Que esta mensagem te dê esperanças

Escrevo isso no primeiro dia de 2015. Ontem, ano passado, uma mensagem me emocionou.

Nas últimas horas de 2014 recebi um chamado no Facebook por mensagem in box. Era uma ex-aluna, que já saiu da escola fazem mais de dois anos.

O diálogo com ela me emocionou. Eu já falei algumas vezes por aqui de minha desmotivação, descrença na profissão e falta de relacionamento com os/as alunos/as:

Mas também já falei de alguns bons acontecimentos:

Agora, este tipo de conversas que travo me dão uma nova esperança, mostrando que, na verdade, os professores têm muito mais força do que supomos. Mostram que, na verdade, podemos, sim, fazer a diferença, mesmo que dentro de alguns indivíduos.

Não me venham dizer que isso SEMPRE acontece, ou que é normal, ou que os professores/as sempre têm que ter um bom relacionamento com os alunos. Não, nem sempre temos um bom relacionamento com os alunos. Nem sempre gostamos de todos os alunos. Nem sempre temos diálogo com os alunos.

Mas, quando temos, é maravilhoso.

E, portanto, acho que é isso o que eu (e você também, professor/a) temos que fazer em nossa lida diária: olhar o/a aluno/a, e não o sistema. Quer dizer, lutar contra o sistema, sempre, até que ele seja bom o suficiente (e talvez isso nunca chegue), mas agir mais com o/a aluno/a.

É algo como aquela frase do meio ambiental: “Pensar globalmente, agir localmente”.

Nem sempre consigo enxergar desta forma. Mas a conversa talvez me ajude a abrir (novamente) os olhos.

Vamos, então ao nosso diálogo (suprimindo o nome e com autorização):

– Boa tarde professor

– Oi Aluna! [eu disse o nome dela, mas suprimi aqui]

– Lembra de mim ainda?

– Claro!

– Vim dar ótimas notícias ao senhor

– O que tem feito?

– Consegui bolsa no curso de moda no Senac de Copacabana. Vou fazer pré-vestibular na UFF

– Oba, muito bom! Eu sabia que você conseguiria muita coisa. Não tinha dúvidas.

– E por causa das suas palavras eu decidi fazer a faculdade de Cinema

– Sério?

– Sim

– Que lindo! Você vai ser grande, vai fazer o que quiser! Como eu disse, nunca tive dúvidas!

– Sempre me apoiou em relação ao teatro. Muito obrigado professor.

– De nada. Este foi um ótimo presente que recebo neste fim de ano.

– Você me inspira bastante, nunca esquecerei do que falou. Muito obrigada por tudo.

– Eu que agradeço, estou emocionado.

– Ainda da aulas na Escola?

– Ainda…

– Mas sem nenhuma aluna como você e seu irmão…

– Obrigada. Pretendo visitá-lo. Pra colocar a conversa em dia

– Vá sim.

– Vou sempre esta mandando noticias e lhe agradecendo. Bjs e de novo, muito obrigada.

– Muito obrigado. Feliz 2015 pra você e sua família. Mande um beijo a todos.

– Mandarei. Feliz 2015 ao senhor e Ana Catarina.

É isso.

Não é o máximo?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

4 comentários sobre “Que esta mensagem te dê esperanças

  1. Emocionante, Declev!
    Concordo inteiramente com você. O que ainda me dá esperança de continuar é poder viver momentos como esse. Feliz 2015 para todos nós!

  2. É como sempre disse a você, precisamos buscar brilhos nos olhares…
    Nem tudo é perfeito, saímos machucados por não conseguirmos tocar a todos. Mas ouvir depoimentos como esses realmente nos faz repensarmos e recomeçarmos mais uma vez, mais e mais.
    Pelos comentários, acho que já sei de quem se trata… rss
    Mande um beijão para ela.

  3. Que saudades de vc, Luiz!!! Com o Declev mantenho contato, via facebook, mas com vc… Como podemos voltar a trocar idéias???
    O que o Declev escreveu neste artigo é sim emocionante e foi o maior motivo pra eu continuar trabalhando em escolas, mesmo depois de já estar doente. Acompanhei centenas de casos como esse, ouvi coisas belíssimas, ex-alunos voltavam pra saber como eu estava, com saudades, me homenagearam de formas surpreendentes e lindas, enfim… Foi por eles e só por eles que consegui continuar alguns anos além do meu limite, até desistir de batalhar apenas dentro das escolas. Hoje em dia me dedico à Psicologia Clínica, que adoro! Não quero mais trabalhar em escolas, até porque tenho uma visão bastante progressista de educação e a escola, nos moldes em que funciona, com o conservadorismo, a falta de criatividade e a priorização da questão da disciplina no cotidiano escolar. Pra mim, em relação às escolas públicas, um ótimo modelo a ser conhecido e bem aproveitado é o da Escola da Ponte, em Portugal. E, em relação às escolas particulares, a que realmente mais gosto e acredito é a EDEM, onde meu filho e sobrinhos estudaram/estudam e onde duas das minhas irmãs trabalham, também como professoras.
    É óbvio que não é preciso gostar de todos os alunos, mas considero necessário conhecer um pouco da história dos alunos vistos como “problemáticos” (o que é um preconceito sem tamanho!!! um rótulo hediondo!), pois assim podemos construir novos espaços de convivência e a relação dentro de sala de aula .
    Não sei se já falei claramente isso, mas quando um professor trabalha em escola em outra função – no meu caso foi como orientadora educacional e pedagoga -, as piores pessoas pra se trabalhar e conseguir parcerias em projetos coletivos eram/são justamente os professores!!!!!!!!! São fechados, rígidos, inflexíveis e, de certa forma, pra esses é mais fácil se posicionar como as principais e eternas vítimas da educação e, por isso, achar que só a partir da briga política, da luta sindical, etc, é que a educação vai melhorar! Claro que essas lutas são importantíssimas, mas se ficarmos esperando as “condições ideais”, vamos deixar de atender a milhares de alunos que poderiam sim ser ajudados, pois só tem o espaço escolar como chance de melhora na vida!!!!! Muitas vezes, os que são vistos como “problemáticos” são inteligentes, ativos, criativos, muitas vezes líderes, e todo esse potencial se perde, já que não tem apoio na família e nem na escola. Cansei de ver isso. Cansei de acompanhar alunos que foram expulsos da escola (o que é feito de forma velada e muitas vezes cruel, “convidando” o aluno a se retirar da escola já que “expulsar” é proibido por lei) que viraram ladrões e foram assassinado pela polícia antes de completarem 18 anos!!! Isso sim me preocupa, em primeiríssimo lugar!!! É por justiça social que precisamos lutar! Pra mim os professores não estão em primeiro lugar e sim os alunos. Disparado!
    Mas, quanto aos alunos que expressam gratidão e afirmam o quanto diversos professores foram ótimos em suas vidas, como nesse caso que aconteceu contigo, Declev, sobre o qual vc escreveu aqui, fico muito feliz e aplaudo de pé! Professores como vc e o Luiz, Declev, ainda me fazem ter esperança, embora eu realmente não acredite mais nesse modelo conservador de escola, que ainda é o objetivo, na prática, dos profissionais de educação, de modo geral.
    Quanto às lutas pelos professores, esquecendo-se sempre da importância dos demais profissionais de educação da escola (infelizmente é o que acontece), continuo achando que a luta deve ser pela educação, pelo magistério, pela pedagogia e não pelos professores apenas, até porque existem professores péssimos, que estão diariamente fazendo mal à muitos alunos também, infelizmente. Lutemos pela valorização da profissão. Isso sim!
    É a minha opinião.
    Beijos e feliz 2015 para todos!!!
    Regina Milone.

  4. Só completando uma frase que deixei pela metade, acima, o que quis dizer é: “Não quero mais trabalhar em escolas, até porque tenho uma visão bastante progressista de educação e a escola, nos moldes em que funciona, com o conservadorismo, a falta de criatividade e a priorização da questão da disciplina no cotidiano escolar, NÃO é uma escola em que acredito e pela qual queira lutar”.
    Beijos…

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