Como a escola pode, hoje, resolver os problemas causados por alguns alunos?

Depois do episódio do menino que agrediu a diretora – ao qual já me referi NESTE ARTIGO – levantou-se, em alguns fóruns e aqui mesmo, no Diário, o debate do que se fazer com os alunos “problemáticos”.

Sim, eles existem, independente de suas causas ou de nossas posições políticas e ideológicas, eles existem. Pra mim, muitas vezes são como consequências e vítimas de um sistema perverso; noutras, são fazedores conscientes de suas famas.

Mas, de qualquer forma, como agir com eles?

Eu afirmei, e reafirmo, que as duas posições antagônicas da balança são ineficientes e com consequências graves: tanto o nada fazer e deixar os pequenos delitos sem nenhuma sanção, punição ou consequência, quanto julgar tudo e qualquer ato como crime e passível de expulsão ou cadeia ou caso de polícia.

Algo tem que ser pensado neste meio termo.

E algo também tem que ser pensado e repensado em relação à função da escola e de como ela é equipada  – material e humanamente – para cumprir a sua função, seja ela qual for.

Será que a escola que queremos tem a simples função de não deixar que as crianças e adolescentes fiquem pela rua, tem a obrigação de assistência social, dar comida e “abrigo” temporário, como uma creche ou algo do gênero?

Ou tem a função de, realmente, preparar a pessoa física, emocional, cultural, intelectualmente para sua vida?

Tem que se definir. Mas, seja para o que for, ela não está preparada com o que dão.

Pra começar, a escola carece de parcerias e apoios externos com assistência social, ministério público, conselho tutelar, secretarias de saúde, moradia ou seja lá com quem for. Quando muito, umas visitas esporádicas que quase não servem para nada.

A escola está só, sozinha, somente ela para resolver todas as pendências. Só que, sozinha, ela não tem condições com as condições que lhe dão.

O que dão à escola? Praticamente, professores para lidar, cada um, com 30 ou 40 alunos de uma vez.

Sim, tem uma pessoa para cuidar de burocracias pedagógicas, de diários, dos inúmeros requerimentos e avisos e uma direção e secretária para lidar com a parte também burocrática.

E a parte pedagógica-social-prática? A parte da lida direta com os alunos e seus inúmeros problemas sociais e de aprendizagem?

Só o professor – independente de alguma ajuda que um coordenador ou supervisor pedagógico possa dar esporadicamente, o professor é só.

Tem psicólogos ou terapeutas? Não.

Tem assistentes sociais? Não.

Tem médicos? Não.

Tem apoio constante de conselho tutelar? Não.

Tem prática de esportes para além dos dois tempos mirrados da educação física? Não.

Tem prática de artes diversas, para além dos dois tempos mirrados de artes? Não.

Tem gente para cuidar de um reforço para os que tem maiores dificuldades? Não.

Tem apoio praqueles que tem algum tipo de deficiência ou necessidades especiais? Não.

Tem… ? Não, não tem.

Quando tem algo, são exceções de alguma rede, mas uma tem uma coisa, outra tem outra… nunca o necessário.

Mas tem, isso sim, 400, 500, 600 ou mais crianças e adolescentes em um prédio e professores para dar conta de ensinar algo que eles não querem.

Tudo isso dentro em uma construção [muitas vezes precária] inserida no meio, literalmente, dos locais mais violentos da cidade.

A escola é quase que a única construção no meio da violência do tráfico, da polícia, da falta de saneamento, da falta de transportes, da falta de moradia, da falta deda falta de tudo.

“Falta tudo ali, naquela comunidade violenta!”

“Ah, pelo menos tem uma escola lá dentro!”

Ninguém vai pra lá, nem taxi chega lá. Mas os professores vão.

É, deste jeito, simplesmente, um barril de pólvora.

E é deste jeito que os professores, coordenação e direção têm que gerir este barril de pólvora.

No mais, os responsáveis sabem que, para além de um direito, é um dever “enviar” os alunos à escola. Inda mais quando se ganha dinheiro com isso, e que poder-se-ia perdê-lo se o aluno não “frequentar” a escola.

Então, muitas vezes é só isso que basta: frequentar a escola. Não precisa estudar, não precisa prestar atenção em nada, não precisa nem mesmo levar material didático pra lá, como muitos, aliás, não levam. Basta ir.

Isso vai afetar a bolsa família dele?

Ele está de volta, e aí?

Eu mereço

Escola é pra quem quer estudar?

Como, então, mudar isso com o que [não] nos dão?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

Sobre Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

11 comentários

  1. Lamento muitíssimo que tantos ainda usem o termo “aluno-problema”, com todas as suas implicações. Talvez eu até pare de escrever aqui no blog por causa disso.
    Muitas e muitas vezes o “aluno-problema” é justamente o MAIS SADIO naquele meio violento, aquele que não se adapta de jeito nenhum a uma escola FALIDA, que teima em manter uma estrutura conservadora, e isso quando tem alguma estrutura, pois, na maioria das vezes, especialmente nas escolas públicas, NÃO TEM.
    O aluno é a maior vítima dessa falta total de estrutura e desse “fazer educação” de maneira tão retrógrada e reacionária.
    Quando vc disse: “(…) Pra mim, muitas vezes são como consequências e vítimas de um sistema perverso; noutras, são fazedores conscientes de suas famas.”, sou obrigada a discordar totalmente da segunda afirmativa: os alunos NÃO SÃO fazedores conscientes de suas famas, até mesmo porque ainda estão formando sua personalidade básica, sua identidade, sua CONSCIÊNCIA, o que é muito diferente do funcionamento do adulto. O bê-a-bá da Psicologia já comprovou isso há muitas décadas e, no entanto, pessoas que tem acesso a esse conhecimento, preferem continuar repetindo o que diz o senso comum, que de bom senso não tem nada.
    É próprio do adolescente querer se afirmar diante dos colegas e demais pessoas de sua geração. Essas são as pessoas mais importantes pra eles nessa fase da vida, em que também precisam ter um olhar crítico sobre as gerações anteriores, a começar pelos seus próprios pais, e precisam da companhia e aceitação dos colegas e amigos da mesma faixa etária, para que a cara dessa nova geração possa surgir e atuar no mundo. Muitos alunos gostam de “provocar” e são “respondões” simplesmente por causa disso, que é algo absolutamente NORMAL e não um “problema”. Eles são adolescentes e quem trabalha com essa faixa etária deveria estudar mais sobre isso assim como quem trabalha com crianças deveria saber o mínimo sobre infância. Mas não é o que acontece. E não estou defendendo que se tenha que ter várias profissões para ser professor e sim que estudem mais, pesquisem mais, principalmente sobre algo tão óbvio que, repito, é o simples bê-a-bá da Psicologia! E isso sem falar de outras ciências e saberes humanos igualmente importantes, como a Filosofia, que tinham que constar, com PROFUNDIDADE, das formações de educadores e não só dos currículos de alunos de Ensino Médio, por exemplo.
    Já escrevi artigos aqui falando do tipo de contato e parceria que é tentado e quase nunca acontece de forma decente entre escola, assistência social, psicologia, conselho tutelar, saúde pública, etc. Na maioria das vezes, acabam sendo medidas apenas burocráticas, feitas só “pra constar”, o que não ajuda ninguém.
    Vc pergunta, depois de “definir” os alunos, digamos, mais “difíceis”: “Mas, de qualquer forma, como agir com eles?”. E respondo que, enquanto eles forem vistos como “o problema”, nenhuma resposta servirá, pois a própria pergunta já estará errada.
    Quanto ao resto, a tudo que colocou, mais uma vez, sobre o que falta nas escolas, concordo com vc, novamente.
    Se o professor está cansado, imagine como estão os que também estão tentando atuar, trazendo outras ideias e experiências para serem pensadas e adaptadas, como é o caso dos bons pedagogos e psicólogos escolares (falo dos “bons” porque existem muitos que são péssimos, assim como existem péssimos professores também)????
    É absolutamente exaustivo.
    Não contem comigo para inflar cada vez mais essa falsa ideia de que existem “alunos-problemas” e que, retirando-os das turmas, já que eles é que “atrapalham”, ficaria tudo ótimo, principalmente para os professores.
    E lembro que o professor ou pedagogo concursado é um funcionário público, um servidor, e, portanto, tem uma imensa responsabilidade sobre a educação de seus alunos SIM.
    Lamento, Declev, que vc esteja tão desgastado que esteja compartilhando desse tipo de ideia, de quem não pesquisa, não estuda, apenas repete o que a maioria diz, etc. Isso não combina com vc.
    Fico muito triste com isso.

  2. Declev,
    Não quis absolutamente ser injusta com vc. Então, se fui, por favor me perdoe.
    Vc está cansado de tudo que lhe desgasta diariamente, assim como também estou. E, quando estamos assim, nem sempre escolhemos as melhores palavras.
    Continuo grata por ter me chamado para escrever aqui no blog, junto com todos os colegas que também se importam em buscar uma educação de qualidade. Isso é o principal, como vc sempre me diz.
    Mas quanto a “alunos-problemas”, nunca vou compartilhar desse rótulo e nem mesmo dessa maneira de ver as coisas. É uma das coisas mais nocivas que existem na educação, desde muito antes de nós mesmos termos nascido! Essa ideia não começou com a realidade das escolas públicas de hoje no Brasil. É muito anterior a isso e é parte de um pacote extremamente conservador e ultra disciplinador que busca transformar os alunos, desde cedo, em dóceis cordeirinhos, que obedecerão com facilidade mais tarde, se acomodarão ou, no máximo, seguirão partidos e ideologias que repetem sem nem mesmo entender bem suas palavras e suas próprias bases.
    Por mais que dê trabalho apostar numa educação onde a criatividade, a autonomia e a liberdade de pensamento e de expressão sejam alguns dos valores principais, é nessa que acredito. Disciplina é importante sim, assim como dar limites. Mas sempre com clareza, com consciência, com inteligência, levando o aluno a refletir, entender e até discordar, se for o caso, mas aprendendo a respeitar. E isso precisa ser feito DIARIAMENTE. Na verdade, essa parte da educação não acaba nunca e faz parte tanto do papel da escola quanto da família. Aprender sobre as consequências dos próprios atos e escolhas é aprendizado pra toda a vida, mas se for mal feito na infância e na adolescência, fica muito mais difícil depois.
    Da mesma forma que a escola precisa dar limites, os pais precisam aprender o mesmo, mostrando que dar limites é uma forma de amor e não de pura e simples repressão ou punição. Dar limites é dar chão, dar continente, e isso é muito importante. Mas, se for pra dar como tantos tentam dar, na escola e em casa – apenas como punição ou repressão -, então acabam, escola e família, alcançando o efeito inverso, infelizmente. E aí acontece um estrago danado na cabeça dessas crianças e adolescentes.
    Um abraço.

    • Oi Regina,
      .
      Eu sabia que este post teria uma resposta sua, sem problemas, mais uma vez, fique a vontade. Não fique chateada comigo ou com os outros. Nós estamos lá dentro, dentro da escola, dentro da sala, recebendo uma série de agressões de todos os tipos.
      .
      Outro dia um pai foi à porta da escola gritando, dentre outras coisas, “cadê aquele tal professor Declev que chama os alunos de maconheiros e fica alisando as meninas?!?”.
      .
      Acredita? Pois é. A única coisa que posso dizer é que nunca fiz isso. E não falo mais nisso.
      .
      Então, você discorda deste ponto de minha vista e não tenho problemas nenhum com a discordância. Eu também discordo de alguns pontos seus. Mas em seu respeito, tenho evitado utilizar a expressão “aluno-problema”, até tirei o banner que tinha com este nome.
      .
      Mas tudo o que se pode dizer, seja psicologica, pedagogia, psiquiatricamente falando, sobre os alunos, crianças e adolescentes, não me fará – ao menos por agora – negar a existência de determinados alunos que desestabilizam a escola.
      .
      Mas esta afirmativa deve ser lida com algumas ressalvas. Por exemplo, não me refiro, necessariamente, a esta escola que pintam, reacionária, enjauladora, que tenta uniformizar todo mundo.
      .
      Quando você fala “Se o professor está cansado, imagine como estão os que também estão tentando atuar, trazendo outras ideias e experiências para serem pensadas e adaptadas, como é o caso dos bons pedagogos e psicólogos escolares” parece que o professor não tenta fazer isso.
      .
      Mas, sim, tenta, e muito. Sou testemunha de dezenas de professores que tentam e que fazem quando conseguem, e não fazem quando não conseguem, apesar das tentativas. Eu mesmo me considero um deles.
      .
      Então, falo de uma escola que tentamos mudar, fazer diferente, fazer algo diferente, aulas diferentes. Os professores tentam, muitos tentam. Mas param de tentar depois de inúmeras cabeçadas e porradas.
      .
      Mas, mesmo assim, determinados alunos – que podem existir em alguns momentos na escola, mas nem sempre – não deixam que ocorra.
      .
      Vou dar um exemplo que acontece agora, neste momento.
      .
      Um aluno não deixa os professores de uma turma trabalhar, nem os outros alunos estudarem direito. Ele anda pela sala, sai de sala, enfrenta, xinga, pega coisas dos outros, não faz nada do proposto, nem caderno tem, etc.
      .
      Você disse que eles “não são sabedores do fazer”. Eu discordo. Ele sabe muito muito muito bem o que está fazendo. Tem quase 16 anos. Ele disse no início do ano algo assim: “este é o último ano, eu vou ficar só pra zoar!”. E está fazendo isso. Então, ele sabe.
      .
      Já xingou um professor de filho da puta.
      .
      Já me desafiou a ponto de eu quase – sim, quase fiz – bater nele. É certo um professor fazer isso? Não, claro que não! Mas é certo um adolescente ficar frequentando uma escola desafiando, xingando, desestabilizando todos a ponto disso acontecer? Pra mim, não.
      .
      Apesar de tudo o que ele já fez – que aqui, neste pequeno resumo, não abrange nem 10% – ele continua. Resultado: professores absolutamente estressados e desmotivados e desistentes da turma. A própria turma percebe isso.
      .
      Eu mesmo já acordei pra ir trabalhar, lembrei de determinados alunos e voltei a dormir. E farei de novo. Sem dor na consciência de ter feito isso. Uma outra professora acabou de voltar de uma licença por estresse. Outro vive doente e, por conta disso, também de licença. Outra se nega a entrar em sala com este aluno, levando-o para fazer suas atividades em outro local.
      .
      É culpa dele somente? Não, claro que não. Mas também.
      .
      Mas, veja: em alguns dias que ele não foi, eu propus um projeto de separação de substâncias à turma e, quando vi, a turma estava inteira estudando em grupos, analisando o projeto, desenhando, rabiscando, tirando dúvidas, comprando a proposta de uma aula que não fosse cópia.
      .
      Coincidência? Não, não foi. Porque quando ele e outros estão, não consigo fazer isso.
      .
      Mas, uma coisa é certa: a escola – e nem os professores e nem eu, que me considero bom e idealista professor – não estamos preparados para enfrentar estas situações, sozinhos.
      .
      Foi exatamente isso o que eu disse neste post. Releia-o. Eu não digo em nenhum momento que deve-se, simplesmente, tirar o aluno da escola (apesar de achar que, sim, esta é uma das ações a determinados casos) ou não fazer nada para ajudá-lo. Eu digo e reafirmo que a escola não está preparada pra isso e que carece de ajuda. É fato.
      .
      No mais, se eu tenho que escolher entre este aluno que disse que “este ano vou ficar só pra zoar”, que xinga professores de filha da puta e que enfrenta professor a ponto de desestabiliza-los emocionalmente, e a turma inteira, eu fico com a turma inteira.
      .
      Ver o “direito” deste aluno de frequentar a escola que ele disse que iria frequentar só “pra zoar” (direito entre aspas porque para cada direito, um dever, mesmo para os adolescentes) é negar a toda uma turma uma educação melhor.
      .
      Essa é a realidade que eu vejo e que enfrento na prática: nega-se para toda a turma o direito a uma aula que eu poderia fazer, por exemplo, no laboratório de ciências, com pesquisa, em grupos, com projetos, porque um ou dois dos alunos têm que ter garantido seus direitos.
      .
      E, enquanto isso, eu fico doente e só penso em não ir pra lá, porque sou obrigado a olhar pra cara dele.
      .
      Amanhã, por exemplo, é um bom dia para eu faltar mais uma vez. E a turma inteira ficar sem aula.
      .
      Abraços,

  3. Declev,
    Vc sabe o quanto te admiro, mas vamos por partes.
    Quando vc diz “Não fique chateada comigo ou com os outros. Nós estamos lá dentro, dentro da escola, dentro da sala, recebendo uma série de agressões de todos os tipos.”, acho que esquece que eu estava, até há bem pouco tempo, dentro das escolas TAMBÉM, e, portanto, essa sua frase – Nós estamos lá dentro, dentro da escola, dentro da sala, recebendo uma série de agressões de todos os tipos -, aplica-se igualmente a mim. Até porque também tive horários-aulas com as turmas de 2º segmento do Ensino Fundamental, mesmo atuando como pedagoga. E, nesses momentos, como nos que estive como professora, também perdi a paciência mil vezes, gritei, ameacei, botei aluno pra fora da sala de aula, etc., como todo mundo acaba fazendo, num momento ou em outro, quando tem que trabalhar nessas condições. Talvez a diferença tenha sido, apenas, o fato de que, após esfriar a cabeça, eu via com clareza que aqueles alunos eram ainda mais vítimas do que eu e os outros professores. Eu não os culpava e nem os culpo por isso. Em grande parte por serem adolescentes, mas também por serem vítimas de um “sistema perverso” – termo que vc tb usou -, por estarem tentando crescer num mundo como o que nós, das gerações anteriores, estamos entregando pra eles: um mundo caótico, violento, injusto, etc. Além disso, existe o FATO (isso não é apenas uma questão de opinião) de que as diferenças de personalidade aparecem a todo momento na escola também. Por isso, os alunos mais ativos, dinâmicos, questionadores, cheios de energia, etc., mil vezes não conseguem realmente se adaptar a esse esquema de 4 horas por dia sentados e quietos, ouvindo e escrevendo, ouvindo e escrevendo… E quando aparece um professor que, como vc, traz novas ideias para aulas diferentes, eles já nem acreditam mais que isso seja possível, olham com desconfiança e debocham mesmo, muitas vezes por pura defesa, como que testando aquele professor, pra ver se ele é diferente realmente. Fora tudo isso, ainda existem os mil casos de hiperatividade, autismo, problemas de vista, entre outros problemas que jamais foram corretamente diagnosticados ou tratados e, nesses casos, os alunos simplesmente NÃO CONSEGUEM agir de outra forma, embora procurem disfarçar isso se mostrando debochados, como se não quisessem saber nada daquela “baboseira toda”. O fato é que, nesses casos, eles não conseguem mesmo. E ponto. A culpa não é deles.
    É como a questão da depressão, por exemplo: não se sai dela com “força de vontade” e sim com tratamento adequado!
    Não são os alunos que não se adaptam que desestabilizam a escola, Quando tive que lidar, diariamente, com todos envolvidos na educação – pais, alunos, professores, pedagogos, diretores, funcionários administrativos, funcionários de apoio, secretarias de educação, etc. -, isso ficou mais claro do que nunca pra mim. E, nesse ponto, os professores cometem um erro gravíssimo: falam dos problemas das escolas apenas pelos seus pontos de vistas, esquecendo-se de que são apenas um dos pontos de vistas que formam o quadro todo. Isso leva à injustiças gravíssimas.
    Aluno chegar no começo do ano dizendo que só veio zoar? O que tem de novo nisso? No meu tempo de aluna, tanto na infância quanto na adolescência, esse tipo de aluno sempre existiu! E, muitas vezes, isso não passa de uma grande defesa emocional: por se acharem inferiores intelectualmente, de certa forma “fingem” (inconscientemente) que não estão nem aí pras aulas e pros professores, mas, no fundo, se sentem incapazes, isso sim. Inclusive já citei vários casos, aqui no blog, de alunos que acompanhei e que agiam exatamente assim, tendo descoberto, neles, problemas de vista, dificuldades de aprendizagem como a dislexia, por exemplo, entre outros problemas. Em comum, o que esses alunos tinham era a agressividade, o deboche e a total desatenção e desproteção das suas famílias, além da total incompetência da própria escola que nunca verificou pra valer o que acontecia com eles. Sim, porque muitos estudam na mesma escola a vida inteira. Foram crianças um dia. Penaram. Passaram por muita coisa. Os comportamentos agressivos não começaram de repente, do nada. E problemas como os de vista (parece incrível que isso ainda aconteça, mas acontece e muito!) ou os de dislexia ou autismo, tinham que ter sido vistos pela escola SIM, pois é nela que esses comportamentos mais aparecem e não em casa, em família. Faz parte da obrigação do professor ou pedagogo escolar identificar esse tipo de problema, encaminhar para a ajuda necessária, cobrar dos pais que levem a criança, relatar ao Conselho Tutelar quando os pais não estão levando, etc. Isso é parte do papel da escola SIM. Problemas de aprendizagem existem aos montes e não tem como serem resolvidos somente pelas famílias e sim pela escola – professores + pedagogos – em parceria com outros profissionais – psicopedagogos, psicólogos, psiquiatras, neurologistas, etc. – , nos quais a criança e o adolescente devem ser levados pelos pais.
    O garoto que te ofendeu, mentindo sobre suas atitudes, pode fazer parte desse quadro ou pode apenas ser mais um revoltado com os problemas sociais que nunca se resolvem no Brasil e que estão formando gerações cada dia mais cínicas e individualistas, já que esse é o exemplo que vem de cima. Só dá pra saber ao certo conhecendo o caso dele, a história de vida do garoto.
    E preciso esclarecer outra coisa, a respeito disso que vc escreveu: “Quando você fala “Se o professor está cansado, imagine como estão os que também estão tentando atuar, trazendo outras ideias e experiências para serem pensadas e adaptadas, como é o caso dos bons pedagogos e psicólogos escolares” parece que o professor não tenta fazer isso.” Infelizmente, Declev, muitos não tentam fazer isso não. Muitos. Tive decepções tremendas com inúmeros professores por causa disso. Mas existem os que ainda estão abertos e tem autocrítica também. Com esses dá pra se desenvolver ótimos projetos. Consegui com vários. Por isso diferenciei, lembrando que existem ótimos, regulares e péssimos profissionais em todas as áreas e que isso vale para as que citei: professores, pedagogos e psicólogos.
    No meu caso, pra não me violentar mais ainda, tendo que viver aos berros com as turmas, virando uma tirana autoritária – única forma de autoridade que esses alunos conhecem e, portanto, a única que valorizam; quando outra diferente aparece, eles não acreditam ou partem pro deboche, pois os que não são autoritários são considerados “moles” demais, tanto pelos alunos quanto pelos colegas do próprio professor e outros profissionais da escola -, enfim, pra não ser violentada a ponto de me transformar nisso, lutei como uma louca para mudar o máximo que eu pudesse. Acabei adoecendo seriamente, como vc sabe, e tive que pedir aposentadoria proporcional. Mas antes isso do que virar uma coisa que não sou nem quero ser, uma mera repetição de ações e fórmulas antigas nas quais não vejo nenhum valor. Pra mim a saída foi essa. Pra não corromper minha própria saúde e integridade, acabou sendo melhor sair do que ser mais uma a viver reclamando dos alunos, que são o lado mais fraco, onde a corda sempre arrebenta.
    Não podemos ver de forma imediatista o fato de uma turma aparentemente “melhorar” quando se tira dela esse ou aquele aluno. Se essa turma for acompanhada por uns 3 anos, mais ou menos, veremos outros alunos que pareciam “educados” botando as manguinhas de fora também, sendo agressivos, etc. Porque isso é fruto do próprio sistema escolar, que gera frutos e mais frutos desse tipo a todo momento. E isso é antigo. E não acontece só nas escolas públicas. Portanto, essa “solução”, em geral é no máximo um “refresco”, mas não é de fato solução nenhuma.
    Claro que para o professor seria ótimo só ter turmas onde todos se mostrassem interessados ou, pelo menos, não “atrapalhassem” os outros, mas isso nunca aconteceu na instituição escola, em tempo nenhum, mesmo na época em que palmatórias e outros castigos eram usados (e ainda são, em vários países, inclusive entre muitos vistos como “civilizados”).
    Entendo totalmente o seu desgaste e gostaria muito de ajudar, mas não sei como, a não ser trazendo essas observações do tanto que aprendi dentro das escolas e de tudo que estudei na vida também. Gostaria de poder fazer muito mais, mas…
    E repito algo que também já havia dito em outros momentos: não sou contra todo e qualquer tipo de punição sempre. Não é isso. Apenas acho que é necessário usar de inteligência e ponderação, de forma a ficar claro para o aluno que ele está sofrendo as consequências de seus próprios atos e não uma “vinganzinha” desse ou daquele professor por quem se sente “perseguido”. Isso é muito importante.
    O brasileiro é falsamente cordial, na minha opinião. Usa-se de hipocrisia e age-se muito por desejo de vingança, aqui em nosso país, não só na Educação.
    Enfim…
    Gostaria realmente de poder ajudar mais… Sentir essa impotência é doloroso demais – por isso entendo a sua e a dos demais professores, que penam com turmas lotadas diariamente -, mas acho que essa questão nos deixa diante de um impasse realmente. É um desafio tremendo, talvez sem chance de dar certo, e isso entristece demais… Não tenho respostas prontas, soluções fáceis nem nada disso, meu amigo. Tenho perplexidade, indignação e muitas interrogações, isso sim.
    Um abraço (me desculpe, mais uma vez, por não conseguir ajudar tanto quanto eu gostaria…).

  4. Declev, só mais uma coisinha: muito obrigada por retirar o banner “aluno-problema”.
    Esse rótulo só serve pra perpetuar uma visão bastante discriminatória, na minha opinião.
    Muito obrigada! :-)

  5. Só pra concluir e enfatizar: concordo que precisamos sim de parcerias, como a parceria com a área da Saúde e a da Assistência Social, Declev. O que existe hoje, em relação a isso, ainda é só “pra constar”, tudo muito burocrático e ineficiente.

  6. Apoiado Regina! A culpa dos prolemas da educação é dos professores! Um bando de incompetentes!

  7. Não entendi você, Clesio. Se realmente leu tudo que escrevi, então não me entendeu.
    Eu não disse, em hora nenhuma, que “A culpa dos prolemas da educação é dos professores! Um bando de incompetentes!”, como você falou.
    Assim como não acho que a “culpa” é dos alunos.
    Considero os professores, de maneira geral, vítimas desse sistema perverso da Educação no Brasil, vindo logo depois dos alunos, pois considero estes as maiores vítimas, pois ainda são crianças e adolescentes que poderão nem conseguir ter uma profissão mais tarde (estou falando de profissão mesmo e não só de emprego).
    Ou você não me entendeu ou está me ironizando, mas prefiro acreditar na primeira opção.
    Eu jamais simplificaria uma questão complexa como essa da maneira como você fez. Não coloque palavras na minha boca, ok?
    Releia todos os comentários, se tiver vontade, e verá que se enganou.
    E, só pra lembrar: também sou professora, já dei muita aula na vida e conheci muita gente boa e muita gente fraquíssima nessa área, atuando como docentes. Não existem “heróis” ou “bandidos” e sim seres humanos com todas as suas qualidades e defeitos, não só na Educação mas em todas as profissões.
    Um abraço.

  8. Nicoleta Rebel

    o blog virou um diálogo a dois. isso não foi bom.
    mas , vou perguntar aos dois professores tão cheios de idéias: por que não fazem, contra tudo e contra todos, a educação na qual acreditam? por que não dão á sua escola a cara que têm em mente? Por que vamos deixar que alunos,somente eles reajam contrariamente a princípios predeterminados? por que nós professores também não nos revoltamos civilizadamentte e após comunicações positivas e sérias ao sistema vigente não explicamos nossas decisoes de mudar tudo para ver o que acontece? Por que não partimos para fazer o que queremos?pensem nisso, e ordeiramente, discutam e ponham em prática. Não há como se despedir grupo grande de professores que estejam fazendo algo e lutando por um ideal.

    • Oi Nicoleta,

      O blog é um diálogo aberto, só que uns comentam mais do que outros, como é a vida mesmo.

      Eu tento fazer isso que você fala, em minha sala e, na medida do possível, na escola.

      Mas é cansativo…

      Seja bem-vinda.

      Abraços,

  9. Oi, Nicoleta.
    É muito comum, na internet, várias pessoas lerem o que outros postaram, mas poucos comentarem. Não acho que “não tenha sido bom virar um diálogo a dois” aqui. Pior é quando ninguém se manifesta! E esse papo aqui só foi a dois porque outras pessoas não participaram e, se quisessem participar, havia toda abertura para isso! E continua havendo. Tanto que vc deixou sua opinião aqui, o que acho ótimo, pois reacende o debate.
    Em relação a fazer diferente nas escolas onde trabalhamos, posso dizer que, na minha experiência (assim como acontece com o Declev, o Luiz e os demais colunistas aqui do blog), fiz muitas tentativas. Muitas mesmo. Só que várias esbarram em questões concretas que simplesmente não dependem de nós, infelizmente. Como pedagoga desenvolvi projetos, por exemplo, junto com professores de Ciências, onde as chamadas “aulas-passeios” eram fundamentais, mas não conseguimos tantas como gostaríamos pois, na rede onde eu trabalhava, só haviam DOIS ônibus escolares disponíveis para TODAS as centenas de escolas existentes (pra onde vão as verbas, já mínimas, pra Educação, afinal???). Então era dificílimo conseguir! Muitas vezes saí com grupos menores, usando meu carro, assim como os professores que iam comigo usavam os deles, tirando dinheiro direto dos nossos bolsos para darmos sequência aos projetos. E esse é apenas um exemplo entre vários.
    Quando vc diz “Não há como se despedir grupo grande de professores que estejam fazendo algo e lutando por um ideal.”, te digo que não é tão simples. Nos despedirem não podem mesmo, por sermos concursados. Só em casos gravíssimos, por justa causa, o que é raro. Mas existem outras formas de se “demitir” ou impossibilitar totalmente o trabalho dos profissionais mais idealistas, que tentam operar mudanças na escola, através de sabotagens de todos os tipos, pois a grande maioria, tanto dos que trabalham nas escolas quanto dos que trabalham nas secretarias de educação, não quer participar de mudanças e sim quer, apenas, ter um trabalho menos estressante. E aí fica difícil encontrar parceiros pra desenvolver projetos…
    Mesmo assim, conseguimos desenvolver várias coisas na escola e, aqui mesmo no blog, vc pode encontrar relatos de experiências concretas com alunos, inovações, etc., relatadas pelo Declev, entre outros.
    Que bom que veio participar do nosso papo aqui! :-)
    Um abraço,
    Regina.

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