Violência de alunos contra professores e demais profissionais da Educação

Cada vez mais lemos ou acompanhamos de perto esse tipo de violência: Diretora de escola municipal é espancada por aluno.

Mas apenas pensar em como se deve “punir” os “infratores” (somos educadores e não juízes ou promotores, minha gente!) é muito pouco e, tantas vezes,  injusto.

O que leva alunos a agirem assim?

Não há uma resposta única, uma explicação correta e todas as outra incorretas, enfim… A questão é muito mais complexa e exige mais compreensão, pesquisa, aprendizado, por parte dos educadores e das famílias dos alunos.

O que acontece quando apenas punimos o aluno (e daí em diante não queremos mais nem saber da vida dele…)???

Aproveito pra contar um caso, que acho que ilustra bem isso e que acompanhei de perto: um rapaz de 14 ou 15 anos (não lembro com exatidão agora), estava discutindo com a professora sobre fechar ou não a porta da sala de aula – ela queria fechar e ele não estava deixando, já que o calor estava insuportável (ventiladores quebrados, pra variar…) -, acabou levantando a voz, sendo grosseiro, ela foi dura também, mas, num certo momento, ele passou dos limites e a empurrou, tendo quase fechado a porta nos dedos da professora, que foi, assustada e dolorida (a pancada na porta doeu, claro!), reclamar do acontecido na secretaria da escola, com a diretora, dizendo que sairia da escola se o aluno continuasse lá. Resultado: o aluno foi “convidado a mudar de escola” (expulso, isso sim) e nunca mais parou em escola nenhuma, tendo interrompido de vez seus estudos. Detalhe: depois de conversa comigo, ele se desculpou com a professora, reconheceu seu erro, mas nada adiantou. E era aluno antigo da escola, estava lá desde criancinha e morava na vizinhança. Além de tudo, era um rapaz abertamente homossexual, “opção” essa que iniciou-se, em sua vida, através de um tio que abusava sexualmente dele desde a infância. A escola nunca fez nada sobre isso. E aí??? Como fica essa história??? Quem são os responsáveis??? O que poderia ter sido feito e não foi??? A expulsão dele acabou jogando-o na prostituição – era um rapaz pobre e negro -, tendo interrompido sua vida escolar de maneira brutal. E ele não tinha histórico nenhum de violência na escola antes disso! Ao contrário: costumava ser espalhafatoso e engraçado. Mas… a “solução” dada foi a expulsão e ponto final. Tentei ajudá-lo durante anos, incentivando-o a continuar os estudos, mas ele começava e parava até largar de vez. Acho que há muito para se pensar sobre essa história, não acham?

Quanto maior a violência que o aluno comete, maior é a que está sendo vítima em casa, na maioria das vezes. O caso acima é apenas um pequeno exemplo disso. Acompanhei outros casos muito mais violentos, mas escolhi contar esse por estar até hoje acompanhando esse rapaz, tentando ajudá-lo.

Vocês já pararam para realmente refletir sobre tudo isso, por todos os ângulos?

Gostaria de ouvi-los a respeito.

Abraços,

Regina Milone.

Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio de Janeiro, 25 de março de 2013.

 

11 comentários sobre “Violência de alunos contra professores e demais profissionais da Educação

  1. Regina, acho interessante conhecer o outro lado da história. No entanto, nada me convence que no caso específico relatado no seu texto a decisão de afastar o aluno da escola foi a correta. O que aconteceu depois disso é um problema sim, mas isso não invalida a decisão. Em casos de agressão física, penso que é inviável a permanência do aluno e o professor envolvido. Como neste caso foi o aluno que agrediu, não vejo uma outra maneira de solucionar o caso. Um passado e/ou um presente complicado não podem se tornar “desculpas” para uma agressão, embora sirva para entendermos o psicológico da criança/adolescente.
    Posso estar sendo simplista, até porque não estou inspirado para escrever, mas de modo geral é a minha opinião.

  2. Regina,

    Sim, ouvir o outro lado é importante e, na maioria dos casos, muda ao menos um pouco a forma que os professores olham um determinado aluno.

    Mas o próprio aluno tem que mudar.

    Sinto muito, cada um tem a sua vida e os seus problemas.

    O que vejo que acontece, muitas vezes, é a escola dar um sem número de chances, conversas, ajudas, chama os responsáveis, suspende depois de diversas tentativas e… no fim, aquele que não muda e não tem condições de continuar, chega-se ao extremo de mudá-lo de escola.

    Sou professor há 15 anos e, nestes 15 anos, posso te dizer que vi uns 20 alunos, no máximo, serem “convidados” a sair da escola.

    Nem é tanto assim, se pensarmos em muitas coisas que acontecem e que já devem ter passado alguns milhares neste 15 anos, pelas escolas que atuei.

    Ora, o convite a mudar de escola é uma medida extrema, como eu disse, e embasada. Às vezes a continuidade daquele aluno naquele ambiente escolar só vai fazer mal a ele, aos colegas, ao corpo docente.

    Há relações que não devem continuar.

    E, muitas vezes, quando se muda de escola, o aluno também muda.

    Sobre o seu exemplo, não acredito – não acredito mesmo! – que a escola tenha tido culpa em seu abandono do estudo. Ora, ele abandonou o estudo por si. A mudança de escola não era motivo para o abandono do estudo.

    Como eu disse, quantos mudam de escola e mudam a si? Quantos continuam estudando mesmo após mudanças?

    O que a escola poderia fazer quanto ao estupro? Não pode ser omissa, é claro, mas a escola por si só é incapaz de tratar dos problemas sociais de todos seus alunos!

    Essa, pra mim, é um grande e enorme erro: julgar que a escola seja capaz de resolver estes problemas sozinha!

    Claro, não pode ser omissa e deve buscar ajuda em outros órgãos, seja assistência social, polícia, conselho tutelar, justiça, saúde, etc.

    Mas, você deve ter experiência neste sentido, será que a escola recebe a ajuda necessária destes outros órgãos?

    Eu acho que não.

    Por fim, Regina, a homossexualidade NÃO É uma opção.

    Ninguém opta por uma vida homossexual, as pessoas nascem assim.

    Há alguns que nascem hetero, outros que nascem homo.

    A descoberta e aceitação disso só vem, muitas vezes, com o afloramento da sexualidade, na puberdade.

    No caso do seu aluno, mais uma vez, não creio que o abuso o fez homossexual. Muitos são abusados na infância, mas continuam hetero. Ele nasceu homossexual e o tio abusou dele.

    Detalhe: este tio tem que ser preso, mas a escola não deve ser declarada culpada.

    Agora, realmente por fim: acho que mudança de escola é muito pouco para determinados alunos (talvez não neste seu caso que, pelo que percebi, não foi intencional). No caso do que deu socos na diretora, mudar de escola é muito pouco como punição.

    É de impunidade em impunidade que o Brasil está como está.

    Mas a punição, obviamente, deve levar em conta a idade, a vida pregressa, a intencionalidade das pessoas, caso a caso.

    Ora, dar socos da cara da tua diretora te faz apenas mudar de escola?

    Que pensará este aluno quando for maior ou em outra ocasião? Que poderá pegar uma arma e atirar em todos os que não gosta em sua nova escola?

    Afinal, o que acontecerá com ele, se fizer isso?

  3. Amigos,

    Eu tinha certeza que esse assunto ia incomodar, porque já virou algo inquestionável, principalmente entre professores, essa visão de que o aluno que passou dos limites deve ser punido com a expulsão (que não é permitida por lei; por isso existe essa hipocrisia de “convidar” o aluno a mudar de escola) ou até com punições maiores, o que reforça, por exemplo, a ideia de baixar a maioridade penal, que tem sido cada vez mais defendida por tanta gente, infelizmente.

    De cara já me chama a atenção a total incoerência no discurso de quem se coloca politicamente à esquerda mas, no entanto, propõe o mesmo tipo de tratamento, a crianças e adolescentes, que os setores mais conservadores e reacionários da sociedade defendem. É uma imensa contradição!

    Quando falamos contra a miséria, contra as injustiças sociais, estamos defendendo quem afinal???
    Porque se a resposta for “principalmente o povão”, então não faz o menor sentido tratar justamente os filhos das pessoas mais pobres e ignorantes apenas com punições. Eles já vivem uma realidade extremamente violenta, sob todos os pontos de vista, desde que nascem! E, mesmo assim, ainda querem que sejam “comportadinhos” e “agradecidos” aos que, em tese, estão lutando por eles politicamente? Isso não faz sentido nenhum!!! E repito: não é nosso papel castigar, punir… Não somos juízes e nem promotores!

    Lutamos por todos que sofrem injustiças na vida, menos os nossos alunos “problemáticos”?????

    Fora essa visão, totalmente contraditória em relação aos ideais políticos de tantos, cansei de ouvir esse outro absurdo (na minha opinião), que vcs dois repetiram aqui: problema todo mundo tem e não é por isso que vamos aceitar agressões de alunos.
    Desculpa, gente, mas isso é o mesmo que esperar que alguém, que só foi tratado com porradas de todos os tipos na vida, desde criança, vá “contribuir” para que aulas mais “tranquilas” possam ser dadas!!! É quase o mesmo que pedir para um cego enxergar! É simplesmente impossível!!!

    Temos compromisso com o que o aluno traz pra dentro da escola sim! No caso que relatei, o rapaz estudava desde criança na escola, todos os seus amigos estavam lá, ele com certeza deu muitos sinais de que estava sofrendo abuso sexual na infância (o que é muito mais comum do que vcs imaginam) e a escola NUNCA fez nada a respeito!!! Tinha que ter chamado a família, o Conselho Tutelar, a vara da infância e da adolescência, entre outras medidas! Isso é obrigação da escola sim!!! E isso inclusive nos é passado (principalmente pra nós, pedagogos), pelas secretarias de educação, desde o início de cada ano letivo, pois a escola tem essa obrigação sim, por lei. São milhares as crianças que passam por isso e as escolas não fazem NADA a respeito!!!!!!!!!!! Da mesma forma que não fazem nada a respeito do bullying.

    Então, Declev, quando vc escreveu “E, muitas vezes, quando se muda de escola, o aluno também muda. (…) Sobre o seu exemplo, não acredito – não acredito mesmo! – que a escola tenha tido culpa em seu abandono do estudo. Ora, ele abandonou o estudo por si. A mudança de escola não era motivo para o abandono do estudo.”, o que posso te dizer é que viver em meio a violência desde cedo e ainda ser rejeitado e abandonado pela escola com que á familiarizado, leva o aluno às piores consequências, na maioria das vezes. E estou me referindo aos alunos das escolas públicas, principalmente.

    Mas é claro que, até mesmo por uma questão de defesa emocional, é mais fácil que nós, educadores, nos convençamos de que fizemos o melhor pro aluno lhe dando “outra oportunidade”!

    Quanto a homossexualidade não ser uma opção, deixei isso bem claro quando escrevi “opção” entre aspas. Abuso sexual na infância é um dos piores crimes que adultos podem cometer, seja hetero ou homo, claro!!! E eu não disse que o rapaz virou homo porque foi um homem que abusou dele, embora esse seja um assunto bem mais complexo do que parece à primeira vista, e com o qual lidamos muito na Psicologia Clínica (minha outra área de atuação), por exemplo. Mas a questão principal ali foi o abuso sexual, o que acho que deixei claro no meu texto, mas, se não ficou claro, espero ter conseguido fazer isso agora.

    Vc reparou, Luiz, que escreveu “nada me convence que no caso específico relatado no seu texto a decisão de afastar o aluno da escola foi a correta.”???? Tremendo ato falho esse, já que o que vc estava defendendo era que a decisão de expulsar o aluno tinha sido correta sim e, nesse caso, vc teria que ter escrito “nada me convence que no caso específico relatado no seu texto a decisão de afastar o aluno da escola NÃO foi a correta.” Nada te convence de que afastar o aluno não foi correto, já que considera expulsar alunos, que tenham sido agressivos, correto sim.

    Quanto a importância de saber o outro lado da história, isso é absolutamente FUNDAMENTAL, na minha opinião. É completamente INJUSTO punir um aluno com a expulsão sem querer saber nada do que o levou ao erro cometido! Só se ouve o lado dos adultos por que??? Isso sim é absurdo!

    Quanto a parte dos seus comentários, Declev, quantos dos vinte alunos, que vc viu serem expulsos, vc acompanhou depois, para ver se mudar de escola realmente os fez mudar pra melhor??? Posso questionar isso porque acompanhei muitos e a maioria esmagadora fica pulando de escola em escola até largar de vez os estudos. A escola que o empurrou pra isso cumpriu o seu papel social com eles? Claro que não! Só “empurrou” o “problema” pra outros profissionais (e eles, nossos colegas, que se danem???), de outras escolas. Apenas isso.

    Desde que a escola pública passou a atender a todos, tivemos que aprender a lidar, no dia a dia, com um público que vive violências extremas todos os dias e estamos sem saber lidar com isso até hoje!!! Mas É JUSTO QUE TODOS TENHAM DIREITO AOS ESTUDOS SIM! Então precisamos aprender!

    Podemos discordar totalmente em relação a esse assunto, nós 3 e outros mais que venham aqui se manifestar, e isso não é um problema pra mim. Não precisamos chegar a um consenso.

    Por favor, não levem meus argumentos pro lado pessoal, pois vcs já sabem o quanto os respeito e admiro como profissionais. Estou apenas, e mais uma vez, mexendo num vespeiro realmente, pois sei que quase 100% dos profissionais de educação no Brasil hoje, principalmente os professores, pensam como vcs, o que é noticiado quase que diariamente. Quem não é ouvido sobre isso não é o professor ou o pedagogo e sim o aluno!

    Mas estou acostumada a ser minoria e prefiro ser autêntica do que fingir que concordo com coisas que vejo e com as quais não concordo nem um pouco!
    Não precisamos concordar.

    Abraços,
    Regina Milone.

    • Oi Regina,

      Eu nunca levo para o lado pessoal.

      Sei que pensamos diferentes em certas coisas, iguais em outras.

      A diferença entre nós e entre outros que eu também penso diferente, é que nós, mesmo assim, estamos do mesmo lado.

      Eu vi o ato falho do Luiz, achei engraçado.

      Não, eu não acompanhei todos, soube de alguns. Mas o que eu sei é que as turmas das quais eles saíram melhoraram. Os alunos aos quais eles atrapalhavam, gostaram. Os professores aos quais eles estressavam, puderam trabalhar melhor.

      O direito de um aluno continua, mas ali, naquela escola, deve terminar assim que ele não deixa os outros alunos terem cumpridos os alunos deles.

      Tenho alguns alunos assim, ainda, especialmente na escola de Niterói. Alunos que já fizeram muito, inclusive chamar professor de filho da puta.

      Por exemplo, o que você acha melhor: eu dar uma aula de melhor qualidade para 26, ou dar uma aula medíocre e sem aproveitamento para 30, porque tenho que, a toda hora, chamar atenção, tomar conta, brigar, separar, consertar besteiras que 4 ficam fazendo.

      Sei que o assunto é polêmico, mas defender os direitos das minorias – no meu caso, alunos pobres e em sua maioria negros – passa pelo rompimento ou estiramento de alguns pensamentos.

      O que fazer com estes alunos é uma questão que a escola, sozinha, como eu disse, não está conseguindo responder.

      Quanto a questão da homosseuxalidade, obrigado pelo retratamento. Entre aspas fica sempre dúbio. Essa questão em seu texto, inclusive, me foi apontada por um amigo.

      abraços,

  4. Que ótimo que vc me entendeu, Declev!
    Porque sei que sou incisiva e, algumas vezes, soo agressiva (mesmo sem querer), mas minha intenção foi a melhor possível quando escrevi esse texto, pois acho realmente fundamental que conheçamos bem o outro lado da moeda, antes de partirmos para medidas punitivas.
    Não sou a favor de passar a mão na cabeça, dizer “coitadinho” e deixar por isso mesmo. Sou a favor, isso sim, de conhecermos melhor os nossos alunos, o nosso público, e buscarmos juntos, a partir daí, novas soluções. O que vi até hoje me fez acreditar que simplesmente expulsar um aluno da escola não resolve nada. Muitas vezes a escola é o único lugar que ainda está impedindo, de alguma forma, que ele caia de vez na marginalidade. Isso é um fato diante do qual não podemos ficar indiferentes!
    Quanto ao número de alunos por turma, tinha que ser muito menor. Sempre falo isso. Acho impossível dar boas aulas e estimular os alunos, especialmente os mais difíceis, com turmas lotadas, salas de aula quentes, mal iluminadas, “depenadas”, enfim… Não é justo nem o professor e nem o aluno passarem por isso!!! Portanto, respondendo a sua pergunta, acho que turmas bem menores ajudariam a resolver grande parte dos problemas sim, mas inclusive os problemas relacionados aos alunos mais agressivos, desrespeitosos e agitados. Nessa luta, por turmas bem menores, eu me engajo/engajaria. Mas na luta pela punição, pura e simples, aos alunos “difíceis”, não me engajo de jeito nenhum, pois acho um erro tremendo lidar dessa forma com essa situação. Quando a escola age assim, pode estar empurrando de vez no precipício vários alunos que poderiam melhorar com a atenção adequada. Mas é claro que em turmas lotadas fica impossível dar essa atenção, infelizmente…
    No caso que contei, o aluno nem se rebelou, porque concordou comigo quanto a ter errado totalmente com a profª e, por isso mesmo, pediu desculpas a ela e não fez isso só da boca pra fora. Mas ela bateu o pé – “ou eu ou ele!” – e a escola o expulsou… Com a autoestima abaixo de zero, de quem sofreu abuso desde a infância, aquilo só serviu pra ele achar que não tinha lugar pra ele na sociedade mesmo. E o rapaz não tinha histórico nenhum de violência na escola! Respeito muito aquela profª, mas acho que foi rígida demais, porque no caso dele aquele tipo de agressão à professores nunca havia acontecido antes. E não duvido que um certo preconceito disfarçado, uma certa homofobia, tenha sido um dos motivos que acabaram levando tanto a profª quanto a diretora a decidirem expulsá-lo.
    Algo que todo mundo que trabalha com Educação tinha que aprender, por exemplo, é que a tendência da criança é achar que ela é que teve culpa daquela violência que sofreu (no caso do rapaz, o abuso sexual) e que ela deve merecer aquilo porque tem alguma coisa de errado nela… Isso acontece muito quando os pais se separam também: a criança sente como se fosse culpa dela. É assim que reage o psiquismo de uma criança e, em parte, de um adolescente também. E acho incrível como esse conhecimento não faz parte FUNDAMENTAL dos currículos de formação dos profissionais de educação, que vão lidar justamente com crianças e com adolescentes! Fico pasma com isso.
    Quanto a outros alunos apoiarem a expulsão de colegas, o que aconteceu em casos que vc acompanhou e não no que contei aqui, não é surpresa alguma pra mim. Eles, nossos alunos, são criados, em casa e na escola, pra só conseguirem pensar em termos de “punição ou recompensa”. Aprendem, desde cedo, a odiar, confundir vingança com justiça, temer o que é diferente, achar que escola é lugar pra entrar mudo e sair calado.. e por aí vai. Quando me referi a ouvir mais os alunos, estava falando principalmente daqueles que parecem “impossíveis” e que todos querem “se livrar logo”. Mas é preciso ouvi-los individualmente e não diante de todos os colegas na sala de aula, porque, se for do tipo agressivo, isso só vai aumentar sua agressividade, será reativo, grosseiro, se sentirá humilhado e ameaçado e não confiará nem um pouco no adulto (professor, pedagogo…) que está tentando se aproximar. Anos e anos de vida sofrendo ou assistindo todo tipo de violência causa isso. Não vai ser da primeira, segunda ou terceira vez que ele vai se abrir. Não mesmo! Mas, porque é difícil, porque dá um trabalho danado, é melhor então desistir dele e pronto??? Eu acho que não. Sempre trabalhei na contramão disso e consegui alguns ótimos resultados em relação ao comportamento de alunos que levavam o rotulo de “impossíveis” dentro da escola e muitas vezes, dentro da família também.
    Se o custo pra uma turma ficar mais calma é desistir de vez de 3 ou 4 alunos que perturbam demais as aulas, eu não apoio nem apoiaria. Mas tirar de sala de aula, chamar os pais, levar advertência e até ser suspenso, dependendo do caso, acho que pode ajudar sim. Mas expulsar? Só em “ultimíssimo” caso!
    Abraços, meu amigo…

  5. Declev, me dei conta, relendo tudo que escrevemos aqui, de outra incoerência tremenda. Vc escreveu: “(…) Sei que o assunto é polêmico, mas defender os direitos das minorias – no meu caso, alunos pobres e em sua maioria negros – passa pelo rompimento ou estiramento de alguns pensamentos. (…)”. Vc diz defender as minorias, mas o que são os alunos que são expulsos??? Por acaso são menos pobres ou menos negros??? Eles sim são a minoria das minorias!!! E, vc dizer que as turmas melhoram com a saída deles, é optar pela maioria (pelos alunos que, aparentemente, tem interesse nas aulas ou são tímidos demais pra mostrar que não se interessam não…) e não pensar nas minorias! Isso é evidente!!!! Consegue perceber a enorme contradição??? Vc defende sempre os professores contra rótulos que muitos tentam colocar neles – e, nessa luta, estou com vc -, mas faz o mesmo com os seus alunos!!!!!!!!!!!!!!!! Seu discurso de expulsar os “alunos problemáticos” é segregador e discriminatório, do mesmo jeito que também são os que discursam contra os professores, colocando neles todas as culpas da educação estar do jeito que está!
    Reflita com calma sobre isso. Acho que ganhamos muito quando percebemos nossas contradições.
    E olha que de minorias posso falar muito, já que faço parte de várias delas – sou mulher, mãe solteira, sempre debati de igual pra igual com os homens sobre tudo (o que deixa muuuuuuitos irritados e, nesses casos, o machismo aparece com força total), entre outras coisas que prefiro não citar aqui. Além de ter sido a “melhor aluna da turma” minha vida inteira, nas escolas e universidades onde estudei, o que causava inveja em muitos, entre outras coisas – sofri bullying a minha infância inteira!!! Me chamavam de CDF, poste, Olívia Palito, garça… entre outros apelidos mais humilhantes. Só não me transformei numa aluna agressiva, durante a infância e a adolescência, porque era tímida demais pra conseguir isso. Mas sofria por dentro; e muito! Mas, nas universidades, já mais madura, consegui mudar e passei a participar ATIVAMENTE de tudo o que acontecia, inclusive de discussões acaloradas! Tenho certeza que, se eu tivesse feito isso em tempos de escola, teria sido criticada por muitos professores!
    Enfim…
    Se a escola é direito de TODOS, isso inclui os alunos “difíceis”!!!!!!!!!!!!! E, repito o que anos de experiências, minhas e de colegas, me mostraram: excluir esses alunos é continuar fazendo o jogo do sistema, que sempre viveu da exclusão. Lutar CONTRA alunos pobres, especialmente crianças e adolescentes, em relação aos quais geralmente as famílias e as escolas já estão errando há anos, é o cúmulo da covardia e da injustiça!!! Temos que lutar POR eles e não contra eles!!!!
    Pense sobre isso.
    Abração.

    • Regina, as minorias, neste caso, são todos os alunos. Sim, os problemáticos estão dentro.

      Não defendo e nunca defendi a expulsão pura e simples.

      Mas, chega-se a um ponto que, sim, esta é a única saída. Esta é a questão. Chega-se a este ponto. E eu vivo este ponto. E este ponto em que esta é a única saída chega-se depois de esgotados todos os recursos que a escola tem hoje. Ou se dá mais à escola, ou não se chega além disso.

      Isso ocorre depois de anos e anos daquele aluno na escola. Como eu disse, eu vivo isso diariamente. Por exemplo, até chegar ao nível das ameaças a colegas e a professores, a xingar professor de filho da puta, como está sendo o caso atual.

      Estou escrevendo um artigo sobre isso e colocarei o link aqui nos comentários, pra continuarmos a discussão.

  6. E só mais um detalhe, pra quem estiver lendo o artigo e o que foi debatido depois: sabiam que a professora que foi espancada (citei no início do meu texto aqui) chamou o aluno de DEMÔNIO antes dele partir pra cima dela???
    Quantas vezes ela já tinha chamado ele ou outros alunos de demônio ou coisas do gênero????
    Ah, mas professora xingar aluno pode (cansei de vei isso acontecer!!!). Aluno reagir, ainda mais com violência, não pode.
    É óbvio que não estou defendendo o espancamento, mas sim mostrando, mais uma vez, que toda história tem no mínimo dois lados e que muitas coisas tem origem lá atrás, anos antes, em que, muitas vezes, a escola nada fez para entender a agressividade daquele aluno e tentar melhorar a situação, para que ele não chegasse ao ponto de violência contra os outros ao qual chegou na adolescência.
    Ah, mas a violência a que aquele aluno esteve exposto desde que nasceu, isso pode também. Não é “problema da escola”, certo? Contanto que ele não seja agressivo por causa disso (vai que dá sorte dele não ser, né?… ao contrário do caso desse aluno que bateu na professora), tudo bem.
    Que tal só matricularmos os alunos que se comprometerem a ser quietinhos o tempo todo??? Aí vai ficar “mamão com açúcar”! Vai ser mole dar aula e cumprir qualquer outra função dentro da escola assim.
    Mas, cuidado, colegas educadores, pois esses que estão sendo excluídos agora, serão os mesmos que poderão assaltar ou até fazer coisa pior com vocês, comigo ou com alguém das nossas famílias um dia (Deus me livre de um horror desses acontecer, mas, se acontecer, terá sido tragédia anunciada, infelizmente…).
    Parece mais fácil expulsar e pronto, com cada educador dizendo pra si mesmo que foi feito tudo que se podia fazer.
    E alguns ainda defendem a prisão deses menores!!! Isso me deixa tão indignada que já me deu vontade de perguntar: por que não se faz logo uma câmara de gás, bem nazista mesmo, e mata todos os alunos “problemas” (só falta isso!) de todas as escolas de uma vez??? Mas é claro que seria preciso matar muitos todo ano, pois o problema iria continuar e, possivelmente, até se agravar!!!
    Pode parecer que estou tendo uma reação exagerada, mas diante de tudo que já vi e ouvi, não tenho como não me indignar! Não dá pra falar desse assunto friamente, pois envolve muita dor, de muita gente – especialmente de alunos e de professores -, o que gera muitas reações emocionais realmente.
    Desculpem, mas é difícil manter a paciência diante de erros (na minha opinião são erros) tão gritantes, e que se repetem ano após ano nas escolas!
    E, enquanto isso, os professores e demais profissionais da educação vão continuar falando, reclamando… Suas falas vão continuar sendo publicadas sim, de forma sensacionalista ou não… Mas quem ouvirá os ALUNOS?????????????? Porque agora só se fala das mazelas dos professores – e muitos professores ruins tem se escondido atrás desse discurso, infelizmente, junto com aqueles que são verdadeiramente bons profissionais – mas onde os alunos, especialmente os mais criticados, estão sendo vistos e ouvidos de verdade???
    O que vejo é que eles NÃO ESTÃO sendo verdadeiramente vistos e nem ouvidos há muito tempo. E como não existe um movimento estudantil forte hoje em dia, ficam sem representação nenhuma.
    Me desculpem pelas ironias e pela falta de paciência, mas é verdadeiramente infernal ver com tanta clareza coisas que deveriam ser óbvias para os educadores, mas que, infelizmente, não são… Me sinto muito sozinha nessas horas. Por isso acabei desabafando aqui…
    É muito triste ver esse quadro todo só se agravar, ano após ano…
    É deprimente…

  7. Eu também vivi a chegada a esse ponto diariamente, Declev, por muitos anos! Realmente ficamos sem saber o que dá pra se fazer ainda, muitas vezes… Mas a escola desiste antes de buscar outras soluções e isso eu vi demais!
    Parei de trabalhar em escolas há pouco tempo, como vc sabe. Tenho muita experiência nisso, assim como vc. Então também posso falar a respeito e sei que vc entende bem isso e sempre respeita os meus pontos de vista, assim como respeito os seus, tanto quando concordamos quanto quando discordamos.
    Mas, falar através de outros olhos, outros ângulos de visão e não sempre pelo mesmo, é algo que tive a chance de viver e desenvolver, pois trabalhava ouvindo sempre todos os lados, por exercer durante anos a função de orientadora educacional, pedagoga, nas escolas públicas. E isso me proporcionou uma visão muito ampla das coisas.
    Professor e aluno não devem se xingar, claro (no caso da professora agredida, da notícia citada, ela havia chamado o aluno de demônio, antes dele partir para a agressão; não justifica o tamanho da agressão, mas saber que ele reagiu à uma agressão verbal com uma agressão física explica melhor muita coisa)! Acompanhei mil vezes alunos sendo xingados por professores e por outros profissionais da escola, muitas vezes na minha frente!!! E, com esses professores, inspetores, diretores, etc., NUNCA acontecia nada!
    Quando vc diz “E este ponto em que esta é a única saída chega-se depois de esgotados todos os recursos que a escola tem hoje. “, eu repito: isso não é verdade. Não estou dizendo que você está mentindo; não é nada disso. O que estou dizendo é que a escola NÃO parte para a expulsão de alunos depois de esgotados todos os recursos não! Mas não mesmo!!! E isso acompanhei tantas e tantas vezes que poderia escrever milhares de artigos a respeito.
    O que é passado para os professores, geralmente pela Direção da escola, é que a escola fez tudo o que podia (não fez!) e os professores acreditam e pronto. Mas não é verdade. As conversas com a família do aluno, só pra citar um exemplo do “tudo” que a escola faz, quando acontecem e quando a família comparece, são da forma mais anti-profissional que vc possa imaginar! São um misto de ignorância, preconceito, falta de conhecimento, conselhos infantis, visões descontextualizadas, crenças religiosas, entre outras coisas desse tipo. Segue-se o senso comum e só. Não seria preciso nem ser alfabetizado para fazer isso! É falta de profissionalismo sim, na minha opinião.
    Infelizmente, quando temos a oportunidade de realmente observarmos e ouvirmos todos os lados, vemos que a questão é muito mais complexa e profunda…

  8. Regina gostaria de saber uma coisa, vc ‘e contra ou a favor diminuir a maioridade penal?

  9. Elisa, você leu todos os comentários ou só o artigo?
    Pergunto porque, se leu tudo, minha opinião sobre o assunto que está perguntando já está bem clara. Sou TOTALMENTE CONTRA baixar a idade da maioridade penal, claro!!!!!!!!
    Isso não é “solução” pra nada e é, isso sim, fruto de violência, preconceito, ignorância e desejo de vingança!
    Ou a gente conversa de forma adulta e profissional sobre esse e outros assuntos, ou deixamos que os que não raciocinam e os que tem pouca inteligência e pouquíssima sensibilidade lutem por uma lei covarde como essa. É assim que vejo esse quadro.
    E isso sem contar o fato de que o adolescente que iria pra cadeia seria o negro, pobre e favelado, claro! Acho nosso país bastante racista, conservador e cheio de “falsos moralismos”.
    Pediu minha opinião, Elisa? Pois espero tê-la deixado bem clara agora. Mas, repito: se você tivesse lido os comentários, já saberia qual a minha posição política sobre isso. Os que querem sempre “castigos” como forma de “solução” pra questões como essa, nunca terão a minha solidariedade ou o meu apoio.
    Um abraço.

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