Sugestão: alternância entre professores e demais educadores na escola

Em que um rodízio dos profissionais das escolas poderia contribuir para melhorar a educação?
Como cada grupo vê o aluno e a escola?

Uma das coisas que sempre tive vontade de fazer nas escolas em que trabalhei foi uma espécie de rodízio entre profissionais, por pelo menos um mês, em que professores de pré-escolar, do ciclo de alfabetização, das séries do antigo “primário” – até o 5º ano de escolaridade –, do antigo “ginásio” (6º ao 9º ano, atualmente) e do antigo 2º grau (Ensino Médio), além dos funcionários de apoio, administrativos (secretaria da escola), pedagogos, supervisores e direção trocariam de lugar e, alternadamente, sentiriam na pele o que é cada função dentro da escola e o quanto cada uma tem imensas dificuldades para “funcionar” decentemente nas sub-condições em que a escola pública se encontra, há muitos anos, em nosso país.

Vocês podem se perguntar: mas por que faríamos isso? Não seria prejudicial aos alunos, já que eu não tenho “formação” para cumprir outra função diferente da minha?

Respondo que seria tremendamente enriquecedor para todos e uma excelente experiência também para os alunos.

Acho que talvez fosse a única forma de abrir a mente dos que só reclamam do que vêem do seu ponto de vista, esquecendo-se de que essa NUNCA é toda a verdade, já que outros pontos de vista existem, vindos de diferentes olhares e práticas dos vários profissionais das escolas.

Por exemplo: os professores de 5º ao 9º ano de escolaridade e os de Ensino Médio aprenderiam muito (se estivessem abertos para isso, claro, senão não adiantaria nada) trabalhando como professores de crianças pequenas durante um tempo, assim como na pele dos pedagogos e da direção, geralmente tão criticados por eles.  E assim seria para cada profissional que esquece que o seu ângulo de visão é justamente e apenas isso: um dos ângulos por onde se pode enxergar e refletir sobre a realidade da educação.

O fato desses profissionais não trocarem ideias e experiências, não terem tempo ou vontade para fazer isso, origina-se e resulta na mesma forma falsa com que se divide o conhecimento em “disciplinas” (matérias) “x”, ‘y” ou ‘z”, como se não houvesse relação entre elas ou raízes comuns: uma forma “torta”, que fragmenta saberes – que ficam parecendo totalmente sem sentido para os alunos, com razão! – e que, no entanto, são interdependentes na vida. Só por sermos todos frutos desse tipo de “ensino” conservador, chato e artificialmente separado (desintegrado) é que achamos que as funções dentro das escolas não devem se “misturar”. Mas elas funcionam juntas na escola e na vida! Uma depende da outra. Chegar à escola, cumprir com o mínimo de suas “obrigações” e ir embora só ajuda a manter esse quadro artificial e falido. Só desestimula mais ainda os alunos e os próprios profissionais da educação.

Sonho com o dia em que esse rodízio será feito, assim como sonho com o dia em que todos os profissionais de educação se respeitem e saibam um pouco mais o quanto também é difícil “funcionar bem” dentro dessa (des)estrutura existente para cada um deles.

Não é difícil só para os professores e nem só para os alunos. É difícil para todos!

Deixar a vaidade de lado e perceber que a instituição escola é muito mais do que apenas uma relação professor-aluno poderia trazer inúmeros “insights”, amadurecimento, união e, aí sim, poderíamos dar alguns passos juntos ao invés de tantos continuarem repetindo eternamente as mesmas velhas palavras de ordem enquanto que outros ficam em suas “abas”, pois nem refletir refletem (deixam que aqueles que parecem mais “politizados” façam aquilo por eles)!

Esse rodízio só deixaria de ser necessário, a meu ver, no dia em que as formações de professores, pedagogos, etc., fossem mais completas, incluindo esse aprendizado sobre como é a realidade de cada um que trabalha direta ou indiretamente com/nas escolas O resto é apenas repetição, repetição, repetição…

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Abraços,

Regina Milone,

Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio, 04 de março de 2013

4 comentários sobre “Sugestão: alternância entre professores e demais educadores na escola

  1. É, sem dúvida, uma ideia interessante, porque haveria então a visão do todo, de continuidade das práticas e conteúdos do ensino pelos profissionais na escola. Os PCNs não trazem exatamente essa ideia, mas reforçam sempre a necessidade da interdisciplinariedade dos conteúdos, o que certamente se aproxima da sua sugestão de romper com certas divisões em nome da vaidade ou do individualismo; mero egoísmo de muitos profissionais. O difícil, Regina Milone, é que todos aceitem esse desafio, despidos de mecanismos de defesa e de críticas negativas. Mas, apreciei sim essa ideia. Vamos repassar!

  2. Talvez seja meio utópica, Suely Andrade, mas muitas mudanças partem de sonhos e ideias aparentemente utópicas.
    O grande problema seria exatamente o que vc apontou: a disponibilidade e abertura real dos profissionais para viverem essa experiência e aprenderem com ela. Inclusive essa vivência coletiva ajudaria muito os alunos a lidarem com a diversidade, diminuírem o bullying contra colegas, compreenderem por outros ângulos a pluralidade em que vivemos… Mas a vaidade e o individualismo imperam e mesmo os que se dizem socialistas e apontam essas coisas como parte do capitalismo, não percebem o quanto são assim também – vaidosos e individualistas -, muitas vezes, em suas posturas diárias, infelizmente.
    Não acredito em grandes mudanças externas, sociais, sem grandes mudanças internas primeiro e, pra isso, pra ir além do seu mundinho, se colocar verdadeiramente no lugar do outro e ter humildade para aprender com cada um, é preciso ter autocrítica, autoconhecimento, etc.
    Realmente a sugestão que dei só funcionaria se os profissionais estivessem abertos para aprender e não presos a seus conceitos, preconceitos, ideologias, mecanismos de defesa, etc. O medo de sequer olhar com outros olhos e ouvir sem sair direto interpretando e/ou reagindo emocionalmente, mostra o quanto tantos estão aprisionados por suas próprias ideias e visão de mundo, como se fossem bengalas das quais não podem largar nem por um segundo para não “cair”. Lamento por isso ser tão comum…
    Mas ao menos pra sonhar somos livres, certo?!…
    Obrigada por ter lido o meu texto e deixado seu comentário, perspicaz e pertinente, aqui.
    Volte sempre!
    Beijos…
    Regina.

  3. Querida Regina,você sabe que o meu foco não é a Educação,mas achei muito interessante e pertinente todas as suas colocações e proposições no tema. Curioso que ao ler seus “sonhos utópicos” para a Educação, foi impossível não fazer um paralelo com todo o processo do saber médico, da saúde – principalmente no campo da saúde mental – e de nossa longa luta de trabalharmos de forma multidisciplinar e interdisciplinar. Já avançamos em alguns pontos, mas ainda estamos engatinhando em muitas áreas (está aí o Ato Médico para nos provar isso). O que quero deixar pra você é uma palavra de incentivo de que, assim como na Psicologia ainda estamos engatinhando, na Educação, esse seu artigo pode ser a semente que está sendo lançada num solo fértil, no coração de vários profissionais que compartilham da mesma visão e sonho que você. Não desanime. Regue e cuide dessa semente. Um dia você colherá os frutos do que você está plantando hoje.
    Parabéns! Tenho orgulho de ter conhecido, estudado e aprendido com um ser humano tão maravilhoso como você. Bjs.
    Rosangela Frohe

  4. Puxa, Rosângela… Muito obrigada!!!!!!!
    Posso dizer, em relação a vc, o mesmo que me disse!

    Não estou mais trabalhando em escolas, mas Educação é um assunto sobre o qual tenho muito pra compartilhar – anos de experiência, saberes, aprendizado, dúvidas… -, e, por isso, sinto que estou encontrando, aos poucos, uma outra forma de ser útil nessa área. A situação da educação em nosso país é algo que continua a mexer muito comigo!!!

    Mas continuo bastante dedicada à Psicologia Clínica, adoro o que faço e sinto muitas saudades de tantas pessoas incríveis que me marcaram no tempo da faculdade – vc é uma delas, com certeza!!! -, assim como me sinto grata por ter podido me desenvolver nessa área que também amo. Sinto que consigo ser mais útil podendo dar essa atenção individualizada a cada um que está sofrendo e que me procura. Muito antes da formação em Psicologia, já fazia isso, naturalmente.

    E vejo muitos pontos em comum entre as minhas duas áreas de atuação – Pedagogia e Psicologia -, especialmente no que diz respeito à necessidade de se repensar e reestruturar as formas de relacionamento dentro das instituições: escolas, hospitais e hospitais psiquiátricos. Por serem relações difíceis, carregadas de projeções, idealizações, sonhos e frustrações, acho que praticar um pouco o “estar no lugar do outro”, olhar por outros pontos de vista, aprender com as semelhanças e com as diferenças, compreender melhor as dificuldades e delícias de cada função, ajudaria muito na melhora dos relacionamentos entre os diversos profissionais da instituição. Acho que o que escrevi, o sonho que expus aqui nesse artigo, vale não só pro ambiente escolar, mas também, como vc bem viu, para as instituições da área de Saúde. Seria uma oportunidade de grande crescimento para todos!

    Muito obrigada por ter lido e comentado meu artigo, com tanta sensibilidade e carinho!

    Saudades de vc, minha querida…

    Beijos,
    Regina.

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