Arquivo da categoria: Dante Pincelli

“o avesso do real”

 

 

 

 

 

 

acho que mereço o mundo ao avesso do fim pro começo, sem lenço, sem endereço… pelo conformismo, pelo machismo, pelo canibalismo que vejo pelas esquinas e não faço nada, pela madrugada inescrupulosa, pela estrada tortuosa, pela menção honrosa que recebi pelo meu belo trabalho… tô cansado pra caralho pra fazer alguma coisa: desculpa esfarrapada pela imobilidade, pela falta de sensibilidade, pelo revés da verdade que cortei em tiras e transformei em mentiras, só pra dormir em paz… pra você, tanto faz quem seja o dono do mundo, só não tolera o vagabundo imundo que te interpela na rua? te interessa mais a gata nua na capa da revista? eu sou artista e não dentista, então não me venha me mostrar os dentes com essa faca na mão em meio à escuridão, não serei a tua lerda presa, só dou mole para a minha empresa, a qual defendo até a morte, assim como o brasil defende os fortes ( os países do norte, estes sim, têm fibra e sorte )… mas lá no fundo, não acho legal a economia mundial com seu arrebatamento bestial e sua dose fatal de ampliação de mercado, isto sim, é crime organizado! e dando uma de coitado fico no meu canto, imobilizado, impotente, acabrunhado, indecentemente desgraçado… ladrão de banco? sequestrador? são piada, ser político é que é a parada: desvia um dinheiro, compra um veleiro, um carro estrangeiro. cadeia? não, ele compra o ministro e o carcereiro, aos poucos, vende o país inteiro,,, tudo rui, a vida vira escombros e eu aqui, dando milhos aos pombos… quem mata um é criminoso, condenado, inescrupuloso,,, quem mata milhões é condecorado, heroico, aclamado… “os números consagram”… as luzes não se apagam, então, sigo escrevendo… o que estou dizendo é que no mundo ao avesso não conheço um figurão que tenha sido preso: a justiça tem seu preço e eu, pareço um palhaço, aqui, só falando ao invés de estar lutando por um belo futuro, mas juro que não tenho nada com isso, no máximo, sou conivente, aceitando calmamente a realidade avessa estabelecida, ou será que “os nossos bosques têm mais vida”? ou nossas vidas foram vendidas? de qualquer modo, sigo escrevendo, pois só assim, vou me entorpecendo e me enganando que estou vivendo…

 

 

 

 

 

 

1999

“o aguadeiro”.

 


o aguadeiro anuncia a chegada, derramando sobre nós, anéis do tempo e espirais de espaço,,, bailam no ar ecos luminosos e multicoloridos, informando a transformação pós contemporânea em forma de outdoores,, de quando em vez o aguadeiro provoca enchentes catastróficas sobre cabeças ocres, sararás, chocolates, pretas,,, sobre a vil cidade também desabam boas novas: o aguadeiro, sobre prédios elegantes e favelas verticais, sobre condomínios organizados e fotos de cartões postais, mas tapumes em cores computadorizadas, vedam os olhos do ingleses e dos menos avisados, em forma de baners e outdoores e, meus olhos, cada vez menores, apontam seus fuzis no alvo do futuro,,, o sinal do aguadeiro, novamente caiu,,, a favela sumiu, e vejam que já passou março e abril…

 

 

2011

“tarde?”

depois, não me venha reclamar da falta de memória, da infância inglória, da vitória não reconhecida no jogo lasso da vida, são marcas de um tempo em que já era permitido a ousadia, a rebeldia, agora é tempo de ética, de estética refinada, o tempo de vigília já passou, é hora do fazer, do agir, do transgredir e demolir as cortinas de fumaça que tentam encobrir as nossas mazelas,,, ééééééé!!! aquela mazela: a superlotação da cela, o pó que esfacela, a dengue, a febre amarela, a bulimia da pseudo bela, a anorexia da magrela, o estacionamento sobre a faixa amarela, a bala perdida que atravessa a janela, enquanto tiver criança na rua, o resto é balela,,, seu tempo é agora, faça, aconteça, cometa, já já, não será mais o presente, aliás, o que eu disse até aqui, já é passado, o tempo não espera a sua decisão, ele não poupa ninguém, depois não vá se lamentar que já é tarde…amém…

“linguaprendendo”

gosto de brincar com a língua que mais conheço, só que , às vezes, me esqueço se uso “ésse” ou “c-cedilha” então procuro na cartilha ortográfica pelo que é certo, aí desperto na página vinte, onde leio o seguinte: “vovô viu a vulva da vovó”; “g” de girino; “j” de jiló e o galo: cocorocó… gosto que me enrosco de usar e abusar da gramática, figura tão simpática, burilar o ortoepismo: prosopopéia, eufemismo, oralidade, verbalismo… brinco assim, a toda hora, com a língua que mora comigo, na “bocadela” eu me ligo, cacofonia é um perigo… digo um período composto; vocativo provocativo e aposto deposto, tudo pro gosto de freguês… sinto no meu rosto o português… posto que, chegou a minha vez, quero três formas verbais: particípio e infinitivos pessoais e vegetais… “aliás” tem acento agudo e, tudo que não sei pergunto, aí guardo e junto pra usar mais na frente… brinco contente com esta língua diferente; futuro, passado e presente… sigo reto como um objeto quase direto ou um sujeito oculto e secreto… brincando, sigo em frente, escrevendo enquanto vou vivendo, crescendo e linguaprendendo…

Dante Pincelli

Novo colunista do Diário do Professor: Dante Pincelli O Velho

O Dante Pincelli é meu amigo “virtual”.

Nos conhecemos por intermédio da Regina Milone e, de lá pra cá, nos falamos via internet.

Venho descobrindo muitas afinidades com ele, especialmente a sua verve artística. Sou um artista frustrado, poeta, pintor, inventor.

Gosto da convivência com artistas, o que infelizmente nem sempre faz parte do meu dia a dia. Então, não creio que seja a toa que nos encontremos.

O Dante vem dar ao Diário do Professor uma pitada de poesia. Pitada esta que eu mesmo, mesmo poeta e apesar de postar algumas, não consigo.

Veja o que ele diz sobre si mesmo, Dante por Dante:

“Arte educador, músico, compositor, letrista, poeta bipolar, pode ir do romântico ao devastador numa vírgula. Pai, avô, marido e vascaíno. Procura a beleza e a plenitude nas coisas simples da vida. Emotivo e passional, se refugiou nas montanhas pra viver a vida que imaginou desde os tempos de criança. É um tanto ou quanto recluso.”

Espero que gostem, comentem e entrem em contato.

As trocas são sempre bem-vindas.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Profissão Professor (poesia-rap de Dante Pincelli O Velho)

Profissão Professor, “poesia-rap” de Dante Pincelli O Velho

Hoje abro meu espaço aqui para Dante Pincelli O Velho, profissional de Educação Artística e História da Arte, professor das redes pública e particular há quase 35 anos! Nas particulares esteve por maios de 20.

Pedi a ele para postar sua “poesia-rap” e concordou. Sorte nossa! Acho que todos vão gostar!!!

Foi assim que ele me enviou:

 

Dante Pincelli O Velho

Uma poesia falando de nós.

Leia como se fosse um Rap, pois é isso que ela é.

“profissão professor”

“desde o tempo de criança eu tive que estudar para um dia ser alguém
e repleto de esperança, não parava de sonhar, o meu futuro ia tão bem
sonhava em ser artista, engenheiro, economista, presidente, senador
também quis ser motorista, escrever pruma revista, general ou jogador
sob o meu ponto de vista eu era muito otimista, até que meu dia chegou
meu destino vigarista, escreveu na sua lista que eu seria professor…

ai meu amor
eu que via a vida bela, fui cair nessa esparrela de querer ser professor
ai meu amor
jamais pensei que o meu futuro fosse ser assim tão duro, me tornando um professor…

no início da carreira eu pensava que a escola fosse a grande solução
pra acabar com a pasmaceira que corrompe e que assola o progresso da nação
mas aos poucos constatei que devido a nossa lei nacional de educação
o que aprendi, o que ensinei e, nhoque, um dia, acreditei, era somente enganação
então tentei ser diferente com um trabalho inteligente que visasse o crescimento
incomodei a muita gente com poder suficiente pra impedir meu movimento…

ai meu amor
eu tentei uma mudança, mas fui pago com a vingança de um pseudo professor
ai meu amor
nosso ensino é atrasado e eu estou desesperado porque sou um professor…

mesmo com pena de mim, hei de ser até o fim, um professor que não tem grana
quem me ouve falar assim, pensa que tudo é ruim na profissão, mas se engana
pois o que é fundamental e não podem fazer mal, porque é ouro de mina
é o que me faz sentimental: aluno é tão legal, aluno é gente fina
o aluno é a razão pra eu insistir na profissão sem pensar em desistir
do fundo do coração, vou cantá-los no refrão e, valeu por existir…

ai meu amor
se não existisse aluno eu mudava o meu rumo e não seria professor
ai meu amor
se aluno não existisse eu esquecia a babaquice de querer ser professor…”

Gostaram? Eu adorei!!!

Abraços,

Regina Milone

Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga

Rio, 29/10/2012