Você está aqui: Capa » Avaliação da Educação » Viva a valorização dos professores do Rio de Janeiro: saiu o 14º salário!

Viva a valorização dos professores do Rio de Janeiro: saiu o 14º salário!

É claro que este título é uma ironia.

Uma ironia e uma crítica a um dos sistemas mais injustos e desumanos jamais aplicados aos professores.

Não gostaria de me estender muito neste assunto, pois já tratei dele por aqui várias vezes:

Mas acho importante falar disso mais uma vez, afinal, continuam vendendo isso como uma boa ideia e um investimento na educação e na valorização dos professores.

Minha escola não recebeu o 14º salário este ano, porque os alunos não aumentaram a nota no Ideb. Muito pelo contrário, a nota caiu. Outras tantas escolas receberam porque aumentaram as notas no Ideb conforme os parâmetros estipulados pelos maravilhosos gestores.

Isso é sinal de quê?

É sinal de que os professores de minha escola trabalharam menos? Não.

É sinal de que os professores de minha escola faltaram mais? Não.

É sinal de que os professores de minha escola são menos competentes? Não.

É sinal de que os professores de minha escola se importam menos com os alunos? Não.

É sinal de que os professores de minha escola se esforçaram menos? Não.

É sinal somente de que os alunos de minha escola não foram tão bem nas provas. Só. E isso pode se dar por inúmeros fatores, conforme eu já havia falado à secretária – na época futura, hoje ex – em minha Carta Aberta.

Mas esta política só serve para culpar e punir os professores, independente de todo o trabalho, a competência, o esforço que eles possam ter feito – e, pode ter certeza, fazem [não estou aqui para falar das exceções, que sempre existem, mas de uma classe profissional como um todo].

Agora, se a gente pensar na estrutura da rede municipal como:

Alunos –> professores –> direção –> CRE –> Secretaria

podemos perceber que, por esta lógica, se os alunos não aumentaram as notas e culpa-se os professores, poder-se-ia culpar a direção; se se culpasse a direção, poder-se-ia culpar os burocratas da CRE; e, por último, se se culpasse os burocratas da CRE, poder-se-ia culpar a Secretaria de Educação e os maravilhosos gestores!

Percebe-se, então, que um sistema que pune e culpa não funciona, é injusto e, até mesmo, imoral.

Ora, argumentaria alguém contra este raciocínio: “o fato de se ter escolas que alcançaram as metas e escolas que não alcançaram as metas significa que não é culpa da CRE nem da Secretaria, visto que, se fosse, nenhuma escola alcançaria”.

E então eu rebato: ora, a nota de uma escola é feita a partir de uma média dos alunos: há alunos que alcançam notas maiores e há alunos que alcançam notas menores, então, também não é culpa do professor, pois que se fosse TODOS os alunos iriam mal!

No mais, a prova não é feita por todos os alunos da escola, mas sim de um determinado ano de escolaridade e nem todos os professores dão aula para aquele ano.

Portanto, percebe-se que este tipo de política não serve para “premiar” professores por seu trabalho, mas sim para “punir” os professores – independente do trabalho que realizem.

Vejamos.

Outro dia vieram algumas pessoas da CRE aqui na escola. Eles vieram em minha sala e viram alguns trabalhos que eu faço, minha rotina. Ficaram encantados com um trabalho de construção de sistemas do corpo humano utilizando papelão, coisa que eu faço há muitos anos e sobre o qual eu até já escrevi aqui e que estava realizando novamente.

Disseram “puxa, que legal, quando eles lêem eles esquecem, mas quando fazem um trabalho assim, prático, levam pra vida toda!”

corpo humano

E também gostaram de uma iniciativa minha de improvisar uma mesa [com um pedaço de madeira] do lado de fora da sala, no corredor, onde eu havia colocado livros e revistas para leitura, no intuito de levar o hábito de leitura para outras partes da escola. Me ofereceram mesas novas e um armário para colocar as publicações.

leitura na escola

Mas… eu e meus colegas não recebemos o maravilhosos prêmio do 14º salário, porque os alunos que fizeram as provas não alcançaram as metas estipuladas.

Independente de todo o meu trabalho.

E, pérola das pérolas: professora perde bonificação após morte do filho.

É isso mesmo que você leu! A professora tirou a licença de 8 dias por conta da morte do filho dela e, por isso, não tem “direito” a receber o prêmio.

Eu poderia me estender muito mais sobre a monstruosidade desta política, mas acho que já deu pra perceber o que venho dizendo.

Valorização não se faz com a desvalorização total do salário para que os funcionários fiquem reféns e escravos de esmolas, conforme já demonstrei aqui, com números, que a prefeitura do Rio vem fazendo.

Desta forma, se alguém em algum delírio psicótico pensa, por um segundo sequer, que por conta disso eu – e com os outros professores provavelmente passa a mesma coisa – irei me “motivar” a trabalhar mais para ganhar uma esmola no fim do ano, interne-se.

Por conta desta política extremamente injusta, eu largo de mão cada vez mais a educação. Eu desacredito cada vez mais na escola. Eu falto sem pudor, sempre que necessito. Eu não tenho o mínimo ânimo em me estressar para dar aulas e ensinar a um público que cada vez menos quer o que eu tenho a oferecer. Me esforçar para quê?

Eu desisto pouco a pouco dentro de sala.

Esta política tem efeito contrário.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Sem 14º, mas contra o 14º

Sobre Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

6 comentários

  1. Acho que a meritocracia veio pra ficar na Educação, infelizmente.
    Esse discurso certamente vem de profissionais que não entendem nada de pessoas, apenas de números e estatísticas.
    O que me deixa mais triste nesta história toda é ver a nossa classe se vendendo em troca dessas esmolas. Isso me dá mais nojo do que a iniciativa dos gestores, que já perderam meu respeito há muito tempo.
    Me arrepio todas as vezes que imagino que a situação tende a piorar.

    • Luiz, as pessoas se vendem em troca dessas esmolas porque fazem quem com que elas sejam necessárias, com o achacamento dos salários. É a venda de soluções depois de terem criado os problemas.

  2. E antes que eu me esqueça… bela iniciativa, tanto o trabalho com o corpo humano, quanto a mesa de leitura.

  3. Mas de certa forma culpa-se também as CREs e SME uma vez que muitas escolas, também não bateram as metas.
    Parabéns pelo trabalho meu velho. Gde bjo a vc e todos os amigos da Mascarenhas.

    • Mas de certa forma culpa-se também as CREs e SME uma vez que também não receberam o 14°, pois, também, não bateram as metas.
      Parabéns pelo trabalho meu velho. Gde bjo a vc e todos os amigos da Mascarenhas.

      • Obrigado, Alex. Eu não sabia que não tinham recebido, até você falar. De qualquer forma, é injusto, até mesmo com quem trabalha – de verdade – dentro da gestão.