Pequena descrição de uma aula de ciências de um professor frustrado e alunos desinteressados…

Escrevi isso em sala de aula…

Destranco a porta, abro o cadeado e entro na sala de ciências – onde vendo aulas – seguido dos alunos. Uns sentam, outros ligam o ventilador.

Uns não entraram em sala, perambulando e gazeteando pela escola.

Um grupo de 4 ou 5 vão ao terrário onde está um casulo se emborboletando e uma lagartixa. Batem no vidro. Chamo àtenção. Raspam a unha no isopor que está no fundo do aquário, depedaçando-o. Brigo.

Um grupo de meninas senta numa mesa (nas cadeiras!) no centro da sala e elas fazem tranças de cabelo a aula inteira, com fios coloridos.

Uns 10 ficam conversando.

Um aluno abre a janela (em forma de basculante), coloca a boca na fresta e grita para algum aluno na outra sala.

Um pede uma revista para ler. Eu deixo. 2,5 minutos depois ele está com a revista enrolada em megafone gritando coisas, cantando fanque.

5 alunos estão fazendo o trabalho proposto, continuidade das aulas anteriores. Não preciso mandar fazer, pois eles sabem – ou deveriam…

Consigo, entre os sons emitidos por todos, fazer a chamada. Lá se vai mais da metade da aula.

Me mexo passando de mesa em mesa. Alguns poucos, ao me ver ao lado da mesa, começam a trabalhar, ou fingem que o fazem. Vão abrindo as mochilas como uma tartaruga com preguiça.

Outros nem assim.

As que estavam fazendo trancinhas nos cabelos com fios coloridos, agora estão fazendo trancinhas nos cabelos com fios coloridos.

Bate o sinal, todos gritam êêêêêêêêêêê e saem.

A vontade que eu tenho é de desistir. O sentimento é de total frustração e depressão.

Definitivamente, a educação se dá - claro que para além do esforço, dedicação e trabalho de cada um - pela interação entre quemaprende-quemensina. E esta interação fica impossível com turmas com muita gente.

Não estou falando nem de 40, 50 ou 60 pessoas. Neste exato momento tenho 25 alunos em sala; muitos faltaram.

Mas a absoluta falta de interesse deles aliada ao meus sentimentos de frustração e depressão, o que se desdobra em auto-falta de interesse em tentar interessar quem não tem interesse, monta uma cena trágica: a escola como depósito de gente.

Sobre Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

19 comentários

  1. Eu – deliberadamente – ainda não comentei sobre seu artigo anterior.

    Quanto ao presente, me esclareça uma coisa: qual deveria ter sido o tema da aula que acabou não acontecendo?

  2. Oi João,

    Minhas aulas de Ciências versam sempre sobre meio ambiente em geral. Dependendo do ano, focamos mais em um ou outro tema.

    Esta turma especificamente, está trabalhando os seres vivos, classificaçao e suas características.

    Trabalho com pesquisa, como já contei por aqui, portanto, há grupos que estão pesquisando ainda ecossistemas e teias alimentares.

    Mas, João, você se enganou… a aula aconteceu!

  3. Bom… então me enganei… Mas, sabendo o tema, eu pergunto: o quanto o assunto é aproveitado para insistir nos “seres vivos” daninhos que existem nos ambientes de periferia urbana?…

    Em outras palavras: o quanto o assunto é focalizado em espécies simbiótico-parasitárias que se alimentam de lixo, nas doenças que elas transmitem, em como fazer para evitar sua proliferação (porque parece que só o bendito Aedes merece alguma atenção…), bactérias, cuidados com animais domésticos, a “biodiversidade” dos esgotos a céu aberto – enfim, coisas que fazem parte da “paisagem” a qual esses alunos estão acostumados?

    Percebe onde eu quero chegar?… Falar da preservação da Mata Atlântica, do uso de defensivos agrícolas, etc, é necessário. Mas só se as crianças já souberem tudo sobre seu ambiente imediato.

    Utilitarismo?… Sem dúvida!… Acontece que, para um aluno da periferia de Niterói (nem sei que bairro), a Amazônia, o Pantanal e até a Mata Atlântica ficam muito longe (essa última fica lá em Casemiro de Abreu, em tanto quanto eles se dão conta).

    Garanto para você que, mesmo com toda a onda sobre o Aedes, as “mamães” continuam matando “esses bichinhos nojentos” que são os sapos e as lagartixas…

  4. Olá de novo.

    Percebo onde você quer chegar e concordo. Mas mesmo assim tedigo que é difícil. Eu poderia dizer que agora, no meio do ano, começo a perceber pontadas de interesse aqui e acolá em alguns alunos.

    Qualquer tema que for, podemos fazer a relação com o ambiente deles, sim, e depois fazer a ponte com o mais amplo.

    Tento fazer isso. Sempre pergunto sobre os seres que eles vêem, peço para trazerem algo, colocamos nos terrários, etc.

    Mas mesmo assim, muitos continuam com as mochilas fechadas nas costas durante a aula inteira…

    Só pra esclarecer, quando eu disse que você se enganou em relação à aula ter acontecido foi quase que uma piada. É porque muitas das aulas nas escolas públicas são assim… passam. Simplesmente passam.

    E muitas vezes nossos (dos professores) desestímulo, cansaço, estafa, depressão, desesperança não nos deixam mover uma palha para que não seja. Quanto menos mexer, melhor. Quanto menos nos aborrecerem, melhor.

    Mas nem sempre.

    Minha discussão para a educação é: como fazer para que ‘nunca’?

  5. José Luis dos Santos

    Gostaria de receber modelos de ailas pratica para trabalhar com meus alunos de ciencias e biologia.

  6. eu gostaria de saber o que è cèlula

  7. jailton da luz silva

    eu sou jailton luz; formado em história. Mas as vezes perco todo o interesse pela profissao, mas sempre encontro força para continuar, faço anales de cada tuma e tento dar aulas bastante agradaveis de acordo a turma

  8. Querido sou professora de língua portuguesa, a descrição é mais ou menos esta em muitas das minhas aulas, não me culpo, planejo e organizo minhas aulas da melhor forma possivel, e penso que a escola não é mesmo para todos, não era no tempo em estudavamos e não é hoje. Não penso que todos os problemas estejam em nós professores, nem no que planejamos, tão pouco em nossa metodologia, muito menos na escola ciclada ou seriada, penso que todos os problemas sociais estão na sala de aula, desde o pai que bebe, até a menina que é abusada sexualmente e meu caro eu não sou Cristo, mas faço a minha parte, então não desanime, educar é aceitar o desafio. Bjs

  9. O segredo é levar td pro cotidiano dos alunos, e fazer eles sentirem interesse… é praticamente impossivel alguém prestar atnção se o msmo não ouver… eu tb do aula de ciências e tnho q f azer isso todos os dias, tm q usar a criatividade, procurar entnde-los e assim por diante… Bom está aqui meu comentario. Nildi

  10. Ah, já assisti esta cena…Seria hilário se não fosse trágico.
    Claro que pode mudar e acredito na mudança, mas também que depende muito da realidade, do contexto. A teoria é muito distante da realidade. E uma experiência que deu certo numa ocasião ou num lugar pode não ter o memso efeito em outra contexto. o importante é não desanimar. Abçs

  11. oi
    Eu gostaria de saber se algum tema de voces fala sobre”classicaçãovdas plantas”.
    Obrigada por me ajudar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  12. Pois é! Depois disso tudo que eu li e me enquadrei em quase tudo, ainda fui chamada de desorganizada por uma aluna. Eu, que perco os meus fins de semana para preparar as aulas que eles não prestam `a atenção. Pode ? É de desanimar!

    • É Sônia… as coisas são cada vez mais complicadas… essas coisas já me desmotivaram muito de ficar fazendo planejamentos. Agora, meus planejamentos são ao sabor dos ventos e do interesse dos alunos.

  13. Olá ,pessoal estou iniciando uma pesquisa sobre o livro dedático em sala de aula ,e me deparei com tudo que li,é lamentável vocês estão perdendo uma grande oportunidade de fazer coisas diferentes,no caso do professor no laboratório será que ele soube vender o peixe ?,e quanto a Sonia ela perde fins de semana preparando aulas?eu só ganho preparando e modificando aulas ,olha e sou novo na área apenas 4 anos .Percebi que temos que ter acordos,com pais,coordenadores ,direto e principalmente com outros professores e não esquecendo os funcionários para utilizarmos a cozinha para desenvolver uma pesquisa como fazer um bolo (fermentação por exemplo,compotas estudando matemática volume, área,e vamos e convenhamos as aulas hoje realmente são muito chatas …até na Universidade elas são chatas …eu não vejo a hora de acabar e fazer em classe tudo diferente .Eu tenho alguns materias e a maior boa vontade de trocar figurinhas com outros colegas de vários lugares…vamos nos unir e para de ouvir o que não deu certo …e masoquismo.
    Um grande abraço ,di.godoy@hotmail.com

  14. Patricia Souza

    Gostaria de deixar aqui um incentivo a vc professor tão desanimado com seus alunos. se na sua sala de aula tiver 30 alunos e 29 não estão nem aí, pra sua aula…mesmo assim peço q não desanimes, por q ainda resta 1 único q quer saber da sua aula , quer saber da sua sabedoria, portanto não desista dessa profissão tão sofrida, mais q é linda…enfrent tudo q vier, por q se um dia aquele dito aluno for alguém já é uma grand vitória pra vc como professor…

  15. Luis Carlos Gomes de Souza

    Li a maioria dos comentários aqui postados,e realmente percebo o quanto e difícil lecionar. Sou tambem professor de ciências de uma escola pública no interior do Ceará e posso dizer que meus alunos tambem, variando de turma para turma, estão mais ou menos desmotivados, o que me obriga por vezes fazer todo um gestual, uma metodologia para eles aprenderem algo.
    porem reconheço que minhas aulas, em sua grande maioria não são interessantes, trabalhando o cotidiano do aluno dificultando assim a motivação, atenção e interesse dos alunos. Gostaria de fazer um curso sobre a forma de planejar essas aulas. alguem tem alguma sugestão. Sou muito grato pela ajuda.

  16. Estou no quarto periodo do curso de pedagogia, amo trabalhar com crianças, sei que a realidade é muito dificil o profissional da educação é muito desvalorizado mas vamos a frente! gostária de receber sugestões de plano de aula de ciências estou em um projeto, e com algumas dificuldades para dar aulas.

  17. Parece que estava sendo descrita uma aula minha, e oulha que me viro e reviro para os meus alunos terem atenção. Mas eles não estão nem aí. Como se diz, os que salvam em uma turma, realmente são os que nos dão orgulhos. E o resto… o nome diz….. são resto!

  18. Izabel Cristina

    São coisas que acontecem com praticamente todos os educadores, no entanto, não devemos desanimar, pois os alunos estão demonstrando ser imaturos e de certa forma estão solicitando ajuda, a qual somente um profissional comprometido com a educação poderá proporcionar.

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