Todos os post de Luiz Eduardo Farias

Luiz Eduardo Farias é historiador e professor de história desde 2006, especialista em História Contemporânea (2010/2011) e atualmente cursa Pedagogia. Sempre trabalhou em escolas públicas (seis, até o momento) e atualmente tem duas matrículas – Fundação Educacional de Volta Redonda (autarquia municipal) e Rede Estadual do Rio de Janeiro.

Lançamento do livro “Lembranças do Vazio”

Capa livro

A obra captura a vida de dois irmãos, tornando-a imortal nas páginas de um romance singular. Uma leitura que nos faz refletir sobre o mundo e sobre nossos próprios atos.

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Sobre o livro

O que fazer quando nos deparamos com perdas irreparáveis ao longo da vida? Encarar os vários estágios de superação ou se entregar à dor, à sensação de vazio que insiste em preencher os dias?

Os irmãos Leônidas e Oscar, que cruzam as páginas deste romance, atravessaram inúmeros momentos como esses, em que o forte laço que os unia consolidou-se no alicerce que os mantinha de pé, mesmo quando seus caminhos se distanciavam.

Não se trata, contudo, de uma história de tristezas. “Lembranças do Vazio” é, acima de tudo, uma obra feita de memórias e trajetórias individuais, por onde desfilam amores, dúvidas, conflitos, experiências que acabam por unir pessoas para além dos laços de sangue.

Luiz Eduardo Farias tece sua narrativa com sensibilidade e bom humor. Leônidas se torna alguém familiar ao leitor, que percorre as aventuras e desventuras do protagonista em sua longa caminhada na construção de si como ser humano. Uma história que é, afinal de contas, um pouco a história de cada um de nós.

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Sobre o autor

Apaixonado por livros, cachorros e pelo Botafogo, Luiz Eduardo Farias é historiador e professor, lecionando no Colégio Municipal Delce Horta (Fevre) e no Colégio Estadual Baldomero Barbará. Natural de São Gonçalo (RJ), atualmente mora em Volta Redonda (RJ). Escreve crônicas e desabafos ligados a sua  profissão há alguns anos. Lembranças do Vazio é seu primeiro romance.

https://www.youtube.com/watch?v=-OAIO1iyDVQ

Onde comprar?

No Mercado Livre

No site do autor

Quero agradecer ao Declev pela oportunidade de divulgar meu livro aqui. Fico feliz de compartilhar esse momento tão marcante com todos vocês do Diário.

Teatro na escola: o que aprendi?

Existe muita coisa errada na Educação. Nada que não tenha sido exaustivamente discutida por muitos especialistas. Como não considero um deles, vou apenas fazer algumas considerações baseadas em ideias que tenho há algum tempo e que foram reforçadas com uma experiência maravilhosa que tive em uma das minhas escolas: o Teatro na escola.

Pra início de conversa: escola não é fábrica! Portanto, não devemos comprar o modelo industrial para produzir seres moldados conforme o padrão do mercado. Retiramos a humanidade da escola (se é que algum dia ela esteve presente) e viramos formadora de especialistas. Não importa o que ele vai fazer com esse conhecimento, basta tê-lo. Será?

Uma das maiores atrocidades da História (para alguns – a maior) foi fruto de uma sociedade extremamente organizada, disciplinada e muito bem escolarizada. Os alemães eram grandes especialistas. Tanto é verdade que conseguiram exterminar 6 milhões de judeus com uma velocidade e precisão digna de um país altamente desenvolvido.

Estamos formando engenheiros que são perfeitos conhecedores das ciências exatas, mas que é capaz de construir um prédio com areia da praia. Os políticos que hoje assombram o país com escândalos de corrupção passaram pela escola e aprenderam direitinho as lições de Português. São belos oradores. E os médicos? 10 em ciências! Que formidável! Mas é o mesmo que assina o ponto no Hospital público e vai embora correndo ganhar mais dinheiro na sua clínica particular.

Sei que você pode pensar: “Mas essas questões éticas são responsabilidade da família”. Sim, concordo plenamente. Mas o que fazer quando ela não cumpre o seu papel? A escola deve simplesmente ignorar? Se preocupar apenas com o conteúdo curricular?

Desenvolver o aspecto cognitivo é tarefa primordial da escola, mas sem valores humanos não temos uma sociedade melhor. E é papel da escola buscar uma sociedade melhor. Como fazer isso?

Deixar o aluno sentado em uma cadeira por horas e depois mandar ele pra casa com certeza não é o caminho. A escola supervalorizou a sala de aula. Daí estarmos com uma legião de alunos entediados, torcendo para ter uma aula vaga. Só assim ele tem um momento de liberdade, para movimentar o corpo, viver experiências.

A escola aprisiona os corpos dos alunos e eles resistem. Como pássaros, só querem voar. Mas por que não voar dentro da escola?

O colégio dos meus sonhos tem muito mais do que salas de aula. Nela há um auditório de música, onde os alunos podem aprender diversos instrumentos e soltarem suas vozes em lições de canto. Dentro do ginásio, existem diversas modalidades esportivas. É só escolher uma: tem um time de futebol, outro de basquete, vôlei, handebol, judô, ginástica, tênis de mesa… Na sala de artes encontramos quadros sendo pintados, desenhos ilustrando belas histórias e até mesmo pequenas esculturas sendo moldadas.

E, é claro, um belo espaço para um grupo de Teatro, onde os alunos podem explorar sua criatividade, o convívio em grupo, o controle sobre seu corpo, sua voz, e tudo isso sem deixar de estudar, pois o texto, a temática, o cenário, a música, o figurino e vários outros elementos do universo teatral são frutos de muito estudo.

Sei que foi uma introdução longa, mas tudo isso que escrevi até agora é apenas para mostrar pra vocês como estou feliz e realizado de ter conseguido montar uma peça teatral em uma das minhas escolas.

Nosso trabalho: Teatro na escola

O trabalho que fizemos em poucos meses de preparação e ensaios foi muito maior do que todos nós imaginávamos, inclusive eu. Começamos só com uma ideia e em pouco tempo estávamos com um espetáculo, em todos os sentidos.panfleto_Je suis sobrevivente

A peça tratava do Holocausto, mas usava a intolerância do mundo atual como gancho inicial e reflexão final. Foram 12 alunos envolvidos, que aceitaram ficar além do horário sem ganhar nenhum décimo de nota em troca. Eu fiz o mesmo. Passei horas, antes destinadas ao descanso, dirigindo os ensaios e cuidando de toda a produção da peça, sem ganhar um centavo a mais de salários. Pelo contrário, parte dele foi usado em alguns momentos, pois não queria pedir nada à escola.

Meu objetivo era simples: queria mobilizar os alunos, professores, equipe pedagógica e direção para provar que fazer arte na escola não é uma atividade complementar. Isso deve ser incentivado com a mesma importância que as disciplinas tradicionais. Nada mais convincente do que mostrar uma experiência de sucesso. E ela aconteceu!

Meus alunos fizeram várias apresentações, levando a mensagem da peça para cerca de 500 pessoas, entre pais, colegas, professores e funcionários. O impacto foi impressionante. O espetáculo emocionou a todos, inclusive nós que proporcionamos a existência dele.

Não tenho mais palavras para agradecer esses meus queridos alunos que entraram nesse barco comigo sem imaginar que chegaríamos em terra firme. Tenho orgulho de cada um deles, desde os que chegaram sem conseguir falar uma palavra, passando pelos que choravam só de pensar em falar na frente das pessoas até os mais habilidosos que fizeram tudo com uma leveza de profissional, todos eles são inesquecíveis.

O Teatro na escola, portanto, me proporcionou não só uma realização profissional. As horas de convivência desenvolveram uma admiração mútua, uma amizade sincera e um sentimento de ter feito parte de algo que não vai ser esquecido.

Após esta experiência, pude ver que meus pupilos são mais humanos. Eu me tornei mais humano. A escola se abriu para a possibilidade de ser mais humana. Missão cumprida!

Teatro na escola

Mágica ou maquiagem?

Sou professor da rede estadual do Rio de Janeiro e gostaria de solicitar que alguém fizesse uma investigação sobre uma prática danosa à Educação, realizada com a intenção do governo obter melhores resultados no Ideb. Eu explico: o cálculo para se chegar ao índice leva em conta a nota da Prova Brasil dividida pelo fluxo escolar, isto é, o tempo que os alunos levam para passar de ano. Tanto a reprovação quanto a evasão escolar, como consequência, diminuem a nota do Ideb, mesmo que o desempenho na Prova Brasil tenha sido satisfatório. Bom, além de toda pressão que os professores já recebem para aprovar os alunos, muitas vezes sob a forma de assédio moral, as escolas agora têm uma nova maneira de maquiar os números. Há alguns anos que a rede estadual não contabiliza os alunos evadidos. Quando um aluno abandona a escola ele tem a matrícula cancelada (tecnicamente é suspensa, pois ele pode voltar a qualquer momento). Desta forma, ele não aparece no censo do MEC como evadido, o que aumenta a nota do Ideb da rede.

Indaguei sobre a situação na minha Coordenadoria de Ensino. A resposta foi apenas que houve uma mudança de nomenclatura. Mas obtive de uma inspetora escolar a informação que realmente esses alunos não entram no cálculo do Ideb. E, no mais, ficam as perguntas: por que mudar a nomenclatura? Como diferenciar alunos evadidos de alunos que realmente tiveram a matrícula cancelada (por óbito, por exemplo)? Não é estranho que o fim da nomenclatura “Evadido” para alunos que abandonam a escola coincida com a saída do Rio de Janeiro do antepenúltimo lugar no ranking do Ideb para o quarto lugar? Mágica ou maquiagem?

Esta situação deve ser de conhecimento público. Cabe às autoridades explicarem para a população que os números refletem a realidade. Caso contrário, o malabarismo com os números (e nomenclaturas) vai virar moda entre os governos.

O que não aprendemos na faculdade sobre o Conselho de Classe?

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse momento final do ano letivo. Aliás, ultimamente não tenho escrito quase nada, a não ser quando estou tão estressado que apenas o desabafo nos teclados aliviam a tensão.

Primeira coisa que me irrita: o professor passou o ano inteiro com o aluno e avaliou todo este tempo se ele está apto a progredir em sua disciplina. Quando o discente não atinge a nota, fazemos uma reflexão levando em conta vários aspectos. Se achamos que ele tem condições de seguir adiante, damos uma ajuda e fim de papo. Caso contrário, fim de papo também. Só que não! No Conselho de Classe irritante (como o que acabei de ter) o professor tem que justificar o que levou o aluno a ser reprovado, quase como se ele tivesse no banco dos réus se defendendo. Sei que existem professores e professores, mas quando você tem consciência do trabalho que faz (e a equipe diretiva/direção conhece bem) é profundamente humilhante esta posição. E mais, se a preocupação é com o aprendizado do aluno, por que passar o ano inteiro e deixar pra discutir nota no final? É parecido com aquele pai que aparece na escola só em dezembro querendo saber do professor por que seu filho está com nota vermelha.

Segunda coisa que me irrita: quando a equipe diretiva/direção (pelos motivos que todos sabem) insiste em algum aluno, o caso é aberto para o Conselho decidir. Mas, como assim, então um professor de Português tem o direito de aprovar um aluno que reprovou em Matemática? Então o trabalho que um professor fez ao longo do ano é jogado fora? Não serviu de nada? Mais uma vez eu faço um parênteses por saber que existem casos e casos. Não estou falando daquele aluno brilhante que um professor não foi com a cara dele e por isso o reprovou. A regra do aluno aprovado pelo Conselho é para casos como esse. Estou falando de situações normais, ou seja, professores sérios e alunos com dificuldade ou que simplesmente não cumpriram suas tarefas ao longo do ano (isso sem considerar o número de chances que os alunos de hoje em dia têm com inúmeras recuperações. Na rede citada aqui, para cada avaliação há uma recuperação). Enfim, acho profundamente antiético um professor se intrometer no trabalho do colega e dizer que um determinado aluno deve passar. Fico explodindo por dentro quando eu vejo isso acontecer. E o pior é que sempre acontece. Caro colega, tenha algo em mente: alguns alunos não são os mesmos com todos os professores. E, mais grave do que isso, alguns apresentam dificuldades apenas em certas matérias. Um aluno pode ter discalculia, por exemplo. Lembro de um destes Conselhos em que um professor conclamou que eu entrasse no clima natalino e fosse bondoso. É lamentável ver colegas com tamanha alienação. Nada dói mais na Educação quando vemos colegas que te conhecem como profissional não ficarem ao seu lado em momentos como este. Pressão da equipe diretiva/direção eu já estou acostumado, mas fogo amigo é coisa que não suporto.

Terceira coisa que me irrita: o jeitinho brasileiro presente em cada um de nós. Adoramos criticar os descaminhos de servidores públicos, sobretudo políticos. Para nós, isso é uma prática deles, não nossa. Nós somos honestos, seguimos todas as regras… será? Na Educação, o que não falta é exemplo de práticas nebulosas. Quem nunca deu um jeitinho para burlar o aulas previstas e dadas? E faltas? No meu caso, me recusei a dar zero para uma aluna que faltou todas as aulas do bimestre. Aliás, o sistema (on line) nem aceita neste caso. Pra mim, zero é nota. Como vou dar uma nota para uma aluna totalmente ausente? Solução da direção: Tira uma falta da aluna (para mentir que ela veio um dia) que o sistema vai aceitar o zero. Quando insisti que não faria isso, o diretor me ameaçou dizendo que minhas notas ficariam pendentes, que eu seria chamado no recesso e tomaria falta se mantivesse minha posição. Tá né, dinheiro não é tudo na vida! Tô esperando o desconto…

Enfim, tô cansado de tudo isso. Foram só duas turmas e amanhã ainda tem mais duas. Isso só numa escola. Na outra tem oito ainda esta semana. Todo ano é a mesma coisa, uma sensação de ir para um campo de batalha. Você sai exausto e profundamente frustrado, seja qual for o desfecho. Tudo isso por quê? Porque o maldito sistema cobra números, ou seja, aprovações. Todo o resto é apenas isso: resto. Seja um professor que não reprova e você não será aborrecido. Deviam ensinar isso nas faculdades de Licenciatura.

Ok, eu desisto!

Faz tempo que não escrevo sobre Educação. Aliás, sobre assunto algum. Primeiro por motivos pessoais, mas sobretudo porque deixei de ver utilidade no que eu fazia.

Contudo, não pense que mudei de ideia. Talvez esse breve texto seja mais um dos meus desabafos e não tem a intenção de ser um artigo acadêmico. Estou cansado!

Lembro como se fosse hoje de um encontro que tive com a secretária de educação do município onde leciono. Alguns dias antes ela havia lido um texto que eu escrevi e foi publicado no jornal do sindicato local. Eu criticava o sistema educacional neurótico por números, realidade não só em Volta Redonda (RJ), mas no Brasil inteiro. Aliás, sistema este copiado de modelos de outros países e que já se mostraram um fracasso. Eu fechava aquele texto de modo extremamente pessimista, contrastando com o sentimento de poder mudar, com o qual eu havia saído da faculdade um pouco mais de um ano antes. A secretária, em algum momento da conversa/inquisição, me disse em claro tom de deboche que era uma pena um professor tão novo e que desistiu tão rápido. Naquele ano, sofri assédio moral na escola, fui transferido algumas vezes, fui parar na sala de informática e resisti. Afinal, queria provar pra mim mesmo que não desistia tão rápido.

Passados 7 anos, não tão novo assim, posso afirmar sem temer julgamentos: eu desisti. Não tenho mais a menor expectativa de mudar o mundo, nem meu país, meu estado, minha cidade ou até mesmo minha escola. Simplesmente reconheço que não sou forte o bastante pra remar contra a maré.

Na escola dos meus sonhos, o aluno é formado para ser feliz e não pra ganhar dinheiro. Ele desenvolve o respeito e a solidariedade, não a competição. Aprende a viver em comunidade e percebe que um país rico não se mede com um PIB. Não há disciplinas mais importantes do que outras. Essa escola tem grupos de teatro, de música, de vários esportes. Ela se abre para o mundo, recebendo pessoas de todos os tipos e formações e que possam compartilhar seu conhecimento e experiência em oficinas, fóruns e seminários. Na minha escola os alunos aprendem Química na cozinha, Biologia na horta, Geografia e História andando na cidade, Matemática na feira, Português em rodas de poesia, Artes nos museus, Educação Física na quadra de skate da praça mais próxima. Sala de aula? Pode ser embaixo da mangueira, como nos ensina Tião Rocha. A instituição é apenas um meio. O fim é a Educação.

No ano passado, desci com uma turma para o pátio por uma aula, após um bimestre estressante, depois das avaliações, revisões, solução das dúvidas e apenas aguardando a recuperação, que seria na aula seguinte. Eu iria fazer uma atividade lúdica com eles, não só pra relaxar, mas para melhorar o relacionamento meu com a turma e entre eles também. Iria! Fui impedido de fazer a atividade e tive que retornar para a sala de aula. Eu havia esquecido, ou queria esquecer, que estava numa escola que cultua aquele ambiente sufocante entre quatro paredes como o único locus educacional do colégio. Que advoga a ideia de que mais tempo de aula é igual a maiores resultados, como se os professores e alunos fossem fabricantes de parafusos.

Poderia aqui relatar mais inúmeros casos (alguns deles inclusive já viraram artigos e estão por aí no site) que, juntos, me fizeram declarar derrota. E não coloco a culpa apenas nos governos e nos diretores. Essa escola massificada, preparatório para avaliações e formadora de mão de obra para o mercado é o que a maioria dos professores e pais de alunos também querem. Talvez, de todos os atores envolvidos na educação, aquele que mais deseja uma nova escola seja o aluno, que não aguenta mais ficar 5 horas por dia numa instituição que parou no tempo.

Por fim, vendo a escola de hoje eu não consigo deixar de lembrar de uma vez que fui ao médico com muita dor no braço e fui atendido por um profissional que em momento algum olhou pra mim. Preenchia formulários e fazia perguntas. Saí de lá com uma tala no braço e sem entender como chegamos ao ponto de ter veterinários mais atenciosos com seus pacientes. Aquele médico uma vez foi aluno e aprendeu na escola o que exercia em sua profissão. Afinal de contas, para ser um bom aluno basta ser bom no conteúdo. Por que para ser um bom médico seria diferente? Também me lembro do Sérgio Naya, aquele engenheiro que construiu um prédio com areia da praia. Era um bom aluno em Matemática, certamente, e quem sabe até ganhou uma medalha em uma destas Olimpíadas. E os políticos? Como bom oradores, talvez fossem bons alunos também. Mas de que vale estes conhecimentos se não são acrescidos de valores? Respeitar, ser solidário, entre outras coisas se aprende com o exemplo. E se a escola não estiver preparada pra isso, continuaremos a ver mensalões, Palace II e consultas médicas relâmpagos.

A gangorra da Educação em 24 horas

                Não é de hoje que eu digo que a vida de professor é cheia de altos e baixos. São momentos inspiradores que enchem nosso tanque de combustível e outros que parecem nos levar a beira de uma pane. Esta semana não foi diferente.

                Na quarta-feira fui surpreendido ao entrar numa turma de sexto ano: “Não foi eu que te dedei, professor!”. Tentei rapidamente entender o que estava acontecendo e logo fui lembrado da aula do dia anterior. Matéria: a República romana. Além de caracterizar tal regime político e compará-lo com a Monarquia, fiz um paralelo com o nosso modelo republicano, tentando sempre desenvolver a discussão (que começa na matéria da Grécia Antiga) em torno da cidadania. Em meio a tudo isso, eis que surge a questão do ventilador quebrado na sala de aula. E não era qualquer dia, tratava-se do dia mais quente do ano. Sensação térmica superior a 40 graus, número idêntico ao de alunos na sala e… 1 ventilador… desde o início do ano letivo. Sol entrando na sala e suor escorrendo pelo corpo. Cenário perfeito para uma reflexão sobre direitos e deveres. Tentei debater a ideia de que ter os ventiladores funcionando era um direito deles e um dever da escola. Era importante que eles reivindicassem isso. Que tal conversar com os pais e pensar numa forma de manifestação? Esta foi a pergunta final da aula.

Claro que eu não sabia de nada. Era o dia que eu chegava apenas para a 4ª aula e todo o desespero dos alunos não fazia sentido pra mim. No horário da entrada, parte da turma se recusou a subir para a sala de aula enquanto o ventilador não estivesse funcionando. Consequência óbvia:  direção. Lá, se travou o seguinte diálogo relatado pelos alunos:

– Quero saber por que vocês não querem subir.

– Estamos aqui para pedir nossos direitos. O ventilador da nossa sala está quebrado desde o início do ano…

– E vocês acham que têm direitos? Olha, agradece porque não vou dar uma suspensão pra vocês… Quem teve essa ideia?

Agora fazia sentido o pavor dos alunos quando entrei na sala. Mas tratei de acalmá-los e disse que não havia problema algum. Na verdade, por dentro estava cheio de orgulho dos meus pequenos “revolucionários”. Não sei se eles se lembrarão um dia quem eram os etruscos ou os italiotas, mas se recordarão, certamente, do dia em que foram corajosos e ousaram lutar por seus direitos. Fui pra casa em paz!

Dia seguinte, outra escola. Espero na sala dos professores a hora de subir. Chega uma colega e começa a reclamar do feriado do dia 20 de novembro (pra quem não é do Rio de Janeiro – Dia da Consciência Negra, homenagem ao Zumbi dos Palmares). “Por que não cria o Dia da Consciência Branca?”. Nesse momento, um outro colega coloca lenha na fogueira e lembra da questão das cotas raciais. Me posiciono e justifico a inclinação em apoiar tais medidas. Daí em diante foi uma série de argumentos conservadores e racistas do tipo: “Se os negros (na verdade, ela dizia ‘escuros’) não conseguem é porque não querem. O mundo é cheio de possibilidades.” Sorte minha que na sala havia uma professora de Sociologia, que se somou a mim na tentativa fracassada de argumentar com quem não está disposto a ouvir. Não aguento por mais de 2 minutos. Subo antes do sinal bater. Sento na minha mesa e espero os alunos chegarem. Em meio às cadeiras vazias ainda podia ouvir o eco daquela discussão sem sentido. Uma professora?

Depois de um dia de orgulho dos meus alunos, senti asco de alguns colegas. Em 24 horas, senti esperança no ser humano e perdi um pouquinho também. Definitivamente, gangorra nunca foi meu brinquedo preferido.

Discussão Pedagógica ou Balanço Patrimonial?

Estou na sala de vídeo da minha escola. Os alunos saíram mais cedo, pois hoje é dia de discussão pedagógica. Os colegas brincam com o nome e falam que vamos discutir, discutir e só discutir. Ou seja, nada de soluções, como sempre. Fico na dúvida se penso o mesmo. Gosto de momentos de reflexão. Mas, por dentro, já imagino que não vai ser um dia tranquilo. Quem conhece a minha personalidade sabe da minha inclinação ao contraditório. Se todos dizem azul eu pergunto: “por que não amarelo”? Se todos dizem “amarelo” eu digo: “por que não vermelho”? Tem sido assim a minha vida toda.

Na tela do projetor eu vejo números. Não, tem algo diferente ali: gráficos! Hum, respiro fundo. São os dados de “aproveitamento da escola”. Uma colega levanta a voz e diz que tem que reprovar os alunos que não querem nada mesmo, disto ela não abre mão. Uma outra voz responde que não há nenhuma pressão para que os alunos sejam aprovados. Eu, mais uma vez por dentro, finjo que acredito.

Se existe uma coisa que os historiadores aprendem é que todas as formas de comunicação são, em última instância, discursos. E, como tais, elaborados para cumprir uma determinada finalidade. Nossas falas são cheias de discursos, explícitos e implícitos. Pessoas que dizem sinceramente que não são preconceituosas podem usar discursos intolerantes sem perceber isso. E não é só a nossa fala em si. Todo o contexto que envolve o momento, os meios e o público alvo deste discurso também contam para esta avaliação.

Eu levanto a mão. Não é uma opção. Sinto uma verdadeira necessidade de ponderar. Aqueles números me revoltam. Estamos numa escola? Parece que voltei 10 anos no tempo e me vi discutindo as metas de vendas e margens de lucro com o meu gerente. Não, eu não estava numa loja de departamentos. Não, aquilo não era uma fábrica. Era mesmo uma escola. Mas não havia espaço para o João, o Pedro, a Maria, a Ana. Tudo se resumia aos gráficos de resultados.

Sim, eu acho que a escola é o lugar do saber, de desenvolvimento intelectual. Sim, uso notas para avaliar meus alunos. Sim, quero que eles façam uma faculdade. Sim, sim, sim. Mas nada disso tem sentido sem o aspecto humano. Como cobrar que os professores façam todos os alunos aprenderem se ali tem gente que não quer? E aquela que apanha dos pais porque fez a comida com muito sal? E o outro perdeu a casa numa enchente e por isso mora numa quadra Poliesportiva? Não se esqueça daquela que foi abandonada pela mãe e mora com o padrasto, que a molesta. E também daquele que vê o pai em estado terminal, aguardando o dia em que os aparelhos emitirão o som agudo da morte. Como cobrar que eles aprendam? Mais do que aprender sobre as capitanias hereditárias ou fotossíntese, estes alunos precisam sobreviver, ter dignidade, paz. Um colega imaginário me cutuca e sussurra: “não é problema meu! O sistema é assim, não há o que fazer. Sou professor, me pagam apenas para dar aula.”

Percebo que falo em nome de mim mesmo. Paro, fico em silêncio, perco o foco no rosto das pessoas ao redor e só enxergo vultos. Fantasmas de uma realidade que eu não gostaria de presenciar. Por alguns momentos me lembro dos projetos escolares que pregam a crítica ao individualismo da sociedade capitalista. Discursos vazios. Caminhamos para uma escola cada vez mais fria. Salas lotadas, professores em diversas escolas, os alunos se transformaram no número 14 ou 27. O pensamento continua a vagar enquanto a reunião caminha para o fim. Ainda dá tempo de lembrar dos comentários reprovando a posturas dos médicos da “nova geração”, que nem olham para o rosto do paciente, raramente encosta nele e quase sempre resume tudo no termo mágico “virose”. Fico me perguntando: onde eles aprenderam a ser tão insensíveis? Bom, uma coisa é certa, ele foi nosso aluno, não foi?

Terminou a discussão pedagógica. Se tivesse que indicar apenas um sentimento ao sair daquela sala eu teria dificuldade. Era um misto de tristeza, decepção, revolta, sei lá. Então era isso, somos todos cúmplices de um sistema perverso. Aquele médico aprendeu na escola a ser um número. Por que faria diferente? Nós, que continuamos a pensar que o problema não é nosso, vivemos numa escola esquizofrênica. Nossos projetos políticos pedagógicos buscam formar “cidadãos plenos”, enquanto na prática estamos apenas produzindo mão de obra.

Almoço e sigo direto para outra escola. A correria não me deixa parar para digerir tudo aquilo que aconteceu em apenas uma manhã. Meu semblante reflete o desânimo. É uma daquelas horas que dá vontade de largar tudo. Escrevo no quadro, explico a matéria e uma piada aqui e outra ali (afinal, é sexto ano) até são capazes de me tirar um sorriso. Passo tarefa. Uma aluna vem até a mim, me abraça e diz: “que bom que você melhorou!”. Outra me entrega um bilhetinho que está escrito: “você é o melhor professor do mundo”. Fiz força pra não chorar, é verdade, mas por dentro podia sentir que o meu “tanque” encheu. Combustível para mais alguns dias. Ufa!

O que faz o professor pensar em desistir e o que o motiva a permanecer?

Sabe aqueles dias em que dá vontade de largar tudo e desistir de ser professor? E outros em que acontece algo que faz tudo valer a pena? Pois é, que tal viver os dois em 20 minutos?

Esse texto é um desabafo, ok, que fique claro. Não tenho a intenção de escrever pra agradar ou falar mal de ninguém. A situação que vou relatar aqui foi devidamente comunicada para quem é de direito e vou omitir todos os nomes. E como todo desabafo, só vou terminar quando extravasar tudo que tiver entalado. Portanto, vai sim ser um texto longo, sinto muito.

Eu acredito que a educação escolar não pode se resumir ao que ocorre em sala de aula. Aliás, o formato educacional atual mais parece uma prisão, onde todos são controlados (alunos e professores), inclusive em relação às necessidades fisiológicas. Tenho, sinceramente, muita pena dos alunos em ter que ficar 5 horas sentados, todos os dias, assistindo quase sempre a monólogos enfadonhos ou atividades extremamente fúteis e longe de serem desafiadoras.

Desde o meu primeiro ano como professor (e já se foram 7 anos), sempre usei uma estratégia pela qual obtive imenso sucesso na melhora da relação professor-aluno e, consequentemente, um ambiente mais agradável para o aprendizado em sala. Em momentos em que a matéria está adiantada e/ou já chegamos ao fim de um bimestre, quando todas as minhas obrigações já foram feitas (correção de avaliações, recuperação paralela, revisão da matéria, auto-avaliação etc.), proponho uma atividade ao ar livre. Dependendo do perfil dos alunos, tal atividade pode ser futebol, basquete, vôlei, queimada, enfim, algum jogo coletivo. Vocês não imaginam como as crianças ficam felizes! Nunca tive problema algum em todos esses anos. Pelo contrário, já tive turmas em que eu me benzia antes de entrar na sala e que depois disso passou a ser extremamente prazeroso.

Eu nunca tive problema… até hoje!

Sem entender esse contexto todo que abordei acima, aliás, sem ter conhecimento do trabalho que eu realizo, fui abordado e indiretamente criticado por ter saído de sala com uma turma para fazer o que sempre fiz (se bem que nos últimos dois anos eu não havia feito nesta escola). A grande indagação era “o que a bola tinha a ver com a minha disciplina”, se “não era melhor eu estar em sala fazendo lição”. Tá certo que era o último dia antes das recuperações, mas eu já havia feito todas as atividades possíveis e imagináveis e a única coisa que eu poderia fazer era iniciar o bimestre que começa apenas depois das férias. É meio óbvio que essa última opção era um mero “encher linguiça”, pois depois das férias eles não lembram nem o nosso nome, ainda mais a matéria. Mas parece que o “encher linguiça” é mais conveniente para as escolas do que “essas atividades que os professores inventam, que só vai fazer bagunça no colégio” (esse sou eu pensando, tá, não coloque na conta da tal pessoa não, viu). Enfim, deixar os alunos “à toa”, desde que seja dentro da sala de aula pode. Aliás, há muito tempo que tenho dito que ninguém liga para o que se faz dentro de sala, desde que você esteja DENTRO DE SALA. O que mais vejo (e me contam) é professor que deixa os alunos ficarem mexendo no celular, jogando cartas, jogando pingue-pongue nas carteiras… e ninguém reclama. Por quê? Porque ele tá DENTRO DE SALA. Pois bem, eu que devo ser um tremendo idiota, babaca, imbecil, de ficar inúmeros finais de semana preparando e corrigindo atividades, pesquisando coisas novas, fazendo malabarismos em sala pra tonar as aulas mais agradáveis, realmente me importando e fazendo um grande esforço para que meus alunos aprendam, pra no fim das contas ser comparado com aquele outro colega lá de cima, que todos nós sabemos que existe, que simplesmente não quer trabalhar. Eu realmente estou cansado disso tudo, dessa ultrajante hipocrisia existente nas escolas. Dá vontade de desistir de tudo!

Nem continuei a história, né! Mas não importa muito. Mesmo continuando a atividade que havia proposto, não foi a mesma coisa, não deu pra curtir, não interagi como eu queria, enfim, não foi legal. O banho de água fria já havia sido dado. É o ônus de ser diferente em uma escola tradicional.

Pena que isso tudo ofuscou a minha alegria de, 20 minutos antes disso tudo, ter recebido dois presentes de alunas desta mesma turma da tal atividade. Um deles é essa tartaruguinha que chamei de “Tatá” e o outro é uma dessas cartinhas que estão nas fotos.

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É claro que esses presentes são carregados de significados. Esses dois e outros que postei aqui são apenas exemplos do carinho que tenho recebido durante esses anos. Se fosse somente atuais alunos, ainda poderia restar aquela dúvida se não estão sendo gentis para receber uma nota em troca. Mas são muitos e muitos ex-alunos que escrevem ou falam coisas das quais não tinha ideia. Momentos que nem eu sabia, mas se tornaram inesquecíveis. A honra de ser considerado o melhor professor da vida deles. Enfim, coisas que me deixam realmente emocionado e me dão orgulho do que eu faço.

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Pra finalizar, vou contar somente mais uma situação que ajuda a esclarecer o meu pensamento. Um dia desses, descia uma escada da minha escola e me deparei com uma discussão, no pátio, entre duas alunas minhas, de salas diferentes. Chamei no canto uma delas, a que estava mais alterada e comecei a conversar com ela. Sabe aquelas alunas que gostam de um barraco? Pois bem, mas ela me dizia que estava se esforçando pra ser uma boa aluna, comportada, acabando com essa fama de brigona. Me disse, aos prantos, que não havia feito nada com a outra menina e que haviam inventado uma fofoca que deu inicio a discussão, inclusive com juras de briga tipo MMA. Conversei com ela longamente (tudo isso sem que fosse a minha aula na turma dela), disse que confiava nela e que ela não devia ter medo do que os outros falam, pois o importante é que no coração dela havia a certeza da inocência. E pedi; “você não vai brigar!”. Ela prometeu. Na hora da saída ela veio me procurar, chorando muito, dizendo que não tava aguentando as provocações. Conversamos mais uma vez e no final ela me disse: “Professor, eu não vou brigar, mas é pelo senhor!”.

Me diga, em que índice isso entra? Que números que eu ganhei? Vou receber algum bônus-esmola por isso?

O sistema educacional atual quer máquinas formando outras máquinas. Não há incentivo algum para que sejam seres humanos formando outros seres humanos.

Hoje meu sangue ainda ferve, mas amanhã só me lembrarei da Tatá, das cartinhas e de uma briga que evitei que ocorresse.

Espero!

 

Como voar com as asas cortadas?

Uma das coisas que mais me frustram na Educação é a alienação dos próprios profissionais que nela atuam. Nosso discurso quase sempre diverge das práticas cotidianas. No final, reproduzimos uma realidade perversa da escola, a qual falaremos adiante.

Hoje é sábado e ainda agora cheguei de uma Reunião Pedagógica em uma das minhas escolas. Antes da palestra, uma mensagem linda, que gosto muito, aquela famosa do Rubem Alves –  “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.” Em seguida, uma reflexão extremamente proveitosa sobre o que está por trás de uma aula, guiada por uma pedagoga que honra a sua formação, diferente de um monte que nós encontramos por aí (e convenhamos, o inverso também ocorre). A palestra em si demandaria um novo texto, mas não é meu objetivo agora. O que quero resumir é que foram quase 3 horas de um discurso muito voltado para uma escola dinâmica, com professores que servissem de referência para seus alunos, motivados e que motivassem também. Acrescento todas as mais modernas ideias propostas pela Pedagogia, de desenvolvimento das múltiplas capacidades do educando, respeitando seu ritmo e aptidões, sendo o “professor-educador” um facilitador da aprendizagem etc etc etc.

Bacana… se acabasse ali! Como a escola não vive apenas de discursos, as demandas cotidianas vieram à tona no fim da manhã, quando todos já estavam se remexendo na cadeira, em volta aos relógios e celulares, torcendo para que aquele “castigo” (é preciso dizer que estávamos ali em pleno sábado porque fizemos praticamente 1 mês de greve. Por isso, o termo usado pelos professores era exatamente esse) acabasse o mais rápido possível.

Nesse contexto, entra a fala da diretora sobre um simulado (aqui cabe uma explicação importantíssima: trata-se, talvez, de uma das melhores e mais competentes diretoras que já conheci e trabalhei. Não estou fazendo uma crítica pessoal e sim do que o que o “sistema” nos impõe e acabamos engolindo sem criticar. E pior, sem perceber que estamos engolindo algo que não queremos). A indicação da escola era que tal avaliação tivesse o valor de 2,0 ponto, sendo que os professores, querendo ou não, teriam que fornecê-la. Quando eu questionei o valor e sobretudo a intromissão da instituição na liberdade docente de avaliar seus alunos, a resposta foi que se o simulado valer pouco ninguém vai querer dar importância.

Desculpa, leitor, mas o que passou foi apenas uma introdução para o que realmente pretendo tratar neste texto: que escola queremos? Será que aumentar o valor de uma avaliação para que o aluno se interesse mais não é aceitar uma prática mercantil e reforçar esse comportamento que tanto combatemos? Sabemos que o maior interesse dos políticos quando se fala numa valorização da Educação, ressaltando a sua importância para o país, estão se referindo à lógica capitalista, que vê a escola como produtora de mão de obra dócil e acrítica. Quando adotamos essa visão mercadológica (“só faço isso se ganhar aquilo”) e utilizamos um modelo classificatório e mensurador como base para progredir o aluno estamos fazendo o trabalho sujo do capitalismo, modelando os futuros assalariados alienados.

Vou além disso. Nessa mesma escola que se considera, ao menos no discurso, “moderna”, eu sou obrigado a fornecer 1,0 ponto do chamado “conceito” (em cada região muda o nome e os critérios, mas se trata daquele aspecto comportamental) e 4,0 a 5,0 pontos da famigerada “prova”. Enfim, o que está sendo configurado é que cerca de 70% da pontuação do aluno seja nos moldes tradicionais (uma avaliação escrita, individual e sem consulta), para mensurar o conteúdo de um currículo imposto. Tirando o ponto de conceito, sobram 2,0 pontos para eu “oferecer” ao aluno em troca de atividades que realmente possam “dar asas” aos alunos. Alguém aí percebe o que está acontecendo ou eu estou ficando louco? Se eu quero fazer um bimestre cheio de propostas diferentes, motivadoras, criativas, estimuladoras do aprendizado que ultrapassa o conteúdo estático das disciplinas, tudo isso valerá quase nada comparado à avaliação tradicional. Que mensagem eu passo para o meu aluno? O que é mais importante? A escola está virando uma “preparadora de provas” como os pré-vestibulares de outrora?

Para finalizar, pois a minha única intenção aqui é incitar a discussão e não ditar respostas prontas, não quero dizer que um modelo é melhor do que o outro. Existem escolas “modernas” que são boas e ruins e tradicionais idem. Mas os profissionais que trabalham nessas escolas devem ter bem claro seus princípios e objetivos. Se eu vou trabalhar ou estudar numa escola militar, por exemplo, sei exatamente o que vou encontrar. O que não pode é uma mesma escola adotar um discurso e praticar outra coisa. A imagem que me vem é uma adaptação grotesca do belo texto de Rubem Alves, como se essa escola cortasse as asas de um pássaro, tirasse o esperançoso animal da gaiola e o jogasse bem do alto de um prédio. Que liberdade, não!?

Escola pública ou particular?

Na última semana, duas notícias me chamaram a atenção. Uma dizendo que a nota da escola no Enem está ligada à condição socioeconômica dos alunos. A outra mostrava quanto custa matricular seu filho nos dez melhores colégios do país. Ambas me fizeram refletir novamente sobre as diferenças entre as escolas particulares e as públicas.

A divulgação dos resultados da avaliação dos alunos do Ensino Médio sempre desperta o famoso caminho das interpretações dos números. A imprensa em peso destaca um ponto em especial – a melhor média de notas das escolas particulares, comparando-as com as escolas públicas. Isto é um fato! Agora, fazer disso uma base para afirmar que a escola particular é melhor que a pública é uma farsa. Isso não é uma verdade.

Como todos nós sabemos, os números são frios e são as pessoas que o manipulam de acordo com o que querem defender. Qualquer um que não esteja envolvido com a educação “por dentro” não deveria levar os dados ao pé da letra. De fato, das 100 melhores notas no Enem-2010, apenas 13 são públicas (sendo todas federais – militares, Caps ou técnico). Se o número subir para as 1.000 primeiras o resultado é ainda pior – apenas 74 são da rede pública.

Concordo que o primeiro pensamento de um pai de aluno deve ser o de que seu filho deve estudar numa escola particular, pois as escolas públicas são “piores”. A sociedade como um todo, inclusive os jornais, fizeram essa interpretação. Tenho que dizer que estão enganados.

Sou um defensor da escola pública. E mais, acho que o ensino particular é um reprodutor das desigualdades sociais. TODAS AS ESCOLAS DEVERIAM SER PÚBLICAS. Desta forma, eu duvido que faltariam recursos e garanto que o ensino seria de qualidade, pois os setores influentes da sociedade teriam seus filhos estudando lá. (o senador Cristovam Buarque propôs uma lei semelhante)

Para ir direto ao ponto, o que quero defender é que a diferença entre a escola pública e privada é a condição social do aluno. PONTO FINAL. Nada mais do que isso! Se fizermos uma experiência e colocarmos todos os alunos do São Bento (melhor média no Enem-2010) para estudar numa escola pública por vários anos e aplicarmos a mesma fórmula ao inverso, ou seja, colocarmos estudantes do ensino público como alunos do São Bento, teríamos os primeiros obtendo as melhores notas, sem dúvida. E eu explico. O que faz o aluno do São Bento tirar notas mais altas hoje não é SOMENTE o fato de estudar em um colégio particular. Os professores do São Bento não são mágicos em transformar qualquer um em gênio. Eles recebem uma grande ajuda de todo um contexto que envolve a vida do seu aluno – acesso à informação (livros, revistas, TV por assinatura, internet…), a bens culturais (museus, teatro, cinema…) e a cursos (inglês, informática…), estudo em tempo integral, uma família que cobra (afinal de contas, não se gasta mais de 2.000 reais por mês, valor pago no São Bento, para deixar o filho brincar na escola), enfim, existe todo um universo de fatores conspirando pelo sucesso deste aluno.

Na outra face da moeda vive um jovem que passa 4 horas na escola, tem que trabalhar (em muitos casos, sobretudo no Ensino Médio), não tem dinheiro ou não possuí um ambiente que estimule o acesso aos museus, teatros, bibliotecas, etc. Ele vive em uma família completamente sem estrutura. Os pais não tem estudo, são empregados mal remunerados e não há perspectiva do filho trilhar um futuro diferente. Alguns destes alunos estão na escola obrigados, já que os pais não querem que o filho fique na rua ou têm que mostrar a presença deles para continuar a receber o Bolsa Família. Esta escola pública se transformou em um depósito de crianças e jovens. Está distante de um lugar de promoção do saber.

Dê-me um aluno do São Bento e não terei qualquer problema com ele. Agora, se eu transferir um aluno típico de uma das 2 escolas públicas que leciono para um professor do São Bento e ele encontrará algumas dificuldades pela frente.

O que defendo aqui é compartilhado por Fernando Veloso, especialista em educação do IBRE/FGV. Ele diz que a diferença das notas entre escolas públicas e privadas “embora possam refletir diferenças de gestão, estão relacionadas às diferenças nas condições socioeconômicas dos alunos da rede pública e particular”.

Por fim, não quero deixar uma imagem de que acho a escola pública uma maravilha e que não tem resultados apenas porque o aluno é carente. NÃO AFIRMO ISSO. Somente quis expor um contraponto à ideia de que qualquer aluno que estude em uma escola particular terá sucesso. Tenho alunos na rede pública que possuem a estrutura que mencionei mais acima e, por isso, apresentam um rendimento bem acima da média. Encontro alunos incríveis a cada ano que passa. Esse texto é especialmente escrito para eles e para todos os que acreditam em uma escola pública de qualidade.

Luiz Eduardo Farias