A Educação na Caverna

Quando iniciei como professor eu tinha esperanças.

Eu achava que poderia fazer algo pela educação e, consequentemente, pela população mais pobre e desassistida, considerando que eu seria professor de escola pública de periferia.

Ledo engano.

Posso dizer hoje, com segurança, que há forças vindas de todos os lados contra a implantação de um sistema de educação pública de qualidade.

Essas forças se parecem com a pressão atmosférica: agem de todos os lados, de todas as direções. São como a gravidade: te seguram ao chão e às vezes te derrubam. Você tenta voar, mas não consegue. Tentar correr, mas cansa. Tenta andar mas te seguram.

Tente algo diferente, pense diferente que você será separado, execrado, massacrado, afastado, deselogiado, ofuscado, impedido.

E continuamos todos na Caverna da Educação: os professores e professoras fingem que ensinam; os alunos e alunas fingem que estudam; as mães e pais fingem que fazem sua parte apenas enviando pra escola; os diretores e diretoras fingem que a escola é uma maravilha; as secretárias e secretários fingem que investem em educação e se preocupam com ela.

Na verdade, investem em projetos privados a serem aplicados dentro das escolas, com muitas, mas muitas vantagens financeiras para quem diz que vai revolucionar a educação. Mas tem que ser de uma empresa, um instituto, uma fundação externa à escola, não pode ser da escola.

Se você, professor, tem uma ideia, não serve. Mas se esta mesma ideia tiver uma nova roupagem e for de uma empresa, instituto ou fundação, são milhões investidos. Para nada.

Por este caminho, pretendem nos confinar na Caverna eternamente. E, enquanto isso, pra quem está dentro da Caverna, qualquer coisa que se faça dentro da escola é vista como “resultado”, como “nosso trabalho rendendo frutos”, como “vitória”, como algo que é bom para os alunos.

Mas o que vemos são Sombras. São apenas Sombras do que deveria ser a Educação.

Quando entrei no município do Rio eu tive que trabalhar nas férias. Fui parar em uma escola que tinha algo como uma “colônia de férias” para as crianças, na mesma ‘comunidade’ em que ainda trabalho. Lembro que uma das ‘atividades’ foi levar os alunos à praia. Fomos parar na Praia Vermelha, na Urca. Chegando lá, soltaram as crianças e elas ficaram por ali. Aí questionei à diretora: “então, vamos reuni-los, falar alguma coisa, contar uma história, falar do lugar, explicar algo, ensinar algo?”. “Não precisa, eles não têm nada, o que der tá bom. Tá mais do que bom eles virem para cá, pois nunca vêm”. Foi essa a resposta dela, demonstrando como é o pensamento na educação para pobres.

Mas enquanto acharmos que as Sombras são o que deveriam ser, perpetua-se o statu quo. Deveríamos aplicar, investir e trabalhar por uma Educação de verdade e seus resultados, mas achamos que as Sombras os são.

E, então, os alunos saem da escola uma sombra do que deveriam ou poderiam. Perdemos por entre os dedos todos os talentos e possibilidades que poderíamos ter, para além das sombras.

Eu já saí da Caverna, mas não consigo trazer meus iguais para fora.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Liberto, mas nem tanto

Um comentário sobre “A Educação na Caverna

  1. Ainda acredito em pessoas. Mesmo sabendo que nada se faz sem recursos. Concordo com você Declev Reynier, mais isso é algo que já esta mudando sendo o maior mestre de todos o responsável; o tempo…
    Grato pelo desabafo
    Rodolfo Abreu

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