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Sobre a injustiça da meritocracia adotada nas escolas

É possível rankear as instituições de ensino e listá-las como “melhores” ou “piores” de forma justa, sem levar em conta aspectos para além de notas e estatísticas?

Não.

Ora, as “melhores”, em geral, são as que atendem a classe média/alta. As “piores” são as que estão em bairros violentos e mais pobres. Simples assim. Isso é muito marcante nas grandes cidades, especialmente.

Por quê? Por que os professores são piores, menos engajados ou mal formados, como se quer fazer pensar as políticas meritocráticas e reportagens?

Não.

Também é simples: não é só o interior da escola que faz o ranking, mas o público e sua situação externa sócio-ambiental-política-cultural, o que está MUITO ALÉM (mas também DENTRO), do trabalho da escola por si só.

Só que, em matéria de investimentos, pelo contrário, as escolas que mais precisariam de estrutura e de atenção – aquelas que recebem o público mais carente e de situação de risco sócio-ambiental-político-cultural – são justamente as menos favorecidas e mais carentes.

Reprodutor e aprofundador das diferenças.

É muito fácil, mas extremamente injusto, dizer “essa escola é das piores” sem querer saber se aqueles alunos moram em um barraco com mais meia dúzia de pessoas, são estuprados, se a mãe é bêbada, o pai está preso, o tio tá no tráfico e quem cuida deles é a irmã mais velha, que muitas vezes é também uma criança.

São meus alunos, em sua maioria. Vocês não têm ideia das histórias que ficamos sabendo. E, para além das situações pessoais, ainda existem as situações dos próprios bairros onde vivem e onde as escolas estão inseridas.

Eles não têm transporte, moradia, saúde, dente, comida decente, asfalto, saneamento, segurança, são achacados pelas milícias, pela polícia, pelos traficantes, seus filhos são cooptados pelo tráfico, suas filhas viram mulher de bandido, eles têm que trabalhar mais de 16 horas por dia, contando o transporte de ir e vir, não têm acesso à leitura, à cultura, à teatro, à cinema (muitos dos alunos, com 15, 16 anos NUNCA foram ao cinema)…

Eu já contei algumas delas por aqui:

Precisamos de calma para estudar e aprender, certo?

Somente melhorar a escola, ou as condições sociais do aluno?

Se a escola não bater a meta deve ser culpa minha

Mais um que perdemos

Aí o professor é terapeuta, psicólogo, médico, enfermeiro, amigo, conselheiro, pai, mãe, avô e muito mais, mas isso NÃO APARECE NOS NÚMEROS e não embasa as decisões dos gestores.

A “matéria”, o que cai nas provas, fica em último plano. Hábito de estudo? Não têm. Exemplos em casa? Não têm. Acesso fácil à aquisição da cultura imposta na escola (como em cinemas, teatros, museus, viagens)? Não têm.

E aí, tem-se como resultados das avaliações que se fazem pelo país:

Das 300 escolas com maior desempenho no Enem 2012, apenas 25 são públicas

Das 30 “melhores” escolas do Rio de Janeiro, 29 são privadas. Apenas a 30ª é “pública”, o Colégio Pedro II.

E aqui podemos ainda ter outra reflexão: o Colégio Pedro II, assim como outras escolas federais, colégios de aplicação, etc., é uma escola pública para os mesmos públicos das privadas. Não é para o público que frequenta as escolas públicas municipais de periferia.

A escola não vai mal à toa.

Mas, mesmo assim, políticas pré-frustradas de meritocracia são colocadas para vigorar cada vez mais ferozmente.

Digo “pré-frustrada” porque os EUA, de onde tentam copiar o modelo, hoje, 20 anos depois, percebeu que NÃO FUNCIONA. A própria criadora do sistema, Diane Ravitch, afirma isso.

O cúmulo, aqui, chega à proposta do empresário colunista da veja metido a “educador” [imagina o que sai desta cabeça], ao propor que as escolas sejam obrigadas a afixar, na frente, em seus portões, o resultado do Ideb.

Que se dane humilhar seus alunos!

Não se pode tratar como “iguais” quem sempre foi tratado com grande diferença (e indiferença).

Mas eu nunca vi nenhuma “reivindicação” dos “especialistas em educação” ou de “intelectuais” pra colocar uma placa na entrada do bairro dizendo “bairro mais violento da cidade“, ou em frente ao posto de saúde dizendo “posto onde mais morrem crianças recém-nascidas“, ou em frente às casas dizendo “casas mais faveladas da cidade“, ou em frente à vala de esgoto dizendo “bairro sem saneamento“, ou “bairro onde crianças são molestadas, violentadas e surradas pelos familiares“, ou “aqui o tráfico é quem manda“!!!

No dia que essas informações forem expandidas a todos, colocando-se inclusive, placas enormes, outdoors pela cidade, aceito a divulgação do Ideb das escolas.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Revoltado

Sobre Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

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