Desistir de novo

Eu já tinha desistido da educação, mas ainda não consegui sair.

Mas a cada dia que passa sinto que estou mais longe. Aliás, MUITO longe…

Depois de duas semanas viajando, entro na escola e em meia hora de conversa com colegas professores sobre a situação do Brasil, antes das aulas, ouço pérolas como:

bandido tem que morrer…

depois vem este pessoal dos direitos humanos…

quero ver os direitos humanos pra trabalhador…

a polícia prende mas os direitos humanos soltam…

na época da ditadura tinha muita coisa errada, mas tinha muita coisa boa…

Coloco o fone de ouvido com uma música no volume máximo e me calo, com meu interior piorando minha gastrite.

Toca o sinal e estes sobem para dar aulas para adolescentes da periferia do Rio de Janeiro, em bairro totalmente desassistido pelo Estado, neste espaço que deveria ser o da construção da cidadania (escola).

Nossos alunos não têm garantidos seus direitos: educação decente, saúde, moradia, segurança, cultura, possibilidades de futuro… mas os seus professores acham que deve-se encarcerar todos, inclusive os pré-adolescentes (tem que diminuir a idade penal), que preso tinha que trabalhar em colônia penal, que polícia não é toda bandida e bandido tem que morrer, na ditadura era bom, entre outras pérolas.

Então eu me calo, subo e entro em minha sala.

De cara, duas alunas me perguntam “professor, porque o senhor voltou, porque não ficou viajando?”

Então, depois da pá de cal eu me convenço que, realmente, não sou deste mundo, que nada mais tenho a oferecer.

Acabou, só ainda não consegui enterrar.

Declev Reynier Dib Ferreira

2 comentários sobre “Desistir de novo

  1. Eu ia responder dizendo que, ao menos, você não foi militar durante o tempo da ditadura… como eu. Mas me dei conta de que é muito pior ouvir asneiras deste tipo quando elas são exatamente a livre manifestação de convicções pessoais.
    Esse reacionarismo diretamente importado do “Tea party” americano (ou, para os mais sofisticados, do “UKIP” e afins europeus) é a mais pura expressão do “vira-latismo” tupiniquim… do qual nem a esquerda escapa com nossa versão bufa dos “gatos gordos” do Kremlin…
    O pior é que esses asnos nem sabem fazer contas: não conseguem enfiar na cabeça que “mais escola” = “menos penitenciária”, ou “mais saneamento” = “menos despesas de saúde pública”. E babam na gola da camisa (que ninguém usa mais gravata) quando falam, por exemplo, da Suécia; mas não conseguem entender quando eu digo que o CEO da Bofors ia de casa para o trabalho de bonde… Não entra na cabeça deles que alguém de “alto coturno” possa simplesmente achar melhor usar transporte público de boa qualidade.

    • Pois é, João. Como você mesmo acompanha, eu sou um dos que mais apontam os problemas do Brasil, inclusive amealhando inamizades por conta disso. Mas são exatamente destas asneiras que falo! As pessoas querem ser o norte da Europa, mas com as mesmas regalias e profundas desigualdades cultivadas nos séculos que nos formam.

      “Eles” – os bandidos, pobres, pretos, favelados – nunca terão os mesmos direitos, nunca andarão nos mesmos lugares que “nós”, enquanto esta mentalidade persistir.

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