Alunos-problema até com a polícia. O que dizer com professores?

Como eu digo, diversas tentativas são tomadas para que possamos trabalhar adequadamente com os “alunos-problema”, e todos os outros.

Mas a maioria dos alunos têm o seu direito por uma educação de qualidade dificultado – não só, mas sim, este é um dos motivos – por estes alunos que não deixam as aulas acontecerem normalmente. Independente do que seja “normalmente”, pois isso varia de professor a professor.

Ora, os professores faltam e tiram licença por estresse e doenças ligadas à profissão por não aguentarem mais a falta de respeito e falta de limites dos alunos.

Os professores desistem de tentar fazer algo em determinadas turmas por não conseguirem fazer nada, após muitas tentativas.

Como dito, as aulas não podem ocorrer de maneira satisfatória muitas vezes por conta de determinados – seja lá que tipo de aulas forem.

Vejo isso dia a dia há quase 14 anos que estou dentro de sala. Não falo de achismo. Digo isso porque é o que acontece comigo e com meus colegas.

Mas, o que fazer? Essa é a questão.

Como garantir a todos – aos outros que são prejudicados por estes e aos mesmos – uma aula de qualidade?

Uma escola teve a ideia de fazer palestras com os mais indisciplinados.

Veja o que aconteceu:

Cinco meninos (quatro com antecedentes criminais) e uma menina foram encaminhados ao Deca – alguns por desacato, outros por dano a patrimônio público. A polícia descobriu que um deles, de 15 anos, estava foragido da Fase, onde deveria cumprir medida socioeducativa por crime de tráfico.

A polícia pega e “apreende” por desacato e dano ao patrimônio.

E o professor, sem a polícia, faz o quê?

Fica doente, por estresse e impotência.

Então, você é daqueles para quem a escola tem que lidar com tudo isso sozinha?

Então, você acha que estamos preparados pra isso?

Então, você acha que a escola tem a obrigação de, do jeito que é, com os recursos que lhes dão, com os profissionais que estão lá dentro, dar conta de ensinar os conteúdos a todos os alunos?

E tem que ensinar estes conteúdos e ensinar os alunos a serem cidadãos responsáveis, conscientes de seus direitos e deveres, respeitadores das regras de trânsito, defensores do meio ambiente, com responsabilidade social, cuidadores da sua sexualidade e reprodução, bons membros de família…?

E, isso tudo, com TODOS, com antecedentes criminais e foragidos?

Então tá.

A educação continuará deste jeito, por mais datashow e computador que se distribua por ai.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professor ou policial?

5 comentários sobre “Alunos-problema até com a polícia. O que dizer com professores?

  1. Desculpa, meu amigo Declev, mas estou na área de Educação, de uma forma ou de outra, inclusive como mãe, desde 1982 e o quadro já era o mesmo.
    Realmente não tenho como não desabafar, mais uma vez, sobre esse assunto.
    Discordo TOTALMENTE desse absurdo de se rotular alguns alunos como “alunos-problema”. Em geral, eles só pioram cada vez mais, com esse tipo de “incentivo”.
    Não são os alunos agressivos e agitados que são “problemas” e sim toda a ESTRUTURA FALIDA DA ESCOLA DE HOJE, que já produz há décadas esse tipo de situação. A culpa NÃO É dos alunos e sim da desigualdade social, dos valores que são adotados e incensados pela mídia, pela sociedade como um todo, pela violência com a qual tiveram que conviver desde que nasceram (NENHUM deles pediu por isso!!!!!!!!!!!!!!!!), entre outros absurdos desse show de horrores que tem sido a educação.
    Em Psicologia Clínica, por exemplo, quando um adolescente está dando “problema” demais, os pais o trazem com a expectativa de “consertar” a “ovelha negra” da família e o que descobrem, quando tem a coragem de levar adiante a terapia, é que o “problema” é de TODA a família, é fruto de uma dinâmica familiar profundamente adoecida e fruto também de uma sociedade hipócrita, falso-moralista e tremendamente injusta, o que pode ser visto, diariamente, nas diferentes instituições criadas pelo homem, como é a escola, por exemplo.
    A MESMA ATITUDE DE SEGREGAÇÃO, DISCRIMINAÇÃO E EXCLUSÃO ACONTECE NA ESCOLA. Cada aluno que se rotula como “aluno-problema” é uma criança ou um adolescente que pode estar sendo marcado, para sempre, como alguém que só “atrapalha” os outros, porque é sempre mais fácil depositar todas as “culpas” no outro, olhando de fora para esse outro,do que procurar uma compreensão mais profunda, avaliando a instituição escola como um todo, que PRODUZ E REPRODUZ professores estressados e “alunos-problema” aos montes, DIARIAMENTE, HÁ DÉCADAS!!!!!!! Falta autocrítica também, e muito!!!!!
    Jamais conte comigo para endossar esse coro contra os alunos!!!!!!!!!!!!! Pra mim, a maioria das pessoas que age assim está escolhendo o caminho da covardia, o caminho mais fácil, elegendo sempre os outros como os “culpados” pelo que não vai bem. E ainda dizem pra si mesmas, provavelmente para não terem nem que refletir mais sobre o assunto, procurando se convencer de que essa é a “verdade”: “estou defendendo os alunos que querem aprender contra aqueles que não estão deixando isso acontecer”! Ouço isso há pelo menos 30 anos!!!! A maioria dessas pessoas é composta justamente por aqueles que defendem baixar a maioridade penal e que também defendem a pena de morte no Brasil, entre outras ações “punitivas”.
    Quanto ao professor estar estressado, me solidarizo em relação a luta por turmas menores, por mais verbas para a educação, qualificação profissional, condições decentes de funcionamento na escola, melhores salários, etc. Já escrevi mil vezes sobre isso aqui no blog e em várias comunidades das quais participo, inclusive já me abri a ponto de mostrar que eu mesma tive que parar de trabalhar em escolas, há uns dois anos atrás, pois acabei com síndrome de burnout. Mas, DE FORMA ALGUMA, mesmo tendo passado na pele pelo que tantos professores passam (e também sou professora), de jeito nenhum concordo com a culpabilização dos alunos, a quem temos um serviço a prestar. Ser “servidor público” é uma escolha! Se muitos não querem lidar com a realidade da pobreza e da violência nas comunidades, melhor trabalharem em outra área!!!
    Não temos que ser “santos” e nem somos “missionários”, mas temos um serviço público a prestar sim!!!! Um serviço humano e social!!!
    Mas é mais “fácil” pra muitos pensar: “se as coisas vão mal é tudo culpa dos governos e dos alunos “difíceis” e suas famílias “desestruturadas”! Todas as “culpas” são sempre dos outros?!?!?!?!
    Gerações e gerações continuam repetindo o mesmíssimo discurso (achando que tem alguma novidade no que estão falando…), fazendo as mesmas reclamações e cobranças e quem mais sofre as consequências de tudo isso é o ALUNO, que nem representantes tem hoje em dia – o movimento estudantil já não é nem sombra do que foi um dia – e o aluno que mais sofre as consequências de tudo isso é especialmente o que é pobre e vive em condições sub-humanas. Ah, mas esse é melhor “jogar fora”, dizendo pra si mesmo que isso inclusive é melhor pro próprio aluno (!!!!!!!!!!!!)… Afinal, nem todos nasceram com desejo ou facilidade para estudar.. (??????????) Como se alguém nascesse “pronto”!!!!!!!
    E, se o aluno se tornar de vez assaltante ou assassino, a escola não terá tido absolutamente NADA (????????????????) a ver com isso, afinal, alguns nascem “bons” e outros “maus”…
    Isso é primário!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Foucault já falava brilhantemente sobre tudo isso, entre outros filósofos, educadores, psicólogos, sociólogos… que não viveram “fechados em seus gabinetes apenas teorizando”, como tantos pensam por pura ignorância, inveja e preconceito!!! Aprenderam e desenvolveram suas ideias a partir da soma de teoria e prática, coisa que vejo pouquíssimos profissionais de educação dispostos a fazer hoje em dia! A maioria diz: “de teorias estou cheio; quero saber é da prática!”, como se essas coisas andassem separadas… E o pior é que, de “teorias”, pouco ou nada sabem!!! Por exemplo, nada sabem sobre o pensamento e a prática dos educadores maravilhosos que já tivemos inclusive aqui, no Brasil!
    Isso tudo me cansa… Estressa… Entristece…
    Não aguento mais ouvir sempre as mesmas queixas, em relação às quais o aluno é o que sai mais prejudicado, seguido pelo próprio professor…
    É tudo injusto demais…

    • Eu sei, Regina, que iríamos discordar – e vamos – sobre este assunto, sempre.

      Mas, te falo: estou ESGOTADO por conta de indisciplina e problemas trazidos por determinados alunos.

      A ponto de estourar com eles, de quase agredir (não o faço por puro autocontrole)… Outro dia segurei um pelo braço de forma ríspida. Gerou uma pequena confusão em sala, disseram até que agredi ele, mas não.

      Isso vem acontecendo a ponto de eu desistir, em quase todas as aulas, de fazer algo diferente e uma aula animada, boa, com interações e explicações. Sim, eu tento e tenho capacidade para isso.

      Aí, pego o livro e copio pedaços no quadro e os colocar para copiar.

      Só.

      Às vezes começo a esboçar algumas tentativas diferentes – e ainda falarei sobre elas para dar exemplos de trabalhos por aqui – mas, ao me deparar com a indisciplina, grosseria, desinteresse e a total desestabilidade e bagunça que eles conseguem fazer em sala de aula, desisto.

      “Peguem o caderno, vamos copiar”.

      “Ah… professor, não, não! Continua!” – pedem os que querem.

      “Não dá, vocês estão vendo que eu tento, que eu tentei!”

      “Mas, nós não fizemos nada, vamos pagar por eles?”

      Este diálogo é constante, quase diário em minhas aulas, NÃO É fictício.

      E isso acontece em algumas salas, não em todas.

      Este ano, por exemplo, tenho estes problemas somente na escola de Niterói. Na do Rio, não.

      No Rio, só dou aulas na sala de ciÊncias. Em Niterói, não os levo, fico em sala (no início do ano levava, mas precisei desistir).

      São determinados alunos nas salas da escola de Niterói que não me deixam trabalhar. Não só a mim, mas a todos professores.

      Está ficando insuportável. Só penso em parar. Só penso em sair da educação.

      É isso o que eu falo sobre direito de uns e direito de outros.

      Todos perdem. Ponto.

  2. Entendo totalmente o seu cansaço e até o seu desespero, Declev. É estressante mesmo!
    Mil vezes botei aluno pra fora de sala de aula, mandei pra diretoria, tive que falar aos berros com a turma, passei mais tempo tendo que brigar com os mais agitados e agressivos, utilizando, muitas vezes, quase todo o horário da aula pra isso, entre outras situações desse tipo. Então, não tenha dúvidas de que te entendo. É extremamente frustrante vc se preparar e trazer coisas interessantes para sua aula e, por causa de tudo isso, não conseguir dar a aula que desejava. Mas a maior vítima disso é o aluno, não só o que quer estudar e não consegue “por causa da agitação e agressividade dos outros”, mas para TODOS, pois geralmente os que são considerados mais difíceis, podem se revelar criativos, líderes, dinâmicos, entre outras qualidades, quando acreditamos neles, quando lhes mostramos o que tem de bom neles, ao invés de apenas criticá-los.
    Mas, como já te falei, tive a chance de também trabalhar anos em outra função dentro da escola, o que me acrescentou demais. Pude ver mil coisas, especialmente sobre alunos e professores, que, enquanto estava apenas identificada com a realidade de sala de aula, simplesmente eu não tinha como ver! Aprendi demais com isso.
    E é claro que algumas turmas são mais fáceis de se trabalhar do que outras. E isso também varia de professor pra professor e de disciplina pra disciplina. Em relação a ciências, por exemplo, que é a sua área, vc vai sempre encontrar turmas mais e outras menos interessadas.
    Individualmente, cada aluno de cada turma é um universo de complexidades, dificuldades e possibilidades. Isso fica gritante quando estão todos juntos, formando uma turma, em sala de aula. E, nesse sentido, algumas combinações (turmas) acabam sendo mais harmônicas do que outras.
    Mas é por essas e outras que, há anos, escolhi realmente me comprometer com a busca de uma estrutura totalmente diferente da que existe nas escolas hoje. Me comprometi a lutar ao lado dos que querem mudanças profundas e até radicais mesmo nas escolas, o invés de me deixar levar, como acontece com tanta gente, pelo discurso de “estou fazendo o melhor e não me valorizam”. Isso dói pra caramba mesmo – não ser reconhecido -, mas se a instituição escola não se transformar em suas bases, continuaremos com a mesma realidade de ora termos turmas melhorzinhas e ora termos turmas terríveis e agitadas, onde parece que ninguém dá valor ao nosso trabalho.
    Optei por um aposentadoria proporcional, o que me deixou com um salário ridículo, pois acabei em depressão profunda, como vc já sabe. Mas, tendo passado por tudo isso, o meu compromisso maior passou a ser com o aluno, em primeiro lugar, e com o professor, logo a seguir, pois ambos são vítimas da (falta de)estrutura que temos hoje nas escolas.
    Além disso, em pleno século XXI, não vejo sentido nenhum em continuarmos com aulas preferencialmente expositivas! Se é insuportável pra muitos adultos, imagine para crianças e adolescentes, que possuem uma energia que pede movimento e não só exercício intelectual!
    Por tudo que acompanhei, vi, vivi em sala de aula, vivi em escolas fora de sala de aula também, e pelo próprio conhecimento que a Psicologia me trouxe, só acredito na instituição escola se ela for totalmente transformada, desde suas raízes pedagógicas, passando pelas questões de recursos didáticos, entre outros. Do jeito que está, é uma instituição falida, fadada ao fracasso, cada vez mais.
    Se eu continuasse mais tempo dentro das escolas, do jeito que elas ainda são, ficaria mais doente ainda do que fiquei e estaria me violentando demais, pois acabaria partindo pra ameaças de todos os tipos, em relação aos alunos, tentando ser “disciplinadora”, pras coisas “se ajeitarem um pouco melhor”, especialmente para os professores. E viveria discutindo com os professores, inspetores, supervisores, diretores… também! Pois vi e continuo vendo absurdos por todos os lados!!! E eu simplesmente não acredito em ameaças, conselhos, punições de vários tipos (algumas são necessárias, mas muitas outras não) e as mesmas discussões e discursos repetidos à exaustão!!! O buraco é bem mais embaixo, na minha opinião. Mas, se eu continuasse dentro das escolas, como servidora pública, acabaria tendo que usar medidas que considero nada educativas para sobreviver! Não valia o preço!!! Alto demais. Violento demais.
    Repito: continuar dentro das escolas seria adoecer mais a cada dia e me perder completamente de mim mesma.
    Então… Fiz a minha escolha.
    E tento contribuir ao máximo com o conhecimento que tenho e com os tantos anos de experiência que tive também.
    Eu não suportaria me ver transformada numa profissional que tem que manter a cara fechada e ameaçadora, especialmente com os alunos, para manter a ilusão de estar sendo respeitada…
    Um abraço, meu amigo.

    • Pois é, Regina.

      Mas é exatamente isso que termino por ser, por não conseguir.

      E “se a instituição escola não se transformar em suas bases, continuaremos com a mesma realidade” é justamente o que penso.

      Por isso, neste post inclusive, questiono a escola de hoje e a capacidade dela de lidar com os problemas, sozinha.

  3. Eu entendi, Declev… Mas costumo reagir com muita emoção a cada vez que vejo essa realidade, que vc descreve tão bem em seus artigos, mas que tantos simplificam a ponto de ficarem só culpando os alunos e/ou os professores.
    Vc mesmo usou a expressão “alunos-problema”, que me traz recordações terríveis de vidas perdidas e de tanta tristeza, incompreensão e violência…
    Como vc costuma me dizer: podemos discordar nisso ou naquilo, mas estamos do mesmo lado. E é verdade!
    Fico triste e indignada demais com a nossa realidade política, com os contrastes absolutamente chocantes, contrastes estes que aparecem com força no cotidiano escolar também, claro, e que, muitas vezes, transforma professores idealistas em rabugentos e estressados, alunos criativos em marrentos ou rebeldes sem causa, e daí por diante…
    Estou com vc nessa. Mas precisei sair das escolas para sobreviver, para não me deixar corromper minimamente por um sistema corrompido, podre, no sentido de que, se eu continuasse, acabaria sendo tudo menos eu mesma (estaria “corrompida” nesse sentido, entende?), seria desintegrada, de certa forma, enfim…
    Ainda estou buscando qual é o meu lugar agora…
    Um abraço solidário,
    Regina.

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