Morre mais um ex-aluno – morre a educação a cada dia

Antes do carnaval minha escola em Niterói fechou as portas, no dia 25/02/14, por falta de segurança.

Foram tiros e mais tiros várias madrugadas a dentro, 4 mortes, polícia e tráfico travando uma batalha.

São exatos 15 anos que estou por ali, tendo começado em janeiro de 1999.  Fiz minha pesquisa para Especialização ali [História Ambiental do Morro do Céu] e a pesquisa para o mestrado [As Diversas Visões do Lixo]. Já andei muito pelo local, com alunos, fazendo trabalhos, passeando, fazendo coletas, desenhando mapas, tirando fotos.

Violência sempre existiu e volta e meia ficávamos sabendo de um ex-aluno que morreu pelas mãos desta guerra que vivemos, ou o tráfico impunha seu “luto” pela morte de alguém. Mas eram eventos esporádicos.

Ultimamente, porém, a situação está insustentável.

Culpo – sem bases científicas, mas empíricas – o governo do estado com o apoio, anuência e cumplicidade do partido dos trabalhadores, inclusive do prefeito desta cidade, que está conseguindo afundá-la ainda mais do que o antecessor.

A política de segurança do estado é baseada nas UPPs – Unidades de Política Pacificadora (sic) – que, teoricamente, ocupa algumas favelas da cidade do Rio de Janeiro. Mas ocupa apenas com força policial, claramente nem sempre “pacificadora”. Este adjetivo fica por conta da ocupação “pacífica” na teoria, pois ao anunciar a instalação de uma determinada UPP, visivelmente há um acordo tácito entre o poder público e o poder paralelo do tráfico, a quem é deixado “abandonar” o local e “migrar” para outros espaços.

Esta migração tem sido feita para outras cidades do entorno, incluindo esta em que habito. Onde, sim, já havia tráfico, agora tem uma intensificação de conflitos, com disputa de territórios, além da disputa com a polícia, quando esta resolve agir.

Mas a ação e repressão baseada em violência gera, obviamente, muito mais violência. A polícia, como sabemos, não age com a inteligência necessária para desbaratar, desmantelar e prender a rede do tráfico, mas age introduzindo uma violência muito maior nas áreas que já são violentas pela ação dos traficantes. E isso, claro, só em relação aos traficantes varejistas, pois os atacadistas e mantenedores, engravatados, não são importunados.

Hoje, então, ao voltar à escola depois do recesso do carnaval, soube de um [outro] ex-aluno que foi morto pela polícia. Estava no “movimento”, todo mundo sabia.

educação pública

Não é o primeiro aluno ou ex-aluno que vejo morrer, nem o primeiro a ser assassinado, seja em “combate”, seja covardemente, como normalmente a polícia e os traficantes agem.

Convivi bastante com ele, que, aliás, não era fácil. Não era estudioso, como mais de 90% dos meus. Queria ser jogador de bola, como mais de 90% dos meus. Dançava maravilhosamente bem e sabia desenhar. Deixa uma filha, feita há alguns anos com uma outra ex-aluna.

Para a sociedade, para a polícia, para o governo do estado, para a prefeitura, mais um traficante que morre num “auto de resistência”.

Para nós, educadores, mais uma frustração.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

6 comentários sobre “Morre mais um ex-aluno – morre a educação a cada dia

  1. Queridíssimo Declev,
    Chorei ao ler este seu relato.
    Também acompanhei alunos que morreram assassinados… E esses horrores me marcaram pra sempre!
    Penso o mesmo que vc em relação ao governo do estado, o prefeito, o PT, etc. Estamos quase que ficando sem ter em quem votar!!!
    Não consegui escrever mais aqui no blog – quem sabe ainda conseguirei de novo, né?… o tempo dirá -, pois fico emocionada de uma tal maneira, a sensação de impotência e frustração de quem já trabalhou ou trabalha em escolas, especialmente as públicas e de periferias, como é o nosso caso, do Luiz e de tantos outros, é difícil demais. É sofrido demais. De qualquer maneira, conte sempre com a minha solidariedade! E isso independe de concordarmos ou discordarmos aqui ou ali, claro!
    Muitas saudades dos nossos papos, principalmente aqueles que aconteceram entre eu, vc e o Luiz. Muitas saudades mesmo!!!
    Por favor, diga ao Luiz que deixei um abração, cheio de saudades, aqui pra ele, ok?!
    Outro abraço pra vc, meu amigo…
    Regina.

    • Oi Regina, obrigado.

      Mas, veja que este é o primeiro post em, eu acho, três meses…

      Estou tentando voltar a escrever por uma necessidade, mas parei também por necessidade.

      Estou me dedicando mais ao blog Turista Profissional, que dá mais prazer.

      Abraços,

  2. Oi, Declev.
    Entendo porque se distanciou daqui, como eu. É cansativo demais viver nessa luta eterna! Cansativo emocionalmente mesmo.
    Talvez por isso eu nem tenha tido força pra lutar contra qualquer secretaria de educação mais, inclusive contra a secretária do Rio, em relação a qual vc tem tantas críticas. Como ouvi críticas e elogios, de uns e de outros, e como não trabalho na rede do Rio, não poderia opinar, por mais que respeite totalmente o seu ponto de vista; mas não poderia simplesmente concordar com vc e pronto, vendo as coisas como vc vê. Não sou assim. Te admiro muito, mas seria leviano da minha parte seguir essa ou aquela crítica ou elogio, fossem de quem fossem, sem que eu pudesse conhecer de perto tudo que está acontecendo aqui e, assim, pudesse ter a minha opinião sobre isso tudo.
    Tenho muito mais prazer e tenho me sentido também mais útil trabalhando como psicóloga clínica e é onde estou concentrando minha energia (que já é menor do que a de outros tempos, quando eu era mais nova) agora. Por isso entendo totalmente o seu prazer com o “turista profissional”. E, sem prazer com o que se faz, não há saúde, física ou mental, que aguente!!! Aliás, se eu pudesse, viveria viajando! 🙂
    Abração pra vc, tudo de bom,
    Regina.

    • Meu sonho agora é viver viajando – e ganhando dinheiro com isso.

      Continuo com as mesmas críticas com a secretaria do Rio. Mas, agora, também tenho sérios problemas com a de Niterói.

      Em breve vou escrever sobre isso – estou reunindo forças pra não vomitar quando fizer…

  3. Te entendo, Declev. Realmente entendo.
    Talvez, se eu estive trabalhando em escola do Rio agora, tivesse a mesma opinião que vc sobre a secretária de educação daqui. Talvez não. Nunca vou saber. E, pra falar a verdade, cheguei ao ponto de praticamente nem querer saber mais de nada sobre Educação, pelo menos por um bom tempo.
    É com carinho que te digo: cuide de vc, meu amigo (realmente o considero meu AMIGO, assim como ao Luiz), de sua saúde, busque o que te realiza e satisfaz, pra pelo menos tentar equilibrar um pouco o desgaste absurdo – e esse conheço bem! – de quem trabalha em escolas públicas, especialmente de periferias, nesse país de absurdos.
    Abração,
    Regina.

  4. Frustração!
    A última palavra do texto é tudo aquilo que qualquer professor já sentiu um dia, pra não dizer quase todos os dias.
    Ver um aluno enveredar por caminhos tortuosos é a mais clara prova do fracasso. E não quero aqui apontar culpados, pois cada dia que passa chego a conclusão que TODOS nós somos co-autores desta sociedade doente.
    Aprendi muito com vocês, Regina e Declev. Nossos debates foram verdadeiras terapias pra mim (além de aulas), desabafos que no fundo tentavam me dar respostas que nunca vou ter: por que sofremos tanto quando descobrimos que não mudaremos o mundo?
    Como apontei no último (e talvez “último” mesmo) texto que escrevi, nós vivemos uma gangorra na Educação. Me alegro quando vejo que o meu trabalho contribuiu pra melhorar a vida de alguém, mas logo me sufoco quando percebo que perdi muitos em minha volta. Incapacidade? Talvez! De quem? Não importa!
    Os anos passam e fico cada vez mais cansado. Talvez seja por isso que nós, meus amigos, estejamos hoje mais preocupados em escolher no mapa lugares tão distantes pra ir, lá onde nossos sonhos possam ser reais… pois aqui só nos resta uma coisa: Frustração!

Os comentários estão encerrados