Você, que é professor como eu, por que gosta de dar aulas?

Você, que é professor como eu, por que gosta de dar aulas?

la professora

 

O que te cativa, estimula, motiva?

Eu gosto da paixão pelo saber, pelo conhecimento, pela reflexão, pelos questionamentos, pelo debate, pela troca, pelas descobertas, pelas revelações, pelo universo de possibilidades quando encontramos o OUTRO e aprendemos a aprender a cada dia.

O outro que nunca é como em nossos sonhos. O “outro” que pode ser a escola, o aluno, o colega professor, o pedagogo, o diretor, a merendeira, o porteiro… O outro. Que traz um mundo inteiro junto com ele. Que se abre ou se fecha a cada contato, que está vivo, entusiasmado ou frio, distante… O outro rebelde, transgressor, agressivo, explosivo, “mal educado”… O outro. O que tem brilho nos olhos e o que não tem mais. O que acredita, tem esperança, se envolve… O que é indiferente, insosso, quase imperceptível… O outro. O que quer e o que não quer. O que ama, o que odeia, o que só diz amém, o que debocha, ironiza… O hipócrita. O invisível, o que grita em silêncio, o que adoece… O ignorante, preconceituoso, moralista… O que não tem autocrítica, o que pouco ou nada se conhece, o que não se importa com ninguém, o que só obedece, o que só desobedece, o que mente, engana, o que morre de medo, o que se julga ora salvador e ora vítima… O outro. A criança, o jovem, o adulto, o velho. O que ouve e o que só escuta a si mesmo. O que vê e o que, cheio de orgulho, apenas “se acha”. O que se cansa. O que observa, contempla… O que pensa e o que é só impulso e reação. O sensível, criativo, sutil… O que não tem auto-estima, não se valoriza… O que é puro ego. O que acha que só se aprende na prática. O que só vê o concreto, o preto ou o branco; nunca o cinza. O outro. O confuso, vacilante, perdido, perplexo com o mundo que encontra… O que ousa, duvida, pergunta, busca, quer entender, quer sentir… O que pesquisa. O que acha que já sabe tudo. O cínico. O que ensina, aprende, gargalha, chora, morre de curiosidade, se encanta… O idealista, cheio de sonhos de um mundo melhor para todos. O politizado, o apolítico, o religioso… O cético, o crédulo, o diabo e o santo. O outro.

E, em cada um desses outros, o eu.

Em cada um, um pouquinho de nós.

Em cada professor uma história, mil desejos e ideais… E uma certa desesperança que lhe ronda como sombra. Um cansaço sem nome, sentido e doído todos os dias, tecido em um emaranhado de desilusões e alegrias, conquistas e fracassos, paradoxos, contradições… O outro é cada um de nós.

Eu sou cada um de vocês. Empaticamente. Telepaticamente.

Cada um de vocês, professores, também são um pouco eu, um pouco sãos, um pouco loucos, um pouco sábios e um pouco aprendizes, nessa gangorra absurda da educação, nessa montanha russa sem cinto de segurança.

Eu. Vocês. O outro. Todos nós. Vivendo ou apenas sobrevivendo, como dá, como “Deus quer”, como é possível… Adaptados ou não. À margem ou não.

Seres humanos.

Professor. Aluno. Eu. O outro.

Desejo que, apesar de tudo, de toda a injustiça diária que vemos nas vidas de nossos alunos e nas nossas próprias vidas, nunca nos deixemos derrotar de vez. Que consigamos levantar depois de cada tombo, com a pele mais resistente, como os dedos do violonista que, de tanto tocar, criam calos, necessários para que a música se faça.

Que possamos continuar tocando, criando, bailando, fazendo música… Mesmo em meio ao fogo cruzado das tantas rajadas de metralhadoras diárias com as quais convivemos em nosso “pacífico” país…

Não precisamos de um “dia dos professores” para nos homenagear.  Sempre é dia. Hoje é dia!

 

Mil beijos e abraços carinhosos em cada um de vocês, professores como eu,

Regina Milone.

Professora, Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio de Janeiro, 21 de abril de 2013.

 

 

6 comentários sobre “Você, que é professor como eu, por que gosta de dar aulas?

  1. Muito bom Regina, muito bom. Eu sou um pouco disso tudo. Um dia falante, outro mudo. Um dia professor, outro… desistente. Até quando, não sei.

    Abraços,

  2. Talvez até quando o desejo for maior do que os seus limites internos, Declev.
    De qualquer forma, uma vez professor… sempre professor! Seja onde for.
    Abração… 🙂

  3. Lindo texto! Não me identifico mais com a esperança que ele ainda traz. Mas a reflexão sobre o que sou enquanto educadora é bem isso aí. Parabéns, Regina!

  4. E quem disse que eu gosto de ser professor? Já foi tempo.
    Cansei dessa vida, mas ainda falta 6 anos para eu me aposentar.
    Esses 6 anos serão uma tortura, já pensei em largar isso, mas não tenho mais disposição de fazer outra coisa.
    Vou levando e contando os dias para o próximo feriado.
    Um abraço …

  5. Pois é, Guilherme…
    E esse é um dos piores CRIMES que tem sido cometidos em nosso país: os professores acabam perdendo todo o idealismo que um dia tiveram, muitos ficam cínicos e/ou rabugentos no dia a dia (estão adoecendo cada vez mais…), em consequência disso, e os alunos e suas famílias, pobres e de comunidades onde falta tudo, ficam cada vez mais sem nenhuma chance de um futuro melhor…
    Por isso homenageei os professores aqui, assim como costumo, também, defender os alunos. Ambos são vítimas da mesma falta de estrutura das escolas e da extrema cobiça dos governantes em nosso país!
    Seis anos é muita coisa, Guilherme. Pense em sua saúde. Senão seis anos podem representar muito mais…
    Um abraço.

Os comentários estão encerrados