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Mais um jovem assassinado

Mais um jovem assassinado

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Rio de Janeiro, 29 de abril de 2014

Amigos,
Dessa vez escrevo apenas uma homenagem, uma carta, algumas palavras vindas direto do coração, para cada aluno e aluna que tive e que vive ou gostaria de viver como o garoto “DG”, que foi covardemente assassinado na terça-feira passada, em uma comunidade vizinha à minha casa.
Ouvi todo o tiroteio, as bombas, a fumaça do fogo… Tudo isso chegou aqui, como se fosse embaixo das janelas da minha casa, em Copacabana.
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Não pude ver o programa “Esquenta!”, que eu adoro, neste domingo, mas fiz questão de ver no computador –http://globotv.globo.com/t/programa/v/nos-bastidores-dg-aparece-sempre-brincalhao-veja-video/3308507/ – e fiquei super emocionada, chorei pra caramba, lembrei de cada aluno com quem tive contato nas comunidades onde trabalhei, lembrei de tanta coisa, da VIDA pulsando naqueles meninos e meninas, cheios de energia, ritmo, alegria e sonhos. Gente pobre, sofrida, mas muito mais rica, em tantos momentos, do que aqueles que só tem riqueza material e um puta medo de se arriscar minimamente nessa vida. O DG, pra mim, está em cada um desses criativos garotos e garotas das periferias do Brasil. O DG, agora que se foi, permanece e permanecerá aqui, no sorriso, no desejo, na brincadeira, na música e na dança de cada um que sabe o que é nascer e viver numa favela!
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Lembrei também dos tantos (muitos!!!) alunos que perdemos precocemente, vítimas do tráfico ou da polícia, da violência doméstica ou do racismo…
E justamente por ser uma história que se repete sem parar no Brasil, pela quantidade de jovens que tiveram suas vidas interrompidas tragicamente, enfim, por tudo isso acho que vale a pena assistir ao curta que acabou se revelando “profético”, que DG realizou há alguns meses, com um grupo ótimo – pretendiam apresentar em festivais – e onde é o ator principal:
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Nesse momento, não quero discutir a manipulação existente na propaganda, que infelizmente vai moldando, desde muito cedo, valores “tortos” e criando “necessidades” totalmente desnecessárias, que povoam a cabeça de milhares de crianças, adolescentes e adultos.
Não quero discutir ideologias, políticas públicas e nem o caráter de tantos políticos.
Não quero discutir se há ou não alguma coisa depois da morte. Eu tenho a minha fé oscilante e ela me basta.
Não quero discutir.
Só quero chorar.
Só quero não esquecer nunca dos tantos alunos com quem convivi e que eram, em muitos aspectos, outros “DGs”. E desejo que eles continuem existindo, cantando, dançando, rindo e nos lembrando que pra viver com originalidade e alegria é preciso CORAGEM, e isso quem nasce, sobrevive e cresce no morro sabe muito bem. E a gente, que mora aqui embaixo, no asfalto, dificilmente tem ou compreende profundamente a dimensão disso tudo.
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Vá em paz, garoto bonito… Fique com Deus.
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Um beijo e um abraço apertado pra vc, onde estiver, e pra sua mãe, pra sua filha e pra todos que sentirão diariamente a sua falta por aqui…

Regina Milone

(professora, pedagoga, arteterapeuta, psicóloga, mãe, filha, irmã, amiga… cidadã)

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PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO

Rio de Janeiro, 18 de março de 2014.

PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO

Boa tarde a todos!

Fiquei um tempo sem aparecer por aqui, cansada demais, física e emocionalmente, para manter o mesmo nível de debate constante sobre Educação em nosso país.

Mas volto agora, talvez mais como psicóloga do que como professora e pedagoga, nesse momento, pois conheço de perto o quanto é importante e útil o conhecimento básico da Psicologia, para todos os profissionais que trabalham com gente.

Utilizei a imagem de Einstein aqui, com a seguinte mensagem: “E se este homem tivesse passado por um manicômio? Deixar nosso preconceito pode mudar a História”. Escolhi essa imagem e texto porque Einstein é um exemplo do que acontece até hoje: em determinado momento, foi considerado “retardado e incapaz de aprender”, por uma escola onde estudou na infância, o que foi dito à seus pais. Ele era apenas disléxico e, por isso, começou a falar tarde, tinha raciocínio lento e baixo rendimento escolar. Só conseguiu ser alfabetizado aos 9 anos. E, mesmo com todos esses efeitos da dislexia, ele foi, na verdade, um gênio na História da humanidade! Já pensaram o que aconteceria se os pais dele seguissem o que a escola lhes disse sobre seu filho e desistissem dele?

Por questões parecidas com essa e por ter percebido a carência de tantos profissionais de Educação em relação a como compreender e lidar melhor com alunos que parecem ter algum problema psicológico (ou neuropsicológico) sério, deixo uma sugestão, para nossos próximos encontros por aqui: perguntem o que tiverem vontade, especialmente sobre Psicologia (sobre Pedagogia também podem perguntar), para que eu possa ajudá-los em seu trabalho escolar, com informações, relatos de experiências e dicas.

Hoje a dica é ler um artigo ótimo, sobre os absurdos que ainda acontecem em nosso país, relacionados a internações de crianças e adolescentes em instituições psiquiátricas, sem necessidade. É um verdadeiro crime o que acontece!

E, nas escolas, quantas vezes ouvi: “esse menino não é bom da cabeça”, “aquela mãe toma remédio controlado – é doida mesmo!”, “ih, essa aí? Não tem jeito não: é maluca! E os filhos também são, claro!”, entre outras provas de preconceito e ignorância como essas.

Muitos alunos não têm problemas de saúde mental e sim problemas oriundos da absurda injustiça social e péssima distribuição de renda em que ainda vivemos no Brasil. O fato de crescerem nesse meio pode acabar até levando-os a algum transtorno mental grave sim, mas a principal origem é social e nessa ninguém quer tocar. Falarei mais sobre isso em meu próximo artigo aqui no Diário do Professor.

De qualquer forma, procurem ler o artigo que citei no início deste meu texto, pois é objetivo e esclarecedor, realista e atual . Vocês podem encontrá-lo em: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/17/opinion/1395072236_094434.html

Antes de me despedir, deixo aqui, com vocês, a introdução do artigo, que resume o assunto tratado ali:

Como se fabricam crianças loucas

Os manicômios não são passado, são presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico Pinel, em São Paulo, mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos períodos, muitas vezes sem diagnóstico que justificasse a internação, a mando da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807 dias de confinamento. E de José: 1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada na primeira década deste século.”

Vale a pena ler o artigo todo! Não é só para psicólogos ou psiquiatras e sim para pais, professores e todos que lidam com gente diariamente, especialmente para os que lidam com pessoas ainda em sua formação básica: crianças e adolescentes.

Até nosso próximo encontro por aqui!

 Abraços,

 Regina Milone

(professora, pedagoga, arteterapeuta e psicóloga clínica).

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Será que o TDAH existe?

Primeiro vejamos o significado da sigla: TDAH = Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Lendo mais um excelente texto sobre isso – http://equilibrando.me/2013/05/21/o-tdah-existe/ -, refleti, de novo, sobre essa questão: será que o TDAH existe?

Um dos trechos mais verdadeiros no texto, em minha opinião, é:

“Portanto, a resposta à pergunta: “Será que o TDAH existe?” realmente depende da agenda do observador. Pessoalmente, acho que é mais útil descobrir as causas sociais subjacentes da inquietação ou distração da criança e fazer alterações específicas no ambiente social para remover os estressores. A criança ouve seus pais brigando ou discutindo o tempo todo? A criança está sendo abusada? A criança tem um professor que não é capaz de lhe dar a atenção extra que ela precisa, porque tem que lidar com uma sala de aula superlotada?”

Vou procurar responder, a partir de pesquisas e experiências profissionais que tenho/tive tanto como pedagoga, quanto como arteterapeuta e psicóloga.  Quando era apenas professora, ainda não havia estudado esse assunto com o mínimo de profundidade, o que é um absurdo (continua sendo, nas formações de hoje…), porque toda formação de professor tinha que ensinar isso, debater, refletir a respeito, etc. Até porque esse tipo de transtorno pode ser encontrado tanto nos alunos quanto nos próprios profissionais da Educação também, assim como nas famílias dos alunos.

Concordo muito com o autor do artigo citado acima. Medicação forte, ainda mais em crianças, só se deve usar em último caso. Porém, é importante não radicalizarmos para um lado ou para o outro. Se há excesso de diagnósticos mal feitos e de medicalização por um lado, muitas vezes sem necessidade ou sem se haver tentado alternativas, outras vezes também há excesso de pensamentos do tipo “resolvo isso sozinho; basta o amor da família e dos amigos; se houver mudança em relação a desigualdade social em que vivemos tudo se resolverá;  essa pessoa (criança, adolescente ou adulto) precisa é de limites; etc.”

Radicalizar para um lado ou para o outro é perigoso, pois, agindo assim, pode-se colocar muita gente em risco de vida e isso pode e deve ser evitado. Os transtornos existem (e podem, entre outras coisas, levar ao suicídio…), tem muita relação com o ambiente social e familiar sim (as neurociências tem provado várias coisas, nesse sentido), mas não tem a ver SÓ com isso, então é preciso ver caso por caso.

Tanto na Pedagogia quanto na Psicologia Social há uma tendência de só se ver causas sociais para tudo. E isso é tão incompleto quanto ver só causas familiares, psicológicas (individuais, subjetivas… como acontece com parte da visão da psicologia clínica), etc.
Enquanto fica esse “racha”, um grupo no extremo oposto em relação ao outro, milhões de injustiças foram, são e serão cometidas.

Se ficarmos no extremo em que se pensa que tudo é problema social, estaremos inclusive negando algo óbvio: qualquer problema de origem social pode aparecer, como consequência, em forma de doenças e transtornos SIM, já que o desequilíbrio emocional e psíquico acompanha a vida de quem nasce e cresce em meio a violência das injustiças e da desigualdade social em que vivemos. E, se pensarmos que quando houver justiça social, aí sim todos esses transtornos desaparecerão, há que se questionar algumas coisas:  é possível vivermos, algum dia, numa sociedade onde haja condições “ideais” e justiça social para todos ou esse é apenas um sonho a estarmos sempre perseguindo, buscando, nos dando algum norte? E, se essa sonhada justiça vier, se conseguirmos conquistá-la, isso significa que problemas que envolvem o desequilíbrio psíquico vão simplesmente sumir, “evaporar”, como se nunca tivessem existido, isto é, as pessoas ficarão automaticamente “curadas”??? Com certeza não. Pois se a subjetividade dos indivíduos é formada em parte pela cultura e sociedade, também é formada, em parte, por componentes genéticos, biológicos, além dos componentes familiares. Na verdade, acontece uma soma e, muitas vezes uma espécie de mistura, onde entram todos esses elementos, sendo que alguns são mais determinantes em algumas pessoas e outros em outras.

DIZER QUE O TDAH E OUTROS TRANSTORNOS NÃO EXISTEM É TÃO ABSURDO QUANTO DIZER QUE TODA CRIANÇA QUE É AGITADA E DISPERSA TEM TDAH.

Já acompanhei casos de crianças e adolescentes que foram bem diagnosticados, assim como vi verdadeiros absurdos sendo cometidos apenas na intenção de “calar” um pouco aquela criança ou adolescente que está, na verdade, reagindo ao ambiente familiar e social em que vive. Muitas crianças agitadas e dispersas não tem TDAH, como muitas que são excessivamente organizadas e cheias de manias também não tem necessariamente TOC (= transtorno obsessivo-compulsivo), e isso só para citar, aqui, apenas dois tipos de transtornos existentes.

No caso dos responsáveis – principalmente família e escola – sentirem que aquela criança ou adolescente não está mais dando tanto “trabalho” quanto antes, está menos agitada e menos “respondona”, acabam se acomodando e achando que estão fazendo o “melhor” pra ela… Dá menos trabalho pensar assim e encher a pessoa de remédios, do que se comprometer num nível macro, percebendo a responsabilidade de cada um – família, escola, sociedade – no que se refere ao comportamento daquela criança ou adolescente.

Então… Nem tanto ao mar e nem tanto à terra!

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Se a Psicologia foi mal utilizada, em outros momentos históricos, quando virou quase que norma geral, nas escolas, acreditar que todo aluno “difícil” tinha algum transtorno ou problema psicológico, isso NÃO significa que esse campo do saber não seja importantíssimo na Educação! É preciso “não jogar fora a criança com a água suja do banho”!!! Até porque, hoje em dia, a Psicologia Social tem crescido cada vez mais e é uma linha importante, que trabalha justamente em cima das tantas causas sociais dos, muitas vezes, mal diagnosticados indivíduos que são encarados como portadores dos mais diversos “transtornos”.

Mas os transtornos existentes por causas genéticas, biológicas, neurológicas, etc., EXISTEM SIM, em vários casos, o que também não pode ser esquecido.

De qualquer maneira, a psicoterapia, essa sim pode ajudar e muito, tanto num caso quando no outro, isto é, tanto quando realmente existe um transtorno que está levando a um sofrimento insuportável, quanto nos casos em que o problema é basicamente de origem psicossocial (e, nesse quesito, sempre entra a escola, com força total, pois é ela quem vai ajudando ou prejudicando, diariamente, na formação daquele indivíduo).

E psicoterapia não tem nada a ver com medicalização. As questões são abordadas de outra forma e só necessitam de ajuda medicamentosa em muito menos casos do que tanta gente pensa (muito menos mesmo!). A psicoterapia ajuda muito mais na questão de se aprender como se pode estar num mundo tão adoecido e injusto sem se perder na multidão “normal” que é, tantas vezes, covarde e medíocre. Aprendemos como ajudar nisso, na Psicologia, na medida em que trabalhamos o autoconhecimento, os mecanismos de defesa, os desejos inconscientes, os padrões repetitivos de respostas, etc. Aprendemos sobre como funciona o psiquismo humano, consciente e inconsciente, e o quanto dessa subjetividade é formada em parte pela família e escola e em parte pela cultura e sociedade. Mas, infelizmente, pelo fato da Psicologia ser uma área da Saúde diferente da Medicina, muitos ainda acham que o trabalho do psicólogo não é científico e é só um monte de “conversinhas, conselhos, etc.”, o que não chega nem perto do que realmente é!

Então, há que se ter muito cuidado e atenção nesse assunto. Se os americanos, citados no texto aqui indicado, exageram em remédios e diagnósticos baseados excessivamente em fatores genéticos e biológicos, outros países exageram pro lado oposto, o que também pode causar muitos danos.

Precisamos ter “muita calma nessa hora”!

Os americanos, de maneira geral, buscam soluções concretas e imediatas para questões, muitas vezes, bem mais complexas. E esse comportamento é repetido, em larga escala, aqui no Brasil, já que somos, infelizmente, ainda “colonizados” ideologicamente por eles, de uma forma tão maciça, embora “disfarçada”, que muitos reagem exatamente da maneira esperada por eles, sem ter a menor consciência disso. Numa sociedade capitalista tudo envolve lucro e, no caso dos transtornos psíquicos, é muito mais vantajoso para a indústria farmacêutica “vender” a ideia de que tudo pode e deve ser resolvido com remédios. Mas, na verdade, NÃO PODE.

É comum pais e professores buscarem esse tipo de solução para alunos “difíceis” ou para alunos com necessidades especiais. Até porque é assustador não existirem “receitas de bolo”, aplicáveis a todos, para que esses alunos parassem de “atrapalhar”. Então querem algo que resolva tudo de forma quase mágica! E rápida! Ouvi milhares de cobranças desse tipo na minha vida profissional. Mas, numa realidade social tão injusta e violenta como a que vivemos, NÃO existem remédios para diminuir ou acabar com muitos dos comportamentos considerados inadequados. De certa forma, a sociedade é que é “inadequada”! É ela que gera um número cada vez maior de pessoas depressivas, ansiosas, agitadas, agressivas, desrespeitosas, etc. Ou vocês acham que seria possível essas reações não aparecerem em nossos alunos, diante do mundo caótico em que vivemos e onde “criamos-educamos-ensinamos” nossas crianças e adolescentes?

E a sociedade em que vivemos é construída diariamente por todos, principalmente por nós, adultos! A sociedade somos nós.

Em outras culturas e sociedades, a visão pragmática e comportamental dos americanos não é a que domina. Visões mais filosóficas são as que são estudadas mais a fundo, na busca de entender e aprender a lidar com essas questões. Em geral, na Psicologia, essas culturas recebem mais influência da visão analítica – Psicanálise, Psicologia Analítica, etc. – do que da visão neuropsicológica.

No entanto, muito do que sabemos hoje vem de descobertas incríveis no campo das neurociências SIM. Ficar no extremo oposto, negando esse conhecimento, é simplesmente partir pro outro lado da MESMA MOEDA!

Por isso, meus amigos, analisemos caso a caso, busquemos ajuda profissional, pesquisemos sempre sobre esse assunto pois, para trabalhar com crianças e adolescentes, é preciso se dedicar nesse sentido SIM, ou então ficaremos apenas numa gangorra eterna, ora num extremo e ora no outro, enquanto nossos filhos e nossos alunos continuarão sofrendo e reagindo do jeito que conseguem reagir. E, afinal, mesmo já sendo adulto, cada ser humano só é capaz de reagir da sua própria maneira, com seus limites e possibilidades, e não da forma “ideal”, muitas vezes pretendida. Mas podemos melhorar nisso. Realmente podemos! Só que, para isso, é preciso se comprometer a ir um pouco mais fundo na hora de se buscar “explicações” e “soluções” rápidas para as crianças, os adolescentes e, também, para nós mesmos, os adultos da história.

Acabei escrevendo um texto longo, pois esse assunto, a meu ver, merece aprofundamento, mas vejam que nem citei o fato, concreto, de que a grande maioria dos alunos de escolas públicas que encaminhamos para ajuda psicológica ou psiquiátrica nem mesmo é levada pelos pais para pelo menos uma consulta inicial. Acompanhei casos em que as famílias eram tão pobres que nem dinheiro tinham para a condução e, sem transporte, acabavam “deixando pra lá” o assunto ou deixando “nas mãos de Deus” ou automedicando seus filhos com remédios fortíssimos (geralmente, nesses casos, as famílias costumam conhecer alguém que trabalha em hospital e que, por isso, consegue a receita – por baixo dos panos! -, já que esses remédios são controlados)… E, assim, o que poderia melhorar, ia só piorando mais a cada dia…

Não esqueçam: seja por causas somente psicológicas ou basicamente psicossociais, esses problemas não vão simplesmente “evaporar”. Precisam de ajuda profissional.

Abraços,

 

Regina Milone.
Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.
Rio de Janeiro, 29 de maio de 2013.

 

Você, que é professor como eu, por que gosta de dar aulas?

Você, que é professor como eu, por que gosta de dar aulas?

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O que te cativa, estimula, motiva?

Eu gosto da paixão pelo saber, pelo conhecimento, pela reflexão, pelos questionamentos, pelo debate, pela troca, pelas descobertas, pelas revelações, pelo universo de possibilidades quando encontramos o OUTRO e aprendemos a aprender a cada dia.

O outro que nunca é como em nossos sonhos. O “outro” que pode ser a escola, o aluno, o colega professor, o pedagogo, o diretor, a merendeira, o porteiro… O outro. Que traz um mundo inteiro junto com ele. Que se abre ou se fecha a cada contato, que está vivo, entusiasmado ou frio, distante… O outro rebelde, transgressor, agressivo, explosivo, “mal educado”… O outro. O que tem brilho nos olhos e o que não tem mais. O que acredita, tem esperança, se envolve… O que é indiferente, insosso, quase imperceptível… O outro. O que quer e o que não quer. O que ama, o que odeia, o que só diz amém, o que debocha, ironiza… O hipócrita. O invisível, o que grita em silêncio, o que adoece… O ignorante, preconceituoso, moralista… O que não tem autocrítica, o que pouco ou nada se conhece, o que não se importa com ninguém, o que só obedece, o que só desobedece, o que mente, engana, o que morre de medo, o que se julga ora salvador e ora vítima… O outro. A criança, o jovem, o adulto, o velho. O que ouve e o que só escuta a si mesmo. O que vê e o que, cheio de orgulho, apenas “se acha”. O que se cansa. O que observa, contempla… O que pensa e o que é só impulso e reação. O sensível, criativo, sutil… O que não tem auto-estima, não se valoriza… O que é puro ego. O que acha que só se aprende na prática. O que só vê o concreto, o preto ou o branco; nunca o cinza. O outro. O confuso, vacilante, perdido, perplexo com o mundo que encontra… O que ousa, duvida, pergunta, busca, quer entender, quer sentir… O que pesquisa. O que acha que já sabe tudo. O cínico. O que ensina, aprende, gargalha, chora, morre de curiosidade, se encanta… O idealista, cheio de sonhos de um mundo melhor para todos. O politizado, o apolítico, o religioso… O cético, o crédulo, o diabo e o santo. O outro.

E, em cada um desses outros, o eu.

Em cada um, um pouquinho de nós.

Em cada professor uma história, mil desejos e ideais… E uma certa desesperança que lhe ronda como sombra. Um cansaço sem nome, sentido e doído todos os dias, tecido em um emaranhado de desilusões e alegrias, conquistas e fracassos, paradoxos, contradições… O outro é cada um de nós.

Eu sou cada um de vocês. Empaticamente. Telepaticamente.

Cada um de vocês, professores, também são um pouco eu, um pouco sãos, um pouco loucos, um pouco sábios e um pouco aprendizes, nessa gangorra absurda da educação, nessa montanha russa sem cinto de segurança.

Eu. Vocês. O outro. Todos nós. Vivendo ou apenas sobrevivendo, como dá, como “Deus quer”, como é possível… Adaptados ou não. À margem ou não.

Seres humanos.

Professor. Aluno. Eu. O outro.

Desejo que, apesar de tudo, de toda a injustiça diária que vemos nas vidas de nossos alunos e nas nossas próprias vidas, nunca nos deixemos derrotar de vez. Que consigamos levantar depois de cada tombo, com a pele mais resistente, como os dedos do violonista que, de tanto tocar, criam calos, necessários para que a música se faça.

Que possamos continuar tocando, criando, bailando, fazendo música… Mesmo em meio ao fogo cruzado das tantas rajadas de metralhadoras diárias com as quais convivemos em nosso “pacífico” país…

Não precisamos de um “dia dos professores” para nos homenagear.  Sempre é dia. Hoje é dia!

 

Mil beijos e abraços carinhosos em cada um de vocês, professores como eu,

Regina Milone.

Professora, Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio de Janeiro, 21 de abril de 2013.

 

 

Violência de alunos contra professores e demais profissionais da Educação

Cada vez mais lemos ou acompanhamos de perto esse tipo de violência: Diretora de escola municipal é espancada por aluno.

Mas apenas pensar em como se deve “punir” os “infratores” (somos educadores e não juízes ou promotores, minha gente!) é muito pouco e, tantas vezes,  injusto.

O que leva alunos a agirem assim?

Não há uma resposta única, uma explicação correta e todas as outra incorretas, enfim… A questão é muito mais complexa e exige mais compreensão, pesquisa, aprendizado, por parte dos educadores e das famílias dos alunos.

O que acontece quando apenas punimos o aluno (e daí em diante não queremos mais nem saber da vida dele…)???

Aproveito pra contar um caso, que acho que ilustra bem isso e que acompanhei de perto: um rapaz de 14 ou 15 anos (não lembro com exatidão agora), estava discutindo com a professora sobre fechar ou não a porta da sala de aula – ela queria fechar e ele não estava deixando, já que o calor estava insuportável (ventiladores quebrados, pra variar…) -, acabou levantando a voz, sendo grosseiro, ela foi dura também, mas, num certo momento, ele passou dos limites e a empurrou, tendo quase fechado a porta nos dedos da professora, que foi, assustada e dolorida (a pancada na porta doeu, claro!), reclamar do acontecido na secretaria da escola, com a diretora, dizendo que sairia da escola se o aluno continuasse lá. Resultado: o aluno foi “convidado a mudar de escola” (expulso, isso sim) e nunca mais parou em escola nenhuma, tendo interrompido de vez seus estudos. Detalhe: depois de conversa comigo, ele se desculpou com a professora, reconheceu seu erro, mas nada adiantou. E era aluno antigo da escola, estava lá desde criancinha e morava na vizinhança. Além de tudo, era um rapaz abertamente homossexual, “opção” essa que iniciou-se, em sua vida, através de um tio que abusava sexualmente dele desde a infância. A escola nunca fez nada sobre isso. E aí??? Como fica essa história??? Quem são os responsáveis??? O que poderia ter sido feito e não foi??? A expulsão dele acabou jogando-o na prostituição – era um rapaz pobre e negro -, tendo interrompido sua vida escolar de maneira brutal. E ele não tinha histórico nenhum de violência na escola antes disso! Ao contrário: costumava ser espalhafatoso e engraçado. Mas… a “solução” dada foi a expulsão e ponto final. Tentei ajudá-lo durante anos, incentivando-o a continuar os estudos, mas ele começava e parava até largar de vez. Acho que há muito para se pensar sobre essa história, não acham?

Quanto maior a violência que o aluno comete, maior é a que está sendo vítima em casa, na maioria das vezes. O caso acima é apenas um pequeno exemplo disso. Acompanhei outros casos muito mais violentos, mas escolhi contar esse por estar até hoje acompanhando esse rapaz, tentando ajudá-lo.

Vocês já pararam para realmente refletir sobre tudo isso, por todos os ângulos?

Gostaria de ouvi-los a respeito.

Abraços,

Regina Milone.

Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio de Janeiro, 25 de março de 2013.

 

Em que estado encontram-se as escolas públicas em nosso país, no que diz respeito à manutenção do espaço físico?

Lendo um dos últimos textos do Declev aqui, só posso concordar com sua indignação em relação ao espaço físico das escolas e sua (falta de) manutenção. É um completo absurdo!!! Por isso estou escrevendo esse texto, para reforçar o que ele escreveu.

Várias vezes, em várias escolas, tive que lidar com: infiltrações, rachaduras nas paredes, pichações, falta de material didático e de espaço adequado para guardá-los, ventiladores que não funcionam, janelas quebradas, problemas elétricos…

Certa vez, eu estava com uma turma de 6º ano quando começou a PEGAR FOGO na sala ao lado, por causa de um curto que deu no ventilador de lá, que já estava dando choque há um tempão (já havíamos notificado e pedido providências à Secretaria de Educação várias vezes). Muita fumaça, gritos, mas todos acabamos conseguindo sair, mesmo assim. Tentei frear o pânico, o que foi bem difícil naquela situação, pois os alunos ficaram, com razão, muito assustados. O que salvou a todos foi o extintor de incêndio do carro da professora Cristina, que ela pegou rapidamente para apagar o fogo. A presença de espírito daquela professora (que era uma excelente profª de ciências), salvou a todos. A escola não tinha extintor!!!!!!!!!!!!! E cada sala de aula só tinha uma porta para servir tanto de entrada quanto de saída. Por isso, mesmo estando na sala ao lado, saímos tendo que passar pertíssimo do fogo, já que as portas eram coladas uma na outra e o ventilador que pegou fogo era logo o que ficava mais perto da porta!! Imaginem o perigo que passamos!!!

E um último detalhe sobre esse caso do fogo no ventilador: todas as janelas eram gradeadas lá, nas salas de aula, e, portanto, a única forma de sair era realmente pela porta, onde justamente a fumaça era maior e o fogo começava a se espalhar…
Será que terá que acontecer um incêndio maior, como o da boate em Santa Maria (RS), com morte de jovens, para tomarem alguma providência em relação ao estado do espaço físico das escolas???
Parece que as coisas só funcionam assim em nosso país! E, mesmo assim, só enquanto aquilo é notícia, pois depois todo mundo esquece.

Outro caso do tipo, menos grave, que assisti acontecer: um quadro negro enorme (daqueles antigos mesmo, onde só se usa giz, e que ainda são maioria nas escolas públicas do país, causando problemas respiratórios e alérgicos em alunos e professores, muitas vezes, entre outros males), durante uma aula, simplesmente caiu com um enorme estrondo, quase em cima dos pés da professora. Passou raspando. Era um quadro pesado. A parede por trás dele estava cheia de infiltrações, claro. A professora teve que encostar o quadro na parede, apoiado no chão, para poder continuar a aula, tendo que se agachar para poder continuar escrevendo alguma coisa nele.
Onde vão parar as verbas, já mínimas, para a educação???
Cansamos (nós, profissionais das escolas) de enviar ofícios, telefonar, pagar até do próprio bolso (muitas vezes), entre outras providências, para buscar soluções para problemas como os citados aqui.
Essa é a realidade das escolas públicas e teríamos que acionar o Ministério Público todos os dias, se apelássemos apenas para esse tipo de “solução”.
As mil etapas burocráticas pelas quais uma obra na escola tem que passar até um problema, muitas vezes simples, poder ser resolvido é um absurdo!!

Dei apenas dois exemplos aqui, mas poderia dar milhares! O que acontece é uma violência sem tamanho! Um descaso político de deixar qualquer educador, verdadeiramente comprometido com uma educação de qualidade, totalmente indignado!

Alguém poderá dizer, ao ler esse texto: mas é a própria comunidade que depreda a escola! Nem sempre. Muitas e muitas vezes não é. E, quanto é a comunidade, o que podemos fazer é continuar trabalhando no sentido de educar alunos e pais em relação ao significado do que é público: aquilo que é de todos e, portanto, responsabilidade de todos também, e não aquilo que não é de ninguém, como os depredadores costumam pensar ao destruírem partes das escolas.

E vocês, que estão lendo esse texto, o que já viram e viveram nas escolas em relação a essas questões???

É uma vergonha o que acontece nesse nosso país de absurdos…

Abraços,

Regina Milone.

Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio de Janeiro, 23 e março de 2013.

 

Sugestão: alternância entre professores e demais educadores na escola

Em que um rodízio dos profissionais das escolas poderia contribuir para melhorar a educação?
Como cada grupo vê o aluno e a escola?

Uma das coisas que sempre tive vontade de fazer nas escolas em que trabalhei foi uma espécie de rodízio entre profissionais, por pelo menos um mês, em que professores de pré-escolar, do ciclo de alfabetização, das séries do antigo “primário” – até o 5º ano de escolaridade –, do antigo “ginásio” (6º ao 9º ano, atualmente) e do antigo 2º grau (Ensino Médio), além dos funcionários de apoio, administrativos (secretaria da escola), pedagogos, supervisores e direção trocariam de lugar e, alternadamente, sentiriam na pele o que é cada função dentro da escola e o quanto cada uma tem imensas dificuldades para “funcionar” decentemente nas sub-condições em que a escola pública se encontra, há muitos anos, em nosso país.

Vocês podem se perguntar: mas por que faríamos isso? Não seria prejudicial aos alunos, já que eu não tenho “formação” para cumprir outra função diferente da minha?

Respondo que seria tremendamente enriquecedor para todos e uma excelente experiência também para os alunos.

Acho que talvez fosse a única forma de abrir a mente dos que só reclamam do que vêem do seu ponto de vista, esquecendo-se de que essa NUNCA é toda a verdade, já que outros pontos de vista existem, vindos de diferentes olhares e práticas dos vários profissionais das escolas.

Por exemplo: os professores de 5º ao 9º ano de escolaridade e os de Ensino Médio aprenderiam muito (se estivessem abertos para isso, claro, senão não adiantaria nada) trabalhando como professores de crianças pequenas durante um tempo, assim como na pele dos pedagogos e da direção, geralmente tão criticados por eles.  E assim seria para cada profissional que esquece que o seu ângulo de visão é justamente e apenas isso: um dos ângulos por onde se pode enxergar e refletir sobre a realidade da educação.

O fato desses profissionais não trocarem ideias e experiências, não terem tempo ou vontade para fazer isso, origina-se e resulta na mesma forma falsa com que se divide o conhecimento em “disciplinas” (matérias) “x”, ‘y” ou ‘z”, como se não houvesse relação entre elas ou raízes comuns: uma forma “torta”, que fragmenta saberes – que ficam parecendo totalmente sem sentido para os alunos, com razão! – e que, no entanto, são interdependentes na vida. Só por sermos todos frutos desse tipo de “ensino” conservador, chato e artificialmente separado (desintegrado) é que achamos que as funções dentro das escolas não devem se “misturar”. Mas elas funcionam juntas na escola e na vida! Uma depende da outra. Chegar à escola, cumprir com o mínimo de suas “obrigações” e ir embora só ajuda a manter esse quadro artificial e falido. Só desestimula mais ainda os alunos e os próprios profissionais da educação.

Sonho com o dia em que esse rodízio será feito, assim como sonho com o dia em que todos os profissionais de educação se respeitem e saibam um pouco mais o quanto também é difícil “funcionar bem” dentro dessa (des)estrutura existente para cada um deles.

Não é difícil só para os professores e nem só para os alunos. É difícil para todos!

Deixar a vaidade de lado e perceber que a instituição escola é muito mais do que apenas uma relação professor-aluno poderia trazer inúmeros “insights”, amadurecimento, união e, aí sim, poderíamos dar alguns passos juntos ao invés de tantos continuarem repetindo eternamente as mesmas velhas palavras de ordem enquanto que outros ficam em suas “abas”, pois nem refletir refletem (deixam que aqueles que parecem mais “politizados” façam aquilo por eles)!

Esse rodízio só deixaria de ser necessário, a meu ver, no dia em que as formações de professores, pedagogos, etc., fossem mais completas, incluindo esse aprendizado sobre como é a realidade de cada um que trabalha direta ou indiretamente com/nas escolas O resto é apenas repetição, repetição, repetição…

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Abraços,

Regina Milone,

Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio, 04 de março de 2013

Reflexões sobre os tipos de escolas existentes – Em qual você acredita?

Temos escolas, públicas e particulares, mais ou menos comprometidas com projetos pedagógicos bem embasados, conhecidos e continuamente construídos por todos, assim como temos escolas onde o modelo tradicional, onde ninguém escolhe nada e apenas se segue programas curriculares pré-estabelecidos, continua imperando (estou simplificando um pouco, colocando apenas dois grandes grupos existentes, pois considero muitos outros decorrentes destes). Com qual você se identifica?

Uma das coisas que mais me choca, como pedagoga, é ver o despreparo geral dos educadores – professores, diretores, supervisores, coordenadores, funcionários de apoio e, infelizmente, muitos pedagogos também -, tanto em relação a pensar a Educação quanto em relação a refletir sobre a prática, sua e de muitos outros, em outras escolas, estados e mesmo países. A visão é tão estreita que chega a dar dó. O trabalho do educador, a princípio, é um trabalho intelectual (ou deveria ser!). O educador que não pensa sobre o que é educar, como educar, porque educar, não deveria nem ser considerado verdadeiramente um educador, em minha opinião. Mas, infelizmente, a preguiça da qual tantos alunos são acusados está igualmente presente nos “educadores”. A maioria não quer estudar, não gosta de estudar, pouco ou nada lê (quer que o aluno goste de ler e estudar como???) e nunca sequer se questionou sobre essas coisas!

É ou não é chocante?!

Em quantas reuniões pedagógicas, que coordenei junto com colegas, com a presença de professores, diretores e demais profissionais da parte administrativa da escola, todos faziam pequenos grupinhos e ficavam de bate-papo, sem o menor respeito pela fala dos pedagogos e de outros colegas, tornando a sala tão barulhenta e cheia de “zum-zum-zum” quanto os professores sempre reclamam que são as salas onde dão aula, por causa dos alunos. É uma falta de autocrítica absurda! Impressionante. Agiam e agem (todos os educadores presentes, incluindo os professores), muitas e muitas vezes, da mesma forma que tanto criticam nos alunos! Fazem igualzinho. Os professores, por exemplo, costumam só parar para prestar atenção em algo quando é para reclamar de alguém: dos alunos, da Secretaria de Educação, da Direção da escola, dos supervisores, dos pedagogos, das famílias dos alunos, etc. E então, invariavelmente, essas reuniões viram muros de lamentações, onde ninguém pensa, reflete, ouve ou vê verdadeiramente ao outro ou a si mesmo. E saem sempre reclamando dessas reuniões também, sem pensar que ela é construída por todos que delas participaram!

E as reuniões onde insistimos (nós, pedagogos) em que representantes dos alunos e dos pais também participassem (eu era uma que sempre insistia nisso)? Na maioria esmagadora das escolas em que trabalhei e das tantas outras que tive contato, ninguém queria isso, embora muitos não assumissem claramente.

Sou professora também, mas, como pedagoga, na faculdade e dentro da escola, aprendi muito mais sobre Educação e sobre todos os elementos que interagem para que ela aconteça do que aprendi como professora. Especialmente porque pude observar muito, ouvir a todos, individualmente e em grupo, me colocando no lugar de cada um sem chegar com uma idéia pré-concebida de como esse lugar seria, o que me fez ter uma visão muito mais ampla da realidade do que tinha quando era apenas professora. E tive humildade para aprender com isso.

Então hoje estou aqui, entre outros motivos, não para passar a mão na cabeça dos professores, tratá-los como vítimas ou “sábios incompreendidos e injustiçados”, pois eles não são, em minha opinião. Quem já leu outros artigos meus sabe que defendo salários muito maiores para os professores, número muito menor de alunos por turma, mais verbas para a Educação, entre outras medidas pra lá de urgentes, mas também sempre defendi e defendo que o professor deve ser, antes de tudo, um EDUCADOR e que não se pode dizer que houve ensino real – por mais que o professor tenha se esforçado dentro da falta de condições atual das escolas, principalmente as públicas – se não houve aprendizagem, porque quem ensina, ensina alguma coisa a alguém e se esse “alguém” não está aprendendo é porque algo no modelo de ensino, além de todas as questões políticas, macro, já citadas em tantos artigos por aqui, precisa mudar. Existe um PROCESSO ensino-aprendizagem e essa é uma via de mão dupla! E me sinto totalmente à vontade para dizer isso por também ter trabalhado como professora e por ter tido a maravilhosa experiência de colocar o meu filho para estudar numa escola verdadeiramente construtivista na prática (não só no discurso), uma escola onde a autonomia, a criatividade e o ritmo de cada aluno são respeitados, onde não há “decoreba” e sim desenvolvimento real do raciocínio, da sensibilidade, da iniciativa, do espírito de grupo, da cidadania, entre outros “conteúdos” que considero, esses sim, um milhão de vezes mais importantes do que os ultrapassados (e sempre esquecidos depois…) conteúdos curriculares que ainda se tenta, na grande maioria das escolas (e isso não acontece só no Brasil), empurrar goela abaixo dos alunos.

Alguém pode responder, com SINCERIDADE, o que se lembra dos conteúdos estudados na escola, depois de aprender a ler e escrever??? Ou esquecemos quase tudo, lembrando apenas um pouco do que gostávamos mais? É preciso coragem e honestidade para dizer que não lembramos porque aquilo não fazia sentido para nossas vidas! Era um universo à parte, chato, obrigatório, longo e que todos seguiam porque “sempre foi assim”. Então porque tantos ficam tão chocados com o desinteresse que milhares de alunos demonstram ter pela escola?

Além disso, ficar horas seguidas sentado, ouvindo, escrevendo e pensando, todos os dias, não é fácil nem para crianças e nem para adolescentes, pois vai totalmente contra a própria energia natural dessas faixas etárias, que pedem mais dinamismo e participação, mas não a participação que costumamos lhes sugerir e sim espaço para que possam inclusive escolher que tipo de participação poderiam ter para aprender. Mas ainda estamos longe disso, pois o modelo que impera é o tradicional, onde professor ensina (ou tenta, na nossa triste realidade…) e o aluno aprende (ou tenta… e muitos nem isso fazem).

Fui a melhor aluna da minha turma durante toda a minha vida escolar. Eu não partia pra decoreba e sim procurava entender e, assim, aprender de verdade. Mas há muitos e muitos anos não me lembro de praticamente mais nada do que estudei na escola! Aliás, mal entrei pra faculdade, já não lembrava de mais quase nada do que “aprendi” antes. Lembrava de professores maravilhosos que tive, diretores presentes (quando existiam), colegas queridíssimos (alguns reencontrei via internet nos últimos anos e foi ótimo!), mas as matérias que estudávamos? Não lembro de praticamente nada!!!

E eu sou apenas um exemplo entre milhares.

Por essas e outras é que questões sobre “que escola queremos afinal” são FUNDAMENTAIS quando se fala em melhorar a Educação, pública e particular, no Brasil.

A escola onde meu filho estudou, para quem ficou curioso, chama-se EDEM – http://www.edem.g12.br/v2/index.php – e é particular. Não trabalho lá e não ganho um tostão para fazer propaganda deles. Apenas falo dela para que as pessoas que, em algum momento, tenham o mínimo de curiosidade e abertura intelectual e profissional para ver outras realidades, saibam que escolas assim existem SIM e funcionam muitíssimo bem! Inclusive aprendendo com seus erros e se reconstruindo constantemente, o que é outra qualidade que valorizo bastante. Uma escola onde o mais importante é a liberdade e o respeito às diferenças, onde a inclusão funciona, entre outras coisas. Mas, ao mesmo tempo, uma escola que, no Ensino Médio, vira outra escola, se descaracterizando bastante (infelizmente…), por cobrança dos próprios pais dos alunos que só pensam em seus filhos passando no Vestibular e em outros concursos futuros… Mas isso já é assunto para outro artigo.

Um exemplo de escola, que funciona muito bem dentro da filosofia construtivista desde 1976, é a Escola da Ponte, em Portugal. Deixo aqui alguns links para quem se interessar em conhecê-la ao menos um pouquinho:

Site oficial da Escola da Ponte: http://www.escoladaponte.com.pt/

Escola da Ponte: http://www.youtube.com/watch?v=VekBzEu6AWg

Rubem Alves fala sobre a Escola da Ponte: http://www.youtube.com/watch?v=MtGyHzIafLc

Resumo do livro de Rubem Alves: A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existirhttp://www.cienciashumanas.com.br/resumo_artigo_4921/artigo_sobre_a_escola_que_sempre_sonhei_sem_imaginar_que_pudesse_existir

A ESCOLA DA PONTE – CRÔNICA DE RUBEM ALVES: http://www.webestudante.com.br/we/index.php?option=com_content&view=article&id=1096%3Aa-escola-da-ponte-cronica-de-rubem-alves&catid=95%3Atemat-do-cotidiano-escolar&Itemid=51

José Pacheco e a Escola da Ponte: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-inicial/jose-pacheco-escola-ponte-479055.shtml

Pesquisem, busquem, reflitam… Debater só sobre salários, sobre a desvalorização do professor e outros assuntos que já são debatidos e acompanho há pelo menos uns 30 anos (e já vem de antes disso!) não é suficiente para melhorar a Educação. É preciso se discutir que Educação queremos, que tipo de escola queremos e, nessa escola, qual o papel do professor que, em minha opinião, tinha que ser muito diferente do que é hoje (até para não continuar essa sobrecarga sobre eles…), assim como todos os outros papéis dos demais profissionais da escola. Senão os debates ficam só na eterna repetição que eu, sinceramente, acho cada dia mais sem sentido…

Abraços,

Regina Milone
Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga
Rio, 21/12/2012

Conhecendo nossos alunos: como a criança e o adolescente se desenvolvem

Como a criança e o adolescente se desenvolvem? Como é possível trabalhar bem com crianças ou adolescentes sem o conhecimento dessas etapas? Só a experiência prática basta? Como algo tão fundamental é tão pouco estudado pelos professores, entre outros educadores? Como a Psicologia, entre outros conhecimentos, pode nos ajudar nisso?

Quando falamos em crianças ou em adolescentes precisamos saber um pouco mais sobre o que define essas fases de desenvolvimento bio-psico-sociais humanos, se quisermos trabalhar bem na área de Humanas.

Mas, infelizmente, o que se estuda sobre isso é pouquíssimo e o que mais vemos e ouvimos nas escolas são “achismos” vindos do senso comum, muitos absolutamente fora da realidade, sem base nenhuma, embora o conhecimento a respeito já exista há décadas!

Na própria internet, se um educador – pai, mãe, avós, profissionais de educação, etc. – quiser saber mais sobre o assunto, inúmeros artigos, dissertações, teses, matérias jornalísticas e entrevistas são encontradas, algumas muito boas. Portanto, hoje em dia, o acesso a esse tipo de informação é rápido, fácil e, em geral, pode ser feito dentro de nossas próprias casas ou ambiente de trabalho.

Por isso, não ficarei aqui listando as diversas fases e etapas e sim mostrarei e questionarei um pouco das diversas reações que se tem, nas escolas e nas famílias, em relação a comportamentos de crianças e adolescentes que, na verdade, são absolutamente naturais nas fases que estão vivendo, embora muitos adultos reajam como se fossem absurdos. Acho que saber mais sobre isso pode ajudar a todos, especialmente aos professores. E, como professora, pedagoga, psicóloga, arteterapeuta e mãe (ufa!!!), posso ajudar.

É importante lembrar que as idades ligadas a cada fase são aproximadas, isto é, variam um pouco de acordo com os estímulos ou falta de estímulos recebidos. No caso dos alunos das escolas públicas de periferia, principalmente, muitos estímulos estão em falta e muitas atitudes prejudiciais são consideradas “normais” na educação familiar e escolar deles, o que vai levando a um atraso intelectual, emocional, social e, portanto, de compreensão do mundo. Muitas superstições, crenças baseadas em preconceitos, senso comum sendo tomado como “verdade” – tipo: “sempre fizeram assim comigo e deu certo, então faço o mesmo com meus filhos ou alunos” -, falta de vontade de aprender seja lá o que for que coloque em dúvida alguma dessas certezas, enfim… Atitudes defensivas, ignorância e preconceito atrapalham muito, o tempo todo, não só quando vem das famílias e dos alunos como, também, quando vem dos professores e demais educadores.

Por exemplo, a sexualidade humana existe desde sempre. A criança passa uma fase em que é absolutamente natural a curiosidade em relação ao próprio corpo e ao do colega do mesmo sexo e de sexo diferente. No entanto, em pleno terceiro milênio, muitos ainda se chocam quando sabem que a menina ou menino estavam mostrando seus corpos no banheiro, um pro outro, na hora do recreio, por exemplo. E, vejam bem, estou falando de crianças da mesma idade ou próxima, porque quando uma é muito mais velha do que a outra, aí já é preocupante e temos que ver se a maior não está se aproveitando, de alguma forma, da menor.

O que eu ouvi de gente muito religiosa, por exemplo, dizendo que a criança estava fazendo “coisas do Diabo”, “coisas feias”, enchendo a cabeça das crianças de culpas sem sentido, assustando essas crianças com essas reações, enfim… Perdi a conta de quantas vezes vi esse tipo de coisa acontecer! E, mesmo levando informação a respeito, as reações dos adultos dificilmente mudam, pois já possuem os próprios sentimentos de culpa arraigados dentro de si! É triste… E é uma tremenda bobagem, pois é até um momento de curiosidade relativamente curto, já que a libido da criança, sua energia, será vivida em outras esferas, naturalmente, nessas fases iniciais. Satisfeita a curiosidade, passa-se a outras brincadeiras e pronto! É só mais uma brincadeira pra eles. Não tem o peso que o adulto dá. Os adultos é que maliciam, equivocadamente, muita coisa.

E a sexualidade ainda é uma das coisas que mais assusta realmente. Na adolescência também. Nesse caso, porque os hormônios estão a mil e a sexualidade que era vivida mais na base da sublimação com brincadeiras, jogos e estudos nas fases anteriores (infância), aqui passa a querer ser vivida com o outro, o amigo(a), o “ficante”, o namorado(a). É uma explosão! Tesão correndo solto, corpos se modificando rapidamente e sentindo coisas antes desconhecidas, a vontade de desejar e ser desejado pelo outro, etc. E a isso se junta a vontade de ser aceito e querido, o que, muitas vezes, leva os meninos e, principalmente, as meninas, a fazerem péssimas escolhas em relação ao momento e a pessoa com quem começar essa “brincadeira” nova.

O adolescente quer ser aceito pelo grupo. Os pais e os adultos em geral é que são os estranhos para eles, nessa fase. Querem distância desses, pois acham sempre que não os entendem, os constrangem, etc. A adolescência é uma fase super complicada e contraditória: ao mesmo tempo que o adolescente não quer perder o carinho e os mimos da infância, não quer mais ser cobrado e tratado como criança, pois realmente não é mais! Só que também ainda não é adulto. Está em transição. É uma fase intermediária. E é por essas e outras que essa não é a melhor fase para engravidar e virar mãe ou pai antes da hora. A gravidez joga o adolescente de forma brusca pro mundo adulto, sem que ele tenha ainda a menor maturidade para isso, o que costuma trazer conseqüências nem sempre boas depois. Mas esse é um assunto pra muitos e muitos outros artigos…

Nesse artigo, só quero citar também a agressividade na adolescência e na infância. Quando criança, se a agressividade está exagerada, pode ser simplesmente um pedido de socorro. Se pro adulto muitas vezes é difícil verbalizar o que está sentindo, imaginem pra criança! Com a criança tudo passa muito pelo corpo e pela imaginação. Então, é observando a forma como ela brinca, com o que e com quem está brincando, que podemos muitas vezes ver que algo não vai bem. E a agressividade, nesse sentido, é sadia, pois serve mesmo como um pedido de ajuda, um alerta, ao qual não devemos ficar surdos!

Já com o adolescente, a agressividade, as horas a mais de sono, a rebeldia, o incômodo com toda figura de autoridade, tudo isso é natural. É assim mesmo. Ficar dizendo “Fulano foi meu aluno e não era assim; como ele está diferente”, de forma reprovadora, mostra ignorância, pois o adolescente está vivendo mil mudanças realmente e, se estivesse igualzinho à como era na infância, aí sim seria preocupante!

O adolescente questiona a autoridade, se rebela, percebe as pequenas e grandes hipocrisias dos adultos e, por essas e outras, quer mesmo é a companhia dos outros adolescentes e não dos adultos. Os adultos que lhes interessam são os seus ídolos, do esporte, das artes (da música, especialmente) e, muitas vezes, da comunidade (entre esses, infelizmente, muitas vezes traficantes e/ou milicianos…).

Aqueles adolescentes que sofrem bullying também ficam traumatizados (não só as crianças), sofrem muito, pois o que mais querem é ser queridos por seus colegas! Já os populares, ficam cheios de si e acabam, em geral, se arriscando demais em várias situações, pois estão “agradando”. Na verdade, tudo é uma grande experimentação da vida, do mundo, agora sem um adulto sempre por perto dizendo o que ele pode ou não fazer. Acabam abusando, por causa disso, muitas vezes.

Crianças e adolescentes precisam de limites sim. Pedem por isso agressivamente às vezes, por não saberem verbalizar ou simplesmente por não saberem que é isso que estão precisando, pois suas reações são muito emocionais. Adolescentes, em geral, são dramáticos e isso deve ser respeitado, pois sentem nessa intensidade realmente. Por isso, quando um adolescente fala em suicídio, por exemplo, isso deve ser levado muito a sério, pois é uma enorme besteira dizer que “quem avisa ou ameaça que vai fazer isso, não faz”. Muito pelo contrário!

Mas adolescentes e crianças precisam saber o porquê daqueles limites que lhes são impostos. O adolescente, então, mais ainda, pois criticará e questionará aquilo até que faça sentido, já que está na fase de questionar tudo no mundo, o que é uma qualidade e não um defeito!

Crescer não é fácil. Muitas vezes dói, fisicamente, emocionalmente e na vida social também. Ainda mais num mundo tão cheio de contrastes, injustiças, desarmonia e violência como o que nós, adultos, estamos entregando pra eles.

Citei aqui, rapidamente, apenas dois temas importantes – sexualidade e agressividade – em relação ao desenvolvimento de crianças e adolescentes, mas são temas tão importantes que, se fossem estudados com profundidade nas formações de educadores, fariam enorme diferença e evitariam muitos confrontos infantis e desnecessários que acontecem, quando, muitas vezes, os educadores se comportam de forma tão ou mais infantil ou adolescente que seus filhos ou alunos, muitas vezes porque também passaram aos trancos e barrancos pela própria infância e adolescência e, emocionalmente, ainda estão “presos” lá. Como, por exemplo, já vi professores homens querendo sair no tapa com alunos adolescentes dizendo: “o que ele está pensando que eu sou? Eu sou homem!”, sem perceber que estava parecendo mais adolescente do que o próprio que havia sido grosseiro ou debochado com ele…

Só para citar um exemplo da Psicologia, W. Reich, um grande médico psiquiatra já falecido, criador das primeiras psicoterapias corporais, dizia algo muito interessante sobre o quanto a sexualidade esfuziante dos adolescentes deixam tantos adultos incomodados. Ele dizia que isso acontecia por estes estarem vivendo mal a própria sexualidade há muito tempo e vê-la florescendo de forma tão escancarada nos adolescentes era quase insuportável para estes adultos…

Enfim…

Esse artigo foi só pra mostrar um pouquinho do quanto é importante conhecer como funcionam as fases de desenvolvimento da criança e do adolescente para poder saber com quem se está trabalhando, como abordá-los, como reagir a eles em diferentes situações, etc. Quantos mal-entendidos e quanto estresse seria poupado assim… Será que um dia ainda chegaremos lá??? Disso não desisti não! Se quiserem me perguntar qualquer coisa sobre o que pode ser considerado natural ou não nessas etapas da vida, contem comigo! Óbvio que sempre terei muito mais a aprender sobre esse assunto fascinante, mas já sei bastante pra ajudar. J

Abraços…

 

Regina Milone
Pedagogia, Arteterapeuta, Psicóloga

Rio, 20/11/2012

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No Diário do Professor você encontra artigos e links sobre o dia-a-dia da Educação:

Planos de aula, Atividades, Práticas, Projetos, Livros, Cursos, Maquetes, Meio Ambiente… e muito mais!

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Você realmente sabe o que é bullying?

Desde que comecei a escrever como colunista, aqui no blog do Declev, que tenho vontade de abordar esse tema, tão falado hoje em dia. Não pretendo ficar teorizando a respeito, mas sim relatar algumas experiências, refletir e esclarecer alguns pontos. Vamos lá.

Achei um artigo muito claro, objetivo, completo e de fácil leitura na internet mesmo, em O que é Bullying?, onde foram listadas 21 perguntas e respostas sobre bullying. Vale à pena ler! Vou recorrer um pouco a essa matéria para este artigo (tudo que eu escrever em itálico, abaixo, será retirado dessa matéria citada).

Bullying

Bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato.” 

“É uma das formas de violência que mais cresce no mundo”.

Pode ocorrer em qualquer contexto social, como escolas, universidades, famílias, vizinhança e locais de trabalho. O que, à primeira vista, pode parecer um simples apelido inofensivo pode afetar emocional e fisicamente o alvo da ofensa. 

Além de um possível isolamento ou queda do rendimento escolar, crianças e adolescentes que passam por humilhações racistas, difamatórias ou separatistas podem apresentar doenças psicossomáticas e sofrer de algum tipo de trauma que influencie traços da personalidade. Em alguns casos extremos, o bullying chega a afetar o estado emocional do jovem de tal maneira que ele opte por soluções trágicas, como o suicídio.

O bullying sempre existiu. No entanto, o primeiro a relacionar a palavra a um fenômeno foi Dan Olweus, professor da Universidade da Noruega, no fim da década de 1970. Ao estudar as tendências suicidas entre adolescentes, o pesquisador descobriu que a maioria desses jovens tinha sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, o bullying era um mal a combater.

Bullying

Bem… A matéria segue explicando a diferença entre o que é ou não bullying, as diferenças entre o bullying praticado por meninas e meninos, dá sugestões sobre como a escola pode lidar com isso, etc. Mas, agora, vamos aos relatos.

Quando criança, sofri muito bullying. Aliás, praticamente por toda a minha infância e parte da adolescência. Por quê? Porque eu era magérrima, muito alta, cabelos compridos e escorridos de tão lisos, dentuça, super tímida, “CDF”, meio desajeitada e ainda tinha uma pinta grande e peluda no meio da bochecha, de nascença. Tá bom ou querem mais?!

Dá pra imaginar que eu era um alvo perfeito! Um prato cheio. Riam de mim, ridicularizavam, imitavam, fofocavam, muitos se afastavam, faziam “cara feia”, davam inúmeros apelidos que me magoavam tremendamente – Olívia Palito, poste, garça… –, faziam musiquinhas que debochavam de mim e que me faziam chorar e a reação dos adultos era nenhuma. Na escola, os professores chegavam a rir, muitas vezes, das piadinhas, mesmo tentando disfarçar para que eu não visse (mas eu via!). No máximo mandavam os gozadores calarem a boca, mas sem muita convicção. Já a família, me dizia: “não liga não”, “seja superior” e outras pérolas deste tipo que também não ajudavam nada. Na verdade, ninguém levava a sério esse tipo de coisa naquele tempo e, por isso, não se fazia nada. E o resultado disso, no meu caso e de milhares de outras crianças que passaram pelo mesmo, foi ficar traumatizada. Cresci convicta de que tinha algo muito errado em mim, que eu deveria viver pedindo desculpas por existir, que eu era um “bicho esquisito”, que eu era muito feia, que ninguém gostava de mim (não me lembro de um único dia, na infância, em que não tenha chorado ou tido pesadelos por causa disso) e que eu nunca ia ter um namorado. Os adultos que me viam triste e queriam me consolar, muitas vezes pioravam a situação dizendo coisas tais como: “não fique assim não; pelo menos você é inteligente!”…

Bullying

Doía ser alvo daquela covardia – o bullying psicológico é tão ou mais doloroso do que o que envolve agressões físicas também – e ver que, mesmo quem parecia não concordar, se calava, se omitia, tinha medo ou, pior ainda, contribuía rindo e inflando o ego daqueles gozadores cruéis.

Certa vez, uma colega mais velha me “ensinou” um “jeito sexy” de andar, me convencendo de que assim os meninos iam gostar de mim. Ingenuamente acreditei e passei a andar rebolando, como ela ensinou, por semanas, até que vi que riam às gargalhadas pelas minhas costas quando eu fazia isso, inclusive ela, que havia “armado” aquela maldade toda. Resultado: me encolhi mais ainda, ficando mais tímida do que nunca.

Só vim a superar minha timidez com quase 30 anos de idade, depois de muita terapia, só pra vocês terem uma idéia!

Conto o meu caso aqui porque parece relativamente simples, mas justamente pra mostrar que, o que pode parecer pequeno ou bobo para o adulto, para a criança que está passando por aquilo NÃO É.

Bullying

Bullying é coisa muito séria!!!

Apelidos só são engraçados se a pessoa apelidada estiver gostando do apelido, achando graça nele, etc. Senão é agressão, pura e simples.

O que passei marcou a minha vida pessoal, afetiva e profissional. Até hoje ainda luto com fantasmas desse passado.

Como psicóloga, acompanhei inúmeros casos de pessoas – jovens e adultos – extremamente traumatizados pelo bullying que sofreram na escola. Alguns ficaram com um nítido atraso emocional e mental, outros encolheram-se totalmente na vida, outros adoeceram psicossomaticamente, outros revoltaram-se e passaram a ser agressivos, muitas vezes repetindo comportamentos dos quais tinham sido vítimas, só que agora contra os outros… Algumas coisas em comum entre todos eles eram: baixa auto-estima, desconfiança total em relação aos outros (enorme dificuldade de confiar em alguém e ser “sacaneado” de novo), mágoas profundas, insegurança, etc. Tudo muito sofrido e anos de terapia para melhorar.

Bullying

É muito importante que esse assunto seja realmente trabalhado na escola, por todos os profissionais de educação. Lutar contra o bullying é uma das formas de se lutar pelo respeito às diferenças individuais e de grupos! Nem todos que sofreram bullying conseguem dar a volta por cima, muitos acabam até suicidando-se e, por tudo isso, é absolutamente necessário que se pare uma aula quando estiver acontecendo uma situação de bullying e se repreenda os “valentões” e se debata o assunto, informe, reflita, enfim… Nessa hora, nenhum conteúdo programático é mais importante do que o que está acontecendo ali, nas vistas do professor, do diretor ou do pedagogo, seja dentro da sala de aula, no recreio ou no entorno da escola. Não é exagero dizer que vidas poderão ser salvas assim!!!

É importante informar os pais, dar palestras sobre o assunto, falar nas reuniões de responsáveis (aos pais, avós…) e ouvir a todos sobre isso, mostrar que devem ter o mesmo cuidado em casa ao educar seus filhos ou netos, enfim, é um trabalho árduo, mas diretamente relacionado, inclusive, ao desempenho do aluno na escola.

No meu caso, fui a 1ª da turma a vida inteira. Por um lado, foi uma fuga, como era ler o dia inteiro também. Afinal, cada criança ou adolescente encontra a sua forma de lidar com o que está acontecendo, para sobreviver. As que não conseguem, como já citei, acabam tornando-se elas mesmas os futuros valentões ou, no outro lado da mesma moeda, acabam se matando, de um jeito ou de outro (quantas pessoas vivem com medo, sem brilho nos olhos, aceitando todo o tipo de humilhação, como se merecessem???… são muitas!!!!!).

Bullying

Tive paciente que ficou anos sem sair de casa sozinho, outros que não conseguiam ter uma vida amorosa sadia ou um bom emprego, pois não se achavam merecedores, outros sempre na defensiva, agressivos, pois já tinham sido muito agredidos em etapas da vida em que ainda estavam formando sua personalidade básica, enfim…

Não posso entrar em mais detalhes sobre os pacientes, mas posso citar muitos casos com alunos, que também acompanhei: os mais negros sendo chamados de “macacos” pelos mulatos, os mais agitados sendo tachados de “malucos” pelos colegas e pelos adultos da escola, muitos sendo chamados de “burros, idiotas, retardados, feios, horrorosos, cagões, viados, sapatões”, etc. Uma violência imensa, que vai (de)formando a personalidade dessas crianças e jovens desde cedo. Uma covardia!

Bullying

Tantos alunos vinham chorar e desabafar comigo sobre essas situações, que não eram situações de exceção e sim as mais comuns – pasmem! – no cotidiano escolar. Sentia a tristeza e a dor deles como se fossem em mim… Entrava nas turmas, dava broncas, conversava com todos, procurava fazê-los refletir, chamava alguns para conversar individualmente também, conversava com os professores, diretor, colegas pedagogos… Mas tudo sempre parecia pouco.

E ainda se espalha, cada dia mais, o bullying pela internet!!!

Bullying

Muitas famílias de nossos alunos só reforçam o bullying em casa, também ridicularizando e xingando esses meninos e meninas. Muitos dos valentões da escola são crianças ou adolescentes que estão acostumados a serem agredidos, física e/ou emocionalmente em casa e descontam nos colegas de escola. E aí fica mais difícil ainda pra nós, educadores, darmos conta totalmente desse quadro perverso.

TODOS – crianças, jovens e adultos -, precisam ser educados sobre isso e não é nada fácil!

Encaminhar a psicólogos casos de bullying pode ajudar, claro, mas não é o suficiente se a forma da escola e das famílias lidarem com isso não mudar! De qualquer maneira, o psicólogo pode ajudar aquela pessoinha a ir construindo um espaço de força e restauração dentro dela, para não sucumbir a todo esse absurdo.

Bullying

Se você, que está lendo este artigo, sofreu com o bullying ou conhece quem sofreu, participe, conte a sua história (omitindo nomes, para não expor as pessoas, claro), para que possamos conscientizar cada vez mais gente e, dessa forma, possamos colaborar com uma mudança de mentalidade e de comportamento de TODOS os envolvidos no processo escolar.

Repito o que já disse em outros artigos: nosso papel é EDUCAR corações e mentes e não só passar conteúdos, muitas vezes chatíssimos e ultrapassados.

Abraços…

Regina Milone
Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga

Rio, 15/11/2012