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Curso de Educação Ambiental no Rio de Janeiro – 2017

Atenção, povo! Quem está procurando um curso de Educação Ambiental, tem um muito bom aqui pra quem e do Rio de Janeiro, que eu indico.

Ele é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e com tutoria ed Jacqueline Guerreiro, militante há muitos anos neste tema.

Mas tem que ser muito rápido, pois as inscrições são até 4a feira, dia 15 de março.

Pra fazer a inscrição, tem que:

  • Ser Educador Ambiental
  • Ser do Rio de Janeiro
  • Ter perfil para multiplicar o curso depois.

Enviar: nome, onde atua, município, email, telefone, 5 linhas de atuação em Educação Ambiental.

Para este email: jacguerreiro@gmail.com

curso de educação ambiental

Curso de Educação Ambiental à Distância

Tema:

Comissões Interinstitucionais Estaduais de Educação Ambiental – Conhecer, Fortalecer e Articular

Coordenação:

Ministério do Meio Ambiente

Parceria:

CIEAs estaduais (CIEA RJ – GIEA):

  • Secretaria Estadual do Ambiente,
  • Secretaria de Educação e
  • Rede de Educação Ambiental do Rio de Janeiro

Tutoria REARJ:

Jacqueline Guerreiro Aguiar

Objetivo:

Qualificar os gestores e membros das CIEAs, para que possam atuar nos espaços de discussões e decisão, visando a efetividade da Educação Ambiental como política pública e o fortalecimento da participação e controle social.

Público-alvo:

Membros das comissões estaduais interinstitucionais de educação ambiental e gestores públicos e convidados.

Carga horária:

60 horas

Possui tutoria:

Sim

Período de inscrição:

1ª quinzena de Março de 2017

Período de realização: 2ª semana de Março de 2017 até 15 de Junho de 2017

PROGRAMA – Curso de EA

Módulo 1:

Aspectos da Educação Ambiental Educação Ambiental e Participação Social Aspectos históricos da EA Concepções e abordagens da EA Política e Programas Nacionais de EA (Re) Conhecimento da CIEA

Módulo 2:

A CIEA e suas características Natureza e papel das CIEAs Estrutura e Funcionamento Capilaridade e Representatividade Articulações e Transversalidade Estratégia para a consolidação da CIEA

Módulo 3:

Gestão e Metodologias Participativas Planejamento Participativo Construção Metodológica Gestão Pública compartilhada Indicadores, Avaliação e Monitoramento Planejamento da CIEA

Módulo 4:

Interfaces da EA e incidência política da CIEA Interface com a Comunicação Interface com as Políticas Públicas Gestão Participativa e Controle Social para a incidência política da CIEA Proposta para o momento presencial Gratuito

Professor? Pois não?

Sobre as perguntas “padrão” dos alunos, eu já escrevi por aqui.

Sempre foram as mesmas. Sempre são as mesmas.

As mesmas. As mesmas. As mesmas.

Mas a cada dia parece que eles se superam, pois a mesmice se aprofunda…

Mao

Você fica 10-20 minutos explicando o trabalho proposto. Fala tim-tim por tim-tim o que é pra fazer. No meio da explicação (sim, te interrompem), uma pergunta:

– Professor?
– Oi
– Posso ir no banheiro?

Você ignora o fato. Chama a atenção para que eles prestem atenção. Termina a explicação, bem explicada, abordando todos os pontos do trabalho. Senta em sua cadeira, esperando que eles comecem o que é pra fazer.

– Professor?
– Oi
– Olha aqui, tá me batendo!!

Ignora o fato. Afinal, eles sentam juntos, em grupo (é sempre o mesmo grupo, por afinidade, escolhido por eles mesmos). VocÊ fica atento pra ver se estão começando a fazer o trabalho, se eles estão com dificuldades, etc.

– Professor?
– Oi
– Ele pegou minha borracha!
– Que que você quer queu faça?
– Manda ele me entregar
– Entrega a borracha – falo, com ironia e com cara de saco cheio.

Você se vira para o outro lado e continua o que está fazendo, esperando uma dúvida sobre o trabalho que teoricamente deveriam estar fazendo.

– Professor?
– Oi – É agora!, você pensa…
– Tem lápis?
– Cadê seu material?
– Eu não tenho.
– Pede do colega ao lado.
– Roubaram.

Você manda ele pedir um à direção (um aviso: NÃO EMPRESTE os seus, porque senão você vira refém e vira fornecedor!) e vai andar pela sala, vendo o que estão fazendo [ou não].

– Professor? – chama uma aluna lá no outro canto.
– Oi? – você chega perto para saber a dúvida.
– Tá em que página?

Considerando que o que você passou é uma pesquisa, para que eles procurem as informações, consigam estudar e aprender algo… eu desisto e espero o sinal tocar.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Oi?

Escola não é para fazer pensar

O aluno “não consegue achar” o assunto que pedi para pesquisar no livro.

“Não tem!”, afirma ele.

Abro o livro no sumário e o primeiro assunto é… o mesmo que havia pedido e que “não tinha” naquele livro.

“Você sabe o que é e para que serve o sumário?”, pergunto.

“Não” – cara de quem está ouvindo alguém falar em russo.

Eu suspiro.

Percebo – aliás, reafirmo o que eu já sabia – que no 7º ano os alunos não sabem o que é um sumário.

Praticamente todos. Isso quer dizer que estes alunos passaram 7 anos, no mínimo, na escola e não aprenderam o que é um sumário, o básico do básico para começar a fazer uma pesquisa.

Claro, a escola não é para fazer pensar, nem para pesquisar, nem mesmo para aprender ou aprender a aprender.

A escola – dos pobres, diga-se de passagem – é para manter os jovens dentro de um prédio. E os professores passaram a ser seres que tomam conta dos alunos para não se matarem.

É um projeto muito bem elaborado: finge-se que a educação é “para todos”, que é de qualidade, etc., enquanto desenvolve-se o emburrecimento – em relação à cultura letrada – de uma grande massa.

E nisso são gerações perdidas. Por mim já passaram umas duas.

Dos meus alunos, já não cabem em meus dedos aqueles que foram assassinados, presos, acidentados.

É uma vitória quando encontro algum ou alguma em um subemprego, ralando para ganhar quase nada e ter menos ainda, mas tendo uma vida, de certa forma, digna.

São vários os indícios deste projeto de bestialização social dos mais pobres – o que vai garantir eternamente o voto de cabresto, a mão de obra semi escrava e que o Brasil seja, por exemplo, um dos poucos países do mundo em que há empregadas domésticas em quase todas as residências.

Nós, professores, somos massacrados de todos os lados:

  • O salário do professor no Brasil é dos piores do Mundo;
  • Os professores no Brasil têm as maiores cargas de trabalho do mundo;
  • As salas são cada vez mais lotadas, o que impede qualquer tipo de trabalho diferenciado com os alunos, fora do famoso “copia do quadro”;
  • Os materiais vêm prontos e acabados ditando as regras, como apostilas, provas e materiais elaborados por nobres institutos e ong’s “educativas”;
  • Os alunos podem TUDO, mas a cobrança que podemos fazer é cada vez menor. Basta ir à escola – e às vezes nem isso. Não precisa estudar, nem fazer nada;
  • Se você é um profissional crítico, pensante, que tenta inserir algo diferente no dia a dia da escola, será mais massacrado, defenestrado, maldito e sacaneado ainda. Será, quiçá, banido. Estes podem ainda sofrer assédio moral;
  • Aliás, contra estes que pensam até mesmo leis estão sendo criadas, como a “Lei contra doutrinação ideológica” – o que querem dizer com esta lei? “Não pensem nem façam pensar”

Enfim, estar na escola tentando fazer os alunos PENSAREM, para além de decorar algo para cuspir numa prova “oficial”, destas dezenas de testes e provas para compor índices que para nada servem, é impossível.

TODOS os que conheci que tentaram, foram massacrados e desistiram. Inclusive eu.

Que venha a nossa Idade Média. Ela virá.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Sobre saber ler e entender

Sobre Leitura e escrita, saber ler e entender.

Meio de maio de 2015. Lá se vão uns 3 meses de aula no 7º ano.

Alunos de 12-13 anos que estão, no mínimo, em seu sétimo ano dentro de uma escola.

Situação 1

Indico o exercício a ser feito.

No quadro: “ler e fazer a apostila até a página 12”.

Todos vão direto para a página 12, afinal, o professor mandou fazer a página 12…

Mudo a frase para “ler e fazer a apostila DA PRIMEIRA PÁGINA ATÉ a página 12”.

Reclamam que é muita coisa.

Situação 2

Na página 12, ao explicar uma experiencia a ser feita, dentre os materiais necessários tem-se a frase: “alimento já pronto como arroz cozido, canjica ou mingau de bebê”.

Uma aluna me pergunta: “professor, pode ser outra coisa ao invés da canjica?”.

Leio pacientemente com ela a frase, explicando-lhe a diferença entre o “ou” e o “e”.

– Aaaah tá…

Situação 3

Tenho um crachá para sair da sala. Quem precisar sair para beber água, ir ao banheiro, falar com alguém ou qualquer outra coisa não precisa nem me pedir, basta pegar o crachá, que fica sempre em um canto na minha mesa, e sair. Quando volta, deixa-se o crachá no mesmo lugar e outro aluno pode sair. Sempre um por vez.

Invariavelmente alguém vem à minha mesa e pergunta: “professor, cadê o crachá?”.

– Pense – respondo eu.

– Eu não sei!

– Onde está o crachá?, pergunto.

– Eu não sei, eu te fiz esta pergunta!

– Vamos pensar: onde o crachá fica?

– Aqui.

– Para que ele serve?

– Para sair de sala.

– Ele está aí?

– Não.

– Então onde ele pode estar?

– Com alguém lá fora.

– Então… onde está o crachá?

– Lá fora com alguém.

– O que você tem que fazer?

– Esperar ele voltar.

– Ok.

[…]

Vem outro e…

– Professor, onde esta o crachá?

[…]

Abraços,

Declev Reynier Dib Ferreira

Desistir de novo

Eu já tinha desistido da educação, mas ainda não consegui sair.

Mas a cada dia que passa sinto que estou mais longe. Aliás, MUITO longe…

Depois de duas semanas viajando, entro na escola e em meia hora de conversa com colegas professores sobre a situação do Brasil, antes das aulas, ouço pérolas como:

bandido tem que morrer…

depois vem este pessoal dos direitos humanos…

quero ver os direitos humanos pra trabalhador…

a polícia prende mas os direitos humanos soltam…

na época da ditadura tinha muita coisa errada, mas tinha muita coisa boa…

Coloco o fone de ouvido com uma música no volume máximo e me calo, com meu interior piorando minha gastrite.

Toca o sinal e estes sobem para dar aulas para adolescentes da periferia do Rio de Janeiro, em bairro totalmente desassistido pelo Estado, neste espaço que deveria ser o da construção da cidadania (escola).

Nossos alunos não têm garantidos seus direitos: educação decente, saúde, moradia, segurança, cultura, possibilidades de futuro… mas os seus professores acham que deve-se encarcerar todos, inclusive os pré-adolescentes (tem que diminuir a idade penal), que preso tinha que trabalhar em colônia penal, que polícia não é toda bandida e bandido tem que morrer, na ditadura era bom, entre outras pérolas.

Então eu me calo, subo e entro em minha sala.

De cara, duas alunas me perguntam “professor, porque o senhor voltou, porque não ficou viajando?”

Então, depois da pá de cal eu me convenço que, realmente, não sou deste mundo, que nada mais tenho a oferecer.

Acabou, só ainda não consegui enterrar.

Declev Reynier Dib Ferreira

Que esta mensagem te dê esperanças

Escrevo isso no primeiro dia de 2015. Ontem, ano passado, uma mensagem me emocionou.

Nas últimas horas de 2014 recebi um chamado no Facebook por mensagem in box. Era uma ex-aluna, que já saiu da escola fazem mais de dois anos.

O diálogo com ela me emocionou. Eu já falei algumas vezes por aqui de minha desmotivação, descrença na profissão e falta de relacionamento com os/as alunos/as:

Mas também já falei de alguns bons acontecimentos:

Agora, este tipo de conversas que travo me dão uma nova esperança, mostrando que, na verdade, os professores têm muito mais força do que supomos. Mostram que, na verdade, podemos, sim, fazer a diferença, mesmo que dentro de alguns indivíduos.

Não me venham dizer que isso SEMPRE acontece, ou que é normal, ou que os professores/as sempre têm que ter um bom relacionamento com os alunos. Não, nem sempre temos um bom relacionamento com os alunos. Nem sempre gostamos de todos os alunos. Nem sempre temos diálogo com os alunos.

Mas, quando temos, é maravilhoso.

E, portanto, acho que é isso o que eu (e você também, professor/a) temos que fazer em nossa lida diária: olhar o/a aluno/a, e não o sistema. Quer dizer, lutar contra o sistema, sempre, até que ele seja bom o suficiente (e talvez isso nunca chegue), mas agir mais com o/a aluno/a.

É algo como aquela frase do meio ambiental: “Pensar globalmente, agir localmente”.

Nem sempre consigo enxergar desta forma. Mas a conversa talvez me ajude a abrir (novamente) os olhos.

Vamos, então ao nosso diálogo (suprimindo o nome e com autorização):

– Boa tarde professor

– Oi Aluna! [eu disse o nome dela, mas suprimi aqui]

– Lembra de mim ainda?

– Claro!

– Vim dar ótimas notícias ao senhor

– O que tem feito?

– Consegui bolsa no curso de moda no Senac de Copacabana. Vou fazer pré-vestibular na UFF

– Oba, muito bom! Eu sabia que você conseguiria muita coisa. Não tinha dúvidas.

– E por causa das suas palavras eu decidi fazer a faculdade de Cinema

– Sério?

– Sim

– Que lindo! Você vai ser grande, vai fazer o que quiser! Como eu disse, nunca tive dúvidas!

– Sempre me apoiou em relação ao teatro. Muito obrigado professor.

– De nada. Este foi um ótimo presente que recebo neste fim de ano.

– Você me inspira bastante, nunca esquecerei do que falou. Muito obrigada por tudo.

– Eu que agradeço, estou emocionado.

– Ainda da aulas na Escola?

– Ainda…

– Mas sem nenhuma aluna como você e seu irmão…

– Obrigada. Pretendo visitá-lo. Pra colocar a conversa em dia

– Vá sim.

– Vou sempre esta mandando noticias e lhe agradecendo. Bjs e de novo, muito obrigada.

– Muito obrigado. Feliz 2015 pra você e sua família. Mande um beijo a todos.

– Mandarei. Feliz 2015 ao senhor e Ana Catarina.

É isso.

Não é o máximo?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Crônica de minha volta

Estive em Licença Paternidade, em Niterói, após o presente recebido com o nascimento de minha filha.

Depois de uns 35 dias sem escutar funk, eis que ele surge novamente em minha vida.

Depois de uns 35 dias sem ouvir palavrões em cada frase que entra em meus ouvidos, eis que eles estão de volta dentro de mim.

São dois ônibus. O primeiro não demora a chegar e, 20 minutos depois, estou no outro ponto. Mais uns 30 minutos esperando, chega o segundo ônibus de minha jornada. Ele vem vazio e segue seu destino. Depois de passar por montes de ônibus parados atrapalhando o andamento da rua num “ponto final” improvisado, segue serpenteando pela rua estreita, desviando de lixo, entulho, porcos, carros abandonados, montes de areia, carros na contra mão e gente. Por enquanto, não desvia de muitos buracos, pois a via foi recapeada há pouco tempo. De reurbanização, só isso.

Ao começar entrar na comunidade, começa a entrar gente. Porta única, se tem gente pra sair e gente para entrar, há impasses momentâneos e o ônibus perde tempo na espera.

Mas o tempo não se perde só nisso. Alguns novos passageiros passam pela roleta. Os que têm gratuidade – a maioria: alunos, idosos, deficientes – precisam passar o dedo numa máquina de leitura de digitais. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo.

Se é irritante ler repetidas vezes, imagine em um ônibus com cerca de 12 pessoas para entrar quando várias delas precisam passar por este processo. Ficamos parados em determinado ponto uns 10 ou 15 minutos. Em outros por 5 ou 10 minutos.

Mas pode ser pior. Muitos passageiros não passam pela roleta, dentre homens e mulheres, adolescentes e crianças, apesar de terem cartão de passagem, a maioria gratuitamente, com o dinheiro de nossos impostos.

E dizem – prefeitura e seus amigos empresários – que isso é “cidadania”.

Aglomeram-se na parte da frente, no espaço delimitado pelas roletas, o motorista, o vidro dianteiro e a porta da frente.

A porta da frente não fecha, pois há montes pendurados, às vezes por apenas uma mão.

Crianças pulam pela janela para dentro do ônibus, em uma destreza olímpica.

O motorista levanta, grita algo, não sai com o ônibus com a porta aberta. Novidade, pois sempre saíram com crianças penduradas na porta, segurando-se por fios de dedos enquanto o coletivo serpenteava alucinadamente por ruas caramujentas, cheias de meandros.

Um dia cheguei a argumentar sobre o perigo com um motorista, profissional responsável dos que esta formidável empresa costuma contratar. “Imagina se um garoto destes cai!”, disse eu, apelando para o bom senso que achava que havia no fundo do poço.

Mas o poço era ainda maior.

– “Se morrer eu respondo em liberdade”, disse-me o motorista, argumentando que não fechava a porta porque eles brigavam com ele, se tentasse, e ele não queria aborrecimentos.

Mas um dia caiu.

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Depois de pés pisados, gritos, apertos e diversos guris e gurias pulando a roleta, a porta se fecha e o ônibus sai. Antes da roleta, lotado. Atrás (ou seja, na maior parte do ônibus), vazio.

Ao fundo, um funk no celular, alto, como se todos gostassem. Não gosta? Dane-se.

Nas próximas paradas, não para. Passa direto deixando diversos alunos e outras pessoas a ver navios – ou a ver ônibus. Se quiserem, que vão a pé!

Furando todos os outros pontos, chega ao destino e começa a esvaziar. Hora de descermos quase todos, indo em direção à escola.

Chego nela um pouco mais de uma hora depois de ter saído de casa, apesar de estar na mesma pequena cidade que figura entre as 5 melhores de qualidade de vida no Brasil. Então tá.

Entro em sala e sou agraciado com a frase quase gritada “quem me come quieto come sempre… galinha!… cachorra!…”. As pérolas continuam com um “meti o piru nela” e seguem com “seu babaca!!” e outras.

Perco um tempo fazendo a chamada e arrumando o diário – o que é mais importante que a aula em si, e isso não é um exagero – e esperando os alunos se acalmarem e entrarem em sala, um após o outro, mais atrasados do que eu.

Outros gritos, outros palavrões, outros tapas nos pescoços e xingamentos depois, a aula que praticamente não teve acaba, mas não sem antes de minha própria bateria ter acabado, quase antes mesmo de começar o dia.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Zumbi

Ok, eu desisto!

Faz tempo que não escrevo sobre Educação. Aliás, sobre assunto algum. Primeiro por motivos pessoais, mas sobretudo porque deixei de ver utilidade no que eu fazia.

Contudo, não pense que mudei de ideia. Talvez esse breve texto seja mais um dos meus desabafos e não tem a intenção de ser um artigo acadêmico. Estou cansado!

Lembro como se fosse hoje de um encontro que tive com a secretária de educação do município onde leciono. Alguns dias antes ela havia lido um texto que eu escrevi e foi publicado no jornal do sindicato local. Eu criticava o sistema educacional neurótico por números, realidade não só em Volta Redonda (RJ), mas no Brasil inteiro. Aliás, sistema este copiado de modelos de outros países e que já se mostraram um fracasso. Eu fechava aquele texto de modo extremamente pessimista, contrastando com o sentimento de poder mudar, com o qual eu havia saído da faculdade um pouco mais de um ano antes. A secretária, em algum momento da conversa/inquisição, me disse em claro tom de deboche que era uma pena um professor tão novo e que desistiu tão rápido. Naquele ano, sofri assédio moral na escola, fui transferido algumas vezes, fui parar na sala de informática e resisti. Afinal, queria provar pra mim mesmo que não desistia tão rápido.

Passados 7 anos, não tão novo assim, posso afirmar sem temer julgamentos: eu desisti. Não tenho mais a menor expectativa de mudar o mundo, nem meu país, meu estado, minha cidade ou até mesmo minha escola. Simplesmente reconheço que não sou forte o bastante pra remar contra a maré.

Na escola dos meus sonhos, o aluno é formado para ser feliz e não pra ganhar dinheiro. Ele desenvolve o respeito e a solidariedade, não a competição. Aprende a viver em comunidade e percebe que um país rico não se mede com um PIB. Não há disciplinas mais importantes do que outras. Essa escola tem grupos de teatro, de música, de vários esportes. Ela se abre para o mundo, recebendo pessoas de todos os tipos e formações e que possam compartilhar seu conhecimento e experiência em oficinas, fóruns e seminários. Na minha escola os alunos aprendem Química na cozinha, Biologia na horta, Geografia e História andando na cidade, Matemática na feira, Português em rodas de poesia, Artes nos museus, Educação Física na quadra de skate da praça mais próxima. Sala de aula? Pode ser embaixo da mangueira, como nos ensina Tião Rocha. A instituição é apenas um meio. O fim é a Educação.

No ano passado, desci com uma turma para o pátio por uma aula, após um bimestre estressante, depois das avaliações, revisões, solução das dúvidas e apenas aguardando a recuperação, que seria na aula seguinte. Eu iria fazer uma atividade lúdica com eles, não só pra relaxar, mas para melhorar o relacionamento meu com a turma e entre eles também. Iria! Fui impedido de fazer a atividade e tive que retornar para a sala de aula. Eu havia esquecido, ou queria esquecer, que estava numa escola que cultua aquele ambiente sufocante entre quatro paredes como o único locus educacional do colégio. Que advoga a ideia de que mais tempo de aula é igual a maiores resultados, como se os professores e alunos fossem fabricantes de parafusos.

Poderia aqui relatar mais inúmeros casos (alguns deles inclusive já viraram artigos e estão por aí no site) que, juntos, me fizeram declarar derrota. E não coloco a culpa apenas nos governos e nos diretores. Essa escola massificada, preparatório para avaliações e formadora de mão de obra para o mercado é o que a maioria dos professores e pais de alunos também querem. Talvez, de todos os atores envolvidos na educação, aquele que mais deseja uma nova escola seja o aluno, que não aguenta mais ficar 5 horas por dia numa instituição que parou no tempo.

Por fim, vendo a escola de hoje eu não consigo deixar de lembrar de uma vez que fui ao médico com muita dor no braço e fui atendido por um profissional que em momento algum olhou pra mim. Preenchia formulários e fazia perguntas. Saí de lá com uma tala no braço e sem entender como chegamos ao ponto de ter veterinários mais atenciosos com seus pacientes. Aquele médico uma vez foi aluno e aprendeu na escola o que exercia em sua profissão. Afinal de contas, para ser um bom aluno basta ser bom no conteúdo. Por que para ser um bom médico seria diferente? Também me lembro do Sérgio Naya, aquele engenheiro que construiu um prédio com areia da praia. Era um bom aluno em Matemática, certamente, e quem sabe até ganhou uma medalha em uma destas Olimpíadas. E os políticos? Como bom oradores, talvez fossem bons alunos também. Mas de que vale estes conhecimentos se não são acrescidos de valores? Respeitar, ser solidário, entre outras coisas se aprende com o exemplo. E se a escola não estiver preparada pra isso, continuaremos a ver mensalões, Palace II e consultas médicas relâmpagos.

Escola ou posto de saúde?

A mãe liga pra escola de manhã, meia hora antes de começar a aula:

– Escola Ypsilon, bom dia!

– Oi, aqui é a mãe do aluno Fulano de Tal. Eu tô ligando pra dizer que tivemos um problema aqui, um vaso de cerâmica caiu na testa do meu filho, que estava dormindo, e abriu a testa dele. Era um vasinho de cerâmica que ganhei de presente, tava ainda no plástico, mas tava numa janela acima da cama aí caiu e machucou ele. Eu estou ligando pra dizer que já coloquei um band-aid no ferimento e mandei ele pra escola pra fazer o curativo aí, com o enfermeiro.

– Mas, mãe, aqui não é um posto de saúde, o enfermeiro não é pra fazer curativos. Se ele machucou, tem que levar ao hospital ou ao posto de saúde. Tem um aqui perto, leva ele pra lá!

– Ah, não. Ele já saiu daqui. Deve estar chegando aí. [e o telefone: pu pu pu pu pu pu….]

– ….

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Entrevista para o Programa Conversas, de Cabo Frio

Participei, há algumas semanas, de uma entrevista para o Programa Conversas, de um canal fechado de Cabo Frio, Rio de Janeiro (o Jovem TV, canal 8).

A dona do programa e entrevistadora é Natália Reynier, moradora de lá e uma “agitadora” social, política, cultural da região.

Coloco abaixo a entrevista, na qual conversei sobre educação ambiental, com foco nos resíduos sólidos.

Espero que gostem!

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

https://www.youtube.com/watch?v=9Ft9ZOTNv8E

Não deixem também de ler alguns de meus escritos (monografia, dissertação, tese e outros).