O que é um “bandido” para você?

Quando eu tinha uns 17 ou 18 anos, não lembro, já na época da faculdade, comecei a furtar pequenos itens em um supermercado perto de onde eu estudava.

Íamos beber cerveja num bar por perto e, para comer alguma coisa, eu ia lá no supermercado e colocava uns amendoins, uns chocolates e coisas assim, pequenas, no bolso ou dentro do casaco. Fiz isso algumas vezes, não muitas. Mas fiz.

Uma vez, com um amigo, estávamos saindo do mercado “carregados”. Passamos pelo caixa para pagar alguns itens, para disfarçar. Quando saímos do caixa, um segurança nos cutucou os ombros e disse “venham comigo!”. Olhei pra trás e um homem enorme, negro, nos encaminhava para dentro de uma pequena sala no subsolo.

Todos nos olharam com caras de “hiii… fizeram besteira”.

Ninguém nos xingou, ninguém quis nos bater. Ninguém chamou a polícia. Ninguém disse “bandido bom é bandido morto”. Ninguém quis nos linchar. Ninguém nos chutou. Ninguém incitou a violência contra nós. Ninguém gritou “bate!!!; Chuta!!!; Mata!!!”.

Ele, o segurança, nos levou, sem nos empurrar, nem mesmo nos tocar. Lá fomos nós… Ele nos pediu para tirar o casaco, a camisa, retirar as coisas dos bolsos. Não lembro se tive que ficar de cuecas, mas acho que sim.

– “E aí?” – perguntou ele.

– “É…” – nem tínhamos o que dizer.

– “Vocês estudam? Moram perto? Têm dinheiro? Passam fome?”, ele fez algumas perguntas.

Respondemos que estudávamos ali perto e, pelas nossas respostas, viu que éramos nada mais do que dois idiotinhas classe média que furtavam por nada, só por “diversão”.

Passou-nos um sermão, dizendo que não tínhamos porque fazer aquilo, que era arriscado, que a gente não precisava… “por que fazer isso?”… ele poderia chamar a polícia… essas coisas.

Eu nem tinha o que dizer. Pedi desculpas – sinceras, morrendo de vergonha – e ele nos fez pagar o que pegamos e nos liberou. “Da próxima vez, levo pra delegacia!”.

Acho que foi a partir daí que eu decidi que não faria mais, lógico. Decidi pela honestidade, em todas as minhas ações. Não sei se de lá pra cá consegui 100%, acho que não, mas coisas assim, nunca mais. Tenho tentado sinceramente cumprir esta determinação em todas as nuances de minha vida.

Nunca contei isso a ninguém, pois é um episódio de minha vida que não me orgulho.

Mas me veio à tona depois desta série de imolações e justiçamentos públicos de jovens negros.

É muito fácil gritar horrores e clamar justiça pelas próprias mãos (ou pelas mãos de outrem) quando se tem como protagonista um jovem pobre negro. Ou jovem pobre. Ou pobre negro.

Difícil é ver que nós mesmos, ou parentes ou amigos, também temos ações reprováveis, ou estamos suscetíveis a isso. Ora, quem tem filhos ou netos ou amigos que pode dizer NUNCA nenhum deles se envolverá com nenhuma contravenção ou crime?

Não, não podemos dizer “nunca”.

Além de mim mesmo, tenho conhecidos, amigos e pessoas da família que fizeram besteiras parecidas no passado: envolver-se com roubos, furtos, com uso e venda de drogas.

Nenhum deles foi taxado de bandido; nenhum deles foi preso (sim, algumas vezes pagou-se para a honestíssima polícia liberar); nenhum deles foi chutado, xingado, imolado.

São todos brancos.

Em um dos casos relativamente recentes de imolação pública, mais um dos que me deixaram chocado, um garoto pobre negro foi pego furtando um xampu e um condicionador das lojas americanas. Ele foi pego por transeuntes aos gritos de “pega bandido” e coisas mais, foi jogado ao chão, teve seu pescoço apertado por um joelho justiçador e foi levado pela honestíssima polícia.

Sei lá pra onde.

Li um comentário no Facebook de uma menina que presenciou o fato. Ela disse o que eu gostaria de dizer, de uma forma tão linda e poética que eu pedi permissão a ela para copiar aqui.

Não, eu não fico feliz quando um menino – seja ladrão ou o que for – é pego, preso, arrastado, socado, chutado, xingado em público.

Eu sinto uma tristeza profunda por essas coisas [ainda] acontecerem.

Eu sinto vergonha.

Pra mim, é um soco no estômago, como esta narrativa:

bandido bom

“Hoje eu vi olhos que talvez eu nunca esqueça. Olhos de um marginal, com a retina quente e descendo lágrimas finas na pele escura. Eram os olhos de José Roberto, que vou chamar de Roberto porque tenho um carinho particular por esse nome. Roberto tem onze anos e olhar mais desesperado que eu encontrei longe das fotografias. Minha colisão com ele foi repentina, entre as solas apressadas e as buzinas da Praça Saens Peña. Uma verdadeira roda viva ao seu redor e Roberto ali, estendido no chão, apavorado, culpado sob gritos revoltosos que ainda não consegui digerir ”preto tem que morrer!!!!!”, ”Se não gostou leva pra casa!!”… Enquanto isso um homem em cima do seu corpo magro, segurando o pescoço fino naquele tribunal de rua. Roberto era réu de mais de trinta vozes diferentes. Era causa e não efeito. No seu rosto estava desenhado o ódio. Levantaram-o e suas calças arriadas de onde escorregou a prova do crime hediondo. Um shampoo e um condicionador tirados das mãos da vítima arrasada. Lojas Americanas. E a polícia chega, a população envaidecida aplaude e mal consigo dizer algumas palavras para Roberto, puxado pelo braço para entrar na viatura. E aqueles olhos, que ao invés de um livro, enxergavam um fuzil. Ouvidos que ao invés de um ”vai com deus, filho” ao pé da porta antes de ir para escola, ouviram ”bandido bom é bandido morto”, mãos que ao invés de encostarem num violão, tocaram um canivete. Não porque Roberto escolheu, mas porque escolheram Roberto. [Catarina Brito – via Facebook]

Lindo, Catarina, muito lindo.

Muito obrigado.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Culpado

9 comentários sobre “O que é um “bandido” para você?

  1. Declev,
    Poucas vezes li algo tão tocante, de sensibilidade imensa!
    Tomo a liberdade de compartilhar com Rio Total.

    Grande abraço,
    Irene

  2. Sou criminosa como vc, Declev, aos 9 anos “pegava” chocolate no mercado perto da minha casa. Nunca fui pega mas parei por medo.
    Uma vez já adulta uma velhinha na minha frente na fila das lojas Americanas colocou uma caixa de bombom na bolsa. Outras pessoas viram mas ninguém se manifestou. Isso tb aconteceu nas Lojas Americanas da praça Saens Pena. Se tivesse sido um negro, pobre será que todos tb ficariam em silêncio?

    • Oi Elide,

      Eu tenho certeza ABSOLUTA, que se fosse um negro pobre todos colocariam a boca no trombone, segurariam a mão dele, chamariam a polícia, começariam a gritar.

      É essa a sociedade que temos hoje.

      Abraços,

      • Infelizmente, Declev, aconteceria exatamente isso realmente. Concordo com você e compartilho de sua tristeza, revolta e indignação diante de tanta ignorância, preconceito, injustiça e covardia.
        Um abraço…

  3. Olá Professor Dib, é a primeira vez que acesso este Site, estou grato pela riqueza de informações de tantas pessoas inteligentes e com vontade de aprender mais ainda, ainda bem que Deus nos mandou pessoas como voçe, para nos orientar por caminhos melhores. Obrigado por te conhecer, PARABÉNS, que Deus TE ABENÇOE.

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