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Lançamento do livro “Lembranças do Vazio”

Capa livro

A obra captura a vida de dois irmãos, tornando-a imortal nas páginas de um romance singular. Uma leitura que nos faz refletir sobre o mundo e sobre nossos próprios atos.

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Sobre o livro

O que fazer quando nos deparamos com perdas irreparáveis ao longo da vida? Encarar os vários estágios de superação ou se entregar à dor, à sensação de vazio que insiste em preencher os dias?

Os irmãos Leônidas e Oscar, que cruzam as páginas deste romance, atravessaram inúmeros momentos como esses, em que o forte laço que os unia consolidou-se no alicerce que os mantinha de pé, mesmo quando seus caminhos se distanciavam.

Não se trata, contudo, de uma história de tristezas. “Lembranças do Vazio” é, acima de tudo, uma obra feita de memórias e trajetórias individuais, por onde desfilam amores, dúvidas, conflitos, experiências que acabam por unir pessoas para além dos laços de sangue.

Luiz Eduardo Farias tece sua narrativa com sensibilidade e bom humor. Leônidas se torna alguém familiar ao leitor, que percorre as aventuras e desventuras do protagonista em sua longa caminhada na construção de si como ser humano. Uma história que é, afinal de contas, um pouco a história de cada um de nós.

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Sobre o autor

Apaixonado por livros, cachorros e pelo Botafogo, Luiz Eduardo Farias é historiador e professor, lecionando no Colégio Municipal Delce Horta (Fevre) e no Colégio Estadual Baldomero Barbará. Natural de São Gonçalo (RJ), atualmente mora em Volta Redonda (RJ). Escreve crônicas e desabafos ligados a sua  profissão há alguns anos. Lembranças do Vazio é seu primeiro romance.

https://www.youtube.com/watch?v=-OAIO1iyDVQ

Onde comprar?

No Mercado Livre

No site do autor

Quero agradecer ao Declev pela oportunidade de divulgar meu livro aqui. Fico feliz de compartilhar esse momento tão marcante com todos vocês do Diário.

Teatro na escola: o que aprendi?

Existe muita coisa errada na Educação. Nada que não tenha sido exaustivamente discutida por muitos especialistas. Como não considero um deles, vou apenas fazer algumas considerações baseadas em ideias que tenho há algum tempo e que foram reforçadas com uma experiência maravilhosa que tive em uma das minhas escolas: o Teatro na escola.

Pra início de conversa: escola não é fábrica! Portanto, não devemos comprar o modelo industrial para produzir seres moldados conforme o padrão do mercado. Retiramos a humanidade da escola (se é que algum dia ela esteve presente) e viramos formadora de especialistas. Não importa o que ele vai fazer com esse conhecimento, basta tê-lo. Será?

Uma das maiores atrocidades da História (para alguns – a maior) foi fruto de uma sociedade extremamente organizada, disciplinada e muito bem escolarizada. Os alemães eram grandes especialistas. Tanto é verdade que conseguiram exterminar 6 milhões de judeus com uma velocidade e precisão digna de um país altamente desenvolvido.

Estamos formando engenheiros que são perfeitos conhecedores das ciências exatas, mas que é capaz de construir um prédio com areia da praia. Os políticos que hoje assombram o país com escândalos de corrupção passaram pela escola e aprenderam direitinho as lições de Português. São belos oradores. E os médicos? 10 em ciências! Que formidável! Mas é o mesmo que assina o ponto no Hospital público e vai embora correndo ganhar mais dinheiro na sua clínica particular.

Sei que você pode pensar: “Mas essas questões éticas são responsabilidade da família”. Sim, concordo plenamente. Mas o que fazer quando ela não cumpre o seu papel? A escola deve simplesmente ignorar? Se preocupar apenas com o conteúdo curricular?

Desenvolver o aspecto cognitivo é tarefa primordial da escola, mas sem valores humanos não temos uma sociedade melhor. E é papel da escola buscar uma sociedade melhor. Como fazer isso?

Deixar o aluno sentado em uma cadeira por horas e depois mandar ele pra casa com certeza não é o caminho. A escola supervalorizou a sala de aula. Daí estarmos com uma legião de alunos entediados, torcendo para ter uma aula vaga. Só assim ele tem um momento de liberdade, para movimentar o corpo, viver experiências.

A escola aprisiona os corpos dos alunos e eles resistem. Como pássaros, só querem voar. Mas por que não voar dentro da escola?

O colégio dos meus sonhos tem muito mais do que salas de aula. Nela há um auditório de música, onde os alunos podem aprender diversos instrumentos e soltarem suas vozes em lições de canto. Dentro do ginásio, existem diversas modalidades esportivas. É só escolher uma: tem um time de futebol, outro de basquete, vôlei, handebol, judô, ginástica, tênis de mesa… Na sala de artes encontramos quadros sendo pintados, desenhos ilustrando belas histórias e até mesmo pequenas esculturas sendo moldadas.

E, é claro, um belo espaço para um grupo de Teatro, onde os alunos podem explorar sua criatividade, o convívio em grupo, o controle sobre seu corpo, sua voz, e tudo isso sem deixar de estudar, pois o texto, a temática, o cenário, a música, o figurino e vários outros elementos do universo teatral são frutos de muito estudo.

Sei que foi uma introdução longa, mas tudo isso que escrevi até agora é apenas para mostrar pra vocês como estou feliz e realizado de ter conseguido montar uma peça teatral em uma das minhas escolas.

Nosso trabalho: Teatro na escola

O trabalho que fizemos em poucos meses de preparação e ensaios foi muito maior do que todos nós imaginávamos, inclusive eu. Começamos só com uma ideia e em pouco tempo estávamos com um espetáculo, em todos os sentidos.panfleto_Je suis sobrevivente

A peça tratava do Holocausto, mas usava a intolerância do mundo atual como gancho inicial e reflexão final. Foram 12 alunos envolvidos, que aceitaram ficar além do horário sem ganhar nenhum décimo de nota em troca. Eu fiz o mesmo. Passei horas, antes destinadas ao descanso, dirigindo os ensaios e cuidando de toda a produção da peça, sem ganhar um centavo a mais de salários. Pelo contrário, parte dele foi usado em alguns momentos, pois não queria pedir nada à escola.

Meu objetivo era simples: queria mobilizar os alunos, professores, equipe pedagógica e direção para provar que fazer arte na escola não é uma atividade complementar. Isso deve ser incentivado com a mesma importância que as disciplinas tradicionais. Nada mais convincente do que mostrar uma experiência de sucesso. E ela aconteceu!

Meus alunos fizeram várias apresentações, levando a mensagem da peça para cerca de 500 pessoas, entre pais, colegas, professores e funcionários. O impacto foi impressionante. O espetáculo emocionou a todos, inclusive nós que proporcionamos a existência dele.

Não tenho mais palavras para agradecer esses meus queridos alunos que entraram nesse barco comigo sem imaginar que chegaríamos em terra firme. Tenho orgulho de cada um deles, desde os que chegaram sem conseguir falar uma palavra, passando pelos que choravam só de pensar em falar na frente das pessoas até os mais habilidosos que fizeram tudo com uma leveza de profissional, todos eles são inesquecíveis.

O Teatro na escola, portanto, me proporcionou não só uma realização profissional. As horas de convivência desenvolveram uma admiração mútua, uma amizade sincera e um sentimento de ter feito parte de algo que não vai ser esquecido.

Após esta experiência, pude ver que meus pupilos são mais humanos. Eu me tornei mais humano. A escola se abriu para a possibilidade de ser mais humana. Missão cumprida!

Teatro na escola

Mágica ou maquiagem?

Sou professor da rede estadual do Rio de Janeiro e gostaria de solicitar que alguém fizesse uma investigação sobre uma prática danosa à Educação, realizada com a intenção do governo obter melhores resultados no Ideb. Eu explico: o cálculo para se chegar ao índice leva em conta a nota da Prova Brasil dividida pelo fluxo escolar, isto é, o tempo que os alunos levam para passar de ano. Tanto a reprovação quanto a evasão escolar, como consequência, diminuem a nota do Ideb, mesmo que o desempenho na Prova Brasil tenha sido satisfatório. Bom, além de toda pressão que os professores já recebem para aprovar os alunos, muitas vezes sob a forma de assédio moral, as escolas agora têm uma nova maneira de maquiar os números. Há alguns anos que a rede estadual não contabiliza os alunos evadidos. Quando um aluno abandona a escola ele tem a matrícula cancelada (tecnicamente é suspensa, pois ele pode voltar a qualquer momento). Desta forma, ele não aparece no censo do MEC como evadido, o que aumenta a nota do Ideb da rede.

Indaguei sobre a situação na minha Coordenadoria de Ensino. A resposta foi apenas que houve uma mudança de nomenclatura. Mas obtive de uma inspetora escolar a informação que realmente esses alunos não entram no cálculo do Ideb. E, no mais, ficam as perguntas: por que mudar a nomenclatura? Como diferenciar alunos evadidos de alunos que realmente tiveram a matrícula cancelada (por óbito, por exemplo)? Não é estranho que o fim da nomenclatura “Evadido” para alunos que abandonam a escola coincida com a saída do Rio de Janeiro do antepenúltimo lugar no ranking do Ideb para o quarto lugar? Mágica ou maquiagem?

Esta situação deve ser de conhecimento público. Cabe às autoridades explicarem para a população que os números refletem a realidade. Caso contrário, o malabarismo com os números (e nomenclaturas) vai virar moda entre os governos.

O que não aprendemos na faculdade sobre o Conselho de Classe?

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse momento final do ano letivo. Aliás, ultimamente não tenho escrito quase nada, a não ser quando estou tão estressado que apenas o desabafo nos teclados aliviam a tensão.

Primeira coisa que me irrita: o professor passou o ano inteiro com o aluno e avaliou todo este tempo se ele está apto a progredir em sua disciplina. Quando o discente não atinge a nota, fazemos uma reflexão levando em conta vários aspectos. Se achamos que ele tem condições de seguir adiante, damos uma ajuda e fim de papo. Caso contrário, fim de papo também. Só que não! No Conselho de Classe irritante (como o que acabei de ter) o professor tem que justificar o que levou o aluno a ser reprovado, quase como se ele tivesse no banco dos réus se defendendo. Sei que existem professores e professores, mas quando você tem consciência do trabalho que faz (e a equipe diretiva/direção conhece bem) é profundamente humilhante esta posição. E mais, se a preocupação é com o aprendizado do aluno, por que passar o ano inteiro e deixar pra discutir nota no final? É parecido com aquele pai que aparece na escola só em dezembro querendo saber do professor por que seu filho está com nota vermelha.

Segunda coisa que me irrita: quando a equipe diretiva/direção (pelos motivos que todos sabem) insiste em algum aluno, o caso é aberto para o Conselho decidir. Mas, como assim, então um professor de Português tem o direito de aprovar um aluno que reprovou em Matemática? Então o trabalho que um professor fez ao longo do ano é jogado fora? Não serviu de nada? Mais uma vez eu faço um parênteses por saber que existem casos e casos. Não estou falando daquele aluno brilhante que um professor não foi com a cara dele e por isso o reprovou. A regra do aluno aprovado pelo Conselho é para casos como esse. Estou falando de situações normais, ou seja, professores sérios e alunos com dificuldade ou que simplesmente não cumpriram suas tarefas ao longo do ano (isso sem considerar o número de chances que os alunos de hoje em dia têm com inúmeras recuperações. Na rede citada aqui, para cada avaliação há uma recuperação). Enfim, acho profundamente antiético um professor se intrometer no trabalho do colega e dizer que um determinado aluno deve passar. Fico explodindo por dentro quando eu vejo isso acontecer. E o pior é que sempre acontece. Caro colega, tenha algo em mente: alguns alunos não são os mesmos com todos os professores. E, mais grave do que isso, alguns apresentam dificuldades apenas em certas matérias. Um aluno pode ter discalculia, por exemplo. Lembro de um destes Conselhos em que um professor conclamou que eu entrasse no clima natalino e fosse bondoso. É lamentável ver colegas com tamanha alienação. Nada dói mais na Educação quando vemos colegas que te conhecem como profissional não ficarem ao seu lado em momentos como este. Pressão da equipe diretiva/direção eu já estou acostumado, mas fogo amigo é coisa que não suporto.

Terceira coisa que me irrita: o jeitinho brasileiro presente em cada um de nós. Adoramos criticar os descaminhos de servidores públicos, sobretudo políticos. Para nós, isso é uma prática deles, não nossa. Nós somos honestos, seguimos todas as regras… será? Na Educação, o que não falta é exemplo de práticas nebulosas. Quem nunca deu um jeitinho para burlar o aulas previstas e dadas? E faltas? No meu caso, me recusei a dar zero para uma aluna que faltou todas as aulas do bimestre. Aliás, o sistema (on line) nem aceita neste caso. Pra mim, zero é nota. Como vou dar uma nota para uma aluna totalmente ausente? Solução da direção: Tira uma falta da aluna (para mentir que ela veio um dia) que o sistema vai aceitar o zero. Quando insisti que não faria isso, o diretor me ameaçou dizendo que minhas notas ficariam pendentes, que eu seria chamado no recesso e tomaria falta se mantivesse minha posição. Tá né, dinheiro não é tudo na vida! Tô esperando o desconto…

Enfim, tô cansado de tudo isso. Foram só duas turmas e amanhã ainda tem mais duas. Isso só numa escola. Na outra tem oito ainda esta semana. Todo ano é a mesma coisa, uma sensação de ir para um campo de batalha. Você sai exausto e profundamente frustrado, seja qual for o desfecho. Tudo isso por quê? Porque o maldito sistema cobra números, ou seja, aprovações. Todo o resto é apenas isso: resto. Seja um professor que não reprova e você não será aborrecido. Deviam ensinar isso nas faculdades de Licenciatura.

Ok, eu desisto!

Faz tempo que não escrevo sobre Educação. Aliás, sobre assunto algum. Primeiro por motivos pessoais, mas sobretudo porque deixei de ver utilidade no que eu fazia.

Contudo, não pense que mudei de ideia. Talvez esse breve texto seja mais um dos meus desabafos e não tem a intenção de ser um artigo acadêmico. Estou cansado!

Lembro como se fosse hoje de um encontro que tive com a secretária de educação do município onde leciono. Alguns dias antes ela havia lido um texto que eu escrevi e foi publicado no jornal do sindicato local. Eu criticava o sistema educacional neurótico por números, realidade não só em Volta Redonda (RJ), mas no Brasil inteiro. Aliás, sistema este copiado de modelos de outros países e que já se mostraram um fracasso. Eu fechava aquele texto de modo extremamente pessimista, contrastando com o sentimento de poder mudar, com o qual eu havia saído da faculdade um pouco mais de um ano antes. A secretária, em algum momento da conversa/inquisição, me disse em claro tom de deboche que era uma pena um professor tão novo e que desistiu tão rápido. Naquele ano, sofri assédio moral na escola, fui transferido algumas vezes, fui parar na sala de informática e resisti. Afinal, queria provar pra mim mesmo que não desistia tão rápido.

Passados 7 anos, não tão novo assim, posso afirmar sem temer julgamentos: eu desisti. Não tenho mais a menor expectativa de mudar o mundo, nem meu país, meu estado, minha cidade ou até mesmo minha escola. Simplesmente reconheço que não sou forte o bastante pra remar contra a maré.

Na escola dos meus sonhos, o aluno é formado para ser feliz e não pra ganhar dinheiro. Ele desenvolve o respeito e a solidariedade, não a competição. Aprende a viver em comunidade e percebe que um país rico não se mede com um PIB. Não há disciplinas mais importantes do que outras. Essa escola tem grupos de teatro, de música, de vários esportes. Ela se abre para o mundo, recebendo pessoas de todos os tipos e formações e que possam compartilhar seu conhecimento e experiência em oficinas, fóruns e seminários. Na minha escola os alunos aprendem Química na cozinha, Biologia na horta, Geografia e História andando na cidade, Matemática na feira, Português em rodas de poesia, Artes nos museus, Educação Física na quadra de skate da praça mais próxima. Sala de aula? Pode ser embaixo da mangueira, como nos ensina Tião Rocha. A instituição é apenas um meio. O fim é a Educação.

No ano passado, desci com uma turma para o pátio por uma aula, após um bimestre estressante, depois das avaliações, revisões, solução das dúvidas e apenas aguardando a recuperação, que seria na aula seguinte. Eu iria fazer uma atividade lúdica com eles, não só pra relaxar, mas para melhorar o relacionamento meu com a turma e entre eles também. Iria! Fui impedido de fazer a atividade e tive que retornar para a sala de aula. Eu havia esquecido, ou queria esquecer, que estava numa escola que cultua aquele ambiente sufocante entre quatro paredes como o único locus educacional do colégio. Que advoga a ideia de que mais tempo de aula é igual a maiores resultados, como se os professores e alunos fossem fabricantes de parafusos.

Poderia aqui relatar mais inúmeros casos (alguns deles inclusive já viraram artigos e estão por aí no site) que, juntos, me fizeram declarar derrota. E não coloco a culpa apenas nos governos e nos diretores. Essa escola massificada, preparatório para avaliações e formadora de mão de obra para o mercado é o que a maioria dos professores e pais de alunos também querem. Talvez, de todos os atores envolvidos na educação, aquele que mais deseja uma nova escola seja o aluno, que não aguenta mais ficar 5 horas por dia numa instituição que parou no tempo.

Por fim, vendo a escola de hoje eu não consigo deixar de lembrar de uma vez que fui ao médico com muita dor no braço e fui atendido por um profissional que em momento algum olhou pra mim. Preenchia formulários e fazia perguntas. Saí de lá com uma tala no braço e sem entender como chegamos ao ponto de ter veterinários mais atenciosos com seus pacientes. Aquele médico uma vez foi aluno e aprendeu na escola o que exercia em sua profissão. Afinal de contas, para ser um bom aluno basta ser bom no conteúdo. Por que para ser um bom médico seria diferente? Também me lembro do Sérgio Naya, aquele engenheiro que construiu um prédio com areia da praia. Era um bom aluno em Matemática, certamente, e quem sabe até ganhou uma medalha em uma destas Olimpíadas. E os políticos? Como bom oradores, talvez fossem bons alunos também. Mas de que vale estes conhecimentos se não são acrescidos de valores? Respeitar, ser solidário, entre outras coisas se aprende com o exemplo. E se a escola não estiver preparada pra isso, continuaremos a ver mensalões, Palace II e consultas médicas relâmpagos.

Mais um jovem assassinado

Mais um jovem assassinado

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Rio de Janeiro, 29 de abril de 2014

Amigos,
Dessa vez escrevo apenas uma homenagem, uma carta, algumas palavras vindas direto do coração, para cada aluno e aluna que tive e que vive ou gostaria de viver como o garoto “DG”, que foi covardemente assassinado na terça-feira passada, em uma comunidade vizinha à minha casa.
Ouvi todo o tiroteio, as bombas, a fumaça do fogo… Tudo isso chegou aqui, como se fosse embaixo das janelas da minha casa, em Copacabana.
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Não pude ver o programa “Esquenta!”, que eu adoro, neste domingo, mas fiz questão de ver no computador –http://globotv.globo.com/t/programa/v/nos-bastidores-dg-aparece-sempre-brincalhao-veja-video/3308507/ – e fiquei super emocionada, chorei pra caramba, lembrei de cada aluno com quem tive contato nas comunidades onde trabalhei, lembrei de tanta coisa, da VIDA pulsando naqueles meninos e meninas, cheios de energia, ritmo, alegria e sonhos. Gente pobre, sofrida, mas muito mais rica, em tantos momentos, do que aqueles que só tem riqueza material e um puta medo de se arriscar minimamente nessa vida. O DG, pra mim, está em cada um desses criativos garotos e garotas das periferias do Brasil. O DG, agora que se foi, permanece e permanecerá aqui, no sorriso, no desejo, na brincadeira, na música e na dança de cada um que sabe o que é nascer e viver numa favela!
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Lembrei também dos tantos (muitos!!!) alunos que perdemos precocemente, vítimas do tráfico ou da polícia, da violência doméstica ou do racismo…
E justamente por ser uma história que se repete sem parar no Brasil, pela quantidade de jovens que tiveram suas vidas interrompidas tragicamente, enfim, por tudo isso acho que vale a pena assistir ao curta que acabou se revelando “profético”, que DG realizou há alguns meses, com um grupo ótimo – pretendiam apresentar em festivais – e onde é o ator principal:
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Nesse momento, não quero discutir a manipulação existente na propaganda, que infelizmente vai moldando, desde muito cedo, valores “tortos” e criando “necessidades” totalmente desnecessárias, que povoam a cabeça de milhares de crianças, adolescentes e adultos.
Não quero discutir ideologias, políticas públicas e nem o caráter de tantos políticos.
Não quero discutir se há ou não alguma coisa depois da morte. Eu tenho a minha fé oscilante e ela me basta.
Não quero discutir.
Só quero chorar.
Só quero não esquecer nunca dos tantos alunos com quem convivi e que eram, em muitos aspectos, outros “DGs”. E desejo que eles continuem existindo, cantando, dançando, rindo e nos lembrando que pra viver com originalidade e alegria é preciso CORAGEM, e isso quem nasce, sobrevive e cresce no morro sabe muito bem. E a gente, que mora aqui embaixo, no asfalto, dificilmente tem ou compreende profundamente a dimensão disso tudo.
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Vá em paz, garoto bonito… Fique com Deus.
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Um beijo e um abraço apertado pra vc, onde estiver, e pra sua mãe, pra sua filha e pra todos que sentirão diariamente a sua falta por aqui…

Regina Milone

(professora, pedagoga, arteterapeuta, psicóloga, mãe, filha, irmã, amiga… cidadã)

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PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO

Rio de Janeiro, 18 de março de 2014.

PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO

Boa tarde a todos!

Fiquei um tempo sem aparecer por aqui, cansada demais, física e emocionalmente, para manter o mesmo nível de debate constante sobre Educação em nosso país.

Mas volto agora, talvez mais como psicóloga do que como professora e pedagoga, nesse momento, pois conheço de perto o quanto é importante e útil o conhecimento básico da Psicologia, para todos os profissionais que trabalham com gente.

Utilizei a imagem de Einstein aqui, com a seguinte mensagem: “E se este homem tivesse passado por um manicômio? Deixar nosso preconceito pode mudar a História”. Escolhi essa imagem e texto porque Einstein é um exemplo do que acontece até hoje: em determinado momento, foi considerado “retardado e incapaz de aprender”, por uma escola onde estudou na infância, o que foi dito à seus pais. Ele era apenas disléxico e, por isso, começou a falar tarde, tinha raciocínio lento e baixo rendimento escolar. Só conseguiu ser alfabetizado aos 9 anos. E, mesmo com todos esses efeitos da dislexia, ele foi, na verdade, um gênio na História da humanidade! Já pensaram o que aconteceria se os pais dele seguissem o que a escola lhes disse sobre seu filho e desistissem dele?

Por questões parecidas com essa e por ter percebido a carência de tantos profissionais de Educação em relação a como compreender e lidar melhor com alunos que parecem ter algum problema psicológico (ou neuropsicológico) sério, deixo uma sugestão, para nossos próximos encontros por aqui: perguntem o que tiverem vontade, especialmente sobre Psicologia (sobre Pedagogia também podem perguntar), para que eu possa ajudá-los em seu trabalho escolar, com informações, relatos de experiências e dicas.

Hoje a dica é ler um artigo ótimo, sobre os absurdos que ainda acontecem em nosso país, relacionados a internações de crianças e adolescentes em instituições psiquiátricas, sem necessidade. É um verdadeiro crime o que acontece!

E, nas escolas, quantas vezes ouvi: “esse menino não é bom da cabeça”, “aquela mãe toma remédio controlado – é doida mesmo!”, “ih, essa aí? Não tem jeito não: é maluca! E os filhos também são, claro!”, entre outras provas de preconceito e ignorância como essas.

Muitos alunos não têm problemas de saúde mental e sim problemas oriundos da absurda injustiça social e péssima distribuição de renda em que ainda vivemos no Brasil. O fato de crescerem nesse meio pode acabar até levando-os a algum transtorno mental grave sim, mas a principal origem é social e nessa ninguém quer tocar. Falarei mais sobre isso em meu próximo artigo aqui no Diário do Professor.

De qualquer forma, procurem ler o artigo que citei no início deste meu texto, pois é objetivo e esclarecedor, realista e atual . Vocês podem encontrá-lo em: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/17/opinion/1395072236_094434.html

Antes de me despedir, deixo aqui, com vocês, a introdução do artigo, que resume o assunto tratado ali:

Como se fabricam crianças loucas

Os manicômios não são passado, são presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico Pinel, em São Paulo, mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos períodos, muitas vezes sem diagnóstico que justificasse a internação, a mando da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807 dias de confinamento. E de José: 1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada na primeira década deste século.”

Vale a pena ler o artigo todo! Não é só para psicólogos ou psiquiatras e sim para pais, professores e todos que lidam com gente diariamente, especialmente para os que lidam com pessoas ainda em sua formação básica: crianças e adolescentes.

Até nosso próximo encontro por aqui!

 Abraços,

 Regina Milone

(professora, pedagoga, arteterapeuta e psicóloga clínica).

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A gangorra da Educação em 24 horas

                Não é de hoje que eu digo que a vida de professor é cheia de altos e baixos. São momentos inspiradores que enchem nosso tanque de combustível e outros que parecem nos levar a beira de uma pane. Esta semana não foi diferente.

                Na quarta-feira fui surpreendido ao entrar numa turma de sexto ano: “Não foi eu que te dedei, professor!”. Tentei rapidamente entender o que estava acontecendo e logo fui lembrado da aula do dia anterior. Matéria: a República romana. Além de caracterizar tal regime político e compará-lo com a Monarquia, fiz um paralelo com o nosso modelo republicano, tentando sempre desenvolver a discussão (que começa na matéria da Grécia Antiga) em torno da cidadania. Em meio a tudo isso, eis que surge a questão do ventilador quebrado na sala de aula. E não era qualquer dia, tratava-se do dia mais quente do ano. Sensação térmica superior a 40 graus, número idêntico ao de alunos na sala e… 1 ventilador… desde o início do ano letivo. Sol entrando na sala e suor escorrendo pelo corpo. Cenário perfeito para uma reflexão sobre direitos e deveres. Tentei debater a ideia de que ter os ventiladores funcionando era um direito deles e um dever da escola. Era importante que eles reivindicassem isso. Que tal conversar com os pais e pensar numa forma de manifestação? Esta foi a pergunta final da aula.

Claro que eu não sabia de nada. Era o dia que eu chegava apenas para a 4ª aula e todo o desespero dos alunos não fazia sentido pra mim. No horário da entrada, parte da turma se recusou a subir para a sala de aula enquanto o ventilador não estivesse funcionando. Consequência óbvia:  direção. Lá, se travou o seguinte diálogo relatado pelos alunos:

– Quero saber por que vocês não querem subir.

– Estamos aqui para pedir nossos direitos. O ventilador da nossa sala está quebrado desde o início do ano…

– E vocês acham que têm direitos? Olha, agradece porque não vou dar uma suspensão pra vocês… Quem teve essa ideia?

Agora fazia sentido o pavor dos alunos quando entrei na sala. Mas tratei de acalmá-los e disse que não havia problema algum. Na verdade, por dentro estava cheio de orgulho dos meus pequenos “revolucionários”. Não sei se eles se lembrarão um dia quem eram os etruscos ou os italiotas, mas se recordarão, certamente, do dia em que foram corajosos e ousaram lutar por seus direitos. Fui pra casa em paz!

Dia seguinte, outra escola. Espero na sala dos professores a hora de subir. Chega uma colega e começa a reclamar do feriado do dia 20 de novembro (pra quem não é do Rio de Janeiro – Dia da Consciência Negra, homenagem ao Zumbi dos Palmares). “Por que não cria o Dia da Consciência Branca?”. Nesse momento, um outro colega coloca lenha na fogueira e lembra da questão das cotas raciais. Me posiciono e justifico a inclinação em apoiar tais medidas. Daí em diante foi uma série de argumentos conservadores e racistas do tipo: “Se os negros (na verdade, ela dizia ‘escuros’) não conseguem é porque não querem. O mundo é cheio de possibilidades.” Sorte minha que na sala havia uma professora de Sociologia, que se somou a mim na tentativa fracassada de argumentar com quem não está disposto a ouvir. Não aguento por mais de 2 minutos. Subo antes do sinal bater. Sento na minha mesa e espero os alunos chegarem. Em meio às cadeiras vazias ainda podia ouvir o eco daquela discussão sem sentido. Uma professora?

Depois de um dia de orgulho dos meus alunos, senti asco de alguns colegas. Em 24 horas, senti esperança no ser humano e perdi um pouquinho também. Definitivamente, gangorra nunca foi meu brinquedo preferido.

Bombas de efeito imoral

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O Estado do Rio de Janeiro apagou as luzes do saber nas últimas semanas. Vestidos de preto em sinal de luto (entenda como substantivo e verbo!), professores das Redes Municipal e Estadual do Rio deixaram suas casas e seus trabalhos para reivindicar uma educação pública de qualidade.

A causa de toda a manifestação popular carioca não abrange somente questões salariais, como a mídia faz parecer, questões estas que, por si só, já ferem a dignidade e a inteligência de qualquer cidadão. A causa é um grito preso na garganta há décadas! Grito de uma classe de trabalhadores cujo maior desejo é lutar pelo ideal de uma sociedade igual para todos. É claro que esse grito é temível e assusta os nossos governantes. Aliás, assustar é pouco: nosso grito apavora os governantes! Por isso tantas bombas sobre nós!

Dar condições de trabalho dignas e educação de qualidade na escola pública é perigoso. Formar cidadãos conscientes, que não serão manipuláveis, que não servirão de massa de manobra fácil para os políticos no futuro, é altamente perigoso! Poucos enxergam isso; muitos não querem enxergar; e outros se beneficiam da falta de visão da maioria da população. Em uma sociedade cega e surda, é preciso clamar bem alto! Ir às ruas, convocar uma legião, buscar um caminho, ainda que doloroso, ainda que solitário (solitário já não é mais!)

Em tempos de democracia, vivemos uma ditadura velada. Vivemos hoje numa sociedade onde o professor, que luta por uma educação pública de qualidade e denuncia o sistema educacional falido e ineficaz, esbarra na postura opressiva de um governo ditador, governo este cujo papel deveria ser o de proteger a sociedade e dar a ela a tão desejada educação pública acima citada. Governo este que deveria garantir aos cidadãos uma sociedade mais justa; afinal, não é para isso que os governantes são remunerados??? E MUITO BEM REMUNERADOS, por sinal! Mas não é o bastante para eles. Nunca é. A política carioca está desacreditada, e só o que aparece é a lama instaurada pelos políticos corruptos, que passeiam com o dinheiro público e gastam com transportes diferenciados para “trabalhar”! É claro que o trânsito não se aplica a esses seres, que se julgam acima do bem e do mal.

Os privilégios dessa elite ganham apenas um rasteiro comentário da grande mídia, que fala dos nossos governantes e de seus “passeios” de helicóptero só para constar; mas na hora de olhar para os professores e sua luta legítima, tal mídia coloca os fatos como se a nossa classe de trabalhadores fosse composta por seres mal agradecidos, incapazes de entender o “excelente” Plano de Cargos e Salários (que deveria ser chamado de REFORMA EDUCACIONAL), aprovado sob  pancadaria na última terça-feira. Tal mídia, ainda por cima, deixa que a palavra final seja sempre a de quem “banca” seus projetos, o que faz dessa relação – mídia e governo corrupto – um grande círculo vicioso. O que mais assusta é que não existe ninguém nas emissoras de grande audiência que dê um basta, que saia do roteiro e seja capaz de falar por si!

Nesse contexto, portanto, as bombas jogadas nos professores não podem ser chamadas de “bombas de efeito moral”, visto que não é aos professores que a moral está faltando. Não há moralidade no governo e, se houvesse, algo seria feito contra esta ditadura mascarada de democracia que se instaurou no Rio de Janeiro! Aliás, não há nada mais imoral do que um governo que não respeita seus professores, que são a matriz de todas as profissões.

É hora de acender de novo as luzes. Lutar com os olhos bem abertos. Aprender a lição de casa. Cada um, mesmo que não seja profissional da educação, deve lutar pela educação pública em sua cidade, em seu estado. É hora de mostrar a estes governantes que 2013 É O ANO QUE AINDA NÃO TERMINOU!

Por:  Emily Coutinho e

Evelyn Almeida

Discussão Pedagógica ou Balanço Patrimonial?

Estou na sala de vídeo da minha escola. Os alunos saíram mais cedo, pois hoje é dia de discussão pedagógica. Os colegas brincam com o nome e falam que vamos discutir, discutir e só discutir. Ou seja, nada de soluções, como sempre. Fico na dúvida se penso o mesmo. Gosto de momentos de reflexão. Mas, por dentro, já imagino que não vai ser um dia tranquilo. Quem conhece a minha personalidade sabe da minha inclinação ao contraditório. Se todos dizem azul eu pergunto: “por que não amarelo”? Se todos dizem “amarelo” eu digo: “por que não vermelho”? Tem sido assim a minha vida toda.

Na tela do projetor eu vejo números. Não, tem algo diferente ali: gráficos! Hum, respiro fundo. São os dados de “aproveitamento da escola”. Uma colega levanta a voz e diz que tem que reprovar os alunos que não querem nada mesmo, disto ela não abre mão. Uma outra voz responde que não há nenhuma pressão para que os alunos sejam aprovados. Eu, mais uma vez por dentro, finjo que acredito.

Se existe uma coisa que os historiadores aprendem é que todas as formas de comunicação são, em última instância, discursos. E, como tais, elaborados para cumprir uma determinada finalidade. Nossas falas são cheias de discursos, explícitos e implícitos. Pessoas que dizem sinceramente que não são preconceituosas podem usar discursos intolerantes sem perceber isso. E não é só a nossa fala em si. Todo o contexto que envolve o momento, os meios e o público alvo deste discurso também contam para esta avaliação.

Eu levanto a mão. Não é uma opção. Sinto uma verdadeira necessidade de ponderar. Aqueles números me revoltam. Estamos numa escola? Parece que voltei 10 anos no tempo e me vi discutindo as metas de vendas e margens de lucro com o meu gerente. Não, eu não estava numa loja de departamentos. Não, aquilo não era uma fábrica. Era mesmo uma escola. Mas não havia espaço para o João, o Pedro, a Maria, a Ana. Tudo se resumia aos gráficos de resultados.

Sim, eu acho que a escola é o lugar do saber, de desenvolvimento intelectual. Sim, uso notas para avaliar meus alunos. Sim, quero que eles façam uma faculdade. Sim, sim, sim. Mas nada disso tem sentido sem o aspecto humano. Como cobrar que os professores façam todos os alunos aprenderem se ali tem gente que não quer? E aquela que apanha dos pais porque fez a comida com muito sal? E o outro perdeu a casa numa enchente e por isso mora numa quadra Poliesportiva? Não se esqueça daquela que foi abandonada pela mãe e mora com o padrasto, que a molesta. E também daquele que vê o pai em estado terminal, aguardando o dia em que os aparelhos emitirão o som agudo da morte. Como cobrar que eles aprendam? Mais do que aprender sobre as capitanias hereditárias ou fotossíntese, estes alunos precisam sobreviver, ter dignidade, paz. Um colega imaginário me cutuca e sussurra: “não é problema meu! O sistema é assim, não há o que fazer. Sou professor, me pagam apenas para dar aula.”

Percebo que falo em nome de mim mesmo. Paro, fico em silêncio, perco o foco no rosto das pessoas ao redor e só enxergo vultos. Fantasmas de uma realidade que eu não gostaria de presenciar. Por alguns momentos me lembro dos projetos escolares que pregam a crítica ao individualismo da sociedade capitalista. Discursos vazios. Caminhamos para uma escola cada vez mais fria. Salas lotadas, professores em diversas escolas, os alunos se transformaram no número 14 ou 27. O pensamento continua a vagar enquanto a reunião caminha para o fim. Ainda dá tempo de lembrar dos comentários reprovando a posturas dos médicos da “nova geração”, que nem olham para o rosto do paciente, raramente encosta nele e quase sempre resume tudo no termo mágico “virose”. Fico me perguntando: onde eles aprenderam a ser tão insensíveis? Bom, uma coisa é certa, ele foi nosso aluno, não foi?

Terminou a discussão pedagógica. Se tivesse que indicar apenas um sentimento ao sair daquela sala eu teria dificuldade. Era um misto de tristeza, decepção, revolta, sei lá. Então era isso, somos todos cúmplices de um sistema perverso. Aquele médico aprendeu na escola a ser um número. Por que faria diferente? Nós, que continuamos a pensar que o problema não é nosso, vivemos numa escola esquizofrênica. Nossos projetos políticos pedagógicos buscam formar “cidadãos plenos”, enquanto na prática estamos apenas produzindo mão de obra.

Almoço e sigo direto para outra escola. A correria não me deixa parar para digerir tudo aquilo que aconteceu em apenas uma manhã. Meu semblante reflete o desânimo. É uma daquelas horas que dá vontade de largar tudo. Escrevo no quadro, explico a matéria e uma piada aqui e outra ali (afinal, é sexto ano) até são capazes de me tirar um sorriso. Passo tarefa. Uma aluna vem até a mim, me abraça e diz: “que bom que você melhorou!”. Outra me entrega um bilhetinho que está escrito: “você é o melhor professor do mundo”. Fiz força pra não chorar, é verdade, mas por dentro podia sentir que o meu “tanque” encheu. Combustível para mais alguns dias. Ufa!