, em dia normal, em média 40-50 minutos pra chegar.

No portão da escola, uma mãe irritada vem saindo e me pergunta: “Você é professor?”

– Sou.

– É novo?

– Ãhn?

– É novo na escola?

– Não. – Respondo, já sem paciência… (tenho 11 anos nesta escola).

– Você veio pra ajudar?

– Ãhn?

– Você veio pra ajudar a escola?

– Ãhn?

– A escola tá quase sem professor, um monte de turmas em horário vago, sem ter aula!

E ela veio falar isso PRA MIM, como a reclamar DE MIM, que sofro as mazelas da escola junto com os alunos, lá dentro e fora dela???

Mexeu com a pessoa e na hora erradas.

Respondo, ao final, já irritado de

  • 1:40h de engarrafamento;
  • salário achatado;
  • terem retirado o difícil acesso porque aqui “tem mais de duas linhas de ônibus” (menos R$ 222,00 no já baixo salário);
  • terem retirando e modificando as regras do plano de saúde;
  • receber apenas 12,00 de alimentação por dia de trabalho;
  • não ter ar condicionado na sala dos professores;
  • não ter nem bebedouro para os professores;
  • a escola estar sem cadeiras nem mesas para os alunos;
  • ter sala sem portas;
  • ter salas sem ar condicionado NEM ventilador…

– Tá sem professor porque as pessoas não aguentam, muitos estão doentes, de licença! Elas faltam porque não são respeitados, tiram tudo da gente e daqui a pouco estaremos pagando pra trabalhar. E tudo cai na cabeça do professor!! Assim é melhor ficar em casa!!!!

Entrei e fui trabalhar.

Está em curso um processo muito bem engendrado de falência intencional da educação pública na cidade do Rio de Janeiro.

Mas a secretária que começou isso saiu com láureas e o prefeito que impõe a falência é reeleito.

E um bando de ignóbeis ainda vocifera “chega de Paulo Freire”.

Pais lindo, povo gentil.

Abraços,

Declev Reynier Dib Ferreira
Cansado

Escola não é para fazer pensar

O aluno “não consegue achar” o assunto que pedi para pesquisar no livro.

“Não tem!”, afirma ele.

Abro o livro no sumário e o primeiro assunto é… o mesmo que havia pedido e que “não tinha” naquele livro.

“Você sabe o que é e para que serve o sumário?”, pergunto.

“Não” – cara de quem está ouvindo alguém falar em russo.

Eu suspiro.

Percebo – aliás, reafirmo o que eu já sabia – que no 7º ano os alunos não sabem o que é um sumário.

Praticamente todos. Isso quer dizer que estes alunos passaram 7 anos, no mínimo, na escola e não aprenderam o que é um sumário, o básico do básico para começar a fazer uma pesquisa.

Claro, a escola não é para fazer pensar, nem para pesquisar, nem mesmo para aprender ou aprender a aprender.

A escola – dos pobres, diga-se de passagem – é para manter os jovens dentro de um prédio. E os professores passaram a ser seres que tomam conta dos alunos para não se matarem.

É um projeto muito bem elaborado: finge-se que a educação é “para todos”, que é de qualidade, etc., enquanto desenvolve-se o emburrecimento – em relação à cultura letrada – de uma grande massa.

E nisso são gerações perdidas. Por mim já passaram umas duas.

Dos meus alunos, já não cabem em meus dedos aqueles que foram assassinados, presos, acidentados.

É uma vitória quando encontro algum ou alguma em um subemprego, ralando para ganhar quase nada e ter menos ainda, mas tendo uma vida, de certa forma, digna.

São vários os indícios deste projeto de bestialização social dos mais pobres – o que vai garantir eternamente o voto de cabresto, a mão de obra semi escrava e que o Brasil seja, por exemplo, um dos poucos países do mundo em que há empregadas domésticas em quase todas as residências.

Nós, professores, somos massacrados de todos os lados:

  • O salário do professor no Brasil é dos piores do Mundo;
  • Os professores no Brasil têm as maiores cargas de trabalho do mundo;
  • As salas são cada vez mais lotadas, o que impede qualquer tipo de trabalho diferenciado com os alunos, fora do famoso “copia do quadro”;
  • Os materiais vêm prontos e acabados ditando as regras, como apostilas, provas e materiais elaborados por nobres institutos e ong’s “educativas”;
  • Os alunos podem TUDO, mas a cobrança que podemos fazer é cada vez menor. Basta ir à escola – e às vezes nem isso. Não precisa estudar, nem fazer nada;
  • Se você é um profissional crítico, pensante, que tenta inserir algo diferente no dia a dia da escola, será mais massacrado, defenestrado, maldito e sacaneado ainda. Será, quiçá, banido. Estes podem ainda sofrer assédio moral;
  • Aliás, contra estes que pensam até mesmo leis estão sendo criadas, como a “Lei contra doutrinação ideológica” – o que querem dizer com esta lei? “Não pensem nem façam pensar”

Enfim, estar na escola tentando fazer os alunos PENSAREM, para além de decorar algo para cuspir numa prova “oficial”, destas dezenas de testes e provas para compor índices que para nada servem, é impossível.

TODOS os que conheci que tentaram, foram massacrados e desistiram. Inclusive eu.

Que venha a nossa Idade Média. Ela virá.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Desistir de novo

Eu já tinha desistido da educação, mas ainda não consegui sair.

Mas a cada dia que passa sinto que estou mais longe. Aliás, MUITO longe…

Depois de duas semanas viajando, entro na escola e em meia hora de conversa com colegas professores sobre a situação do Brasil, antes das aulas, ouço pérolas como:

bandido tem que morrer…

depois vem este pessoal dos direitos humanos…

quero ver os direitos humanos pra trabalhador…

a polícia prende mas os direitos humanos soltam…

na época da ditadura tinha muita coisa errada, mas tinha muita coisa boa…

Coloco o fone de ouvido com uma música no volume máximo e me calo, com meu interior piorando minha gastrite.

Toca o sinal e estes sobem para dar aulas para adolescentes da periferia do Rio de Janeiro, em bairro totalmente desassistido pelo Estado, neste espaço que deveria ser o da construção da cidadania (escola).

Nossos alunos não têm garantidos seus direitos: educação decente, saúde, moradia, segurança, cultura, possibilidades de futuro… mas os seus professores acham que deve-se encarcerar todos, inclusive os pré-adolescentes (tem que diminuir a idade penal), que preso tinha que trabalhar em colônia penal, que polícia não é toda bandida e bandido tem que morrer, na ditadura era bom, entre outras pérolas.

Então eu me calo, subo e entro em minha sala.

De cara, duas alunas me perguntam “professor, porque o senhor voltou, porque não ficou viajando?”

Então, depois da pá de cal eu me convenço que, realmente, não sou deste mundo, que nada mais tenho a oferecer.

Acabou, só ainda não consegui enterrar.

Declev Reynier Dib Ferreira

Que esta mensagem te dê esperanças

Escrevo isso no primeiro dia de 2015. Ontem, ano passado, uma mensagem me emocionou.

Nas últimas horas de 2014 recebi um chamado no Facebook por mensagem in box. Era uma ex-aluna, que já saiu da escola fazem mais de dois anos.

O diálogo com ela me emocionou. Eu já falei algumas vezes por aqui de minha desmotivação, descrença na profissão e falta de relacionamento com os/as alunos/as:

Mas também já falei de alguns bons acontecimentos:

Agora, este tipo de conversas que travo me dão uma nova esperança, mostrando que, na verdade, os professores têm muito mais força do que supomos. Mostram que, na verdade, podemos, sim, fazer a diferença, mesmo que dentro de alguns indivíduos.

Não me venham dizer que isso SEMPRE acontece, ou que é normal, ou que os professores/as sempre têm que ter um bom relacionamento com os alunos. Não, nem sempre temos um bom relacionamento com os alunos. Nem sempre gostamos de todos os alunos. Nem sempre temos diálogo com os alunos.

Mas, quando temos, é maravilhoso.

E, portanto, acho que é isso o que eu (e você também, professor/a) temos que fazer em nossa lida diária: olhar o/a aluno/a, e não o sistema. Quer dizer, lutar contra o sistema, sempre, até que ele seja bom o suficiente (e talvez isso nunca chegue), mas agir mais com o/a aluno/a.

É algo como aquela frase do meio ambiental: “Pensar globalmente, agir localmente”.

Nem sempre consigo enxergar desta forma. Mas a conversa talvez me ajude a abrir (novamente) os olhos.

Vamos, então ao nosso diálogo (suprimindo o nome e com autorização):

– Boa tarde professor

– Oi Aluna! [eu disse o nome dela, mas suprimi aqui]

– Lembra de mim ainda?

– Claro!

– Vim dar ótimas notícias ao senhor

– O que tem feito?

– Consegui bolsa no curso de moda no Senac de Copacabana. Vou fazer pré-vestibular na UFF

– Oba, muito bom! Eu sabia que você conseguiria muita coisa. Não tinha dúvidas.

– E por causa das suas palavras eu decidi fazer a faculdade de Cinema

– Sério?

– Sim

– Que lindo! Você vai ser grande, vai fazer o que quiser! Como eu disse, nunca tive dúvidas!

– Sempre me apoiou em relação ao teatro. Muito obrigado professor.

– De nada. Este foi um ótimo presente que recebo neste fim de ano.

– Você me inspira bastante, nunca esquecerei do que falou. Muito obrigada por tudo.

– Eu que agradeço, estou emocionado.

– Ainda da aulas na Escola?

– Ainda…

– Mas sem nenhuma aluna como você e seu irmão…

– Obrigada. Pretendo visitá-lo. Pra colocar a conversa em dia

– Vá sim.

– Vou sempre esta mandando noticias e lhe agradecendo. Bjs e de novo, muito obrigada.

– Muito obrigado. Feliz 2015 pra você e sua família. Mande um beijo a todos.

– Mandarei. Feliz 2015 ao senhor e Ana Catarina.

É isso.

Não é o máximo?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira