Mais um jovem assassinado

Mais um jovem assassinado

upp-hackersGLOBO

Rio de Janeiro, 29 de abril de 2014

Amigos,
Dessa vez escrevo apenas uma homenagem, uma carta, algumas palavras vindas direto do coração, para cada aluno e aluna que tive e que vive ou gostaria de viver como o garoto “DG”, que foi covardemente assassinado na terça-feira passada, em uma comunidade vizinha à minha casa.
Ouvi todo o tiroteio, as bombas, a fumaça do fogo… Tudo isso chegou aqui, como se fosse embaixo das janelas da minha casa, em Copacabana.
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Não pude ver o programa “Esquenta!”, que eu adoro, neste domingo, mas fiz questão de ver no computador –http://globotv.globo.com/t/programa/v/nos-bastidores-dg-aparece-sempre-brincalhao-veja-video/3308507/ – e fiquei super emocionada, chorei pra caramba, lembrei de cada aluno com quem tive contato nas comunidades onde trabalhei, lembrei de tanta coisa, da VIDA pulsando naqueles meninos e meninas, cheios de energia, ritmo, alegria e sonhos. Gente pobre, sofrida, mas muito mais rica, em tantos momentos, do que aqueles que só tem riqueza material e um puta medo de se arriscar minimamente nessa vida. O DG, pra mim, está em cada um desses criativos garotos e garotas das periferias do Brasil. O DG, agora que se foi, permanece e permanecerá aqui, no sorriso, no desejo, na brincadeira, na música e na dança de cada um que sabe o que é nascer e viver numa favela!
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Lembrei também dos tantos (muitos!!!) alunos que perdemos precocemente, vítimas do tráfico ou da polícia, da violência doméstica ou do racismo…
E justamente por ser uma história que se repete sem parar no Brasil, pela quantidade de jovens que tiveram suas vidas interrompidas tragicamente, enfim, por tudo isso acho que vale a pena assistir ao curta que acabou se revelando “profético”, que DG realizou há alguns meses, com um grupo ótimo – pretendiam apresentar em festivais – e onde é o ator principal:
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Nesse momento, não quero discutir a manipulação existente na propaganda, que infelizmente vai moldando, desde muito cedo, valores “tortos” e criando “necessidades” totalmente desnecessárias, que povoam a cabeça de milhares de crianças, adolescentes e adultos.
Não quero discutir ideologias, políticas públicas e nem o caráter de tantos políticos.
Não quero discutir se há ou não alguma coisa depois da morte. Eu tenho a minha fé oscilante e ela me basta.
Não quero discutir.
Só quero chorar.
Só quero não esquecer nunca dos tantos alunos com quem convivi e que eram, em muitos aspectos, outros “DGs”. E desejo que eles continuem existindo, cantando, dançando, rindo e nos lembrando que pra viver com originalidade e alegria é preciso CORAGEM, e isso quem nasce, sobrevive e cresce no morro sabe muito bem. E a gente, que mora aqui embaixo, no asfalto, dificilmente tem ou compreende profundamente a dimensão disso tudo.
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Vá em paz, garoto bonito… Fique com Deus.
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Um beijo e um abraço apertado pra vc, onde estiver, e pra sua mãe, pra sua filha e pra todos que sentirão diariamente a sua falta por aqui…

Regina Milone

(professora, pedagoga, arteterapeuta, psicóloga, mãe, filha, irmã, amiga… cidadã)

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6 opiniões sobre “Mais um jovem assassinado”

  1. Sei e sinto em mim, por ter sido nascido e criado num morro, a exata dimensão do que vc sente e escreve aqui.
    Adorei seu texto, emotivo sem ser piegas.
    Já dei aula lá tbm ( Pavão-Pavãozinho e Cantagalo), no CIC, essa garotada (favelizada) deveria ser tratada como reis e rainhas que o são, mas O BRASIL NÃO É UM PAÍS SÉRIO!.
    Bjs

  2. Também acho, Dante. Esse não é um país sério!!!
    E essa garotada das favelas tem uma sede de vida, de arte, de criação, de descobertas… Que só quem convive ou pelo menos já conheceu de perto essa realidade pode dimensionar.
    E, no entanto, ouvi e li tantos comentários imbecis, maldosos e covardes por aí, em relação a esse garoto – tipo: “se a polícia atirou, boa coisa ele não fez!”, “se era inocente, por que correu da polícia?”… – , tudo isso (e muito foi dito por professores! profissionais que deveriam conhecer melhor a realidade onde trabalham e, no entanto, não se interessam por isso…), enfim, tudo isso direcionado a quem já não pode mais nem se defender, por ter sido assassinado!!!
    E trabalho de polícia não é sair matando e sim, no máximo, deter para averiguações, se houver alguma prova de algo ilegal. Mas nas comunidades só entram atirando e metendo o pé nas portas, apavorando todo mundo! Nossa polícia é uma piada de mau gosto!!! Racista, violenta, covarde, ignorante… E, em sua maioria, os próprios policiais vieram de realidades como a desse garoto, foram pobres, muitos viveram em favelas, mas, mesmo assim, estão aí fazendo isso… O homem é mesmo o lobo do homem!!!
    Obrigada por ler o que escrevi e deixar seu comentário aqui!
    Beijos…

  3. Vi o vídeo, Dante.
    Também acho que falta educação, em todos os sentidos. E falta, também, sensibilidade e inteligência, inclusive em milhares de profissionais da área de Educação, o que parece um contrassenso, mas… Infelizmente é esse o comportamento de muitos!
    O vídeo dá nojo, raiva, tristeza… E o pior é que é uma realidade cotidiana, já conhecida de cor e salteado por quem é jovem e pobre, e mais ainda se for negro!
    Lastimável… 🙁

  4. Pois é, Regina… eu fico sem palavras.

    Há pouco tempo, escrevi sobre a morte de MAIS dois ex-alunos:

    http://www.diariodoprofessor.com/2014/03/11/morre-mais-um-ex-aluno-morre-a-educacao-a-cada-dia/

    Mas eu fico ainda mais sem palavras e estupefato com a nossa sociedade, em que muita gente, mas muita gente mesmo, acha “normal” morrerem jovens negros.

    “mas ele procurou”

    “bandido bom é bandido morto”

    “teve o que mereceu”

    Coisas do tipo me tiram a fé neste país… ao menos por agora.

  5. Pois é, Declev…
    Eu li aquele seu artigo.
    Nosso sentimento é mútuo. 🙁
    E eu entendo vc ficar na dúvida sobre ver ou não o vídeo que o Dante sugeriu. Ele é realmente trágico, covarde, bruto, estúpido e… cotidiano!!!! E isso é o que mais me abala: a banalização da violência, presente especialmente na rotina de quem é jovem, pobre e negro! É muita covardia!!!!!!! Desculpe o termo, mas é escroto demais!!!!!!
    E, esse desfile de preconceito e ignorância, que vc vê na naturalidade com que tantos repetem absurdos como os que vc citou – por ex.: “bandido bom é bandido morto” ou “se correu da polícia foi porque alguma coisa ele fez”… -, também me choca, me abate, me dá raiva, tristeza, etc. E acho ainda mais insuportável ver tantas pessoas da área de Humanas – e coloco a Psicologia em parte nessa área também -, que falam esse tipo de coisa sobre outros seres humanos. Os “desumanos” da área de “humanas”. Dá vergonha!
    É revoltante e triste demais… 🙁

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