Crônica de minha volta

Estive em Licença Paternidade, em Niterói, após o presente recebido com o nascimento de minha filha.

Depois de uns 35 dias sem escutar funk, eis que ele surge novamente em minha vida.

Depois de uns 35 dias sem ouvir palavrões em cada frase que entra em meus ouvidos, eis que eles estão de volta dentro de mim.

São dois ônibus. O primeiro não demora a chegar e, 20 minutos depois, estou no outro ponto. Mais uns 30 minutos esperando, chega o segundo ônibus de minha jornada. Ele vem vazio e segue seu destino. Depois de passar por montes de ônibus parados atrapalhando o andamento da rua num “ponto final” improvisado, segue serpenteando pela rua estreita, desviando de lixo, entulho, porcos, carros abandonados, montes de areia, carros na contra mão e gente. Por enquanto, não desvia de muitos buracos, pois a via foi recapeada há pouco tempo. De reurbanização, só isso.

Ao começar entrar na comunidade, começa a entrar gente. Porta única, se tem gente pra sair e gente para entrar, há impasses momentâneos e o ônibus perde tempo na espera.

Mas o tempo não se perde só nisso. Alguns novos passageiros passam pela roleta. Os que têm gratuidade – a maioria: alunos, idosos, deficientes – precisam passar o dedo numa máquina de leitura de digitais. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo. Não funciona. Passa de novo.

Se é irritante ler repetidas vezes, imagine em um ônibus com cerca de 12 pessoas para entrar quando várias delas precisam passar por este processo. Ficamos parados em determinado ponto uns 10 ou 15 minutos. Em outros por 5 ou 10 minutos.

Mas pode ser pior. Muitos passageiros não passam pela roleta, dentre homens e mulheres, adolescentes e crianças, apesar de terem cartão de passagem, a maioria gratuitamente, com o dinheiro de nossos impostos.

E dizem – prefeitura e seus amigos empresários – que isso é “cidadania”.

Aglomeram-se na parte da frente, no espaço delimitado pelas roletas, o motorista, o vidro dianteiro e a porta da frente.

A porta da frente não fecha, pois há montes pendurados, às vezes por apenas uma mão.

Crianças pulam pela janela para dentro do ônibus, em uma destreza olímpica.

O motorista levanta, grita algo, não sai com o ônibus com a porta aberta. Novidade, pois sempre saíram com crianças penduradas na porta, segurando-se por fios de dedos enquanto o coletivo serpenteava alucinadamente por ruas caramujentas, cheias de meandros.

Um dia cheguei a argumentar sobre o perigo com um motorista, profissional responsável dos que esta formidável empresa costuma contratar. “Imagina se um garoto destes cai!”, disse eu, apelando para o bom senso que achava que havia no fundo do poço.

Mas o poço era ainda maior.

– “Se morrer eu respondo em liberdade”, disse-me o motorista, argumentando que não fechava a porta porque eles brigavam com ele, se tentasse, e ele não queria aborrecimentos.

Mas um dia caiu.

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Depois de pés pisados, gritos, apertos e diversos guris e gurias pulando a roleta, a porta se fecha e o ônibus sai. Antes da roleta, lotado. Atrás (ou seja, na maior parte do ônibus), vazio.

Ao fundo, um funk no celular, alto, como se todos gostassem. Não gosta? Dane-se.

Nas próximas paradas, não para. Passa direto deixando diversos alunos e outras pessoas a ver navios – ou a ver ônibus. Se quiserem, que vão a pé!

Furando todos os outros pontos, chega ao destino e começa a esvaziar. Hora de descermos quase todos, indo em direção à escola.

Chego nela um pouco mais de uma hora depois de ter saído de casa, apesar de estar na mesma pequena cidade que figura entre as 5 melhores de qualidade de vida no Brasil. Então tá.

Entro em sala e sou agraciado com a frase quase gritada “quem me come quieto come sempre… galinha!… cachorra!…”. As pérolas continuam com um “meti o piru nela” e seguem com “seu babaca!!” e outras.

Perco um tempo fazendo a chamada e arrumando o diário – o que é mais importante que a aula em si, e isso não é um exagero – e esperando os alunos se acalmarem e entrarem em sala, um após o outro, mais atrasados do que eu.

Outros gritos, outros palavrões, outros tapas nos pescoços e xingamentos depois, a aula que praticamente não teve acaba, mas não sem antes de minha própria bateria ter acabado, quase antes mesmo de começar o dia.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Zumbi

3 comentários sobre “Crônica de minha volta

  1. No início a gente ri porque não consegue acreditar… mas com o passar do tempo, percebemos que cada vez mais, poucos serão os que terão clareza sobre a vida, como algo além do que alimentar seus únicos desejos.
    Força, e continue a compartilhar conosco suas visões.
    Abs, Eliane.

  2. É , Declev ! Uma jornada! Só mesmo para os jovens, como você. Mas se vc pegasse o carro, seria mais rápido…ou não, kkkkkk. Acho que sim, seria mais rápido sim. E ainda viria ouvindo suas músicas preferidas! Grande beijo. Carmen

    • O carro é uma solução, Carmem… mas eu não dirijo, você sabe! rs…

      No mais, é uma solução individual. Os direitos dos alunos continuariam sendo vilipendiados…

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