Escola pública ou particular?

Na última semana, duas notícias me chamaram a atenção. Uma dizendo que a nota da escola no Enem está ligada à condição socioeconômica dos alunos. A outra mostrava quanto custa matricular seu filho nos dez melhores colégios do país. Ambas me fizeram refletir novamente sobre as diferenças entre as escolas particulares e as públicas.

A divulgação dos resultados da avaliação dos alunos do Ensino Médio sempre desperta o famoso caminho das interpretações dos números. A imprensa em peso destaca um ponto em especial – a melhor média de notas das escolas particulares, comparando-as com as escolas públicas. Isto é um fato! Agora, fazer disso uma base para afirmar que a escola particular é melhor que a pública é uma farsa. Isso não é uma verdade.

Como todos nós sabemos, os números são frios e são as pessoas que o manipulam de acordo com o que querem defender. Qualquer um que não esteja envolvido com a educação “por dentro” não deveria levar os dados ao pé da letra. De fato, das 100 melhores notas no Enem-2010, apenas 13 são públicas (sendo todas federais – militares, Caps ou técnico). Se o número subir para as 1.000 primeiras o resultado é ainda pior – apenas 74 são da rede pública.

Concordo que o primeiro pensamento de um pai de aluno deve ser o de que seu filho deve estudar numa escola particular, pois as escolas públicas são “piores”. A sociedade como um todo, inclusive os jornais, fizeram essa interpretação. Tenho que dizer que estão enganados.

Sou um defensor da escola pública. E mais, acho que o ensino particular é um reprodutor das desigualdades sociais. TODAS AS ESCOLAS DEVERIAM SER PÚBLICAS. Desta forma, eu duvido que faltariam recursos e garanto que o ensino seria de qualidade, pois os setores influentes da sociedade teriam seus filhos estudando lá. (o senador Cristovam Buarque propôs uma lei semelhante)

Para ir direto ao ponto, o que quero defender é que a diferença entre a escola pública e privada é a condição social do aluno. PONTO FINAL. Nada mais do que isso! Se fizermos uma experiência e colocarmos todos os alunos do São Bento (melhor média no Enem-2010) para estudar numa escola pública por vários anos e aplicarmos a mesma fórmula ao inverso, ou seja, colocarmos estudantes do ensino público como alunos do São Bento, teríamos os primeiros obtendo as melhores notas, sem dúvida. E eu explico. O que faz o aluno do São Bento tirar notas mais altas hoje não é SOMENTE o fato de estudar em um colégio particular. Os professores do São Bento não são mágicos em transformar qualquer um em gênio. Eles recebem uma grande ajuda de todo um contexto que envolve a vida do seu aluno – acesso à informação (livros, revistas, TV por assinatura, internet…), a bens culturais (museus, teatro, cinema…) e a cursos (inglês, informática…), estudo em tempo integral, uma família que cobra (afinal de contas, não se gasta mais de 2.000 reais por mês, valor pago no São Bento, para deixar o filho brincar na escola), enfim, existe todo um universo de fatores conspirando pelo sucesso deste aluno.

Na outra face da moeda vive um jovem que passa 4 horas na escola, tem que trabalhar (em muitos casos, sobretudo no Ensino Médio), não tem dinheiro ou não possuí um ambiente que estimule o acesso aos museus, teatros, bibliotecas, etc. Ele vive em uma família completamente sem estrutura. Os pais não tem estudo, são empregados mal remunerados e não há perspectiva do filho trilhar um futuro diferente. Alguns destes alunos estão na escola obrigados, já que os pais não querem que o filho fique na rua ou têm que mostrar a presença deles para continuar a receber o Bolsa Família. Esta escola pública se transformou em um depósito de crianças e jovens. Está distante de um lugar de promoção do saber.

Dê-me um aluno do São Bento e não terei qualquer problema com ele. Agora, se eu transferir um aluno típico de uma das 2 escolas públicas que leciono para um professor do São Bento e ele encontrará algumas dificuldades pela frente.

O que defendo aqui é compartilhado por Fernando Veloso, especialista em educação do IBRE/FGV. Ele diz que a diferença das notas entre escolas públicas e privadas “embora possam refletir diferenças de gestão, estão relacionadas às diferenças nas condições socioeconômicas dos alunos da rede pública e particular”.

Por fim, não quero deixar uma imagem de que acho a escola pública uma maravilha e que não tem resultados apenas porque o aluno é carente. NÃO AFIRMO ISSO. Somente quis expor um contraponto à ideia de que qualquer aluno que estude em uma escola particular terá sucesso. Tenho alunos na rede pública que possuem a estrutura que mencionei mais acima e, por isso, apresentam um rendimento bem acima da média. Encontro alunos incríveis a cada ano que passa. Esse texto é especialmente escrito para eles e para todos os que acreditam em uma escola pública de qualidade.

Luiz Eduardo Farias

4 opiniões sobre “Escola pública ou particular?”

  1. Oi, Luiz!
    Ótimo texto!!
    Mas venho aqui, mais uma vez, para discordar de algumas coisas.
    As escolas e a sociedade como um todo não podem ser vistas como uma eterna rivalidade entre dois lados opostos, tais como: capitalismo X socialismo, ricos X pobres, opressores X oprimidos, hospitais públicos X hospitais particulares, escolas públicas X escolas particulares, bem X mal… Pra mim isso é maniqueísmo simplista.
    Acho que talvez te falte experiência em escolas particulares para rever algumas coisas em que acredita agora. Posso dizer, pela minha experiência, que não concordo com o que vc disse, isto é, que se colocassem um aluno de escola particular nas suas mãos ele aprenderia tudo rapidinho. Você não pode afirmar isso, pois o resultado da aprendizagem sempre vai depender da interação professor-aluno, além da realidade que o aluno vive em casa, entre outras coisas. Então, a afirmação que vc fez não é verdadeira, na minha opinião. Alunos de escolas particulares tem mil tipos de dificuldades também. O que vc apontou – alunos de escolas particulares tem todo tipo de incentivo cultural (bibliotecas, museus, etc.) e os das escolas públicas não tem – simplesmente não é verdade. É muito comum que alunos de escolas particulares sejam muitas vezes tão ”largados” quando os de escolas públicas, pois pais que não assumem totalmente a responsabilidade por seus filhos existem em todas as classes sociais.
    Outra coisa: qual a fonte do artigo que vc citou? Porque todo ano fazem variados rankings para saber quais são as melhores escolas do país e os resultados costumam ser os mesmos por usarem sempre os mesmos critérios ao avaliarem o que é uma “boa escola”. Mas quais são esses critérios afinal? Quais são os parâmetros? Pra mim, por exemplo, e pra muita gente, uma escola conservadora como o São Bento, que vc citou, não é um exemplo a seguir, pois quando penso em escola boa penso em escola laica, com aulas variadas, dinâmicas, aulas-passeios, incentivo a autonomia, liberdade de expressão e criatividade dos alunos, entre outras coisas. Nunca busquei escolas por serem religiosas, terem disciplina rígida ou por serem mais voltadas para o vestibular, por exemplo. Nem por terem instalações novas e muita tecnologia. Portanto, escolas boas, para mim e para muita gente, como já disse, não é esse tipo de escola que aparece nessas “pesquisas”.
    Não é verdade que para o aluno de escola particular as facilidades sejam no nível que vc citou e posso falar isso por ter tido experiência nelas, como aluna e como profissional. Se um aluno que vive violência doméstica em casa, por exemplo, apresentar problemas na escola, vai apresentar estando numa pública ou numa particular.
    Eu sou a favor de continuarem existindo escolas particulares e públicas, assim como hospitais. Acredito ser mais democrático manter a livre iniciativa. E, se as escolas públicas melhorassem – e para isso tanta luta política foi e continua sendo necessária -, não haveria porque temer a “concorrência” com as escolas particulares.
    Acredito numa sociedade plural. Num sistema novo, construído por todos os cidadãos, que pegue o melhor do capitalismo e o melhor do socialismo/comunismo para criar algo que tenha mais a ver com a realidade brasileira. Sou totalmente contra que se privatize ou que se estatize tudo. Precisamos chegar a um meio termo.
    Abraços,
    Regina Milone.

  2. Só tenho que elogiar o texto do Luiz Eduardo Farias. Esse teu pensamento coincide com a da maioria que trabalha no magistério. Os especialistas sabem disso. A mídia sabe disso. Mas eles fazem questão de de valorizar a escola particular, frisando que a qualidade de ensino lá é melhor. É óbvio que é melhor, mas não é pelo fato dos professores serem mais bem preparado e sim porque os alunos tem um padrão de vida melhor que os alunos da escola pública. A melhor qualidade dos alunos do particular começa em casa, com os pais realizados profissionalmente e com os melhores passeios, museus, tv a cabo, internet e afins. Eu sou uma prova viva dessa divergência sócio-econômica dessas escolas (trabalho com as duas realidades). Leciono num colégio particular de grande porte e lá os alunos tem facilidade a tudo que envolve formação escolar. Enquanto que na pública paulista os alunos vem sem os devidos interesses devidos a problemas familiares, falta de dinheiro para o lanche e escola sem infraestrutura. Temos que polir os jovens como se fossem diamantes, mas devemos lembrar que o processo de polimento do diamante é demorada necessitando passar por vários processos antes de virar uma joia cobiçada. Assim são os alunos da escola pública. Necessitam passar por vários processos , começando pelo familiar e depois pelo interesse do governo para que então possamos torná-los joia cobiçada nas grandes empresas… Mas isso não é interessante para o governo. Pessoas assim sabem criticar e votar. Devo ressaltar aqui que numa sala de aula (da escola pública) com 40 alunos, é certo que 4 ou 5 conseguem se sobressair no enem e consequentemente na vida profissional, enquanto que a maioria será ajudante geral, empacotador, empilhador, motorista ou cobrador de lotação, repositor de estoque, balconista entre tantos outros que não exige o ensino médio e não deixando de citar o
    flanelinha.

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