Carta de mais um professor que desiste

 

Li este texto no Geledés, o qual copio abaixo.

Eu já ouvi esta frase algumas vezes: “professor, não desiste da gente!“.

Dói, mas já desisti de vários.

Já desisti também várias vezes da profissão, inclusive escrevi aqui sobre isso.

Sinceramente, continuo por falta de opções financeiras, pois, no meu caso, o salário não é tão ruim – tenho duas matrículas municipais que, relativamente a outros locais, pagam “melhor” e ainda somo alguns percentuais de tempo de serviço e formação.

Então, se é pra sair, quero sair por algo muito melhor, o que ainda não aconteceu.

Mas penso nisso todos os dias e a cada vez que entro na escola e as frustrações me alvejam por todos os lados.

Vale a pena ler o relato deste professor que, apesar de Minas, não está longe do sentimento de qualquer um pelo Brasil afora.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Construindo a porta de saída

Desisti de ser professor do Estado

Hoje tive o dia mais triste como professor. Não estou me referindo a nenhuma indisciplina ou necessariamente a
baixo rendimento escolar de meus alunos.

SOLICITEI A MINHA DISPENSA NA REDE PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS  e fui surpreendido pelos meus alunos.

Como sou muito exigente, muitas vezes coloco fardos pesados sobre meus alunos. Acreditava que a minha saída na transição dos bimestres seria encarada apenas como mais uma das tantas mudanças corriqueiras que ocorrem na Escola.

Estava enganado. Fui surpreendido pelo choro mais desolador que já vi em toda a minha vida. Minha maior tristeza foi pensar que eu poderia ser responsável por esse choro.

Jamais pensei que meus  ALUNOS DA REDE PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS  fossem chorar por minha saída.

Preocupado com o que eu diria paraeles como motivo, preferi a verdade.  ESTOU SAINDO PORQUE NÃO CONSIGO ME SUSTENTAR NA REDE PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS.  Como são crianças, muitas não entenderam o que eu queria dizer e me responderam novamente com o choro mais desolador que já vi ou causei em toda a
minha vida.

 “PROFESSOR NÃO NOS ABANDONE”!

A criança não entende a opção que nós professores fazemos quando abandonamos a sala de aula. Uma de minhas alunas gritou: “Vou me mudar para a escola onde o senhor vai continuar como professor”. Nessa hora engasguei o choro e me perguntei como poderia ser isso? Se a maioria de nós no Brasil e na  REDE PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS  não dispomos de recursos para bancar o ensino privado.

Algumas crianças se puseram na porta e tentavam impedir minha saída, sem palavras e assustado com o choro e
o pedido de que não as “abandonasse”, restou-me recolher na solidão de meu objetivo racional e deixar a sala com crianças chorosas como nunca vi a se despedirem com o olhar que jamais esquecerei, do professor que  NÃO CONSEGUIU SE SUSTENTAR NA REDE PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS.

Eu poderia recolher-me na vaidade, em pensar que sou um bom professor e que vou conseguir o melhor para mim.

Entretanto, sei que hoje a exemplo do que ocorreu comigo,  DEZENAS DE OUTROS PROFESSORES DEIXARAM A REDE PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS POR NÃO CONSEGUIREM SE SUSTENTAR, ASSIM COMO TAMBÉM DEZENAS DE CRIANÇAS CHORARAM AO SE DESPEDIREM DE SEUS PROFESSORES.

Resta-me na revolta implorar a todos os mineiros e brasileiros que lerem essa carta.

PELO AMOR DE DEUS! NÃOACREDITEM NA EDUCAÇÃO FAZ DE CONTA DO GOVERNO DE MINAS GERAIS. O ESTADO FAZ DE CONTA QUE REMUNERA SEUS PROFESSORES, PROFESSORES INFELIZMENTE FAZEM DE CONTA QUE ENSINAM, ALUNOS FAZEM DE CONTA QUE APRENDEM E ATORES GLOBAIS FAZEM DE CONTA QUE FALAM DA MELHOR EDUCAÇÃO DO PAÍS.

O episódio dessa carta ocorreu NO DIA 18 DE ABRIL DE 2013 NA ESCOLA ESTADUAL BARÃO DO RIO BRANCO EM BELO HORIZONTE. Infelizmente ocorreu também em dezenas de Escolas do Estado de Minas Gerais.

ENQUANTO O GOVERNO DE MINAS PAGA MILHARES DE REIAIS A ATORES GLOBAIS PARA MENTIREM SOBRE A EDUCAÇÃO NO HORÁRIO NOBRE, NOSSAS CRIANÇAS CHORAM OS SEUS PROFESSORES QUE ESTÃO SAINDO PORQUE NÃO CONSEGUEM MAIS SE SUSTENTAR NO ESTADO.

Prof. Juvenal Lima Gomes

EX-PROFESSOR DA REDE PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS

3 comentários sobre “Carta de mais um professor que desiste

  1. Emocionante a carta desse professor, Declev.
    E, com certeza, vale para todo o Brasil.
    Não me espanta nada que os alunos tenham chorado, pois os alunos percebem quando um professor é ou não comprometido com eles e com a educação e valorizam muito esse tipo de profissional.
    Vi isso acontecer várias vezes, eu mesma acabei saindo das escolas – mas não da educação! -, os alunos fizeram uma belíssima homenagem pra mim, com presentes, carinhos e muitas lágrimas, e isso me deu força pra continuar buscando outras formas de contribuir e acredito que o mesmo poderá acontecer com você, a qualquer momento. Mas você não seria um desistente e nem me considero assim. Apenas busquei/busco outras formas, em que possa acreditar mais, para continuar. Mudar não é necessariamente desistir.
    O professor acima disse que desistia por causa da baixa remuneração. Mas me parece que foi bem mais do que isso.
    Você ganha bem e eu também ganhava na Educação, e, no entanto, a questão não se resolve apenas por esse aspecto e o desgaste continua imenso.
    Fiquei anos passando por cima dos meus limites, pois sabia o quanto aqueles alunos e professores precisavam de mim, mas o meu corpo, minha saúde, acabou dizendo: “chega!” Fiquei sem dinheiro e sem saúde e me trato até hoje, mas a vida se renova e acabamos encontrando ou construindo novos caminhos realmente.
    Entendo cada emoção que esse professor de MG expressou em sua carta e me solidarizo com ele. Lamento apenas que tenha sido uma surpresa, pra ele, a emoção e o sentimento de abandono dos alunos. Talvez se ele tivesse conseguido conhecê-los melhor, saberia o quanto de abandono já viveram e o quanto tantos ainda acreditam na escola como uma saída, uma passagem pra uma vida melhor. E, entre esses tantos, muitos dos agitados e agressivos também.
    Mas, enquanto o professor tiver que dar aula em várias escolas e turmas, fica muito difícil conhecer bem os seus alunos realmente, como já escrevemos tantas vezes aqui… É um tema recorrente.
    Espero que esse professor encontre outra forma de atuar em educação e não a abandone completamente, de vez…
    Um abraço.

  2. Imagino, Declev…
    Não perca o contato com vc mesmo. Não se perca.
    Só vc vai poder saber a hora de mudar. Pode ser uma mudança drástica ou só parcial. Pode, por exemplo, ficar em apenas uma escola e utilizar esse tempo da outra, que irá sobrar, para publicar um livro, dar palestras pelo Brasil, etc. Quem sabe?…
    Tente não passar demais por cima de vc, meu amigo. Senão a saúde pifa mesmo!
    Abração…

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