Ainda o fantasma da meritocracia na educação

Qualquer ser com mais de dois neurônios e que pare para utilizá-los, vai perceber que a meritocracia baseada em “resultados” não funciona com a educação. Me desculpe a grosseria misturada com franqueza, mas este tema me irrita.

Eu já falei por aqui diversas vezes sobre este assunto, veja algumas:

Isso é coisa de quem trabalha com coisas, e não com gente.

Ora, por mais que uma determinada estrutura física pudesse ser a mesma em todas as escolas, o seu público não é. Então, a escola estar situada em uma zona de conflito, onde tudo falta, será bem diferente do que uma situada em bairro tranquilo e seguro de classe média.

Como medir meritocraticamente os profissionais das duas? Pelos resultados de seus alunos? Pelas faltas?

Supõe-se, entretanto, que um professor que está em uma sala de aula com 40 alunos provenientes de um bairro violento vai se desgastar – física e mentalmente – muito mais do que um que está em uma sala com 25 de um bairro que tem todos os direitos sociais assegurados.

Como exigir que ambos tenham o mesmo rendimento ou as mesmas faltas?

Uma escola situada em bairro dominado pelo tráfico – sim, isso existe, gente! – fecha suas portas diversas vezes ao ano por conta da violência. Isso fora quando não fecha, mas tem aulas no meio de uma guerra, com os alunos estressados, amedrontados ou excitados demais para ouvir o professor.

Como querer que eles tenham os mesmos resultados que outros?

Como eu disse, isso é coisa de quem trabalha com coisas, não com pessoas.

É muito fácil fazer isso em uma fábrica: o trabalhador que fizer mais “coisas”, com as mesmas condições de trabalho, é melhor que outro (e ainda assim, há variáveis, como a própria vida de cada trabalhador).

Se você dá mais condições, aumenta o salário, compra novos equipamentos, oferece novas oportunidades, você há de esperar que o operário consiga fazer mais “coisas”.

Mas “coisas” não têm vontade própria, não sofrem com a violência, não te respondem, não dizem “eu não quero fazer isso”, não são traumatizadas por violências sexuais ou físicas, não passam mal, não têm medo.

Coisas são coisas.

Pessoas são pessoas. Têm livre-arbítrio, têm medo, sofrem, têm dor de barriga, ficam doentes, escolhem se vão realmente ler o livro e estudar – como o professor propõe – ou vão ficar somente olhando para o livro fingindo ler alguma coisa.

Mas, eis que, então, o setor industrial – este mesmo que doa (empresta) milhões para a campanha de políticos corruptos, que muitas vezes explora a mão-de-obra de seus funcionários de forma injusta, que produz os bens de consumo que só aquela classe média que tem toda  a estrutura pra estudar pode comprar, enquanto os outros são compelidos a ter vontade de ter, sem poder, eis que este setor que trabalha com coisas, resolve interceder na educação – que trabalha com pessoas – porque acha que a educação está ruim.

Diga-se de passagem, esta mesma educação levada a cabo pelos políticos corruptos que eles mesmos ajudam a se eleger por meio de doações milionárias.

Eles querem “influenciar a política educacional”. Então,

Preocupada com a perda de produtividade do trabalho na economia brasileira e ciente de que a qualidade do ensino tem impacto em várias atividades, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) está determinada a influenciar mais os rumos das políticas educacionais no país e lança estudo com 11 recomendações que possam contribuir com um avanço da educação nacional.

Segundo a cni, a  educação pública tem que estar mais “alinhada” com o mundo do trabalho.

Para isso, dentre outras propostas, sugerem uma gestão da educação e a alocação de recursos baseada em avaliação e resultados e, para isso – lá vem ela de novo – deve-se tratar da meritocracia para os professores.

Vejam: eles querem “a alocação de recursos orçamentários ‘com base em resultados e meritocracia'”!! Isso quer dizer o quê? Que as “piores” escolas – provavelmente aquelas que mais precisam – devem receber menos recursos???

Para os jênios que fizeram o documento, a meritocracia “cria condições adequadas de trabalho para atrair e reter os melhores e mais talentosos profissionais da área de educação.”

Para eles,

“É uma forma de a educação evoluir evitando desperdícios. Quem critica segue uma lógica corporativista e expõe uma visão atrasada no debate educacional. Não existe atividade humana que avance sem gestão nem meritocracia. Ao mesmo tempo é preciso investir mais nas escolas e alunos com os piores desempenhos, isso é um approach de cidadão, de inclusão”, avalia Lucchesi.

Eu sublinhei a passagem acima, pois os jênios entendidos de educação acham que ser contra a meritocracia na educação “expõe uma visão atrasada no debate educacional”.

Mas, vejam, os EUA já fizeram isso há mais de 20 anos e, hoje, percebem que não dá certo e estão tentando voltar atrás. Quem diz isso? Nada menos do que Diane Ravitch, a pessoa que implantou este sistema por lá. Ela ja fez o mea culpa e explicou os motivos para que não dê certo. Já falei sobre isso por aqui, no post a vanguada do atraso.

E eu que sou contra que tenho uma visão atrasada?

Como eu disse, quem trabalha com coisas, não deveria dar pitacos como entendidos em educação, que trabalha com pessoas.

Mas uma das últimas frases resume todo o pensamento político-filosófico-pragmático-ideológico por trás da inocente iniciativa:

“As empresas precisam se engajar mais na formação das pessoas. É preciso atrair e reter talentos e treinar recursos humanos para as condições específicas da empresa e da sua cadeia de valor.” Fonte

Sem mais.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

5 opiniões sobre “Ainda o fantasma da meritocracia na educação”

  1. Ouvi uma entrevista na tv, que um secretario da educacao (nao me lembro agora qual deles?), estava pensando em como resolver a questao do financiamento para a educacao. E uma das solucoes seria esta: conceder abonos as escolas que tivessem maior quantidade de aprovados. Como sempre entra o jeitinho dito brasileiro, de enganar a populacao que desconhece o assunto. Ouvi de um colega que isso ja esta acontecendo via Direcao da escola estadual que ele trabalha, uma pressão velada. Ja estamos tentando burlar o financiamento do PNE antes de vigorar? Será? Tá difícil…

    1. Eliane, não duvide disso. E “aprovação”, como sabemos, não é aprendizado.

      Venho dizendo que aprovação ou reprovação não adiantam nada, o que tem que acontecer é o aprendizado.

      Eu mesmo tenho por hábito, há uns dez anos, não reprovar aluno nenhum Tento fazê-los estudar por aprender, não para “ganhar pontos” ou “passar de ano”.

      E, pode ter certeza, eles não estudam menos comigo do que com outros.

      Abraços,

  2. Professor trabalha por mérito profissional, mas ganha pouco. Especialista com 10 anos de magistério ganhando míseros 2.300 por mês, com as mesmas salas de aula lotadas, muitas vezes com marginais que não querem estudar, mas querem vender, consumir drogas ou aterrorizar outros alunos, funcionários e diretores. Tenho um punhado de alunos assim todos os dias, e pela meritocracia, não tenho vontade alguma de estar aqui ministrando conteúdos que eles próprios não querem receber, visto que nenhum pai ou mãe assume essa responsabilidade quando mencionados ou quando chamados para resolver pendências de infrações na escola. Afirmo, e reafirmo. Aluno que estuda, merece elogio, aluno que é educado, cortês, faz as lições, respeita as normas escolares deve ser beneficiado sempre, pois na vida social, TUDO É ASSIM. Aos que não querem nada com nada, lamentamos. Somos professores que ensinamos, não pais que educam. Não faço papel daqueles que deveriam zelar pela moral dos seus filhos. Professor não deve ser culpado pela ausência dos pais nas escolas, em virtude de famílias assistidas por programas de governo que dão esmola ao invés de dar trabalho e condições dignas de vida.

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