Em que estado encontram-se as escolas públicas em nosso país, no que diz respeito à manutenção do espaço físico?

Lendo um dos últimos textos do Declev aqui, só posso concordar com sua indignação em relação ao espaço físico das escolas e sua (falta de) manutenção. É um completo absurdo!!! Por isso estou escrevendo esse texto, para reforçar o que ele escreveu.

Várias vezes, em várias escolas, tive que lidar com: infiltrações, rachaduras nas paredes, pichações, falta de material didático e de espaço adequado para guardá-los, ventiladores que não funcionam, janelas quebradas, problemas elétricos…

Certa vez, eu estava com uma turma de 6º ano quando começou a PEGAR FOGO na sala ao lado, por causa de um curto que deu no ventilador de lá, que já estava dando choque há um tempão (já havíamos notificado e pedido providências à Secretaria de Educação várias vezes). Muita fumaça, gritos, mas todos acabamos conseguindo sair, mesmo assim. Tentei frear o pânico, o que foi bem difícil naquela situação, pois os alunos ficaram, com razão, muito assustados. O que salvou a todos foi o extintor de incêndio do carro da professora Cristina, que ela pegou rapidamente para apagar o fogo. A presença de espírito daquela professora (que era uma excelente profª de ciências), salvou a todos. A escola não tinha extintor!!!!!!!!!!!!! E cada sala de aula só tinha uma porta para servir tanto de entrada quanto de saída. Por isso, mesmo estando na sala ao lado, saímos tendo que passar pertíssimo do fogo, já que as portas eram coladas uma na outra e o ventilador que pegou fogo era logo o que ficava mais perto da porta!! Imaginem o perigo que passamos!!!

E um último detalhe sobre esse caso do fogo no ventilador: todas as janelas eram gradeadas lá, nas salas de aula, e, portanto, a única forma de sair era realmente pela porta, onde justamente a fumaça era maior e o fogo começava a se espalhar…
Será que terá que acontecer um incêndio maior, como o da boate em Santa Maria (RS), com morte de jovens, para tomarem alguma providência em relação ao estado do espaço físico das escolas???
Parece que as coisas só funcionam assim em nosso país! E, mesmo assim, só enquanto aquilo é notícia, pois depois todo mundo esquece.

Outro caso do tipo, menos grave, que assisti acontecer: um quadro negro enorme (daqueles antigos mesmo, onde só se usa giz, e que ainda são maioria nas escolas públicas do país, causando problemas respiratórios e alérgicos em alunos e professores, muitas vezes, entre outros males), durante uma aula, simplesmente caiu com um enorme estrondo, quase em cima dos pés da professora. Passou raspando. Era um quadro pesado. A parede por trás dele estava cheia de infiltrações, claro. A professora teve que encostar o quadro na parede, apoiado no chão, para poder continuar a aula, tendo que se agachar para poder continuar escrevendo alguma coisa nele.
Onde vão parar as verbas, já mínimas, para a educação???
Cansamos (nós, profissionais das escolas) de enviar ofícios, telefonar, pagar até do próprio bolso (muitas vezes), entre outras providências, para buscar soluções para problemas como os citados aqui.
Essa é a realidade das escolas públicas e teríamos que acionar o Ministério Público todos os dias, se apelássemos apenas para esse tipo de “solução”.
As mil etapas burocráticas pelas quais uma obra na escola tem que passar até um problema, muitas vezes simples, poder ser resolvido é um absurdo!!

Dei apenas dois exemplos aqui, mas poderia dar milhares! O que acontece é uma violência sem tamanho! Um descaso político de deixar qualquer educador, verdadeiramente comprometido com uma educação de qualidade, totalmente indignado!

Alguém poderá dizer, ao ler esse texto: mas é a própria comunidade que depreda a escola! Nem sempre. Muitas e muitas vezes não é. E, quanto é a comunidade, o que podemos fazer é continuar trabalhando no sentido de educar alunos e pais em relação ao significado do que é público: aquilo que é de todos e, portanto, responsabilidade de todos também, e não aquilo que não é de ninguém, como os depredadores costumam pensar ao destruírem partes das escolas.

E vocês, que estão lendo esse texto, o que já viram e viveram nas escolas em relação a essas questões???

É uma vergonha o que acontece nesse nosso país de absurdos…

Abraços,

Regina Milone.

Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio de Janeiro, 23 e março de 2013.

 

2 comentários sobre “Em que estado encontram-se as escolas públicas em nosso país, no que diz respeito à manutenção do espaço físico?

  1. Muitas vezes as pessoas comentam os artigos aqui do blog lá no facebook. De vez em quando, transcrevo pra cá, pra que todos que não usam facebook ou não são meus conhecidos lá, possam ler e participar da discussão, se quiserem.
    Recebi o comentário abaixo de Luciana Jacques de Moraes, psicóloga:

    Regina, é muito triste e revoltante ler o seu relato… e, mais ainda, saber que não são fatos isolados…. e muito menos só das escolas… os hospitais públicos também passam pela mesma degradação! E quem sofre somos nós, seja enquanto profissionais (a comunidade também trabalha nesses locais) ou usuários (nós também somos usuários, dependendo do momento) desses serviços… mas o bem público é terra de ninguém aqui… quando deveria ser o contrário… pq todos somos responsáveis… se cada um fizesse a sua parte, a começar pelos políticos, eleitos pra nos representar, as coisas funcionariam de outra forma… problemas continuariam existindo, mas seriam buscadas soluções! Quanto à comunidade não cuidar… por um lado, não se pode esperar que eles tenham essa consciência, já que não vêem a contrapartida do poder público… mas também não podem ser vistos como coitadinhos, pois isso também ajuda a perpetuar a exclusão social… quando querem, sabem se organizar pra reivindicar e cuidar do que é do interesse deles… além disso, pensando assim, estamos nos excluindo, já que também somos parte do povo! Bjs

  2. Respondi o seguinte, ao comentário acima da Luciana Moraes:

    Pois é, minha amiga Luciana Jacques de Moraes… Os primeiros a dar o mau exemplo são justamente os políticos, que se utilizam do que é público só em discursos de campanha, quando prometem rios e fundos para a Educação, para a Saúde… É revoltante! Onde vão parar as verbas, que já são tão poucas, da Saúde e da Educação? Como dizer que estar tudo depredado é só “culpa” do povo, dos usuários que pagam impostos, se quem deveria ser referência só faz roubar, levar vantagem, enganar, iludir…? É tudo muito triste mesmo. Injusto. Fico realmente indignada e me sinto parte, como vc bem colocou, e não fora. Somos povo também, claro! Tivemos a chance de estudar em boas escolas, pagar um bom plano de saúde, mas, se pensarmos bem, o trato com a coisa pública afeta a todos nós, pois também são os impostos que pagamos que acabam no bolso dos tantos pilantras da nossa política, impostos esses que deveriam estar sendo utilizados para melhorar o que é público, isto é, o que é de todos nós. O Brasil nunca poderá dizer que é realmente um país civilizado enquanto esse quadro perverso de injustiça social continuar, enquanto a Educação e a Saúde públicas continuarem do jeito que estão, enquanto tivermos que pagar escolas particulares e planos de saúde para ter algo que, na verdade, deveria ser de fato (e não só na constituição) direito de todos, e que, portanto, deveria ser gratuito, como é em outros países. Só posso te dizer que, quando trabalhamos dentro dessa realidade dos excluídos, vemos o quanto o lado “sombra” (pra usar uma expressão junguiana) do Brasil é deprimente, em todos os sentidos. E concordo que sermos paternalistas, chamarmos de “coitadinhos” não é o caminho. Mas fingir que quem já nasceu e sempre viveu nesse Brasil dos excluídos pode conseguir virar o jogo se quiser, se realmente se esforçar… isso é papo pra boi dormir! É a lógica do capitalismo: “quem se esforça pra valer, tem sucesso na vida”. Mas isso é falso, o que fica bastante claro quando vemos de perto o fato de que as pessoas não partem de oportunidades iguais para todos. Estamos longe disso. Então, desse jeito, a injustiça social vai se perpetuar, com todas as desigualdades gritantes e com todas as consequências que ela traz. É triste demais…

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